4 ESTUDOS DE CASOS
4.1 ANÁLISE QUANTITATIVA 2014-2016
4.1.4 Complexo do Caju
De acordo com números do Instituto Pereira Passos (IPP), com base no Censo Demográfico de 2010, o Complexo do Caju, vizinho aos bairros de São Cristóvão e Benfica,
63 O número total de matérias somadas das oito UPPs analisadas é maior que o total geral devido ao fato de terem sido computadas, caso a caso, matérias coincidentes.
tem população estimada em 16 mil pessoas (RIO+SOCIAL, 2017)65. Fazem parte deste complexo de favelas: Parque Alegria, Parque Vitória, Vila do Mexicano, Parque Boa Esperança, Parque da Conquista, Parque São Sebastião, Ladeira dos Funcionários, Parque Nossa Senhora da Penha e Quinta do Caju. Por estar localizado na zona portuária da cidade do Rio de Janeiro, as primeiras casas do Complexo foram construídas a partir da sua ocupação por parte dos trabalhadores do cais do porto, que passaram a residir em um terreno pertencente à Aeronáutica. Ao longo do tempo, os morros da região também passaram a ser habitados. Segundo informação da Secretaria de Segurança Pública, a ocupação policial do Caju, iniciada em abril de 2013, visa garantir a proteção das vias de acesso à cidade:
[...] se trata do primeiro passo para o processo de retomada dos territórios localizados estrategicamente na porta de entrada do Rio, cercados pelo Aeroporto Internacional do Galeão/Tom Jobim, Baía de Guanabara e vias expressas como Avenida Brasil, Linha Vermelha e Linha Amarela (UPP CAJU, 2017).
Além desse fato, optamos por analisar as matérias publicadas sobre as UPPs do Complexo do Caju pela sua proximidade com o Complexo da Maré. Não bastasse a carência de políticas públicas para atender sua população, o Caju foi tema de diversas matérias publicadas entre 2014 e 2016, em decorrência da violência naquela região. Ao contrário da intenção amplamente publicizada pelo governo do estado nos últimos anos, a instalação de UPPs na Maré acabou não se concretizando, devido à crise financeira no estado do Rio de Janeiro. No entanto, naquele período, a região esteve ocupada por tropas do Exército e da Polícia Militar, como forma de garantir a segurança durante a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos. Desta maneira, muitas das movimentações das forças de segurança pública acabaram refletindo no cotidiano dos moradores do Caju.
Foram encontradas 16 matérias publicadas em O Globo entre 11 de março de 2014 e 7 de março de 2016. Nove delas foram classificadas no pacote interpretativo Lei e ordem na favela (56%); três (19%) apresentaram elementos de assinatura pertencentes ao pacote Extensão da cidade formal e o mesmo número ao modelo Liberdades civis sob ataque; e uma (6%) ao pacote Pobreza causa crime. Em três ocasiões, a violência na região é associada ao Complexo da Maré, e/ou suas consequências são relacionadas aos usuários das vias de entrada da cidade do Rio de Janeiro. Em uma delas, coube aos policiais da UPP do Caju efetuar a prisão de traficantes da Maré que amedrontaram motoristas e passageiros na Avenida Brasil:
A presença de tropas do Exército não impediu ontem que confrontos entre traficantes no Complexo da Maré levassem pânico à Avenida Brasil, que foi fechada três vezes por causa de tiroteios. À tarde, o sentido zona oeste da via expressa, por exemplo, foi bloqueado por militares da Força de Pacificação por cerca de 20 minutos. Pedestres e passageiros de ônibus tiveram que se deitar no asfalto para se proteger dos tiros. A mureta divisória da avenida virou trincheira. (COSTA, A. C., 2014).
Foram registradas declarações de 23 fontes estatais e de 20 não estatais. Destas, 14 foram de moradores, trabalhadores, vítimas e familiares de vítimas; quatro de representantes de entidades do “asfalto”; uma de especialista e uma de jornalista de veículo empresarial não comunitário. Em 70% das declarações de fontes não estatais foram registradas críticas: 25% delas à ineficiência das UPPs em impor lei e ordem; igual número denuncia a violação de direitos e liberdades; e 20% criticam a ausência de políticas públicas. Quanto às clivagens ideológicas, 14 das 16 matérias apresentam as UPPs como parte de um Estado democrático de direito; 11 representam as ocupações como medidas favoráveis aos moradores das favelas; e 100% delas apresentam as UPPs como uma política permanente e consolidada.
Com base nesses números, é possível observar que o enquadramento que reivindica mais lei e ordem na favela predomina sobre os demais, contribuindo assim para a construção da produção de sentido acerca das UPPs – dado enfatizado nos números da análise das clivagens ideológicas –, que a representa como o caminho a ser seguido para “pacificação” daquela localidade, não obstante a existência de um percentual significativo (25%) de denúncias, por parte das fontes não estatais identificadas, quanto à violação de direitos e liberdades dos moradores do Caju.
Quadro 4 – Resumo pesquisa 2014-2016: Complexo do Caju.
Pacotes interpretativos66:
Lei e ordem Extensão da cidade formal Liberdades civis sob ataque Pobreza causa crime Total 9 3 3 1 Percentual 56% 19% 19% 6% Total: 16
Fontes: Estatais 23 x 20 Não estatais Especialistas: 1
Moradores/trabalhadores/vítimas/familiares: 14 Turistas: 0
66 O número total de matérias somadas das oito UPPs analisadas é maior que o total geral devido ao fato de terem sido computadas, caso a caso, matérias coincidentes.
Terceiro setor/comerciantes/empresários: 4 Jornalistas: 1
Críticas de fontes não estatais: 14 (70% das fontes não estatais)67
Ineficiência em impor a lei e a ordem: 5 (25% das fontes não estatais) Ausência de políticas públicas 4 (20% das fontes não estatais) Violação de direitos 5 (25% das fontes não estatais)
Gentrificação/Especulação imobiliária: 0
Clivagens ideológicas:
Estado democrático de direito 14 x 2 Estado policialesco UPP para a favela 11 x 5 UPP para o asfalto
Política permanente 16 x 0 Política efêmera