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Análise da matriz curricular

No documento EDUCAÇÃO POPULAR, EQUIDADE E SAÚDE (páginas 50-53)

A matriz curricular apresentada pelo PPC apresenta os componentes modulares, sua distribuição ao longo do curso, carga horária, créditos, ementas e bibliografia. No quadro 3 é possível observar que os módulos Habilidades Médicas

(HM) e Atenção Primária em Saúde (APS) são transversais, sendo desenvolvidos do primeiro ao oitavo período semestral, sendo que APS continua como área do Internato até o último período do curso, que apresenta como áreas de estágio: clínica médica, pediatria, clínica cirúrgica, toco-ginecologia , saúde mental e saúde coletiva, atenção primária em saúde, além de urgências e emergências em cada área.

Quadro 4 - Distribuição dos módulos teóricos práticos do Curso de Medicina em Parnaíba, segundo período e número de créditos com exceção do Internato Médico

PERÍODOS I II III IV V VI VII VIII IX X XI XII TOTAL

MÓDULOS/ CRÉDITOS Bases dos Processos

Biológicos (BPB) 15 07 07 29

Bases dos Processos de Agressão e Defesa

(BPADP) 6 7 6 8 8 35

Bases dos Processos

Psicossociais (BPPS) 3 2 2 3 10

Bases da Prática Médica

(BPM) 3 6 11 11 19 23 73

Habilidades Médicas

(HM) 8 8 8 8 8 8 8 4 60

Atenção Primária em

Saúde (APS) 4 4 4 4 4 4 4 4 32

Estudos Tutoriais (ET) 1 1 1 1 1 1 1 1 8

Optativas (OP) 4 4 8 Seminário de Introdução ao Curso (SM) 1 1 TCC 4 TOTAL 32 32 32 32 32 32 32 32 260

Fonte: UFPI. Projeto Pedagógico do Curso de Medina – Campus Ministro Reis Velloso (2014). Teresina-PI: UFPI.

Com base na leitura das ementas dos componentes da matriz curricular e na identificação de expressões e palavras-chaves, numa visão panorâmica tem-se que a equidade em saúde encontra-tem-se potencialmente pretem-sente nos tem-seguintes

A EQUIDADE EM SAÚDE NA FORMAÇÃO MÉDICA EDUCAÇÃO POPULAR, EQUIDADE E SAÚDE

módulos do curso: APS, HM, Bases dos Processos Psicossociais (BPPS), Estudos Tutoriais (ET), Internato em Saúde Mental e Coletiva, dois componentes optativos, que foram analisados mais detalhadamente em cada período.

No módulo APS, as palavras-chave foram: determinação social da saúde e doença, historicidade da saúde e trabalho em equipe, redes de atenção à saúde, promoção da saúde, educação em saúde, educação popular e saúde, participação e controle social, vigilância epidemiológica, dependência química, promoção da equidade em saúde, vulnerabilidade e populações vulneráveis.

Em BPPS, a ementa faz referência à cultura, sociedades, grupos e instituições; subjetividade; trabalho médico; práticas populares de saúde; alteridade na diferença; modos de produção de saúde, itinerários terapêuticos, fundamentados em bibliografias sobre racismo, educação popular e saúde, saúde do homem.

No módulo de HM, a ementa aponta para habilidades de comunicação com a equipe e usuário, relação médico e paciente, ética profissional, moral e compromisso social, sendo evidente que à medida que o módulo vai sendo desenvolvido, o foco volta-se para habilidades individuais no manejo do doente e da doença.

No módulo ET, espaços de pequenos grupos nos quais se prática a aprendizagem baseada em problemas, os casos apresentados têm como referência o território, famílias e comunidades; estratégias de cuidado e itinerários terapêuticos; convivência com a doença e integralidade do cuidado.

O Internato em Saúde Mental e Saúde Coletiva tem como palavras e expressões chaves em sua ementa organização, administração, gerenciamento e financiamento do SUS, saúde mental na APS, rede de atenção psicossocial, planejamento e avaliação de políticas e programas de saúde, monitoramento e regulação dos sistemas de saúde, determinação social da saúde/doença, participação social em saúde.

Dentre os componentes optativos, obrigatórios em termos de cumprimento de créditos, o curso tem ofertado no formato de disciplinas: Relações étnico-raciais, gênero e diversidade e Meio Ambiente. Na primeira, as palavras-chave de seu ementário são educação da diferença em saúde, promoção da equidade em saúde, participação social e devir minoritário, grupalidade como dispositivo

do trabalho em redes de atenção e cuidado em saúde, introdução à Análise Institucional e à Cartografia como modos de fazer pesquisa/intervenção.

