• Nenhum resultado encontrado

Regimento Espiritual ou Reino de Deus

No documento Download/Open (páginas 80-84)

ÉTICA E POLÍTICA NA REFORMA

2.3 Dois Reinos ou Dois Regimentos

2.3.2 Regimento Espiritual ou Reino de Deus

Compreender a função e a diferenciação de esferas que existe nas metáforas acerca dos Dois Reinos que são usadas por Lutero é um grande desafio. E Whitford ajuda a clarifi- car esta distinção utilizando os vocábulos germânicos da formulação:

Contidos nesses dois reinos está à ideia de Lutero de Dois regimentos (Zwei Regimente Lehre). Os dois regimentos são o outro lado da moeda para os Dois Reinos. O primeiro (das Geistliche Regiment) é o regimento espiritual da igreja exercido através da proclamação da Palavra de Deus e

236 DUCHROW, Ulrich. Os Dois Reinos: Uso e abuso de um conceito teológico luterano. Tradução de Getúlio Bertelli. São Leopoldo: Sinodal, 1987. p. 15.

237 Guilherme de Ockham (1285-1347), também conhecido como Willian de Ockham, foi um fra- de franciscano, filósofo, lógico e teólogo escolástico inglês, considerado como o representante mais eminente da escola nominalista

238 JUNGHANS, Helmar. Temas da teologia de Lutero. Tradução Ilson Kayser, Ricardo W. Rieth, Luís M. San- der e Leticia Schach. São Leopoldo: Sinodal, 2001. p. 50.

239 Cf. JUNGHANS, Helmar. Temas da teologia de Lutero. Tradução Ilson Kayser, Ricardo W. Rieth, Luís M. Sander e Leticia Schach. São Leopoldo: Sinodal, 2001. p. 50.

240 “God has established two governments, the spiritual and the secular. (...) This secular government serves to preserve external secular righteousness (...) this spiritual government helps men to achieve true Christian righteousness and therewith eternal life.” ALTHAUS, Paul. The Ethics of Martin Luther. Translated by Robert C. Schultz. St. Louis; Philadelphia: Concordia; Fortress, 1972. p. 45.

da boa administração dos sacramentos. O segundo (das Weltliche Regi- ment) é o regimento mundano dos imperadores, governantes e governados, que é regido pela lei e executado mediante a coerção. A responsabilidade da esfera secular é limitar os efeitos do pecado e da prevaricação e, portan- to, para garantir que os injustos não vão desenfreadamente oprimir os fra- cos. 241

Mesmo fazendo-se esta discriminação entre o círculo de atuação entre os dois regimentos, parece evidente que para o reformador, um regimento necessita do outro, ambos são com- plementares entre si, numa relação de interdependência.242

Ou seja, para Lutero os dois Reinos se diferenciariam quanto à área de atuação. O de Deus é cheio de benevolência, amor, justiça e misericórdia; já o do mundo é um “reino da ira e severidade, visto que nele se castiga, repreende, julga, condena, para dobrar os maus e proteger os justos. Por isso este possui e usa também a espada, e um príncipe ou um senhor representa à ira de Deus, ou a vara de Deus, conforme Isaías 14.5.” 243 Isto é, ele entende que o Reino do Mundo é onde se deve aplicar duras penas para se garantir a coesão social. Inclusive, esta passagem citada se encontra na controversa Carta aberta sobre o livrinho

contra os Camponeses, na qual o reformador apoia abertamente que os príncipes podem e

devem usar seu poder secular para punir aqueles que se rebelam contra o estado e a ordem pública. Em última instância, isso seria para ele uma revolta contra o próprio Deus.

Segundo Porter, Lutero tem pelo menos três usos das metáforas dos dois reinos. A primeira, que interessa bastante este trabalho está diretamente ligada a sua origem como monge agostiniano, pois nela ele diz que “seguindo Agostinho, Lutero usa os dois reinos para expressar duas orientações radicalmente diferentes e dois amores, por exemplo, dois

241 “Contained within these Two Realms is Luther's idea of Two Governments (Zwei Regimente Lehre). The Two Governments are the flip side of the coin to the Two Realms. The first (das geistliche Regiment) is the spiritual government of the church exercised through the procla-mation of the Word of God and proper administration of the sacraments. The second (das weltliche Regiment) is the worldly government of em- perors, rulers, and ruled, which is governed by law and enforced by coercion. The responsibility of th e secular realm is to limit the effects of sin and malfeasance and thus to ensure that the unjust will not run rampant over the weak and downtrodden.” WHITFORD, David M. “Cura Religionis or Two Kingdoms: The Late Luther on Religion and the State in the Lectures on Genesis”. In: Church History. Cambridge University Press; American Society of Church History. Vol. 73, no. 1 (March), p. 41-62, 2004. Disponível em <http://www.jstor.org/stable/4146598> . Acesso em: 18/11/2014. p. 44-45.

