2 PRODUÇÃO DE NARRATIVAS
2.6 O MEDO SE ESPALHA: UM BREVE ESTUDO DE CASO
Vejamos como as narrativas do medo se aplicam, a partir de reportagem de página inteira, publicada pelo jornal O Globo, no dia 18 de maio de 2015, sobre o incêndio de dois ônibus no Centro do Rio. De acordo com os repórteres, o responsável pelos ataques aos coletivos seria:
[...] o traficante Ricardo Chaves de Castro Lima, o Fu da Mineira, condenado a quase 90 anos, [que] fugiu em 2013 de um presídio em Rondônia, após ser beneficiado com regime semiaberto pela Justiça Federal daquele estado, ele voltou ao tráfico e, há uma semana, está por trás de uma guerra, iniciada no Fallet, em Santa Teresa, que já deixou 12 mortos. (ROBERTO JR. et al., 2015).
A fotografia aterrorizante do coletivo em chamas (Imagem 4) encontra tradução na palavra “medo”, impressa no título. O ônibus, transporte público utilizado por grande parte da população da cidade, incendiado à luz do dia em via pública – Rua Campos da Paz, no Rio Comprido, bairro de classe média e não uma favela – transmite a ideia de que qualquer um dos leitores poderia estar ali. No subtítulo, a expressão “guerra do tráfico” e a informação de que esta “já matou 12” fundamenta o roteiro com que a temática da segurança pública é tratada pela imprensa. Até mesmo o personagem já está escalado: Fu da Mineira, que encarna o papel de perigoso criminoso que escapou de um presídio de segurança máxima no longínquo estado de Rondônia, beneficiado pela suposta leniência do sistema judiciário, e que estaria de volta à “cidade maravilhosa” comandando os ataques, de acordo com a missiva.
Imagem 4 – Reprodução de matéria com a manchete “O medo se espalha”. Fonte: Roberto Jr. et al., 2015.
Ainda no lide, o texto informa que “moradores e homens encapuzados desceram para o asfalto e queimaram dois ônibus pela manhã, levando pânico a cariocas que seguiam para o trabalho” (ROBERTO JR. et al., 2015). É importante observar que “moradores” se distinguem de “homens encapuzados”, no entanto, ambas as categorias têm origem em um mesmo lugar: as favelas, ocupadas por UPPs, que já não são mais suficientes para conter o natural ímpeto
criminoso daqueles, segundo diz a reportagem. A expressão “desceram para o asfalto” remete ao temor ancestral da elite branca. E, ainda, esses “moradores” e esses “homens encapuzados” são a antítese, aqueles que causam risco, provocam medo, sofrimento e, literalmente, “pânico” aos “cariocas”, dignos “trabalhadores”, cidadãos de bem, contribuintes de impostos ao Estado em uma manhã ensolarada que se fez desesperadora. Mais adiante, o entretítulo da reportagem destaca uma frase do governador Luiz Fernando Pezão: “Trabalhador não queima ônibus” (ROBERTO JR. et al., 2015, grifo nosso), a que se segue o complemento:
Isso é coisa de bandido. O cidadão de bem quer a polícia por perto, quer paz no seu bairro, na sua comunidade. É pelo cidadão de bem que o estado está aperfeiçoando e vai avançar no processo de pacificação. Ocupamos e estamos com operações previstas para toda aquela região e também no Chapadão. (ROBERTO JR. et al., 2015).
Novamente, a narrativa acentua o antagonismo entre a categoria bandido e o “cidadão de bem”. A noção de guerra entre um lado “bom” e outro “mau” justifica a repressão por parte do Estado e toda e qualquer sorte de violações à cidadania e aos direitos humanos, legitimando assim uma suposta pacificação levada a cabo através da força policial, que não se constrange a utilizar-se de métodos como intimidações, achaques, agressões, torturas e todo tipo de violência. Ou, como denomina Vera Malaguti Batista (2012, p. 92), em referência às UPPs, o morador deve engolir a sopa de pedra de Pedro Malasartes: “aguentem as mortes, as balas perdidas, as invasões de domicílio, as revistas para entrar e sair de casa... o melhor está por vir!”. Ademais, o discurso do periódico, em momento algum, questiona os propósitos da referida “guerra”, em que a repressão ao comércio de entorpecentes se dá, sobremaneira, no varejo, onde jovens, negros e pobres são utilizados como mão de obra de um comércio que desconhece fronteiras e cujas cifras são incalculáveis, devido exatamente à sua ilegalidade.
