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4 ESTUDOS DE CASOS

4.1 ANÁLISE QUANTITATIVA 2014-2016

4.1.5 Rocinha

Assim como o Complexo do Alemão, não há consenso sobre a estimativa de moradores da Rocinha. O Instituto Pereira Passos (IPP) e a Secretaria Estadual de Segurança Pública utilizam os números do Censo Demográfico do IBGE de 2010, que estima em 69.156 os moradores da Rocinha, mais 1.924 da Vila Parque da Cidade, totalizando 71.080 pessoas (RIO+SOCIAL, 2017)68. Este dado, entretanto, é contestado mesmo pela Secretaria Estadual de Obras, que trabalha com o número de 101 mil moradores (ALVIM, 2017). Já a União Pró-Melhoramentos dos Moradores da Rocinha (UPMMR), uma das associações de moradores da favela, avalia que “entre 180 e 220 mil pessoas” (TABAK, 2011) habitem a região.

As terras da antiga fazenda Quebra-Cangalha, localizada na região compreendida entre a pedra do Morro Dois Irmãos e o Morro do Cochrane, passaram a ser ocupadas por volta de 1930, também de acordo com informações do IPP (RIO+SOCIAL, 2017)69. Os primeiros habitantes das chácaras cultivavam aipim, banana, agrião, repolho, couve, abóbora e outras hortaliças que eram vendidos na feira do Largo das Três Vendas (atual Praça Santos Dumont), na Gávea. À época, os consumidores diziam que os produtos tinham como origem as “rocinhas” do Alto da Gávea. Mais tarde, aquelas terras foram divididas e grande parte delas passou a pertencer às empresas Cia. Portuguesa Cássio Guidon, Cia. Cristo Redentor, Bairro Barcelos e Cia, Francesa Laboriaux, e algumas delas batizaram comunidades que hoje compõem a Rocinha, cuja área total é estimada em mais de 887 mil metros quadrados (UPP ROCINHA,

67 Seis fontes não estatais (30% do total) não apresentaram críticas às UPPs.

68 Disponível em: <http://www.riomaissocial.org/territorios/rocinha-2/>. Acesso em: 17 jan. 2017.

2017). O grande êxodo rural, ocorrido a partir da década de 1950, fez com que muitos imigrantes nordestinos buscassem a favela, onde poderiam estar próximos de oportunidades de trabalho. Nem mesmo a política de remoções, entre as décadas de 1960 e 1970, conseguiu reduzir a importância da Rocinha, onde vive hoje grande parte da força de trabalho que movimenta a economia da zona sul da cidade.

A UPP da Rocinha foi inaugurada em setembro de 2012 e conta com um contingente de 700 policiais. Foram identificadas 144 matérias publicadas em O Globo sobre a ocupação policial naquela favela. Destas, 86 (60%) foram classificadas no pacote interpretativo Lei e ordem na favela (L&O), 35 (24%) no modelo discursivo Liberdades civis sob ataque (LCSA), 17 (12%) no pacote Extensão da cidade formal e seis (4%) no modelo Pobreza causa crime. Os números são bastante próximos daqueles registrados no somatório total das oito UPPs analisadas no período 2014-2016.

Assim como na análise das UPPs do Alemão, foram encontradas muitas matérias que relatam ataques às sedes das unidades e aos policiais nelas lotados, principalmente nos primeiros meses de 2014. Uma delas, publicada no dia 12 de março daquele ano, descreve a ação de um grupo de moradores contra uma viatura policial: “[...] cerca de 15 pessoas, todas sem fuzis ou pistolas, encurralaram um carro da PM numa viela da favela à luz do dia e passaram a depredar o veículo: elas jogaram tijolos e quebraram os vidros laterais traseiros do automóvel” (A SERVIÇO, 2014). O texto enfatiza ainda que “quatro dos manifestantes agrediram os policiais, que não reagiram” (A SERVIÇO, 2014). Três dias depois, o jornal informa sobre um confronto entre policiais e traficantes no alto da favela, que não deixou feridos. Na mesma reportagem, o texto contabiliza “mais de 30 tiroteios” ocorridos desde dezembro daquele ano e relembra um caso em que dois oficiais foram atingidos: “há menos de um mês, um confronto deixou feridos o coordenador-geral das UPPs, Frederico Caldas, e a comandante da unidade na favela, major Priscilla Azevedo” (BANDIDOS, 2014). Já no dia 15 de junho do mesmo ano, uma reportagem relata que um policial daquela UPP sofreu um ferimento sem gravidade nas costas “durante troca de tiros com bandidos na noite de ontem” (PM É FERIDO, 2014). O texto informa ainda que, na mesma manhã do ocorrido, “policiais militares já haviam sido recebidos a tiros por bandidos durante um patrulhamento na localidade conhecida como Cachopa” (PM É FERIDO, 2014). Em 10 de novembro do mesmo ano, mais um policial da UPP da Rocinha foi baleado. A reportagem informa que outros policiais de outras unidades também foram atacados naqueles dias. “Com isso, subiu para três o número de PMs lotados em UPPs que foram baleados no fim de semana passado.” (TIROTEIO, 2014).

