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3 PROCESSO ELETRÔNICO COMO FORMA DE EFETIVAÇÃO DO ACESSO À

3.1 Processo eletrônico

3.1.1 Evolução legislativa

O uso de telex ou fac-símile (fax) para a realização de citação, intimação ou notificação de pessoa jurídica ou firma individual, prevista no art. 58, IV, da Lei do Inquilinato (Lei 8.245/1991) pode ser considerada a primeira iniciativa admitida em lei para validar a utilização de dispositivos eletrônicos para a prática de atos processuais, segundo Alexandre Atheniense (2010). Todavia, conforme previsto na

legislação13, tal comunicação dos atos através do telex ou fac-símile somente seria

possível se estivesse prevista contratualmente. Segundo Almeida Filho (2012) não se tem conhecimento deste procedimento ter sido adotado e sequer jurisprudências a respeito.

Para Alexandre Atheniense (2010), o marco inicial para a admissão da via eletrônica como meio hábil para a remessa de peças processuais à distância foi a Lei 9.800/1999, conhecida como a Lei do Fax. Isso porque, conforme o art. 1º, da referida lei, permitiu-se às partes, em qualquer processo, “a utilização de sistema de transmissão de dados e imagens tipo fac-símile ou outro similar, para a prática de atos processuais que dependem de petição escrita” (BRASIL, 2013f). Todavia, segundo Almeida Filho, tal legislação “quase nada acrescentou para a aceleração do Judiciário. Ao contrário, transformou-se em verdadeira chicana processual, a fim de se ganhar mais cinco dias, diante da necessidade de protocolo do original no aludido prazo” (ALMEIDA FILHO, 2012, p. 66). Conforme previsão do artigo 2º14 da referida lei, para validar o ato, era necessário a posterior apresentação, pela parte, do original transmitido, sendo que por esse motivo a referida norma funcionou basicamente como um aumento dos prazos processuais.

Ademais, segundo Tarcisio Teixeira (2013), houve pouco avanço tecnológico ao processo trazido pela Lei do Fax, visto que havia o entendimento jurisprudencial pacificado pelo Superior Tribunal de Justiça de que o e-mail não se tratava de tecnologia similar ao fax, sendo, portanto, inadmissível o envio de petições por aquele meio eletrônico. Como exemplo, cita o Recurso Especial nº 916.506, no qual não se admitiu o recurso de agravo regimental apresentado por e-mail, alegando que este não seria semelhante ao fac-símile. Segue o autor afirmando que tal uso não seria possível, pois “ainda que a posição jurisprudencial fosse diferente, o Poder Judiciário até então não teria condições tecnológicas para viabilizar isso” (TEIXEIRA,

13 Art. 58. Ressalvados os casos previstos no parágrafo único do art. 1º, nas ações de despejo,

consignação em pagamento de aluguel e acessório da locação, revisionais de aluguel e renovatórias de locação, observar-se-á o seguinte:

IV - desde que autorizado no contrato, a citação, intimação ou notificação far-se-á mediante correspondência com aviso de recebimento, ou, tratando-se de pessoa jurídica ou firma individual, também mediante telex ou fac-símile, ou, ainda, sendo necessário, pelas demais formas previstas no Código de Processo Civil;

14 Art. 2o A utilização de sistema de transmissão de dados e imagens não prejudica o cumprimento

dos prazos, devendo os originais ser entregues em juízo, necessariamente, até cinco dias da data de seu término.

Parágrafo único. Nos atos não sujeitos a prazo, os originais deverão ser entregues, necessariamente, até cinco dias da data da recepção do material.

2013, p. 329). Todavia, apesar de não trazer grandes avanços para o processo, a iniciativa da Lei 9.800/1999 “serviu para abrir espaço a idéias (sic) mais progressistas que conseguiram perceber a extensão dos benefícios que poderiam advir da utilização da moderna tecnologia para a efetivação da Justiça” (CLEMENTINO, 2009, p. 73).

