4 ESTUDOS DE CASOS
4.7 ANÁLISE QUANTITATIVA 2008-2016
Conforme já exposto, o presente trabalho é a continuidade ampliada da pesquisa de mestrado “Segurança para quem? O discurso midiático sobre as Unidades de Polícia Pacificadora” (PEREIRA, 2012), em que foram analisadas 180 matérias sobre as UPPs Borel, Cidade de Deus, Santa Marta e São Carlos, publicadas em O Globo entre novembro de 2008 e novembro de 2011. Neste item, analisaremos os números de ambos os períodos: de 2008 a 2011 e entre 2014 e 2016. Desta maneira, será possível apontar indícios de como a cobertura do jornal atuou desde o início das ocupações promovidas pela política das UPPs, em novembro de 2008, até agosto de 2016, quando se encerraram os Jogos Olímpicos e o governo do estado anunciou cortes de recursos que comprometeriam os investimentos que seriam destinados à Secretaria de Segurança Pública.
Das 180 matérias analisadas, 120 (66,7%) foram classificadas no pacote interpretativo Lei e ordem na favela, 48 no modelo Extensão da Cidade Formal (26,7%), dez no pacote Liberdades civis sob ataque (5,5%) e apenas duas no modelo Pobreza causa crime (1,1%). Quanto às perspectivas narrativas, 130 matérias (72%) conduzem o leitor a interpretar as
notícias sobre as UPPs através do conflito/crime, e cinquenta (28%) por meio da perspectiva normalidade/integração. No que se refere às clivagens ideológicas, 173 matérias (96%) representam as UPPs como parte de um Estado democrático de direito e apenas sete (4%) como parte de um Estado policialesco. Em 155 ocasiões (86%), a cobertura de O Globo apresenta as UPPs como benéficas aos moradores das favelas, enquanto que em 25 oportunidades (14%), como favoráveis aos moradores do “asfalto”. Já em 178 matérias (99%), as UPPs são apresentadas como parte de uma política permanente e consolidada, enquanto que em apenas duas (1%), como parte de uma política efêmera. Acerca das fontes apresentadas, 142 (65%) eram estatais e 77 (35%), não estatais. Dessas 77, apenas seis (13%) apresentavam críticas às UPPs. Em 100% das ocasiões, as declarações de fontes não estatais são confrontadas com as de fontes estatais, que, comumente, apresentam versões divergentes das primeiras. Das 64 fontes não estatais que elogiam ou não apresentam críticas às UPPs, todas reivindicam maior rigor à repressão contra o comércio varejista de entorpecentes. E, assim como entre 2014-2016, nem sempre as matérias classificadas no pacote Lei e ordem apresentam fontes não estatais, mas sempre contemplam fontes estatais.
Quadro 11 – Resumo análise quantitativa 2008- 2011105. Total: 180 matérias
Pacotes:
Lei e ordem: 120 (66,7%)
Extensão da cidade formal: 48 (26,7%) Liberdades civis sob ataque: 10 (5,5%) Pobreza causa crime: 2 (1,1%)
Perspectivas narrativas: Conflito/crime: 130 (72%) Normalidade/integração: 50 (28%) Fontes: Estatais: 142 (65%) Não estatais: 77 (35%)
Críticas das fontes não estatais: 6 (13%)
– Em todas as oportunidades, as declarações dessas fontes são confrontadas às de fontes estatais, que, comumente, apresentam versões divergentes das primeiras.
– Das 64 fontes não estatais que elogiam a instalação das unidades, todas reivindicam maior rigor à repressão contra o comércio varejista de entorpecentes, ou, de alguma forma, apoiam as UPPs.
– Assim como entre 2014 e 2016, entre 2008 e 2011 nem sempre as matérias classificadas no pacote Lei e ordem apresentam fontes não estatais, mas sempre contemplam fontes estatais.
