TÓPICO 3 — ELEMENTOS DE EXISTÊNCIA E VALIDADE DO NEGÓCIO JURÍDICO
3.2 REPRESENTAÇÃO
O Código Civil, nos Arts. 115 a 120, trata da representação. Nesses dispositivos, o legislador cuidou de temas relacionados tanto à representação legal, como à representação convencional. Este é o primeiro ponto que deve ficar claro para você aqui.
Lembre-se que representação “é a relação jurídica pela qual determinada pessoa se obriga diretamente perante terceiro, mediante ato praticado em seu nome por um representante ou intermediário; os direitos podem ser adquiridos, efetivamente, pelo próprio agente, ou por terceiro que o represente”
(MONTEIRO; PINTO, 2012, p. 235). O Art. 115 do CC/02, dispõe que: “Os poderes de representação conferem-se por lei ou pelo interessado”.
Representantes legais são aqueles cujos poderes são conferidos pela lei para zelar pelos interesses dos incapazes. É o caso dos pais, com relação aos seus filhos menores, dos tutores, com relação aos pupilos, e dos curadores, na sua relação com os curatelados. Por sua vez, os representantes convencionais são aqueles cujos poderes são transferidos pelos próprios interessados, pessoas que devem ser capazes, sob pena de invalidade. Nas palavras de Farias e Rosenvald (2017, p. 624):
[...] convém diferençar a representação legal (também dita representação necessária) e a voluntária (ou privada, como preferem alguns). Aquela (a representação legal) corresponde ao poder conferido por lei, de agir em nome de outrem, de um incapaz. É o caso dos pais, tutores e curadores. Esta (a representação voluntária), quando o poder de atuação em nome de outra pessoa é concedido por ato do próprio interessado, da própria pessoa cujos interesses estarão em pauta.
Simplificando: representação legal se refere à representação de incapazes e representação convencional é a representação de pessoas capazes, por outra pessoa, normalmente escolhida pela própria representada. É possível, porém, que um absolutamente incapaz, devidamente representado, constitua um representante convencional. É o que ocorre, por exemplo, quando da contratação de advogado para execução de alimentos para uma criança pois, apesar de o advogado ser representante da criança, ele é escolhido e contratado pelo representante legal dela, e não diretamente pela criança.
A representação convencional é normalmente exercida por meio do contrato de mandato, previsto nos Arts. 653 a 692 do Código Civil de 2002 e seus poderes são comprovados através da apresentação de uma procuração. Por sua
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o vínculo familiar, no caso dos pais, ou por meio de termo expedido pelo juiz quando da nomeação do representante (tutor ou curador). O artigo 120 do Código Civil prevê que: “Os requisitos e os efeitos da representação legal são os estabelecidos nas normas respectivas; os da representação voluntária são os da Parte Especial deste Código”.
Para compreender melhor os dispositivos que tratam sobre a representação na parte geral do Código Civil, é importante entender um pouco melhor os seguintes termos:
• Representação: “é a atuação de uma pessoa na gestão dos interesses de outrem. [...] a representação consiste em verdadeira substituição da exteriorização da vontade” (FARIAS;
ROSENVALD, 2017, p. 627).
• Mandato: “é um contrato [...], por intermédio do qual alguém se incumbe de praticar negócios no interesse de outrem. Enfim, é negócio jurídico pelo qual uma pessoa incumbe outra de realizar uma determinada atividade, em seu nome” (FARIAS; ROSENVALD, 2017, p. 627).
• Procuração: É o instrumento do mandado. É “o meio pelo qual são conferidos poderes para um representante voluntário, inclusive no contrato de mandato. É o ato que consubstancia a concessão de poderes a outrem, seja por força de mandato, ou não”
(FARIAS; ROSENVALD, 2017, p. 629).
• Substabelecimento: é “a transferência de poderes do outorgado para terceiros com escopo de que este atue na consecução das atividades-objeto do negócio jurídico”
(FARIAS; ROSENVALD, 2018, p. 998).
Caso queira se aprofundar no tema, o ideal é que busque maiores informações nos volumes de Direito dos Contratos, das coletâneas de cursos de Direito Civil, na parte em que tratam do contrato de mandato.