Entre as matérias classificadas no pacote Liberdades civis sob ataque (LCSA), destaque para aquelas que se referem ao caso do pedreiro Amarildo de Souza, torturado e morto após ser supostamente levado para averiguação à sede da UPP da Rocinha, em junho de 2013. Das 35 notícias deste pacote, nada menos do que 26 (74,5%) abordam ou fazem menção ao assassinato de Amarildo. Em reportagem publicada no dia 5 de fevereiro de 2014, o jornal informava que desembargadores da 5ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça declaravam a morte presumida do pedreiro (DECLARADA, 2014). A decisão permitia que a família reivindicasse pensão para a viúva Elizabeth Gomes da Silva, indenização e tratamento psicológico para seus filhos, o que foi feito e decretado judicialmente em novembro daquele ano (HERINGER, 2014). O Governo do Estado ainda chegou a recorrer da decisão, mas os desembargadores da 16ª Câmara Cível rejeitaram o recurso. Poucos meses depois, enquanto o processo de investigação do caso ainda acontecia, o jornal publicou matérias sobre a morte de duas pessoas envolvidas no assassinato do pedreiro, em um intervalo de apenas três dias. No dia 11 de março, uma nota publicada ao pé da página 12 informava sobre a execução de Adson Nunes da Silva, morto com um tiro na testa, em Mesquita, na Baixada Fluminense. Coincidentemente ou não, Adson Nunes da Silva trabalhava na UPP da Rocinha em junho de 2013 e desmentiu a versão de policiais acusados da morte do pedreiro. No entanto, como informa a reportagem, a “Polícia não vê relação entre PM morto e caso Amarildo” (2015). Já no dia 15 do mesmo mês, Victor Vinícius Pereira da Silva, de apenas 33 anos, detido desde outubro no Batalhão Prisional de Benfica, sofreu um infarto e morreu no Hospital Central da Polícia Militar. De acordo com o texto, Victor havia publicado, poucos dias antes de sua morte, uma mensagem em sua página na rede social Facebook: “a covardia está prestes a se concretizar... Aos meus amigos, peço que orem pela minha vida porque daqui pra frente tudo vai ser diferente” (POLICIAL, 2015). No dia 14 de julho de 2015, outra notícia envolvendo a morte de Amarildo informava sobre o desaparecimento de Lúcia Helena da Silva Lima e Wellington Lopes Silva, testemunhas que deveriam depor sobre o caso (RAMALHO & ARAÚJO, 2015). Finalmente, no dia 1º de fevereiro de 2016, sai o resultado do julgamento do caso Amarildo, dois anos e oito meses após o crime:

Vinte e cinco PMs foram denunciados. Pelo menos oito foram condenados por crime de tortura seguida de morte, ocultação de cadáver e fraude processual. Entre eles, o major Edson Santos, ex-comandante da UPP, que foi condenado a 13 anos e sete meses de prisão, depois de a juíza Daniela Alvarez Prado considerar que, por ser um oficial, deveria dar exemplo aos subordinados, o que justificou a duração maior de sua pena. (JUSTIÇA CONDENA, 2016).

Ao todo, 12 policiais foram condenados por torturarem, até a morte, Amarildo de Souza. Desses, sete foram expulsos da Polícia Militar e cinco respondem a processos disciplinares na

corporação, de acordo com reportagem publicada no dia 26 de fevereiro de 2016 (BOTTARI, 2016). Finalmente, no dia 11 de junho de 2016, o jornal informa que a Justiça determinou o pagamento de uma indenização à família do pedreiro no valor de R$ 3,8 milhões, divididos da seguinte forma: R$ 500 mil à viúva e a cada um de seus seis filhos, além de R$ 100 mil a cada um de seus três irmãos (MENASCE, 2016). No entanto, de acordo com o advogado da família, “o valor da indenização está abaixo do esperado, além de não contemplar a mãe de criação de Amarildo, Jurema Barreira, e a sobrinha, Michele Lacerda” (MENASCE, 2016). Michele concorda que o montante “não é suficiente para aplacar a dor da família”, mas que os parentes “ficaram satisfeitos em ver que a Justiça reconheceu a culpa do estado” (MENASCE, 2016).