Clivagens ideológicas:
Estado democrático de direito (EDD): 173 (96%) Estado policialesco (Epol): 7 (4%)
UPP para a favela (UPPF): 155 (86%) UPP para o asfalto: 25 (14%)
Política permanente (PPER): 178 (99%) Política efêmera (EFE): 2 (1%)
Se somarmos os dados das pesquisas 2008-2011 e 2014-2016, chegaremos ao total de 557 matérias sobre UPPs, publicadas em O Globo em ambos os períodos e analisadas. Em 342 delas (61,5%), o pacote interpretativo predominante é o Lei e ordem na favela. Em 104 ocasiões (18,5%), as matérias estão classificadas no modelo Extensão da cidade formal. Já em 99 oportunidades (17,8%), o pacote interpretativo predominante é o Liberdades civis sob ataque. Por último, aparece o modelo Pobreza causa crime, com 12 matérias (2,2%). Das 1.112 declarações de fontes publicadas, 636 (57%) são estatais e 476 (43%), não estatais. No que se refere às clivagens ideológicas, em 484 matérias (87%), as UPPs são apresentadas como parte de um Estado democrático de direito, enquanto que em 73 (13%), como parte de um Estado policialesco. De acordo com 472 matérias (85%), as ocupações são benéficas para os moradores das favelas, enquanto que em 85 (15%), para os moradores do “asfalto”. Por fim, em 533 ocasiões (96%), as UPPs são parte de uma política permanente e consolidada, já em 24 (4%) fazem parte de uma política efêmera.
Ao analisarmos separadamente os períodos 2008-2011, 2014-2016 e o somatório total (2014-2016), podemos perceber muitas semelhanças e poucas diferenças, mas que merecem observação. Entre as semelhanças, a primeira é que o pacote interpretativo Lei e ordem na favela se mantém como aquele com o maior número de ocorrências e com um percentual muito próximo nos três cenários (em torno de 60%). As vozes privilegiadas nas matérias são, em sua grande parte, estatais. Entre as clivagens ideológicas, as UPPs são predominantemente representadas como parte de um Estado democrático de direito, benéficas para os moradores das favelas e constituem uma política permanente e consolidada.
Entre as diferenças, talvez a principal delas seja a queda do número de ocorrências do pacote Extensão da cidade formal (ECF) e o aumento do modelo Liberdades civis sob ataque (LCSA), no período 2014-2016. Se, entre 2008 e 2011, o pacote ECF, que apresenta os ganhos em termos de cidadania, oferta de políticas públicas e serviços para os moradores das favelas, era o segundo mais registrado, em 26,7% das matérias, no período 2014-2016 o número de ocorrências desse modelo caiu para 15%. Em sentido inverso, se, entre 2008 e 2011, o modelo LCSA, que denuncia as violações de direitos e liberdades dos moradores das favelas por parte da polícia, foi registrado em apenas 5,5% das matérias, no período 2014-2016 esse modelo apareceu em 23,5% das matérias. No somatório 2008-2016, o pacote LCSA ficou em segundo lugar, com 18,5%, e o modelo ECF, em terceiro, com 17,8%.
