AGOSTINHO E LUTERO EM DIÁLOGO
3.3 Agostinho e Lutero: o ser humano e a busca pela paz
3.3.2 Agostinho: o ser humano e a busca pela paz
O pensamento agostiniano, então, aponta para o fato de que o ser humano é um ser social. Esta definição do autor não é nova, ela remonta aos clássicos gregos. Por outro lado, o pensador e bispo de Hipona apresenta novas significações a esta compreensão. Visto que ele vai exprimir que o principal norte da vida em sociedade é busca pela paz.
A compreensão do antigo teólogo destaca que a própria Cidade de Deus caminha e se desenrola em contornos sociais. Isso significa que ao longo de sua caminhada, Agostinho vai percebendo que a existência humana deve ser vivida juntamente com outros indivíduos. Deste modo, percebe-se em seus escritos que ele questiona como é possível seguir a vontade de Deus sem viver plenamente em sociedade, conforme se expressa em: “querem que a vida do sábio seja uma vida social. Isso aprovamo-lo nós muito mais do que eles. Efetivamente, donde surgiria esta Cidade de Deus (...) se a vida dos santos não fosse uma vida social? ”349
E para que exista vida em sociedade é necessário que exista outra formulação que parece extremamente cara ao bispo norte-africano: a paz. Entendê-la passa a ser essencial para se prosseguir no intento de revelar os desdobramentos que o teólogo considerava im- portantes na forma como a Cidade de Deus e seus cidadãos deveriam se portar. Ele entende que, primeiramente, deveria existir paz entre o ser humano e seu Criador, que seria expressa pela obediência ordenada pela fé. Concomitantemente, a paz entre as pessoas seria efetivada quando há concórdia e benevolência; o que leva ao fato de que deve também existir paz entre governantes e governados. Percebe-se com isso, que a postura agostiniana em relação
348 ARENDT, Hannah. O conceito de Amor em Santo Agostinho. Tradução de Alberto Pereira Dinis. Lisboa: Instituto Piaget, 1997. p. 152-153.
349 “Quod autem socialem vitam volunt esse sapientis, nos multo amplius approbamus. Nam unde ista Dei civi- tas, de qua huius operis ecce iam undevicesimum librum versamus in manibus, vel inchoaretur exortu vel progrederetur excursu vel apprehenderet debitos fines, si non esset socialis vita sanctorum?” AGOSTINHO, Santo. A Cidade de Deus - XIX, 5. Tradução de J. Dias Pereira. 4ª ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulben- kian. 2011. p. 1891.
à paz não se resume apenas a relação desenvolvida verticalmente entre seres humanos e Deus, mas enseja que a paz deve se estender por todas as relações humanas, mesmo que se saiba que esta só acontecerá em sua plenitude na consumação dos tempos. Portanto, “a paz da Cidade celeste é a comunidade absolutamente ordenada e absolutamente harmoniosa no gozo de Deus, no gozo mútuo em Deus.”350
Consequentemente, não se podem confundir as intenções do autor no tema da paz, que permeia a relação cujos cidadãos da Cidade de Deus devem ter e buscar, com um programa político específico, visto que a ideia presente na concepção do autor não era uma federação de nações, ou mesmo uma série de acordos que garanta certa estabilidade social. O que estava no pensamento do antigo teólogo e filósofo é o fato de que os seres humanos estavam sendo “chamados para uma reforma do coração dos indivíduos, em vez de institui- ções políticas. Pois para uma sociedade mundial melhor, nós simplesmente precisamos de melhores homens.”351
Logo, a paz é um fim procurado por todos e se expressará perfeitamente na Cidade Celeste.352 Entretanto, deve ser buscada com afinco no presente, de forma que a vida das
pessoas seja melhor e mais cordada. Sem, contudo, deixar de entender de que a paz só se efetivará plenamente no final dos tempos, no momento em que, segundo o autor, serão sepa- radas as duas Cidades. Até que isso aconteça, cabe aos cidadãos e cidadãs engendrados nes- ta Cidade de Deus buscar a paz e concórdia, pois “graças a sua santidade, possuirá então, por uma suprema vitória, a paz perfeita.”353
Cristãos e cristãs buscam a vida social, e para que ela se realize é necessário que exista paz. Desta forma, cidadãos e cidadãs da Cidade de Deus não se encontram eximidos de trabalhar na construção da paz, pelo contrário, o fato de pertencerem a esta Cida de (civi-
tas) os leva a se envolver ativamente nas questões inerentes a sociedade. Inclusive, nos pró-
350 “pax caelestis civitatis ordinatissima et concordissima societas fruendi Deo et invicem in Deo, pax omnium rerum tranquillitas ordinis.”AGOSTINHO, Santo. A Cidade de Deus - XIX, 13,1. Tradução de J. Dias Perei- ra. 4ª ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian. 2011. p. 1915.
