4 ESTUDOS DE CASOS
4.1 ANÁLISE QUANTITATIVA 2014-2016
4.1.2 Cidade de Deus
A Cidade de Deus surgiu na década de 1960, com a política de remoções de favelas empreendida pelo então governador do estado da Guanabara, Carlos Lacerda. A construção do conjunto habitacional localizado no bairro de Jacarepaguá, zona oeste da cidade, foi financiada pelo Banco Nacional de Habitação (BNH). De acordo com o Instituto Pereira Passos (IPP), cerca de 70% das pessoas transferidas para a Cidade de Deus provinham de seis favelas localizadas na zona sul: Praia do Pinto, Catacumba, Ilha das Dragas, Parque da Gávea, Parque do Leblon e Rocinha (RIO+SOCIAL, 2017)55. As remoções foram uma política de Estado que, entre o início da década de 1960 e meados da década de 1970 – durante as gestões Lacerda, Negrão de Lima e Chagas Freitas – afetaram um contingente próximo de 100 mil pessoas. Passou a ser uma política de Estado a transferência de moradores de favelas da zona sul para locais distantes do centro econômico e financeiro da cidade. O episódio do incêndio que devastou a favela da Praia do Pinto – localizada entre os bairros de Leblon, Gávea e Lagoa – e deixou cerca de 40 mil pessoas sem moradia até hoje não foi totalmente esclarecido. No lugar dessa favela foi erguido o condomínio denominado Selva de Pedra, onde hoje habitam moradores das classes média e alta carioca.
Segundo informações do Censo Demográfico do IBGE de 2010, a Cidade de Deus tem uma população estimada em 47 mil pessoas, dividida em cerca de 135 mil metros quadrados (id.)56. Para atender a essas pessoas, foram instaladas três bases de UPPs, situadas nas localidades das Quadras, Apartamentos e Caratê (UPP CIDADE, 2017). A Cidade de Deus tornou-se internacionalmente conhecida a partir do filme de mesmo nome (CIDADE, 2002), que rememora a época em que o comércio varejista de entorpecentes ingressou nas favelas do Rio de Janeiro, tendo como consequências a repressão policial e uma escalada de violência cujos desdobramentos vivenciamos até os dias atuais. A Cidade de Deus está localizada às margens da Linha Amarela, via expressa que liga a zona norte à zona oeste da cidade e dá
55 Disponível em: <http://www.riomaissocial.org/territorios/cidade-de-deus/>. Acesso em: 11 jan. 2017.
acesso ao Aeroporto Internacional do Galeão/Tom Jobim. Ademais, a favela também se encontra próxima ao Parque Olímpico, principal sede dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos Rio 2016. Por essas razões, a instalação de UPPs naquele território pode ser considerada politicamente estratégica e justifica a sua escolha para esta análise.
Na presente pesquisa, foram encontradas 34 matérias publicadas em O Globo, entre 2014-2016, sobre as UPPs da Cidade de Deus. O pacote interpretativo com maior número de registros foi o Extensão da cidade formal (ECF), com 13 ocorrências (38,5%). Já o modelo narrativo Lei e ordem na favela (L&O) registrou 12 matérias (35%). Com seis matérias (17,5%), o pacote Liberdades civis sob ataque (LCSA) foi o terceiro mais registrado. Já o modelo narrativo Pobreza causa crime (PCC) aparece em quarto lugar com três matérias (9%). Já na pesquisa 2008-2011, o pacote mais registrado foi o L&O, com 55%, seguido do ECF, com 36%, LCSA, com 8%, e PCC, com 1%.
Ao comparar ambos os resultados, podemos analisá-los sob dois aspectos. O primeiro é que, mesmo quando não é predominante, o pacote L&O se mantém como um dos mais representativos em todas as UPPs. A perspectiva narrativa conflito/crime se sobrepõe à de normalidade/integração, induzindo o leitor a perceber as favelas como “local das classes perigosas” (VALLADARES, 2005), onde o “cidadão de bem” não deve entrar. À imagem violenta que a Cidade de Deus ganhou mundialmente através das telas do cinema somam-se reportagens cotidianas que contribuem para reforçar essa representação. Reportagem publicada no dia 3 de junho de 2016 relata a morte de uma mulher que teria gerado retaliação de traficantes da favela. “Houve intenso tiroteio, que levou pânico a moradores e motoristas que passavam pela região” (MORTE, 2016), informa o texto. Em outra passagem, a reportagem descreve o pavor por que passaram os moradores do “asfalto”:
A notícia da ação dos traficantes se espalhou por Jacarepaguá, e muitas pessoas evitaram deixar suas casas.
– O que dizem é que vão fechar a Cidade de Deus, e haverá retaliações. Eu mesma vim para casa correndo, com medo de que acontecesse algo – disse assustada uma moradora do Anil. (MORTE, 2016).