Antes disso, a Lei 9.099/1995 (Lei dos Juizados Especiais), autorizou a intimação pela via eletrônica, ao dispor, em seu art. 19, que a prática de tal ato seria possível “por qualquer outro meio idôneo de comunicação”. Ainda, a Lei 9.492/1997 autorizou o apontamento de protesto de duplicatas mercantis por meio magnético ou de gravação eletrônica de dados15. Após, veio a Lei 10.259/2001, que disciplinou a criação dos Juizados Especiais Federais e impulsionou, de certa forma, a informatização no âmbito da Justiça Federal. Tal diploma permitiu a utilização de sistemas informáticos para a recepção de peças processuais, sem a exigência de envio dos originais, como ocorria com a Lei do Fax. Observa-se que a Lei 10.259/2001, respectivamente em seus artigos 816, §2º e 1417, §3º, permitiu o envio de petições eletrônicas sem a apresentação dos originais impressos e a comunicação eletrônica dos atos processuais e realização de sessões virtuais, ou seja, reuniões de juízes federais por meio de videoconferência.

Todavia, verifica-se que no ano de 2001 ocorreu um contrassenso, pois apesar de ser editada a Lei 10.259/2001, promulgada em julho do referido ano, admitindo a prática de atos processuais por meio eletrônico, no mesmo ano vetou- se, através da Lei 10.358/2001, o parágrafo único, a ser inserido no art. 154 do CPC, que estabelecia que “atendidos os requisitos de segurança e autenticidade, poderão os tribunais disciplinar, no âmbito de sua jurisdição, a prática de atos processuais e sua comunicação às partes, mediante a utilização dos meios eletrônicos” (BRASIL,

15 Art. 8º Os títulos e documentos de dívida serão recepcionados, distribuídos e entregues na mesma

data aos Tabelionatos de Protesto, obedecidos os critérios de quantidade e qualidade.

Parágrafo único. Poderão ser recepcionadas as indicações a protestos das Duplicatas Mercantis e de Prestação de Serviços, por meio magnético ou de gravação eletrônica de dados, sendo de inteira responsabilidade do apresentante os dados fornecidos, ficando a cargo dos Tabelionatos a mera instrumentalização das mesmas.

16 Art. 8o As partes serão intimadas da sentença, quando não proferida esta na audiência em que

estiver presente seu representante, por ARMP (aviso de recebimento em mão própria).

§ 2o Os tribunais poderão organizar serviço de intimação das partes e de recepção de petições por

meio eletrônico.

17 Art. 14. Caberá pedido de uniformização de interpretação de lei federal quando houver divergência

entre decisões sobre questões de direito material proferidas por Turmas Recursais na interpretação da lei.

2013h). O enfoque do veto18 presidencial foi a Medida Provisória 2.200-2/2001,

publicada em junho de 2001, a qual dispõe sobre a adoção do ICP-Brasil (Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira), “que é gerida pelo Instituto de Tecnologia da Informação (ITI), órgão ligado à Casa Civil da própria Presidência da República” (ATHENIENSE, 2010, p. 51). Segundo Almeida Filho (2012), como não foi exigida a aplicação da referida Medida Provisória para a hipótese do art. 8, §2º da Lei 10.259/01, também não deveria ter sido exigido para a concretização do princípio da instrumentalidade das formas previsto no art. 154 do CPC.

Observa-se que a ICP-Brasil originou-se, primitivamente, do Decreto 3.587/2000, o qual instituiu a ICP do Poder Executivo Federal, a denominada ICP- Gov. Tal decreto “previa a utilização da criptografia assimétrica para a realização de transações eletrônicas seguras e trocas de informações e classificadas” (ATHENIENSE, 2010, p. 51). Todavia, o mencionado Decreto incidia, exclusivamente, no âmbito da Administração Pública Federal. Dessa forma, a diferença entre o Decreto 3.587/2000 e a MP 2.200-2/2001 é o alcance de sua incidência. Nesse sentido, “o destinatário dos serviços de certificação digital do primeiro era apenas a administração pública federal”, embora empresas privadas pudessem ser fornecedoras dos serviços; “enquanto a mudança da denominação ICP-Gov para ICP-Brasil demonstrou o interesse do Executivo de expandir a abrangência dos potenciais usuários do serviço” (ATHENIENSE, 2010, p. 60). Assim, a Medida Provisória acima mencionada (não convertida em lei até a presente data, mas válida até então) permite que qualquer cidadão que deseje praticar algum ato de manifestação de vontade por meio eletrônico o faça com o uso da certificação digital. De acordo com tal medida:

[...] a ICP-Brasil é composta de uma autoridade estatal, gestora da política e das normas técnicas de certificação (Comitê Gestor), e de uma rede de autoridades certificadoras (subordinadas àquela), que, entre outras atribuições, mantêm os registros dos usuários e atestam a ligação entre as chaves privadas e públicas utilizadas nas assinaturas dos documentos e as pessoas que nelas apontam como emitentes das mensagens, garantindo a inalterabilidade dos seus conteúdos (TEIXEIRA, 2013, p. 329).