Na disciplina Meio Ambiente são discutidas questões ambientais, como educação ambiental, dimensões da sustentabilidade, consciência crítica e criativa sobre as questões ambientais, uso racional dos recursos naturais em benefício das gerações atuais e futuras, impactos ambientais e qualidade de vida

A APS, além de módulo teórico-prático transversal, no internato apresenta em seu ementário vigilância em saúde, temas emergentes na APS, violência e saúde, equidade em saúde, práticas integrativas e complementares, práticas populares em saúde, método clínico centrado na pessoa, matriciamento e projeto terapêutico singular.

A matriz curricular acaba reproduzindo o espaço de temas correlatos à equidade em saúde aos módulos que compreendem mais fortemente interfaces entre saúde e sociedade, relacionando equidade à concepção de vulnerabilidade, em decorrência das desigualdades sociais. No módulo HM, a equidade é vista da perspectiva da integralidade dos indivíduos e da atenção e como expressão individual dos riscos epidemiológicos.

Conceitos fundamentais sobre justiça social, políticas públicas, exclusão social e diálogos com outros saberes são discutidos predominantemente no módulo de BPPS e no módulo APS, ao abordarem educação popular e saúde articulada às concepções de promoção da saúde, alteridade e autonomia. No internato, a APS objetiva a equidade por meio da discussão de temas como violência, práticas populares, práticas integrativas e complementares.

As disciplinas optativas, cada uma com 4 créditos, concentram mais as referências e temas relativos à equidade que o módulo HM, tendo grupo de pesquisa sobre a discriminação étnico-racional e articulação com os movimentos sociais.

Apesar da aproximação dos documentos orientadores do curso com a temática da equidade, existe a necessidade de pesquisas que aprofundem questões relacionadas ao processo de como o ensino se processa. Barbosa (2013) estudando o tema da violência no curso médico, observa que:

Docentes que valorizam o paradigma biomédico enfocaram o tema de forma específica a tipos de agressão/lesão, aos sintomas e sequelas

A EQUIDADE EM SAÚDE NA FORMAÇÃO MÉDICA EDUCAÇÃO POPULAR, EQUIDADE E SAÚDE

associados e à conduta clínica pertinente. Docentes que apoiam o paradigma biopsicossocial realçaram o desenvolvimento de reflexões que incitassem os alunos a perceber a violência conforme as singularidades clínicas e os impactos subjetivos que geram na vida do sujeito — exigindo sensibilidade quanto aos limites de cada intervenção (p. 92).

Freitas (2016), em sua dissertação “A saúde da população LGBT: da trajetória da formação médica à atuação profissional”, identificou fragilidade na formação dos médicos pesquisados sobre o tema em termos de conteúdos e práticas assistenciais. Apesar disso, relata que:

Uma questão positiva nas abordagens deste estudo tratou da invisibilidade social da população LGBT e nos chamou atenção: foi que mesmo para os entrevistados que se apresentaram (profissionais médicos) com tendências conservadoras, indicaram certa vulnerabilidade para a saúde desse grupo, aspecto que confirma a necessidade do atendimento integral e humanizado. Entre os médicos que se consideram progressistas com relação à visibilidade da população e seus direitos em relação à saúde, encontraram-se alguns que dizem ter promovido transformações significativas em sua trajetória de formação e atendimento ao público LGBT. Atestam que a homossexualidade é historicamente contextualizada com o preconceito e a discriminação, inclusive quando se aborda o atendimento no âmbito da saúde pública. Assim, o acesso dessa população aos serviços de saúde tem sido descrito como injusto e excludente, e, consequentemente, como uma vulnerabilidade do grupo LGBT (p. 60).

Pedrosa e Araújo (2019), analisando processos de formação em saúde, colocam que “violência, morte, humanização, estigmatização e loucura [...], temas seculares no campo da saúde [...] ganham visibilidade somente quando [...] vocalizados por aqueles que vivenciam tais problemas no cotidiano e (quando) [...] reconhecidos pelos movimentos sociais como necessidades a serem enfrentadas [...]” (p. 232).

Os autores chamam atenção para o fato de que

a cultura que envolve o ensino na saúde deve estar atenta à base organizadora da formação, que é o Projeto Pedagógico do Curso - PPC

e a coerência de sua contextualização social. Deve ater-se ainda à forma como os determinantes sociais são incorporados no conteúdo do curso, à existência de um projeto de desenvolvimento docente, à qualidade e à dinâmica do ensino (pp. 245/46).

Dover & Belon (2019), com base nos determinantes da saúde identificados em vários estudos internacionais, propõem um modelo para entender e intervir nos determinantes da saúde e, desse modo, dimensionar os níveis de equidade/ iniquidade, o Health Equity Measurement Framework (HEMF),  que inclui fatores socioeconômicos, culturais, contexto político, contexto da política de saúde, estratificação social, localização social, circunstâncias sociais e materiais, ambiente, fatores biológicos, comportamentos e crenças sobre a saúde, estresse, qualidade do cuidado e utilização de serviços de saúde.