242 Cf. ALTHAUS, Paul. The Ethics of Martin Luther. Translated by Robert C. Schultz. St. Louis; Philadelphia: Concordia; Fortress, 1972. p. 59.

243 LUTERO, Martinho. Carta Aberta a Respeito do Rigoroso Livrinho contra os Camponeses. In: LUTERO, Martinho. Obras Selecionadas. Volume 6: Ética: Fundamentos da Ética Política, Governo, Guerra dos Cam- poneses, Guerra contra os Turcos, Paz Social. São Leopoldo: Editora Sinodal; Porto Alegre: Concórdia Ed- itora. 1996. p. 347.

tipos ‘ideais’ de existência”.244 A segunda, que vem sendo trabalhada de forma mais deta-

lhada neste capítulo, fala sobre a delimitação das responsabilidades, obrigações e fronteiras que deve existir entre o estamento secular e o estamento eclesiástico. E, por fim, também afirma que o reformador usa a doutrina dos Dois Reinos para iluminar as obrigações políti- cas individuais. Isto é, o cristão e a cristã devem preencher sua função política neste mundo, seja como governante ou como governado.245 Esta é uma forma bastante abrangente de en- tender algumas das facetas possíveis na interpretação e compreensão do pensamento do teó- logo alemão.

Sobre a primeira forma que Porter afirma ser possível de se interpretar o pensamento de Lutero, observa-se nas palavras do próprio reformador no Da Autoridade Secular, até

que ponto se lhe deve Obediência: “temos que dividir os filhos de Adão e todas as pessoas

em dois grupos: uns que pertencem ao reino de Deus, os outros, ao reino do mundo. Os que pertencem ao reino de Deus são todos os que, como verdadeiramente crentes, estão em Cris- to e sob Cristo.”246 Nesse ponto, parece bastante que o pensador da Saxônia concorda em

grande medida com a interpretação que Agostinho dá as suas próprias metáforas de Cidade de Deus e Cidade dos Homens.

Porém, a continuidade do escrito luterano já começa a expressar que existem dife- renças significativas na forma como estes dois grandes teólogos concebem suas respectivas metáforas, posto que Lutero afirma que os cristãos “não precisam de espada ou direito secu- lar. E se todas as pessoas fossem cristãos autênticos, isto é, verdadeiros crentes não seriam necessários nem de proveito príncipes, rei ou senhor, nem espada nem lei.”247 O poder secu- lar existe, portanto, apenas devido as pessoas que não são consideradas pelo autor como sendo ‘verdadeiros crentes’. Já que “ambos os governos foram estabelecidos por um único e

244 “following Augustine, Luther uses the two kingdoms to express two radically diferent orientations and loves, i. e., two ‘ideal’ types of existence.” PORTER, J. M. “Luther and Political Millenarianism: The Case of the Peasant’s War”. In: Journal of the History of Ideas. University of Pennsylvania Press. Vol. 42, n. 3 (Jul. – Sep.), p. 389-406, 1981. Disponível em < http://www.jstor.org/stable/2709183>. Acesso em 14/11/2014. p. 394.

245 Cf. PORTER, J. M. “Luther and Political Millenarianism: The Case of the Peasant’s War”. In: Journal of the History of Ideas. University of Pennsylvania Press. Vol. 42, n. 3 (Jul. – Sep.), p. 389-406, 1981. Disponível em < http://www.jstor.org/stable/2709183>. Acesso em 14/11/2014. p. 394.

246 LUTERO, Martinho. Da Autoridade Secular, até que ponto se lhe deve obediência. In: LUTERO, Martinho. Obras Selecionadas. Volume 6: Ética: Fundamentações da Ética Política – Governo – Guerra dos Campone- ses – Guerra contra os Turcos – Paz social. São Leopoldo; Porto Alegre: Sinodal; Concórdia. 1996. p. 84. 247 LUTERO, Martinho. Da Autoridade Secular, até que ponto se lhe deve obediência. In: LUTERO, Martinho.