351 “called for was a reform of the hearts of individual men, rather than of political institutions. For a better world society, we simply need better men”. (Tradução nossa) BOURKE, Vernon J. The City of God and History. In: The City of God: A Collection of Critical Essays. Edited by Dorothy F. Donnelly. New York: Peter Lang. p. 296.
352 Cf. AGOSTINHO, Santo. A Cidade de Deus - XIX, 12. Tradução de J. Dias Pereira. 4ª ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian. 2011. p. 1909-1910.
353 AGOSTINHO, Santo. A Cidade de Deus - Prólogo. Tradução de J. Dias Pereira. 4ª ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian. 2011. p. 97.
prios escritos do antigo pensador já se vê, de forma bastante evidente, o questionamento de que não é possível existir de forma sábia sem estar em uma vivência social.
É notável atentar-se que em Agostinho não existe um programa explícito que produz um plano para a paz mundial, algo como uma federação de países, pois o que em última instância está nos escritos do pensador é sua compreensão de Cidade de Deus, aquele grupo de pessoas que foram agraciadas pela divindade, ou nas em suas próprias palavras: “uma [cidade], a dos homens que querem viver segundo a carte, e a outra, a dos que pretendem seguir o espírito, conseguindo cada uma viver na paz do seu gênero quando eles conseguem o que pretendem.”354 Ou como diz O’Daly, grande conhecedor dos escritores de língua lati- na: “Agostinho fala de duas cidades (civitates), a cada uma é dada um nome alegórico – Jerusalém e Babilônia – nas Escrituras. Estas cidades agora estão misturadas, mas serão separadas no fim (in fine): uma é a cidade dos santos, outra dos ímpios.”355
O que está no horizonte do pensamento agostiniano é a reforma dos corações, ou se- ja, a preocupação que as instituições são transformadas quando indivíduos são modificados. Pois, para que seja construída uma sociedade melhor, simplesmente faz se necessário me- lhores homens.”356 Porém, independente da forma que se compreenda,357 fica claro para o
antigo pensador, a busca pela paz é digna dos mais honrados esforçados e trabalhos.358 Uma vez que para o bispo de Hipona, em última instância, a verdadeira paz só pode- ria ser obtida, em plenitude, na eternidade da consumação dos tempos, como se vê em: “en- tão é que a virtude será verdadeira, quando, com todos os bens de que ela faz bom uso e com tudo o que ela faz no bom uso dos bens e dos males, ela própria se referir àquele fim onde teremos uma paz tal e tão grande que melhor e maior não pode haver.”359 Será neste
354 “Una quippe est hominum secundum carnem, altera secundum spiritum vivere in sui cuiusque generis pace volentium et, cum id quod expetunt assequuntur, in sui cuiusque generis pace viventium.” AGOSTINHO, Santo. A Cidade de Deus, XIV, 1. Tradução de J. Dias Pereira. 4ª ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian. 2011. p. 1233.
355 O’DALY, Gerard. Augustine’s City of God: A reader’s guide. Oxford: Oxford University Press. 1999. p. 94. 356 BOURKE, Vernon J. “The City of God and History.” In: The City of God: A Collection of Critical Essays.
Edited by Dorothy F. Donnelly. New York: Peter Lang, 1995. p. 296.
357 Isso se diferencia em grande medida da forma que a teologia no continente latino-americano tem se desenvol- vida, pois esta tem maior preocupação com as questões estruturais que cercam a sociedade. Então, fica per- ceptível que para o antigo teólogo a concepção do que seria a busca pela paz tem algumas similitudes com o pensamento atual da Teologia Latino-americana; porém, não é possível desconsiderar as claras diferenças que estão nestas duas expoentes construções teológicas cristãs.
