• Nenhum resultado encontrado

Ambiente e behavior setting 1 Ambiente físico

4. A PERCEPÇÃO DO ESPAÇO

4.3. Ambiente e behavior setting 1 Ambiente físico

O “ambiente físico”, da forma como apresentam Heimstra e McFarling (1978) é tudo que rodeia uma pessoa e, de fato, a palavra ambiente é definida dessa mesma maneira no dicionário Houaiss (CAVALCANTI e ELALI, 2011). Os psicólogos ambientais ampliaram esse termo e passaram a utilizá-lo com três focos: construído pelo homem, modificado pelo homem e, natural. Outros dois termos são utilizados frequentemente, como nesta pesquisa, como sinônimo de “ambiente físico”: “espaço físico” e “lugar”. Entretanto, é importante destacar que, dentro da Psicologia Ambiental, estes últimos são distintos: espaço é considerado uma área em termos geométricos e significado genérico -, enquanto lugar diz respeito ao

processo de apropriação, identidade, atribuição de valores pela vivência e sentimentos acontecem no espaço. Apesar disso, estes serão tratados ao longo do texto como sinônimos.

As pessoas estão rodeadas, a todo momento, por várias camadas de espaços: quarto, edifício, rua, comunidade, região, nação, mundo (GIFFORD, 2014). Esse espaço, ou a arquitetura, faz parte do universo exterior do ser humano, considerado por Okamoto (1996), e a este espaço o sujeito responde e se adapta, ou, por via de regra, se relaciona. Ao perceber que há, de fato, influência do espaço no homem, faz-se necessário concentrar o pensamento em uma arquitetura que tenha como foco o usuário. De acordo com Voordt e Wegen (2013), quando a atenção é voltada para a usabilidade ótima cria-se uma sensação de apoio e o espaço passa a inspirar conforto, como também afirma Walden (2009).

Uma vez sentindo-se mais parte do local, as pessoas têm sua participação ampliada. Um exemplo é o sentimento de controle passado aos usuários, a capacidade de modificar o local como desejarem, como um espaço pessoal – mesmo que este não seja essencialmente individualizado. Essa possibilidade de interação leva a uma sensação de autonomia, segurança e liberdade, como indicam Pornin e Peeters (2009).

Barker (1968) e Gifford (2014) apontam que é uma característica do comportamento humano o fato de este ser variado, modificar-se em muitas nuances, cada uma dentro de um determinado contexto ambiental. Walden (2009) postula que as pessoas passam pela experiência de como os ambientes as influenciam e Lawson (2001) reforça que há, de fato, diferentes impressões que geram diferentes emoções e humores. Contudo, e ao mesmo tempo, apesar dessa influência do espaço nos seres humanos, este não existe sem as relações humanas que nele ocorrem. Nesse panorama, e para que seja construída uma arquitetura mais responsiva, Okamoto (1996); Azevedo, Rheingantz e Bastos (2004), entre outros pesquisadores da área, acreditam que é fundamental compreender como o espaço – e seus elementos são –apreendidos e, por consequência, o próprio comportamento humano.

Vale ressaltar que o crescente uso da tecnologia no século XXI, na Era Digital, tem reorganizado a maneira como se vive, se comunica, se aprende e, por consequência, se interage com o espaço. Essas mudanças são inegavelmente presentes dentro das escolas, uma vez que modificam as ferramentas utilizadas e o que demandam, bem como o currículo e as atividades neles presentes (ALDAHDOUH, OSÓRIO E CAIRES, 2016). A percepção do ambiente também se modifica e apreender esse novo cenário se torna importante.

Deste modo, de acordo com Okamoto (1996), o objetivo da arquitetura não consiste apenas em construir abrigos que satisfaçam necessidades básicas daqueles que irão desfrutar do espaço. “Mais do que a exteriorização material e formal de todas suas atividades concretas,

deveria a arquitetura atender às suas aspirações.” (OKAMOTO, 1996, p.11). A compreensão deste aspecto leva à criação de projetos em conformidade com o desejo natural do sujeito de estabelecer interações afetivas com o meio ambiente, favorecendo tanto seu crescimento pessoal, quanto a harmonia do relacionamento social e, acima de tudo, ainda segundo Okamoto (1996), aumentando a qualidade de vida.