Como nos ensina Bakhtin (apud BATISTA, 2003, p. 68), “o esforço das classes dominantes é ocultar a luta que há por trás dos signos”. Em outras palavras, aquilo que é silenciado é tão ou mais importante que aquilo que é pronunciado. Desta maneira, como já vimos a respeito das vítimas virtuais, se a reportagem nos informa que as 12 vítimas são moradores de favelas do Estácio e de Santa Teresa, por outro lado, pouco a mais sabemos sobre elas. No entanto, dispomos de fartos detalhes do transtorno causado ao trânsito e ao fluxo de pessoas nas vias urbanas regulares, supostamente, pela “guerra do tráfico” carioca. Além do incêndio dos coletivos, ficamos sabendo ainda que:
[...] os reflexos dos ataques ecoaram por toda a manhã. O metrô, por exemplo, na saída da Estação Estácio, por volta das 9h, arriou as portas e agentes orientaram os passageiros a saírem pela Rua Ulysses Guimarães, via oposta ao local onde houve o incêndio do primeiro ônibus. [...] O Largo do Estácio foi interditado pela manhã nos
dois sentidos, por cerca de uma hora. O trânsito fico complicado na Rua Haddock Lobo, na Radial Oeste e no entorno da Uerj. (ROBERTO JR. et al., 2015).
Temos também informações acerca do prejuízo causado ao comércio dos bairros do entorno onde ocorreram os sinistros:
Temendo invasões, supermercados, farmácias, casas lotéricas e lojas da Rua do Riachuelo, no Centro, e do Bairro de Fátima, trabalharam com meia-porta. Nos locais onde os ônibus foram queimados, as labaredas atingiram a rede de telefonia e internet, além da fachada de prédios. (ROBERTO JR. et al., 2015).
Apenas no 11º parágrafo da matéria, portanto, após os detalhes sobre os problemas causados ao trânsito e ao comércio, o leitor é informado dos nomes de quatro das 12 vítimas fatais do episódio. João Vitor Petrato, de 15 anos – portanto, mais uma vítima para confirmar as estatísticas da Anistia Internacional (2015) –, “seria mototaxista”, segundo o jornal. A reportagem informa que, de acordo com Maria Regina Petrato, tia da vítima, “ele não era bandido” e ainda que, “segundo a polícia, não há registros criminais contra o jovem” (ROBERTO JR. et al., 2015).
Das declarações publicadas na matéria de O Globo, três são de fontes estatais33: o governador Luiz Fernando Pezão, o delegado titular da Divisão de Homicídios da Capital, Rivaldo Barbosa, e o porta-voz da Coordenadoria de Polícia Pacificadora (CPP), major Marcelo Corbage. Outras quatro fontes são não estatais34: o motorista do primeiro ônibus incendiado, da linha 229 (Usina-Tijuca), Washington Souza Amaral; a enfermeira Marilene Marques, uma das passageiras que conseguiu escapar do coletivo; a dona de casa Dora Lourdes, que teve o apartamento atingido pelo fogo; além de Maria Regina. Apesar do maior número de fontes não estatais, três das quatro legitimam o discurso de medo e de perturbação da lei e da ordem predominante na reportagem. Apenas a última se contrapõe à narrativa majoritária, testemunhando em favor do sobrinho. É importante ressaltar ainda dois aspectos: com exceção de Maria Regina, que é apresentada como “tia de João Vitor”, todas são identificadas pelas suas profissões. Além disso, apenas a declaração de Maria Regina aparece de forma indireta no texto: “disse que ele não era bandido”, quando todas as demais são publicadas textualmente. A enfermeira Marilene Marques, testemunha do ataque ao coletivo, tem duas declarações publicadas, que destacam o medo, o desespero, o terror do episódio, que reverbera e afeta todos os sentidos do assustado leitor carioca:
33 Ou de alguma forma vinculadas ao Estado, de acordo com a classificação metodológica para a análise do discurso do crime, proposta por Beckett (1997).
34 Sem relação com o Estado, de acordo com a classificação metodológica para a análise do discurso do crime proposta por Beckett (1997).
– Pensei que estivessem metralhando o ônibus. Quando a porta se abriu, saí. Houve correria, as pessoas estavam desesperadas – conta.
– Nunca vi isso na minha vida. Foi um terror. Corri e me abriguei dentro de uma loja – diz ela que passou mal e foi socorrida por uma ambulância no local. (ROBERTO JR. et al., 2015).