3 PROCESSO ELETRÔNICO COMO FORMA DE EFETIVAÇÃO DO ACESSO À
3.1 Processo eletrônico
3.1.3 Alguns princípios processuais afetados
No processo judicial eletrônico todas as fases, atos e decisões são realizados por meio eletrônico, através de um sistema de processamento digital, o qual armazena as informações dos autos processuais. Todavia, não houve uma alteração no conteúdo do processo, pois o que acabou ocorrendo foi a criação de uma roupagem nova ao processo judicial já existente. Assim, não surgiram novos direitos processuais, mas sim que os já existentes21 poderão ser realizados de uma forma diferente, através do meio eletrônico. Dessa forma, o Estado permanece exercendo sua jurisdição, tutelando os direitos a fim de equilibrar o conflito entre os litigantes, observando os princípios processuais já existentes, que são adaptados para o processo eletrônico.
Nesse sentido, busca-se analisar brevemente quais são os principais princípios processuais afetados pelo processo eletrônico. Salienta-se, nos dizeres de Clementino (2009), que o Processo Judicial Eletrônico deverá permanecer sujeito às mesmas formalidades essenciais do Processo tradicional, em relação a ser obedecido o procedimento legalmente previsto para a apuração da verdade, em uma sucessão harmônica de atos Processuais, assegurando-se o contraditório e a ampla defesa, que estão diretamente relacionados com o Princípio do Devido Processo Legal.
Observa-se que são inúmeros os princípios existentes, e que continuam valendo para o processo judicial eletrônico, sem falar, conforme leciona Edilberto Clementino (2009), que cada doutrinador muitas vezes acaba inventando22 o seu rol
de princípios aplicáveis a certo instituto processual, sendo que, dessa forma, não há uniformidade nas seleções. Todavia, embora não haja uma convergência doutrinária, também não se pode falar em divergência, visto que certos autores simplesmente incluem alguns princípios, outros não, o que não significa,
21 No caso do processo eletrônico, há previsão expressa no art. 1º, §1º de aplicação da Lei
11.419/2006 para os direitos processuais civil, penal e trabalhista, bem como aos juizados especiais, em qualquer grau de jurisdição.
22 Nesse sentido, cabe mencionar que Alexandre Atheniense alega que a inovação trazida pela
informatização do processo judicial trouxe a criação de novos princípios processuais específicos, os quais devem ser somados aos já existentes no ordenamento processual. Segundo o autor, os novos princípios processuais do processo eletrônico são “os princípios da universalidade, da ubiquidade judiciária, da universalidade (sic), da uniformidade e da formalidade automatizada” (ATHENIENSE, 2010, p. 90). Observa-se ainda que o autor alega que tais princípios não são taxativos, haja vista que o ordenamento está em constante transformação, considerando as inovações trazidas pela lei, razão pela qual novos princípios ainda poderão ser criados.
necessariamente, que o princípio descartado por aquele autor não esteja vinculado ao processo eletrônico.
Dessa forma, para o presente estudo, que não tem por objetivo fazer uma investigação principiológica de todos os princípios afetados pelo processo eletrônico, mas tão somente analisar brevemente os principais princípios tradicionais que foram atingidos pelo processo eletrônico, elegeu-se para análise, levando-se em consideração a classificação23 de Edilberto Barbosa Clementino, os princípios processuais constitucionais do devido processo legal, do contraditório e ampla defesa, da publicidade e da igualdade de tratamento. Salienta-se ainda, a importância dos efeitos do processo eletrônico em relação aos princípios processuais constitucionais da razoável duração do processo e do acesso à justiça. Todavia, em relação a estes, inicialmente, cabe recordar que para um acesso à justiça no seu conceito atual, de acesso a ordem jurídica justa, é imprescindível a duração razoável do processo, que abrange a celeridade. Porém, considerando que os referidos princípios já foram objeto de capítulos específicos na presente dissertação e que sua relação com o processo eletrônico será trabalhada também em item específico (3.3 A efetivação do acesso à justiça em um tempo razoável através do processo eletrônico), entende-se por dispensar maiores comentários no presente momento.