4.3.2. Behavior settings

A partir do fato de que os espaços auxiliam na constituição de atuações diferenciadas, surge a questão dos padrões de comportamento constituídos nesses ambientes. A identificação, análise e descrição dos padrões, bem como das “leis” que existem por trás dessas condições que se repetem com frequência determinada, podem ser apreendidas por meio da observação do que Barker (1968) nomeou como behavior settings. Trabalhar com esse conceito não quer dizer se preocupar apenas com uma porção de espaço e seu entorno imediato, mas sim com um conjunto de relações dentro dele. Assim, a pesquisa por behavior settings relaciona a dinâmica da relação, compreendendo a pessoa que age, o próprio comportamento e o ambiente, de forma separada, mas, ao mesmo tempo, em conexão.

behavior settings são unidades eco comportamentais que correspondem a padrões estáveis de comportamento que ocorrem em tempo e espaço determinados. Por não tratar exclusivamente nem de comportamento nem de ambiente, o conceito expressa a relação de interdependência entre ambos [...]” (CAVALCANTI e ELALI, 2011, p.83).

Barker (1968) estabelece que existem padrões de comportamento dentro dos

behavior settings que são característicos de um fenômeno extra individual, com aspectos únicos

que continuam presente mesmo quando a população participante da ação muda. Da mesma maneira, o local onde o behavior setting acontece existe independentemente dele, bem como das percepções sobre ele. Além disso, existem propriedades, como a localização geográfica e população que variam de um behavior setting para outro e são denominadas e explicadas por Barker (1968) da forma como apresenta na Tabela 6.

Tabela 6 - Variáveis entre behavior settings de acordo com Barker (1968)

VARIÁVEIS DEFINIÇÕES

Geographical locus

(Localização geográfica) - Local específico. Temporal locus, serial

occurrence, and duration

(Localização temporal,

frequência e duração)

- Dia(s) quando ocorrem, durante determinado tempo e com repetição definida.

Population População

- Número definido de “habitantes” presentes em cada ocorrência, identificados por idade, sexo, classe social, etc.

Occupancy time Tempo de ocupação

- Multiplicação do número médio de pessoas/ocorrência pela duração, em horas, de todas as ocorrências.

Functional position of inhabitant Posição functional dos

habitantes

- Estrutura interna onde cada indivíduo tem um papel específico.

Action patterns Padrões de ação

- Atributos dos padrões de comportamento que variam de acordo com a razão das interações, que podem ser:

educacionais, de negócios, governamental, recreativa, etc.

Behavior mechanisms Mecanismos de comportamento

- Um padrão de comportamento envolve diferentes respostas ao sistema que podem ser afetivas, manipulativas, verbais, de pensamento, etc.

Pressure Pressão

- Pressionam diferentes subgrupos de populações a fazer parte do behavior setting.

Autonomy Autonomia

- Diferem em como ocorrências de dentro ou fora da comunidade – população – afetam seu funcionamento.

Welfare Bem-estar

- Diferem na maneira como abarcam as diversas necessidades dos subgrupos da população.

Physical forces Forças físicas

- Organizações físicas reforçam ou impedem alguns padrões de comportamento.

Physiognomic perception Percepção fisionômica

- Influência sobre a percepção de configurações

relacionada a estímulos oriundos do meio não-psicológico.

A partir do levantamento desses atributos, é possível prever comportamentos dos ocupantes de um behavior setting pelo conhecimento da sequência de interações realizadas. Esses aspectos funcionando em conjunto formam o programa do setting, segundo Cavalcanti e Elali (2011). Dessa maneira, se torna possível restringir a amplitude do comportamento dos indivíduos em um conjunto especificado dentro do behavior setting.