Obras Selecionadas. Volume 6: Ética: Fundamentações da Ética Política – Governo – Guerra dos Campone- ses – Guerra contra os Turcos – Paz social. São Leopoldo; Porto Alegre: Sinodal; Concórdia. 1996. p. 85.

mesmo Deus. Sendo que o governo secular existe por causa do pecado, ainda assim, ele não tem a sua origem no pecado e não é uma cidade do diabo; ao contrário, é uma instituição divina.”248 O que evita interpretações que desvalorizam o papel e a dignidade do poder se-

cular, como era comum ao longo da Idade Média coloca-lo como ordem inferior ao gover- no espiritual, ou seja, ao governo eclesiástico.

Uma definição sucinta da forma como o Lutero entende os dois regimentos é que ele diz que os “dois reinos e o duplo governo descrevem a dupla estratégia empregada por Deus em sua luta na história contra os poderes do mal, bem como a cooperação receptiva e ativa dos seres humanos e de suas instituições na recuperação do através da justiça.”249 Isto é,

ambos pertencem a divindade e servem aos seus propósitos de redimir a humanidade, eles apenas atuam em áreas diferenciadas. No seu sermão sobre o Comércio e Usura Lutero sus- tenta que “Deus instituiu a espada secular bem como o poder espiritual da Igreja, e ordenou a ambas as autoridades a punir os maus e libertar os oprimidos, como ensina Paulo em Ro- manos 13 e como é ensinado em muitas outras passagens, p. ex. Isaías 1,23ss. E Salmo 82,3s.”250 Essa e outras vezes, o reformador usou textos escriturísticos para assegurar suas

posições sobre o papel que o cristão e a cristã devem ter sobre a política.

No comentário que o reformador tece sobre o Magnificat251, presente no início da obra o evangelista Lucas, ele mostra como a concepção que se tem do que é ‘servir a Deus’ tem tomado uma dimensão muito limitada, enfatizando-se apenas o aspecto litúrgico, con- tudo, esquece-se do aspecto de serviço comunitário à sociedade, visto que se “compreende e usa hoje a palavrinha ‘serviço de Deus’252 numa acepção tão imprópria que quem ouve não

pensa nas obras de Deus, mas no badalar dos sinos (...) cantamos o Magnificat diariamente (...) silenciamos cada vez mais seu verdadeiro sentido e tom.”253 Pois se perdeu o sentido de

248 “both governments have been established by one and the same God. Even insofar as secular government exists because of sin, it still does not have its source in sin and is not a city of the devil; rather, it is a di- vine institution.” ALTHAUS, Paul. The Ethics of Martin Luther. Translated by Robert C. Schultz. St. Lou- is; Philadelphia: Concordia; Fortress, 1972. p. 54.

249 DUCHROW, Ulrich. Os Dois Reinos: Uso e abuso de um conceito teológico luterano. Tradução de Getúlio Bertelli. São Leopoldo: Sinodal, 1987. p. 70.

250 LUTERO, Martinho. Comércio e Usura – (Sermão) Sobre a Usura. In: Obras Selecionadas. Volume 5: Ética: Fundamentos – Oração – Sexualidade – Educação - Economia. São Leopoldo; Porto Alegre: Sinodal; Con- córdia. 1995. p. 403.

251 Magnificat é a primeira palavra do Cântico de Maria presente no Evangelho de Lucas na Vulgata Latina: “Magnificat anima mea dominum”, traduzindo, “minha alma engradece ao Senhor”.

252 No alemão Gottesdienst, que significa tanto o “serviço prestado a Deus”, como sendo o ato litúrgico do culto, quanto o “serviço de Deus”, que é entendido como aquele que se presta a qualquer ser humano.

253 LUTERO, Martinho. O Magnificat. In: LUTERO, Martinho. Obras Selecionadas. Volume 6: Ética: Funda- mentações da Ética Política – Governo – Guerra dos Camponeses – Guerra contra os Turcos – Paz social.

que se serve a Deus quando se serve aos seres humanos, enfatizando-se, tristemente, apenas o aspecto cúltico. Ao contrário do que o Cântico de Maria deve apontar, que é para o servi- ço humilde e abnegado ao próximo e ao Deus Criador, assim como a própria Maria relatada nos evangelhos o fez.

Sendo assim, todas as instituições humanas que existem servem ao Criador, e elas se complementam. “Isto significa que, na opinião de Lutero, o duplo governo de Deus (espiri- tual e temporal) e as instituições humanas empregadas para esta tarefa não se opõem um ao outro de forma dualista nem são independentes, mas complementários e inter- relacionados.”254 Esta é a complementariedade que existe entre os dois reinos ou dos dois regimentos.

No documento Download/Open (páginas 80-84)