NOTA
Outro aspecto fundamental de se ter claro sobre a representação, é o fato de que ela vincula o representado. O representante age no lugar do representado, adquirindo direitos e contraindo obrigações para o representado. Entretanto, para que esse efeito seja válido, o representante tem que agir de acordo com os poderes que possui. Nesse sentido é o que está disposto no artigo 116 do Código Civil de 2002: “A manifestação de vontade pelo representante, nos limites de seus poderes, produz efeitos em relação ao representado”. Conclui-se, então, que o representante não pode fazer toda e qualquer coisa em nome do representado e este ficar vinculado.
O representante tem que agir conforme os poderes que lhe foram conferidos, seja pela lei, ou por meio do contrato, no caso da representação convencional.
No caso da representação legal, normalmente a lei vai prever os atos que os representantes não podem fazer em nome dos representados sem a autorização judicial. Por exemplo, tutores e curadores não podem vender bens dos tutelados ou curatelados sem autorização judicial. Mas mesmo os outros atos, que não estão
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expressamente previstos, devem sempre estar de acordo com os interesses da pessoa que está sendo representada, pois mesmo que ela não tenha capacidade de expressar a vontade de maneira vinculante, é sempre uma pessoa natural cujos interesses, inclusive objetivamente aferíveis, devem ser respeitados.
Por outro lado, no caso da representação convencional, os poderes serão, em regra, os acordados pelas partes ou previstos como genéricos nas disposições do contrato de mandato. Entretanto, o representado poderá conceder poderes especiais, permitindo que o representante faça negócios complexos e onerosos, como a venda de um imóvel, ou até o casamento. Sim! O casamento é um negócio jurídico que pode ser feito por procuração. Imagine que Sicrana, que está com o casamento marcado com Fulano, recebe uma proposta de emprego no exterior a qual deve assumir imediatamente, sob pena de perder a vaga. Sicrana poderá deixar uma procuração para uma pessoa de sua confiança, Beltrana, para que, em seu lugar, case com Fulano. O casamento será válido e os efeitos vincularão Sicrana e Fulano. Beltrana apenas representou a noiva no ato. Assim como o casamento, quase todos os negócios jurídicos podem ser feitos por meio de representantes, a exceção dos personalíssimos, como é o caso do testamento.
Pois bem. Compreendido o funcionamento da representação, deve-se ficar atento que o Código Civil veda a realização do contrato consigo mesmo, ou também chamado de autocontrato. Mas o que seria isso? Imagine a seguinte situação: Fulano quer vender seu apartamento, mas precisa mudar imediatamente para outro Estado. Antes da mudança, então, Fulano constitui Beltrano como seu representante com poderes para que conclua a venda do apartamento. Beltrano resolve ele mesmo comprar o apartamento de Fulano. Neste caso, como Beltrano representa Fulano, ele fará um contrato com ele mesmo, figurando tanto como comprador como como vendedor.
O negócio consigo mesmo ocorre, portanto, quando “uma única pessoa (que já atua em nome de outra, por força de representação) expressa, a um só tempo, a vontade em ambos os polos da relação” (FARIAS; ROSENVALD, 2017, p. 630). Sobre este tipo de situação, o Código Civil prevê que:
Art. 117. Salvo se o permitir a lei ou o representado, é anulável o negócio jurídico que o representante, no seu interesse ou por conta de outrem, celebrar consigo mesmo.
Parágrafo único. Para esse efeito, tem-se como celebrado pelo representante o negócio realizado por aquele em quem os poderes houverem sido subestabelecidos.
Ou seja, se não tiver sido expressamente autorizado pelo representado, este tipo de negócio é inválido, sendo passível de anulação pelo representado que se sentir prejudicado. Ou seja,
[...] o contrato consigo mesmo, enquanto manifestação de uma representação, em uma interpretação a contrario sensu do dispositivo legal, é aceitável, desde que permitida legalmente para a modalidade contratual adotada ou, omissa a norma legal, se houver livre manifestação de vontade do representado, única acepção possível de se interpretar a menção a ‘permitir... o interessado’ (GAGLIANO;
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O parágrafo único do dispositivo citado proíbe também que se tente fraudar a lei por meio de um substabelecimento. Se no exemplo apresentado anteriormente, para não caracterizar o autocontrato, Beltrano passar os poderes conferidos por Fulano para Sicrano, por meio de um substabelecimento, para que no contrato ele, Beltrano, apareça como comprador e, Sicrano, representando Fulano, apareça como comprador, também estaremos diante de uma situação inválida, pois os poderes só chegaram a Sicrano porque anteriormente conferidos a Beltrano. A ideia por trás do dispositivo é tutelar a probidade e a confiança entre as partes, de forma a evitar que os representantes se prevaleçam de sua condição prejudicando a adequada representação dos interesses do representado.