Outra interpretação possível dos números seria a de que eles indicariam não necessariamente um grande crescimento do pacote ECF, como pode parecer inicialmente; mas, sim, uma migração do pacote L&O principalmente para LCSA (migração de 9,5%) e PCC (migração de 8%). Desta forma, ao longo dos dois períodos, podemos ilustrar a permanência do patamar de matérias que, a partir da instalação das UPPs, apontam melhorias na qualidade de vida dos moradores das favelas, avanço de políticas públicas e ofertas de serviços, como na matéria publicada no dia 7 de dezembro de 2014:
O fundador da ONG Central Única das Favelas (Cufa), Celso Athayde, observou que esses indicadores (aumento do IDH das favelas) se somam a outros que mostram a vitalidade das comunidades. Ele cita pesquisa feita em setembro pelo Instituto Data Favela, que estimou em R$ 64 bilhões a receita gerada por moradores de favelas em todo o Brasil. Desse total, R$ 12 bilhões são do Rio:
– Os investimentos em urbanização e a implantação de UPPs serviram para impulsionar a economia das comunidades. Muitas famílias podem nem ter recebido tantos investimentos públicos ou sequer estarem no planejamento de ganhar uma UPP, mas o clima de expectativa da melhoria dos serviços já contribui para o ambiente. Isso se reflete nos indicadores. A nova classe média que surgiu nessas comunidades nos últimos anos muitas vezes opta por permanecer onde sempre vive – acrescentou Celso Athayde. (MAGALHÃES & ALVES, 2014).
Não obstante a anunciada ascensão da chamada “nova classe média”, o pacote que mais cresceu em termos de número de registros do período 2008-2011 para 2014-2016 foi o LCSA, que denuncia as violações de direitos e liberdades. Um crescimento de 9,5% de uma pesquisa para a outra, que pode ser representado nas reportagens sobre a morte do menino Lucas, de 12 anos, baleado no peito em meio a uma troca de tiros entre policias e traficantes (MENINO, 2014), na notícia sobre o ferimento sofrido por Tiago, de 15 anos, baleado na cabeça dentro da sala de aula (TORRES, 2014), e na reportagem sobre um ataque a tiros, em uma rua da favela, que tirou as vidas de Marcos Vinícius, de 11 anos, e Breno, de 15 (MENINO, 2015). Também cabe o registro do aumento do número de matérias classificadas no pacote PCC (8% da primeira pesquisa para a segunda), que apresenta a carência de políticas públicas e a estrutura social como causas para o ingresso na criminalidade. Apesar da aparente “ascensão das favelas”, O Globo publicou no dia 2 de junho de 2015 notícia sobre a existência de “bolsões de miséria” dentro daquelas comunidades. É interessante observar que, de alguma maneira, a narrativa acaba responsabilizando Jéssica pelo seu próprio insucesso:
Pouco estudo é o que impede Jéssica das Neves de avançar. Moradora de um barraco na Cidade de Deus, a jovem, de 25 anos, abandonou cedo a escola. Fugiu de casa, usou drogas e morou na rua. Hoje, treme na hora de preencher ficha para emprego: nunca aprendeu a ler e escrever direito. (ALVES &, GALDO, 2015).
No que se refere às declarações de fontes encontradas na análise da UPP Cidade de Deus, na presente pesquisa foram registradas 53 fontes não estatais e 41 estatais. Daquelas, 49% são creditadas a especialistas, 41,5% a moradores, trabalhadores, vítimas ou parentes de vítimas, e 9,5% a representantes de entidades do “asfalto”. Das fontes não estatais, 75% não apresentaram críticas às UPPs. Das 25% restantes, 13% manifestaram insatisfação pela ausência de políticas públicas, 10% por violações de direitos e liberdades e 2% pela ineficiência em impor lei e ordem. O baixo número de críticas talvez se explique pela predominância do pacote ECF, que apresenta, em grande parte, os benefícios gerados aos moradores através das
UPPs. Na pesquisa 2008-2011 foram registradas 51 declarações de fontes estatais e 25 de não estatais, sendo que apenas quatro (16%) avaliaram negativamente as UPPs. Podemos afirmar que, apesar de contemplar mais fontes não estatais na pesquisa 2014-2016, o crescimento do percentual de críticas (9%) não foi representativo. Ou seja, ainda que as matérias tenham dado voz aos moradores, suas declarações não foram suficientes para alterar o discurso predominante sobre a UPP Cidade de Deus.
Quanto às clivagens ideológicas registradas na pesquisa 2014-2016, do total de 34 matérias: 31 (92%) representam as UPPs como parte de um Estado democrático de direito; 33 (97%) como algo benéfico aos moradores das favelas e como parte de uma política permanente e consolidada. Já na pesquisa 2008-2011, os percentuais são bastante próximos: 95% representam as UPPs da Cidade de Deus como parte do Estado democrático de direito, 96% como benéficas aos moradores das favelas e parte de uma política permanente e consolidada.
Quadro 2 – Resumo pesquisa 2014-2016: Cidade de Deus.
Pacotes interpretativos
Lei e ordem Extensão da cidade formal Liberdades civis sob ataque Pobreza causa crime Total 12 13 6 3 Percentual 35% 38,5% 17,5% 9% Total: 34
Fontes: Estatais 41 x 53 Não estatais Especialistas: 26 (49%)
Moradores/líderes comunitários/trabalhadores/vítimas/familiares/profissionais: 22 (41,5%) Turistas: 0
Terceiro setor/comerciantes/empresários: 5 (9,5%)
Críticas de fontes não estatais às UPPs: 13 (25% das fontes não estatais)57
Ineficiência em impor a lei e a ordem: 1 (2% das fontes não estatais) Ausência de políticas públicas: 7 (13% das fontes não estatais) Violação de direitos: 5 (10% das fontes não estatais)
Gentrificação/Especulação imobiliária: 0
Clivagens ideológicas:
Estado democrático de direito 31 x 3 Estado policialesco UPP para a favela 33 x 1 UPP para o asfalto
Política permanente 33 x 1 Política efêmera