a) Princípio do devido processo legal
O princípio do devido processo legal tem origem na expressão inglesa due process of law, sendo que “consagra, em si, o direito de ação e tem como base toda a estrutura processual” (ALMEIDA FILHO, 2012, p. 116). Segundo tal princípio, busca-se a justa composição da lide, realizando-se um processo justo, através do respeito aos parâmetros fixados pelas normas constitucionais, bem como pelos valores atuais consagrados pela sociedade. Este princípio é a base do Direito Processual, pois fundamenta vários outros, sendo resultado da aplicação dos demais. Observa-se que está diretamente relacionado com as garantias do contraditório e da ampla defesa, que são necessárias para as partes sustentarem as
23 Edilberto Clementino, em sua análise sobre os princípios aplicados ao processo eletrônico,
restringe a análise somente àqueles que possam sofrer alguma interferência direta da adoção da Via Eletrônica, classificando-os em Princípios Constitucionais (igualdade de tratamento, devido Processo legal, contraditório e ampla defesa, publicidade, acesso à Justiça e celeridade) e Princípios Infraconstitucionais (oralidade, imediação, instrumentalidade do Processo, economia, lealdade processual ou boa-fé), embora esclareça que diversos outros princípios podem sofrer algum reflexo indireto (CLEMENTINO, 2009, p. 134).
suas razões, as quais devem ocorrer em um prazo razoável, a fim de se promover o acesso à justiça.
Assim, segundo Clementino (2009), a exigência do princípio do devido processo legal é uma fórmula antiga que precisa ser mantida, todavia, renovada a fim de se adequar à realidade moderna, com o uso das novas tecnologias. Nesse sentido, “uma inovação que vem trazida pela progressiva informatização do Judiciário e dos demais operadores do Direito diz respeito à comunicação dos Atos Processuais, especialmente às Citações e Intimações” (CLEMENTINO, 2009, p. 142). Na verdade, o que ocorre é a utilização de uma “nova roupagem” para “a comunicação dos atos processuais e a prática processual, que passa a ser pela via eletrônica” (ATHENIENSE, 2010, p. 91). Como por exemplo, destacam-se as intimações, que passam a ser realizadas através de publicação em portais dos tribunais de origem, bem como as publicações dos atos processuais, feitas em diários de justiça eletrônicos, também criados por cada tribunal.
Observa-se, dessa forma, que embora o processo eletrônico seja inovador quanto ao meio de tráfego e armazenamento, deve continuar obedecendo às mesmas formalidades essenciais estabelecidas para o Processo tradicional. Assim, deve “ser obedecido o procedimento legalmente previsto para a apuração da verdade, em uma sucessão concatenada de atos Processuais, em que seja assegurado o contraditório e a ampla defesa” (CLEMENTINO, 2009, p. 144).
b) Princípios do contraditório e da ampla defesa
Segundo tal princípio, é exigido que o processo respeite “a necessidade de se oferecer ao acusado em qualquer situação a oportunidade de defender-se contra as acusações sofridas e garantir-lhe o acesso a todos os instrumentos que possam propiciar-lhe a sua defesa” (CLEMENTINO, 2009, pp. 144-145). Quanto a observância de tal princípio, destaca-se principalmente “que o processo eletrônico deve garantir a comunicação eficiente e estável dos atos processuais, com o menor risco de interrupções possível, impedindo que haja o cerceamento da defesa” (ATHENIENSE, 2010, p. 93). Em relação a efetividade de tal princípio, verifica-se que o processo eletrônico alargou as possibilidade de atuação processual, pois é possível o acesso à íntegra dos autos por meio eletrônico, a qualquer momento. Ademais, intimações e citações por meio eletrônico agilizam o processo, sendo mantida a utilização da via tradicional (através de correio ou de oficial de justiça), em
caso de impossibilidade do procedimento pela via eletrônica. Também permite uma maior utilização dos recursos multimídia como meios de prova.
Em suma, segundo Clementino (2009), em respeito ao princípio do contraditório e da ampla defesa, o processo judicial eletrônico deve: garantir a comunicação dos atos processuais, com eficiência e eficácia, de forma que se dê a utilização máxima dos recursos técnicos disponíveis; assegurar que as partes tenham conhecimento das alegações contrárias e oportunizar a realização de todas as provas aptas a demonstrar os direitos alegados em Juízo.
c) Princípio da publicidade
Segundo o princípio da publicidade, os atos e termos do processo devem, em regra, ser acessíveis ao conhecimento de todos. Isso porque existe um interesse público na resolução da lide, que é maior que o interesse privado defendido pelas partes. Através do ordenamento jurídico, o Estado tem interesse em manter a ordem e a harmonia social, sendo que a sociedade tem o direito de acompanhar o processo, exceto aqueles resguardados pelo sigilo (ATHENIENSE, 2010). Observa- se que o principal objetivo da publicidade é oferecer a oportunidade de se fiscalizar os julgadores e a jurisdição.