O substabelecimento só pode ser feito quando a representação é convencional.
Os representantes legais jamais podem transferir seus poderes desta forma. Existem procedimentos adequados para isso que devem tramitar no judiciário.
NOTA
Como mencionado, o autocontrato é, em regra, inválido, mas poderá ser feito se expressamente autorizado pelo representado. É uma situação comum, por exemplo, quando das compras e vendas de automóveis, quando o vendedor, que está cadastrado como proprietário, faz uma procuração autorizando que o comprador, como seu representante, faça a transferência do veículo para o próprio nome. Mas, de novo, para que o negócio seja válido, deverá ter sido autorizado expressamente que seja em benefício do representante. Isso não foi o que ocorreu em caso analisado pelo judiciário catarinense, que culminou com o reconhecimento de um autocontrato. Veja:
CIVIL - AÇÃO ANULATÓRIA - TRANSFERÊNCIA DA TITULARIDADE DE VEÍCULO - PROCURAÇÃO PÚBLICA - AUTOCONTRATO - VEDAÇÃO - CC, ART. 117 - AUSÊNCIA DE CLÁUSULA AUTORIZATIVA - BENEFÍCIO EXCLUSIVO DA MANDATÁRIA - INVALIDADE De acordo com o disposto no art. 117 do Código Civil, é passível de anulação o denominado autocontrato, ou seja, o negócio jurídico realizado pelo representante consigo mesmo, no seu interesse ou por conta de outrem. (TJSC, Apelação Cível n. 2013.015815-0, de Criciúma, rel. Des. Luiz Cézar Medeiros, Quinta Câmara de Direito Civil, j. 18-04-2016) (SANTA CATARINA, 2016, s.p.).
Como consequência do disposto no Art. 116, de que os atos praticados pelo representante vinculam o representado se de acordo com os poderes conferidos, é importante que esses poderes sejam comprovados para as pessoas com as quais o representante vai negociar. Nesse sentido, o artigo 118 do Código Civil dispõe que: “O representante é obrigado a provar às pessoas, com quem
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tratar em nome do representado, a sua qualidade e a extensão de seus poderes, sob pena de, não o fazendo, responder pelos atos que a estes excederem”. Ou seja, se o representante chega em um lugar para fazer um negócio em nome do representado, ele precisa provar para a outra parte que pode fazer aquele negócio em nome de outra pessoa. O mais comum é que essa prova seja feita por meio da procuração. Caso o representante não comprove os poderes que tem, e faça um negócio que os exceder, responderá ele por este excesso.
O representante deve sempre agir em conformidade com os interesses do representado. Em razão disso, caso se desvie deste caminho e pratique atos contrários do que era esperado pelo representado, ou até mesmo prejudicando-o, o negócio realizado será passível de anulação, conforme o disposto na lei civil, nos seguintes termos:
Art. 119. É anulável o negócio concluído pelo representante em conflito de interesses com o representado, se tal fato era ou devia ser do conhecimento de quem com aquele tratou.
Parágrafo único. É de cento e oitenta dias, a contar da conclusão do negócio ou da cessação da incapacidade, o prazo de decadência para pleitear-se a anulação prevista neste artigo (BRASIL, 2002).
Sobre o conflito de interesses, Gagliano e Pamplona Filho (2015, p. 152) explicam que “não decorre necessariamente de um prejuízo financeiro, mas sim da própria noção de conveniência da disponibilização do patrimônio do incapaz”.
E ainda complementam, que para que seja feita a prova necessária para a anulação desses negócios feitos em conflito de interesses, de acordo com os requisitos do artigo, um dos critérios mais utilizados será a “desproporção entre as prestações estabelecidas o que fará presumir o conhecimento do terceiro” (GAGLIANO;
PAMPLONA FILHO, 2015, p. 153).
Compreendidas as questões atinentes à capacidade e representação que influenciam a realização e a validade do negócio jurídico, você pode agora passar ao estudo do objeto.