Entre as matérias do pacote Extensão da cidade formal (ECF), destaque para aquelas que informam sobre os investimentos públicos e privados na Rocinha, a partir da instalação das UPPs. Considerada uma das maiores favelas da América Latina, a Rocinha seria a comunidade a receber mais recursos na segunda etapa do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC 2), do governo federal, anunciado em julho de 2014 (SALLES, 2014). A destinação seria para a construção de uma rede de água e esgoto, um teleférico com seis estações e capacidade para transportar até três mil pessoas por hora, além do alargamento de ruas, para facilitar a coleta de lixo. No entanto, reportagem classificada no pacote Pobreza causa crime, publicada em março de 2016, demonstrava que as referidas obras sequer haviam saído do papel (BACELAR, 2016). Com a mudança ocorrida no governo federal em 2016, o presidente70 Michel Temer extinguiu o PAC, dando início ao Programa Crescimento, Emprego e Geração de Renda (Crescer), que não previa recursos para projetos antes financiados pelo PAC (HEALY & MASTRIG, 2016). Matérias daquele pacote (o em menor número entre os quatro modelos narrativos) mostram como, apesar do esforço em apresentar as UPPs como benéficas aos moradores das favelas e como propulsora de políticas públicas sociais, os problemas socioeconômicos estruturais permanecem sem solução.

No que se refere às declarações de fontes publicadas nas matérias sobre a UPP da Rocinha, 158 são estatais e 108, não estatais. Destas últimas, 59 são conferidas a moradores, trabalhadores, vítimas e familiares de vítimas; 37, a especialistas; 12, a representantes do terceiro setor, empresários ou entidades do “asfalto”; e duas, a turistas. Do total dessas declarações, 78 (75%) apresentam críticas às UPPs ou ao Estado: 33 denunciam violações de direitos humanos e liberdades civis (no que o caso Amarildo contribui sobremaneira); 23

criticam a ausência de políticas públicas e 22, a ineficiência em impor a lei e a ordem. Apenas 25% delas não apresentam críticas.

Quanto às clivagens ideológicas, 116 das 144 matérias apresentam as UPPs como parte do Estado democrático de direito (80,5%) e 28 como parte de um Estado policialesco (19,5%). Apesar da cobertura da morte do pedreiro, os percentuais dessa clivagem são próximos aos encontrados no somatório geral: 82,5% Estado democrático de direito contra 17,5% Estado policialesco. Finalmente, 132 das matérias apresentam as UPPs como benéficas aos moradores das favelas e como parte de uma política permanente e consolidada; enquanto 12 consideram os moradores do asfalto os maiores beneficiados e as ocupações como parte de uma política efêmera.

Quadro 5 – Resumo pesquisa 2014-2016: Rocinha

Pacotes interpretativos71

Lei e ordem Extensão da cidade formal Liberdades civis sob ataque Pobreza causa crime Total 86 17 35 6 Percentual 60% 12% 24% 4% Total: 144

Fontes: Estatais 158 x 108 Não estatais  Especialistas: 37

 Moradores/líderes comunitários/trabalhadores/vítimas/familiares: 59  Investidores (Terceiro setor/empresários/outros): 12

 Turistas: 2

Críticas às UPPs de fontes não estatais: 78 (75% das fontes não estatais)72. Ineficiência em impor a lei e a ordem: 22 (21% das fontes não estatais) Ausência de políticas públicas: 23 (22% das fontes não estatais) Violação de direitos: 33 (32% das fontes não estatais)

Gentrificação/Especulação imobiliária: 0

Clivagens ideológicas:

UPP para a favela 132 x 12 UPP para o asfalto

71 O número total de matérias somadas das oito UPPs analisadas é maior que o total geral devido ao fato de terem sido computadas, caso a caso, matérias coincidentes.

Estado democrático de direito 116 x 28 Estado policialesco Política permanente 132 x 12 Política efêmera