358 Cf. BITTNER, Rüdiger. “Augustine’s Philosophy of History”. In: G. B. Matthews. Augustinian Tradicion. Berkeley: University of California Press, 1999. p. 356.
359 “Sed tunc est vera virtus, quando et omnia bona, quibus bene utitur, et quidquid in bono usu bonorum et ma- lorum facit, et se ipsam ad eum finem refert, ubi nobis talis et tanta pax erit, qua melior et maior esse non
momento que se encontra, que poderia em certa medida ser associado com a utopia, que de fato se efetivará a paz de forma perfeita e completa.
Já nas obras de Agostinho também se observa um destacado espaço dado ao tema da busca pela paz, posto que ela é um fim almejado, mesmo que só se revele de maneira plena na Cidade Celeste.360 Apesar disso, a paz já deve ser buscada com bastante dedicação ainda no tempo presente, de maneira a possibilitar que todos tenham uma vida mais igualitária e fraterna. Pois o fato de sua plena efetivação só ocorrer na consumação dos tempos, nã o im- pede que os cidadãos e cidadãs cristãos conscientes já se esforcem com afinco na busca pela concórdia entre todos os seres humanos ainda na atualidade, pois também conservará a es- perança utópica que “graças a sua santidade, possuirá então, por uma suprema vitória, a paz perfeita.”361 Porém, é importante destacar que no pensamento agostiniano a verdadeira paz e felicidade, se encontra na busca pelo próprio Deus criador, conforme a célebre frase das
Confissões: “tu o incitas para que sinta prazer em louvar-te; fizeste-nos para ti, e inquieto
está o nosso coração, enquanto não repousa em ti. Dá-me sabedoria Senhor, saber e com- preender qual seja o primeiro: invocar-te ou louvar-te; conhecer-te ou invocar-te.”362 Nesta
fica destacado uma das principais diferenças entre o pensamento do antigo teólogo e da con- temporânea estudiosa da religião.
Portanto, seguindo a tradição teológica latino-americana, deve se enfatizar mais a associação entre felicidade com o agir ético, dizendo que só é possível encontrar a satisfa- ção verdadeira na busca por ideias de justiça e igualdade. E isso se efetiva no “ agir moral [que] são expressões da crença nessa possiblidade de construir um tempo e um espeço feli- zes, onde a pessoa humana possa atingir e desfrutar o desenvolvimento complet o e o gozo pleno de suas potencialidades.”363 Entendendo-se que só é possível estar satisfeito, como cristão ou cristã, quando de fato se percebe uma harmoniosa convivência pacífica e harmô-
possit.”AGOSTINHO, Santo. A Cidade de Deus, XIX, 10. Tradução de J. Dias Pereira. 4ª ed. Lisboa: Funda- ção Calouste Gulbenkian. 2011. p. 1906.
360 Cf. AGOSTINHO, Santo. A Cidade de Deus, XIX, 12. Tradução de J. Dias Pereira. 4ª ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian. 2011. p. 1909-1910.
361 AGOSTINHO, Santo. A Cidade de Deus - Prólogo. Tradução de J. Dias Pereira. 4ª ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian. 2011. p. 97.
362“Tu excitas, ut laudare te delectet, quia fecisti nos ad te et inquietum est cor nostrum, donec requiescat in te. Da mihi, Domine, scire et intellegere 4, utrum sit prius invocare te an laudare te et scire te prius sit an invocare te. Sed quis te invocat o nesciens te?” AGOSTINHO, Santo. Confissões. Tradução de Maria Luiza Jardim Amarante. São Paulo: Paulus, 1984. p. 15.
363 BINGEMER, Maria Clara Luccheti.. Alteridade e vulnerabilidade: Experiência de Deus e pluralismo religio- so no moderno em crise. São Paulo: Loyola, 1993. p. 65-66.
nica em toda a sociedade. E isso é obtido por meio de árduo trabalho que não fica recluso apenas ao nível individual, mas que avança destemidamente no combate as estruturas que acabam por manter pessoas empobrecidas e desprovidas de direitos básicos.