3 UNIDADES DE POLÍCIA PACIFICADORA
3.1 ANTECEDENTES
3.1.1 Polícia comunitária: o sonho do coronel Nazareth Cerqueira
A lógica de uma polícia comunitária, com uma abordagem humanizada, foi tentada pela primeira vez no estado do Rio de Janeiro em meados dos anos 1980, quando da gestão do governador Leonel Brizola37. Na ocasião, o coronel Carlos Magno Nazareth Cerqueira, oficial com mais de vinte anos de Polícia Militar, ocupava o cargo de comandante-geral da corporação.
37 Como veremos adiante, na prática, o policiamento comunitário como pensado pelo governo Brizola e colocado em prática pelo coronel Nazareth Cerqueira nada teve em comum com seus pretensos sucessores, os GPAEs e as UPPs.
Buscando qualificar-se, graduou-se em Filosofia e Psicologia e participou de seminários sobre segurança pública no Brasil e no exterior. Sua formação acadêmica, em grande parte destoante da maior parte da corporação policial, foi interpretada por alguns de seus pares como “ingredientes de intelectualismo pedante” (SILVA, 2012, p. 7).
Os documentos-base para a tentativa de reformulação da PMERJ foram o “Plano de Desenvolvimento Econômico e Social do Rio de Janeiro para o período 1984 a 1987” e o “Plano Diretor da PMERJ”, elaborado em consonância às diretrizes do primeiro38. O oficial inspirou-se no modelo da Real Polícia Montada Canadeninspirou-se (PRMC), considerada em todo o mundo padrão para o policiamento comunitário. Cerqueira (2001) salienta, contudo, que é preciso ter atenção para as diferenças entre os dois países: enquanto o Canadá já era, naquela década, uma democracia consolidada, o Brasil ainda entrava em seu processo de democratização e convivia com práticas ditatoriais, como violações de garantias individuais, que contavam, inclusive, com o consentimento da sociedade.
Adaptando, contudo, a experiência canadense à realidade brasileira, Cerqueira desenvolve os princípios pelos quais o modelo de policiamento comunitário brasileiro seria norteado. Entre eles, o de polícia como serviço e não como força policial. Seguindo este princípio, os agentes policiais deveriam considerar toda a população como clientes. Não apenas as vítimas de crimes, mas também os demais cidadãos, sejam eles transgressores, suspeitos ou criminosos:
A polícia quando interage com o criminoso, para prendê-lo ou para impedi-lo de cometer algum crime, está prestando um serviço às vítimas, à sociedade, e à justiça; ao prestar um serviço à justiça, presta também um serviço ao criminoso, prendendo-o para que possa ser responsabilizado por seus crimes e reparar o dano causado e, finalmente, ser ressocializado. (CERQUEIRA, 2001, p. 108).
Possivelmente este pensamento seria ridicularizado nos dias de hoje, caso exposto à apreciação do senso comum vigente, quando se vivencia uma grave crise no sistema penitenciário brasileiro. Mas é importante não perder de vista que esse documento foi escrito no momento de redemocratização do país, quando os movimentos populares e demais forças progressistas buscavam reivindicar direitos que haviam sido suprimidos durante os 21 anos de ditadura civil-militar. Havia uma parcela significativa de pessoas que passou “a condenar a ação policial meramente militarizada, exigindo nova abordagem que considerasse a questão dos direitos humanos” (SILVA, 2012, p. 2). Por este motivo, Nazareth Cerqueira acreditava ser
38 A fundamentação teórica desses documentos está reunida em uma série de volumes denominada de “Polícia Amanhã” (CERQUEIRA, 2001).
possível o nascimento de “uma nova concepção de ordem pública que fugisse dos parâmetros, até então adotados, da doutrina de segurança nacional” (CERQUEIRA, 2001, p. 90). A nova polícia deveria ter como objetivo trabalhar “orientada para a proteção de todas as pessoas da comunidade, buscando servi-las e ajudando na construção de uma vida social harmoniosa” (CERQUEIRA, 2001, p. 106).
Neste sentido, a polícia deveria ser encarada como uma organização social, integrada a outras instituições de modo a promover uma sociabilidade menos desigual e mais fraterna. Os agentes policiais, no convívio com a população, deveriam ouvir os moradores e buscar compreender quais as suas principais reivindicações e, a partir de então, buscar interlocuções com outros agentes como, por exemplo, “o departamento de parques e jardins para corrigir uma situação perigosa de uma árvore em um parque” (CERQUEIRA, 2001, p. 102). Desta maneira, a polícia estaria exercendo um papel de prestação de serviço e que faz uso da interação como recurso e não do de prescrição, ou de coerção, que “faz do uso da força a sua tarefa principal e exclusiva” (CERQUEIRA, 2001, p. 107).