Com os sistemas processuais eletrônicos há uma ampliação da publicidade do processo, visto que eles disponibilizam os processos e seus atos integrais, em redes públicas e até mesmo na rede mundial de computadores, mantidas as ressalvas em relação aos casos em que há segredo de Justiça. Ademais, a Lei 11.419/2006 permitiu, sem seu artigo 4º24, que os Tribunais brasileiros criem diários
oficiais eletrônicos na rede mundial de computadores, para publicação de atos judiciais e administrativos, sendo tal medida um marco na efetivação da publicidade do Judiciário. Em relação a tal medida, salienta-se que os atos processuais tradicionais eram publicados em jornais oficiais, o que elevava o preço das publicações e dificultava a consulta das diversas páginas dos diários. Todavia, com a disponibilização através dos sítios eletrônicos dos tribunais, o processo é barateado e a vida dos operadores do direito é facilitada.
Assim, os autos ficam facilmente disponíveis para as partes, sendo que estas e seus advogados não precisam se dirigir até o Fórum para acessar ao processo,
24 Art. 4o Os tribunais poderão criar Diário da Justiça eletrônico, disponibilizado em sítio da rede
mundial de computadores, para publicação de atos judiciais e administrativos próprios e dos órgãos a eles subordinados, bem como comunicações em geral.
visto que ele está disponível na internet 24 horas por dia, os 365 dias do ano. Nesse sentido, segundo Edilberto Clementino (2009), o processo eletrônico garante o princípio constitucional da publicidade dos atos, na medida em que atende aos seguintes critérios:
a) assegura e amplia o conhecimento pelas partes de todas as suas etapas, propiciando-lhes manifestação oportuna; b) enseja e amplia o conhecimento público do Processo Judicial, bem como do conteúdo das decisões ali proferidas, para plena fiscalização da sua adequação pelas partes e pela coletividade (CLEMENTINO, 2009, p. 151).
Todavia, há autores, como José Carlos de Araújo Almeida Filho (2012), que defendem a relativização do princípio da publicidade, face os princípios da intimidade e da privacidade, que seriam tutelados pelo princípio da dignidade da pessoa humana. Ocorre que a dicotomia entre tais princípios deverá ser analisada no caso concreto, o que já acontece com os processos físicos, adotando critérios de ponderação de princípios, o que não é diferente com a utilização do processo eletrônico. Nesse sentido, entendendo o juiz que o processo deverá tramitar em segredo de justiça ou que algum documento deverá ficar em sigilo no processo, há ferramentas disponibilizadas pelo sistema que possibilitam tal procedimento25. Em relação ao assunto, cabe mencionar que o sistema do E-proc V2, utilizado pelo TRF4, é capaz de identificar o usuário e proporcionar níveis variados de acesso, conforme previsão da Resolução nº 17, de 26 de março de 2010, em seu artigo 2026. O objetivo de tal restrição é adequar a publicidade ao sistema eletrônico, a fim de melhorar o acesso às informações privadas constantes nos autos, preservando a intimidade e privacidade das partes envolvidas no litígio.
25 Salienta-se que não é objetivo do presente trabalho discorrer sobre as teorias de relativização do
princípio da publicidade, visto que se entende que a discussão a ser realizada seria a mesma para casos de dicotomias entre princípios no processo tradicional, não interferindo na análise no processo eletrônico que se pretende com esta pesquisa.
26 Art. 20 Os processos do e-Proc terão os seguintes níveis de sigilo, que poderão ser atribuídos pelo
juízo processante ao processo, documento ou evento:
a) Nível 0 (zero): Autos Públicos - visualização por todos os usuários internos, partes do processo e por terceiros, sendo que estes devem estar munidos da chave do processo.
b) Nível 1 (um): Segredo de Justiça - visualização somente pelos usuários internos e partes do processo.
c) Nível 2 (dois): Sigilo - visualização somente pelos usuários internos e órgãos públicos.
d) Nível 3 (três): Sigilo - visualização somente pelos usuários internos do juízo em que tramita o processo.
e) Nível 4 (quatro): Sigilo - visualização somente pelos usuários com perfil de Magistrado, Diretor de Secretaria e Oficial de Gabinete.
f) Nível 5 (cinco): Restrito ao Juiz - visualização somente pelo Magistrado ou a quem ele atribuir. Parágrafo único.O Ministério Público Federal visualizará os processos na forma da lei.
d) Princípio da igualdade
O caput do art. 5º da Constituição Federal assegura que “todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza [...]” (BRASIL, 2013a). Dessa forma, não se pode criar dispositivos legais que diferenciem as pessoas que estejam em situações equivalentes. Assim, o princípio da igualdade ou isonomia está diretamente ligado ao princípio da razoabilidade, pois o que se veda é o tratamento desigual onde não houver razoabilidade para tanto, sendo que tal princípio serve para propiciar condições de igualização das condições desiguais, ou seja, para equilibrar a relação entre a população e o Estado, evitando excessos por parte deste. Logo, a fim de dar tratamento igual às partes, deve-se tratar igualmente os iguais e desigualmente os desiguais, na medida de suas desigualdades. Dessa forma, com a expansão do processo eletrônico devem ser observadas as medidas legais e estatais em defesa da sociedade.
