O exercício do ofício da pesquisa e o desafio da construção metodológica
1. Algumas demarcações de partida: à guisa de Introdução
O que é pesquisa? O que é ciência? Quais as exigências do fazer científico?- Estas são questões simples, fundantes que sempre provo- cam um tipo particular de perplexidade… Como bem demarca Boa- ventura de Sousa Santos (1995; 2000; 2001; 2008), em tempos de transição paradigmática – como o nosso tempo - as questões simples impõe-se como «perguntas fortes» que, por se dirigirem às fundações, aos fundamentos abrem um horizonte de possibilidades entre as quais é possível escolher…
De fato, em tempos de crises e transição de paradigmas episte- mológicos – que estamos a viver nessas três últimas décadas – tor- nam-se mais visíveis e delineadas as múltiplas possibilidades do «fazer científico» que vão desde as versões do paradigma positivista de ciên- cia moderna - dominante ao longo de quatro séculos – até perspecti- vas pós-modernas, passando por racionalismos de diferentes matizes. É a expressão da diversidade epistêmica, alargando perspectivas e possibilidades da produção do conhecimento científico, em distintos contextos culturais e políticos.
Uma reivindicação central do nosso tempo é a afirmação da plu- ralidade e da diversidade que, hoje, expressam-se de forma inequí- voca, no campo epistemológico. Comungo a tese de que «uma das batalhas mais importantes do século XXI é travada, sem dúvida, em
1Professora da Universidade Federal do Ceará – UFC – Brasil; Pós-Doutoranda CES – Universidade de Coimbra; Bolsista CAPES/Brasil.
torno do conhecimento» (Menezes, 2008). Revela-se, com clareza, o esgotamento de uma epistemologia abstrata, descontextualizada, que, por séculos de dominância da ciência moderna, proclamava-se única e universal, a sustentar o «mito do método científico» como a única via do fazer ciência, efetivando a supressão dos saberes circuns- critos fora da rigidez dos seus cânones2. É a crítica contemporânea do colonialismo também como dominação epistemológica, no âm- bito da modernidade. Tal colonialismo epistemológico encarna uma relação «saber-poder» extremamente desigual e aniquiladora da ri- queza da diversidade de saberes, produzidos, então, como «não exis- tentes» e, assim, radicalmente excluídos do padrão dominante de racionalidade. Esta dimensão do colonialismo mostra-se como uma das mais difíceis de se perceber, criticar e confrontar em uma pers- pectiva pós-colonial de emancipações em curso, no tempo presente.
Em verdade, o adentrar no contexto paradoxal do final do século XX/início século XXI - a revelar, por um lado, inimaginável desenvolvi- mento científico-tecnológico e, por outro, crises dos padrões de racio- nalidade científica - propicia a visibilidade de alternativas epistêmicas emergentes. Analistas, pesquisadores delineiam, para além da crítica, propostas de conhecimento que consubstanciam caminhos diversos do
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Alba Maria Pinho de Carvalho
2Crítica contundente ao esgotamento deste padrão de racionalidade que preside a ciência moderna - constituído a partir do século XVI e legitimado como «o padrão de Ciência», nos séculos seguintes – emerge no cenário dos anos 80. Como refe- rências emblemáticas desta crítica, a incidir em uma perspectiva de constituição de novos padrões de racionalidade científica, destaco duas obras que bem encarnam uma ruptura epistemológica, com ampla repercussão no âmbito das comunidades científicas de diversos campos e áreas: O Ponto de Mutação de Fritjof Capra, cujo
original The Turning Point foi publicado, em inglês, em 1982 e, no Brasil, em 1988,
pela Editora Cutrix; Um discurso sobre as ciências de Boaventura de Sousa Santos,
publicado, em 1ª edição, em Portugal, em Julho de 1987, estando esta obra, em 2001, na 12ª edição. No contexto brasileiro dos anos 70, uma produção que se tornou «clássica» nas discussões de epistemologia e de metodologia é a da socióloga Miriam Limoeiro Cardoso, intitulada O Mito do Método, produzida em 1971 para apresen-
tação em Seminário de Metodologia, na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro – PUC-RJ e publicada no Boletim Carioca de Geografia, em 1976.
fazer científico. Neste campo de construções epistemológicas emergentes, ganha relevo, ao longo dos últimos vinte e cinco anos, a proposição de Boaventura de Sousa Santos (2000; 2004; 2007b; 2008) de constituição de outra racionalidade, outro padrão de pensamento, nos termos do que hoje denomina de «Epistemologia do Sul»3.
O exercício do ofício da pesquisa e o desafio da construção metodológica
3Em meados de 1980, Boaventura de Sousa Santos, em sua obra referência Um dis-
curso sobre as ciências (1987), afirma que o modelo de racionalidade então domi-
nante mostrava sinais evidentes de exaustão, configurando uma crise paradigmática. No contexto deste debate epistemológico, delineia um paradigma emergente, de- signando-o de «ciência pós-moderna». Trata-se de um paradigma a encarnar uma outra racionalidade, uma racionalidade mais ampla, assente na superação da dico- tomia natureza/sociedade, na complexidade da relação sujeito/objeto, na concepção construtivista de verdade, na aproximação das ciências naturais às ciências sociais e destas aos estudos humanísticos, em uma nova relação entre ciência e ética, em uma nova articulação entre conhecimento científico e outras formas de conheci- mento. Nesta perspectiva, sustenta ser este «o paradigma de um conhecimento pru- dente para uma vida decente», constituindo, assim, um paradigma científico – o paradigma de um conhecimento prudente – e um paradigma social – o paradigma de uma vida decente. No início dos anos 90, para contrapor a sua concepção de pós-modernidade ao pós-modernismo dominante que circulava tanto na Europa como nos EUA, Boaventura Santos passa a denominá-la de «pós-modernismo de oposição», concebendo a superação da modernidade ocidental a partir de uma pers- pectiva pós-colonial e pós-imperial, pautada na exigência de reinventar a emanci- pação social. Em meados da década de 90, Boaventura Santos tinha clareza que essa construção de uma outra racionalidade só podia ser completada a partir das expe- riências das vítimas, dos grupos sociais que tinham sofrido com o exclusivismo epistemológico da ciência moderna e com a redução das possibilidades emancipa- tórias da modernidade ocidental. O seu apelo é «aprender com o Sul», entendendo o Sul como uma metáfora do sofrimento humano, causado pelo capitalismo e pela colonialidade do poder. Assim, insatisfeito com a designação pós-moderno e cons- ciente da impossibilidade de afirmar a denominação de «pós-moderno de oposi- ção», Boaventura Santos, nos anos 2000, passa a propugnar uma «Epistemologia do Sul», a consubstanciar um padrão de racionalidade ampla e ampliada, capaz de apreender a riqueza infinita da experiência social em todo o mundo. Na formulação de Boaventura Santos «uma epistemologia do Sul assente-se em três orientações: aprender que existe o Sul; aprender a ir para o Sul; aprender a partir do Sul e com Sul». (Santos, Boaventura de Sousa (1995), Toward a New Common Sense: Law, Science and Politics in the Paradigmatic Transition. Nova Iorque Routledge).