No processo de identificação dos problemas da comunidade, o policiamento comunitário deveria se valer do diálogo com os diversos agentes disponíveis, tais como moradores e líderes comunitários, colegas da polícia, registros policiais, análises de crimes39, imprensa, instituições governamentais e associações cívicas e não governamentais. A partir de então, seriam utilizadas táticas que se distinguem bastante das tradicionais: ao invés das prisões, detenções, intimidações, encaminhamentos, entrevistas e relatórios, teriam vez a organização da comunidade, a educação da população, a alteração do comportamento dos atores, a alteração do contexto físico, as mudanças no contexto social, a mudança na sequência, nos resultados e na percepção dos eventos, a ênfase na prevenção do crime, a comunicação transparente com o público e o engajamento ativo da população.
Na prática, o policiamento comunitário foi implementado durante muito pouco tempo no Rio de Janeiro, entre 1983 e 1986. O objetivo era que o Estado se fizesse presente através da “atuação de órgãos que prestavam serviço de assistência social e de apoio ao trabalhador por intermédio de convênios com as secretarias estaduais de Promoção Social e de Habitação e Trabalho” (CARDOSO, 2010, p. 33). Em Jacarepaguá, foi implementado um modelo de vigilância comunitária que, junto com o auxílio de voluntários, realizava “campanhas de saúde, atividades culturais e esportivas” (CARDOSO, 2010, p. 33) dentro do 18º Batalhão de Polícia.
39 Sobre esse ponto, Cerqueira observa a sua ineficiência: “[...] podemos dizer que este instrumento é bastante desconhecido da polícia brasileira, que ainda trabalha com dados estatísticos de forma bastante rudimentar” (CERQUEIRA, 2001, p. 99).
Já o Centro Comunitário de Defesa da Cidadania reunia, em um só órgão, defensoria pública, balcão de empregos e outros serviços. Em outros bairros da cidade, foram instalados postos de policiamento que atuavam a partir das demandas locais. Cerqueira também procurou aprimorar a formação policial, criando novas disciplinas para as academias de polícia, orientando os currículos para as “novas demandas sociais” (SILVA, 2012, p. 5). Neste sentido, foram ministradas também aulas sobre a história do negro no Brasil, visando, de forma pioneira, conscientizar o recruta sobre o caráter historicamente racista da violência policial. Com o objetivo de tentar um maior diálogo com a sociedade civil, o comandante da PMERJ disponibilizou documentos da corporação para a consulta pública, reativando o Centro de Documentação e Pesquisa e criando a Revista da PM. Foi também durante a gestão de Nazareth Cerqueira que foi instituído o Conselho de Ética da PMERJ, inspirado no Código das Organizações das Nações Unidas (ONU). Outras importantes iniciativas de sua gestão à frente da Polícia Militar: a criação do Grupo de Vigilância dos Estádios, do Núcleo de Atendimento a Crianças e Adolescentes e do Programa de Educação de Resistência às Drogas.
Os projetos de Brizola e Nazareth Cerqueira, contudo, depararam-se com o inevitável “descompasso entre a vontade do governador e a prática cotidiana da polícia” (CARDOSO, 2010, p. 34). Possivelmente, o histórico secular de violência da PMERJ prevaleceu sobre os ideais humanistas do coronel Nazareth Cerqueira. Contribuíram ainda para o insucesso das propostas transformadoras a percepção generalizada do aumento da criminalidade, o que fez com que o novo modelo fosse confundido com “uma espécie de cumplicidade com o crime” (SILVA, 2012, p. 4). Ao final dos quatro anos da gestão Brizola, Wellington Moreira Franco assumiu o governo do estado, vencendo o pleito contra o candidato brizolista Darcy Ribeiro, com a promessa de campanha de acabar com o crime organizado em seis meses. O que, obviamente, não aconteceu. Em 1991, Brizola foi reeleito e Nazareth Cerqueira assumiu novamente o comando da PMERJ, com o objetivo de retomar as propostas da década anterior. Devido a episódios como as chacinas da Candelária40 e de Vigário Geral41, ambas ocorridas em 1993, o oficial teve problemas ao tentar desmantelar os grupos de extermínio formados por policiais militares que agiam na cidade.
Nazareth Cerqueira morreu no dia 14 de setembro de 1999, aos 62 anos. Até hoje, as circunstâncias de sua morte não foram totalmente esclarecidas. O oficial foi assassinado com
40 No episódio ocorrido em 23 de julho de 1993, oito adolescentes, entre 11 e 19 anos, que dormiam em uma rua próxima à Igreja da Candelária, foram mortos a tiros por policiais militares encapuzados, a bordo de dois carros com placas encobertas.
41 Em 29 de agosto de 1993, 36 homens armados e encapuzados, entre eles policiais militares, assassinaram a tiros 21 moradores da favela de Vigário Geral.
um tiro disparado à queima-roupa, quando chegava à sede do Instituto Carioca de Criminologia, no Centro do Rio, onde passou a trabalhar após a aposentadoria como policial. O atirador, o sargento da PMERJ Sidney Rodrigues, também foi misteriosamente assassinado, em seguida, com um tiro na nuca, no mesmo local (Imagem 5).