Nesse sentido, cabe mencionar que o Brasil é um país de grande extensão, implicando em vasta diversidade cultural e imensa desigualdade social. Dessa forma, nem todas as pessoas têm acesso às inovações tecnológicas, como por exemplo, ao computador e à internet, surgindo assim o problema da exclusão digital. E para que o processo eletrônico tenha êxito, é necessária a inclusão digital, logo, “que a implantação e utilização do processo eletrônico sejam realizadas de forma a possibilitar que todos os cidadãos brasileiros tenham acesso à prestação do serviço judicial eletrônico, respeitando, assim, o princípio da igualdade” (ATHENIENSE, 2010, p. 92).
Nessa linha, cabe referir que o Governo Brasileiro vem implantando política de inclusão digital, através da adoção de medidas para que a população tenha acesso à tecnologia. Como exemplo, pode ser citada a criação do FUST (Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicações), instituído pela Lei 9.998/2000, a qual preceitua que os recursos advindos desse fundo são destinados a programas, projetos e atividades que estejam em sintonia com a universalização do serviço de telecomunicações ou suas ampliações (CLEMENTINO, 2009, p. 138). Também é possível citar o e-Brasil27, que é um programa para acelerar o desenvolvimento socioeconômico aproveitando a convergência digital. O e-Brasil tem várias propostas para promover a inclusão digital, dentre elas, um programa nacional de cidades
27 Portal e-Brasil. Programa e- Brasil. Disponível em: <http://www.e-brasil.org.br>. Acesso em: 28 ago.
digitais, baseado na universalização do acesso, assegurado por redes de comunicação digital implantadas em cada município. Ainda, verificam-se no portal28
do governo brasileiro, outros programas de inclusão digital, como por exemplo, os programas Computador para Todos, Telecentro e Banda Larga nas Escolas, todos com a finalidade de democratizar o acesso às novas tecnologias, levando computadores, cursos de formação e conexão de internet às populações mais necessitadas.
Ademais, verifica-se que segundo a Pesquisa Nacional de Amostragem por Domicílio (PNAD)29 2011, realizada pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), o acesso à internet vem aumentando significativamente nos últimos anos. Nesse sentido, um quadro comparativo realizado na última pesquisa demonstra que em 2005, somente 20,9% da população de 10 ou mais anos de idade no Brasil utilizavam a internet. Em 2008 esse percentual subiu para 34,7%. Já em 2009 estava em 41,6%, sendo que em 2011 o percentual de acesso à internet já atingia 46,5% da população brasileira a partir dos 10 anos de idade. Dessa forma, é possível verificar que a inclusão digital está ocorrendo de forma gradativa.
Observa-se, ainda, como ensina Clementino (2009), que outra forma de apaziguar a desigualdade dos indivíduos que litigam judicialmente no processo eletrônico é o patrocínio por advogado, pois segundo o autor “em se tratando de Processo Judicial, em que se exige a intervenção de Advogado, tal condição acaba por nivelar as partes também quanto ao aspecto de promover a sua inclusão digital” (CLEMENTINO, 2009, p. 137). Isso porque, conforme Clementino (2009), segundo dados do Ministério da Ciência e Tecnologia, tal profissional, via de regra, encontra- se bastante familiarizado com o uso das novas tecnologias.
Todavia, embora a inclusão digital esteja ocorrendo, ainda a maior parte da população não tem o acesso à internet. Dessa forma, em respeito ao princípio em discussão, o Poder Judiciário deve, ao implantar o sistema informatizado, simultaneamente fornecer a estrutura necessária para que todos tenham acesso a esse sistema, promovendo a equiparação das partes em relação a instrumentação tecnológica. E nesse sentido, é possível citar o exemplo do Tribunal Regional
28 Portal Brasil. Educação: mundo digital. Programa de Inclusão Digital. Disponível em:
<http://www.brasil.gov.br>. Acesso em: 28 ago. 2013.
29 Portal IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). PNAD 2011. Disponível em:
<http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/acessoainternet2011/default.shtm>. Acesso em 28 ago. 2013.
Federal da 4ª Região, que possui instalado o processo eletrônico e já previa, em sua resolução30 de implantação de 2004, que cada Subseção Judiciária tivesse instalada
uma sala de auto-atendimento, com acesso a sistema de escaneamento e computador ligado à rede mundial, para uso dos advogados, procuradores de órgãos públicos e consulta pelas partes, em consonância com o que posteriormente foi editado pelo §3º do art. 1031 da Lei 11.419/2006. A experiência prática deste Tribunal, com a utilização do processo eletrônico, será melhor explanada em tópico específico a seguir.