Alguns fatores talvez possam ajudar a compreender essa mudança. A primeira foi a tentativa inicial de apresentar as UPPs como garantidora de melhorias tanto para os moradores das favelas, como para os do asfalto, que, com as ocupações policiais, passaram a frequentar mais os morros. O Santa Marta, primeira favela a ser ocupada, foi um exemplo bem-sucedido neste sentido, atraindo visitantes, brasileiros e estrangeiros, que passaram a frequentar seus mirantes, restaurantes, bares, rodas de samba e demais atrações (COSTA, 2010). Havia também a tentativa de apresentar os policiais das UPPs como cordiais e amigáveis às crianças e moradores das favelas (GOULART, 2010). Se, no primeiro período de tempo analisado, ocorreu uma redução do número de homicídios na cidade, no segundo momento este número voltou a subir, em decorrência dos conflitos entre policiais e traficantes. O Complexo do Alemão, sempre identificado, no discurso midiático, com o crime e a violência, foi a localidade mais noticiada, nas páginas de O Globo, quando o tema foram as UPPs. Ganhou repercussão a morte do menino Eduardo de Jesus, de 10 anos, no dia 2 de abril de 2015, após ser baleado na cabeça por um tiro de fuzil disparado por policiais militares (SANTHUZA & SCHMITT, 2015). Outro episódio emblemático que contribuiu para o aumento do número de ocorrências do pacote LCSA foi a morte do pedreiro Amarildo de Souza, em 2013. Entre 2014 e 2016, diversas reportagens foram publicadas, informando sobre as investigações, o julgamento e a condenação dos responsáveis (DECLARADA, 2014). Ambos os homicídios foram provocados por policiais militares lotados em UPPs e ocuparam grande espaço nas páginas dos jornais. Tanto o fator redução de investimentos públicos e privados nas UPPs, como o aumento da violência nas favelas – que pode ser ou não uma consequência do primeiro fator – ajudam a explicar por que o pacote ECF obteve mais ocorrências no período 2008-2011, enquanto o pacote LCSA ficou à frente no período 2014-2016. No entanto, é importante destacar que, ainda assim, o pacote
Lei e ordem na favela obtém mais ocorrências do que o número total de matérias classificadas nos outros três pacotes somados (342 x 215).
A comparação da análise das fontes nos períodos 2008-2011 e 2014-2016 também merece atenção. Se o número de fontes estatais se manteve maior que o de não estatais, no segundo momento ocorreu uma redução desta diferença: entre 2008-2011, foram registradas 65% de declarações de fontes estatais contra 35% de fontes não estatais, enquanto que, no período 2014-2016, o comparativo foi da ordem de 55% estatais contra 45% não estatais. Aumentaram também consideravelmente as críticas às UPPs, vindas das fontes não estatais. Se, em 2008-2011, este percentual era de apenas 13%, entre 2014-2016 o número passou para 57,5%. Neste período, entretanto, o maior registro de críticas (30%) diz respeito à ineficiência das UPPs em impor lei e ordem nas favelas; em 20% das declarações, as críticas se dirigem a denunciar a violação dos direitos e liberdades; e em apenas 7,5% delas a natureza é sobre a ausência de políticas públicas.
Em outra comparação, podemos observar que, se entre 2008 e 2011 não foram encontrados registros de matérias em que fontes não estatais não foram confrontadas a fontes estatais, no período 2014-2016 em apenas 4,65% das vezes as fontes não estatais apareciam sem serem um contraponto de uma fonte estatal. Enquanto isso, como já visto, em 45% das matérias as fontes estatais não encontram oposição de fontes não estatais. O que podemos observar com base nesses dados é que, não obstante tenha ocorrido um crescimento do registro de declarações de fontes não estatais, as vozes ligadas ao Estado se mantiveram predominantes. Ademais, se manteve a tendência de, mesmo quando as fontes não estatais são mencionadas, estas referendarem o ponto de vista predominante, qual seja: a reivindicação de imposição de maior lei e ordem nas favelas.
Quadro 12 – Resumo análise quantitativa: UPPs 2008-2016.
Total: 557
Pacotes interpretativos: Lei e ordem: 342 (61,5%)
Extensão da cidade formal: 104 (18,5%) Liberdades civis sob ataque: 99 (17,8%) Pobreza causa crime: 12 (2,2%)
Conflito/crime: 434 (78%) Normalidade/integração: 123 (22%) Fontes: 1.112 Estatais: 636 (57%) Não estatais: 476 (43%) Clivagens ideológicas: EDD: 484 (87%) Epol: 73 (13%) UPPF: 472 (85%) Uppa: 85 (15%) PPER: 533 (96%) Pefe: 24 (4%)