18 Razões do veto

"A superveniente edição da Medida Provisória no 2.200, de 2001, que institui a Infra-Estrutura de

Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil, para garantir a autenticidade, a integridade e a validade jurídica de documentos em forma eletrônica, das aplicações de suporte e das aplicações habilitadas que utilizem certificados digitais, bem como a realização de transações eletrônicas seguras, que, aliás, já está em funcionamento, conduz à inconveniência da adoção da medida projetada, que deve ser tratada de forma uniforme em prol da segurança jurídica."

Porém, somente cinco anos após o veto, foi editado um novo parágrafo único ao art. 154 do CPC, através da Lei 11.280/2006, a qual adotou o ICP-Brasil. Com a referida lei, o parágrafo único do art. 154 do CPC passou a ter a seguinte redação:

Art. 154. Os atos e termos processuais não dependem de forma determinada senão quando a lei expressamente a exigir, reputando-se válidos os que, realizados de outro modo, Ihe preencham a finalidade essencial.

Parágrafo único. Os tribunais, no âmbito da respectiva jurisdição, poderão disciplinar a prática e a comunicação oficial dos atos processuais por meios eletrônicos, atendidos os requisitos de autenticidade, integridade, validade jurídica e interoperabilidade da Infra-Estrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP - Brasil. (Incluído pela Lei nº 11.280, de 2006) - (BRASIL, 2013b). Ainda, observa-se a Lei 11.341/2006, a qual introduziu o parágrafo único ao art. 541 do CPC, o qual trata sobre a interposição do recurso extraordinário e do recurso especial, dispondo que:

Art. 541. ...

Parágrafo único. Quando o recurso fundar-se em dissídio jurisprudencial, o recorrente fará a prova da divergência mediante certidão, cópia autenticada ou pela citação do repositório de jurisprudência, oficial ou credenciado, inclusive em mídia eletrônica, em que tiver sido publicada a decisão divergente, ou ainda pela reprodução de julgado disponível na Internet, com indicação da respectiva fonte, mencionando, em qualquer caso, as circunstâncias que identifiquem ou assemelhem os casos confrontados. (Redação dada pela Lei nº 11.341, de 2006) – (BRASIL, 2013b).

Com tal dispositivo, pacificou-se a aceitação dos repositórios de jurisprudências dos Tribunais, disponíveis em mídias eletrônicas, inclusive na Internet, a fim de demonstrar a divergência entre julgados de Tribunais distintos, para a interposição de recursos extraordinários e especiais.

Também é possível mencionar a Lei 11.382/2006, a qual promoveu diversas alterações no Código de Processo Civil em relação ao processo de execução e que tem relação com a informatização da prestação jurisdicional, podendo-se citar como exemplo a inclusão do art. 655-A19, o qual permitiu a criação de um sistema informatizado através da internet, o qual possibilita que o juiz promova a penhora on- line de valores existentes em nome do credor do processo. Observa-se que em 2001, o Banco Central do Brasil desenvolveu um programa com essa finalidade, o qual foi batizado de BACEN JUD, trazendo maior celeridade, economia e segurança para as execuções judiciais (FORTES, 2009).

19 Art. 655-A. Para possibilitar a penhora de dinheiro em depósito ou aplicação financeira, o juiz, a

requerimento do exeqüente, requisitará à autoridade supervisora do sistema bancário, preferencialmente por meio eletrônico, informações sobre a existência de ativos em nome do executado, podendo no mesmo ato determinar sua indisponibilidade, até o valor indicado na execução. (Incluído pela Lei nº 11.382, de 2006).

Através deste pequeno apanhado da evolução legislativa, observa-se que lentamente o processo vem adotando os meios eletrônicos. Todavia, a Lei do Processo Eletrônico demorou a ser promulgada, em razão do trancamento da pauta do Congresso pelas Medidas Provisórias. E considerando essa demora, muitos Tribunais já passaram a utilizar do processo eletrônico antes mesmo da promulgação da referida lei (ALMEIDA FILHO, 2012). Este é o caso do Tribunal Regional Federal da 4ª Região, como será visto em item específico. Porém, antes disso, cabe verificar os objetivos almejados com a criação do processo eletrônico.