Sharma, Pinto e Kumagai (2018) observam que, nas escolas médicas, o ensino sobre os determinantes da saúde é realizado na perspectiva de que o futuro médico desenvolva alguma ação que contribua para a equidade em saúde. Observam também que o ensino dos determinantes da saúde decorre de sua consideração mais como conteúdo curricular a ser informado, não aprofunda o entendimento sobre como e por que acontecem as iniquidades. Em suas palavras: “educators talk about poverty but not oppression, race but not racism, sex but not

sexism, and homosexuality but not homophobia” (p. 25).

Dessa forma, faltaria à formação médica definições mais precisas do quê, como e quando seria desenvolvido o ensino sobre equidade. Dispersas em sua amplitude, as discussões sobre equidade perdem o sentido da dialética que existe entre o individual e o coletivo, criando uma falsa dicotomia entre ações que se voltam para as pessoas, inclusive por meio de abordagens integradoras, e as ações que acontecem no cotidiano dos territórios, nas famílias e nos grupos e coletivos sociais.

Na dimensão particular das políticas, o exercício da equidade pode se materializar no processo de formulação das políticas de saúde inclusivas e intersetoriais que podem ter impacto sobre os determinantes sociais da saúde. Nesse sentido, equidade corresponderia à participação e governança determinada pela cidadania plena, em um contexto de liberdade e democracia (SILVA, ALMEIDA FILHO, 2009).

A EQUIDADE EM SAÚDE NA FORMAÇÃO MÉDICA EDUCAÇÃO POPULAR, EQUIDADE E SAÚDE

Neste sentido, os temas relacionados à participação e controle social no SUS, presentes nas ementas curriculares e projetos de extensão construídos com os territórios e comunidades, mostram-se espaços privilegiados para a aprendizagem do processo de formulação, implantação e avaliação de políticas e de aprender equidade em saúde relacionada ao significado das desigualdades sociais.

Contextualizar o tema com as necessidades apresentadas pelos movimentos sociais, tendo como referência a Política de Equidade em Saúde, implica em incluir na matriz curricular as questões específicas sobre as diversidades que caracterizam a população brasileira.

Rocha, Sousa e Cavadinha (2019, p. 4) lembram que nas “Políticas de Equidade destacam-se objetivos e ações específicas relacionadas à formação e à educação permanente em saúde. Na política LGBT, por exemplo, o objetivo XXII é a inserção desse conteúdo nos processos de educação permanente e formação profissional”.

Nas ementas dos módulos APS e BPPS, destacam-se temas como educação em saúde, educação popular e saúde e práticas populares de saúde. A educação, em sua dimensão de formar profissionais sob o princípio da autonomia, contribui para que os estudantes possam sentir-se sujeitos com alteridade para discutir e interferir em seu processo formativo.

Entretanto, as práticas de educação em saúde com a população ainda guardam aspectos e imprimem atitudes prescritivas na medida em que os conteúdos e metodologias dessas práticas, na maioria das vezes, são definidos pelos estudantes e docentes sem a inclusão de profissionais da rede de serviços — e, principalmente, as comunidades.

E, enquanto ato inerente à prática médica individual, a predominância da perspectiva prescritiva não permite compreender que o encontro entre profissionais de saúde e usuários — que demandam seus cuidados nos momentos de enfrentamento de situações de adoecimento caracterizadas como complexas — põe em cena culturas e conhecimentos distintos, resultando em distanciamentos entre o modo como o profissional entende, explica e prescreve sobre a situação e os significados que os sujeitos demandantes atribuem à vivência da situação no cotidiano.

A educação popular e saúde preconiza a valorização dos saberes locais, o diálogo e a construção compartilhada de conhecimento que possibilitam o exercício da equidade, pois considera as pessoas como sujeitos que refletem sobre

a realidade e tem a potencialidade de modificar situações de opressão material ou que são resultado da discriminação e preconceitos.

A educação popular destaca-se como uma prática político-pedagógica comprometida com a população no projeto de sua própria libertação, partindo de uma intencionalidade que propicie uma nova forma de compreender o mundo e de vivê-lo, para que os indivíduos possam lê-lo com os olhos de sua própria cultura e dialogar uns com os outros como sujeitos conscientes. Para tanto, faz-se imprescindível que os participantes desse processo sejam ativos e responsáveis pela construção e realização de sua própria história, assim como pelas decisões que têm interface com seu destino, estando esses comprometidos com o processo histórico de construção de uma sociedade justa e democrática, fundada em bases de equidade, de respeito às diferenças e não excludente, empenhados na superação das desigualdades existentes (Araújo, 2018, p.19).

Assim, a educação popular e saúde e projetos de pesquisa e extensão com base nos territórios encontram-se presentes como espaços possíveis para apreender a equidade em saúde nas dimensões estrutural, política, simbólica e imaginária da existência humana.

No documento EDUCAÇÃO POPULAR, EQUIDADE E SAÚDE (páginas 50-53)