2 PRODUÇÃO DE NARRATIVAS
2.1 POR QUE O DISCURSO IMPORTA?
Ainda que esta pesquisa não tenha como metodologia a análise do discurso da escola francesa, é preciso, ainda que de maneira breve, buscar compreender alguns conceitos sobre os quais trataremos: texto, enunciado e discurso. O texto remete à ideia de tecido, aquilo que é produzido a partir de fios para que se constitua uma vestimenta ou coisa que o valha. É a organização, por meio de um autor pensante, que “ganhará expressão e sentido quando, tecido, entrar na corrente das interações e usos dos discursos da sociedade” (FÍGARO, 2013, p. 12). Ou seja, é a célula inicial a partir da organização de ideias, pensamentos, conceitos etc. Para Charandeau e Maingueneau (2006, p. 466 apud FÍGARO, 2013, p. 13), texto “é aquilo que reúne, junta, ou organiza elementos diversos e mesmo dissociados”.
No entanto, para que o texto cumpra a sua função e entre no sistema de comunicação, é preciso que ele seja pronunciado, dito, escrito “por um enunciador, sujeito histórico situado,
26 Agradecemos a ideia da realização deste subcapítulo à professora Raquel Paiva, que, de modo sutil e perspicaz, apresentou a questão, que se revelaria fundamental para o desenvolvimento deste trabalho.
que entra na comunicação, ou seja, apresente-se, revele-se na enunciação” (FÍGARO, 2013, p.13). A enunciação, por sua vez, é “o pivô da relação entre a língua e o mundo: por um lado permite apresentar fatos no enunciado, mas por outro, constitui por si mesma um fato, um acontecimento único e definido no tempo e no espaço” (idem). Todorov e Ducrot (1987, p. 303, apud BRANDÃO, 2013, p. 27) também destacam a característica de singularidade da enunciação, que é, para eles, o “[...] ato pelo qual enunciados, frases sequências etc. se realizam, assumidos por um locutor particular, em circunstâncias espaciais e temporais precisas”.
Já o discurso é aquilo que “revela sua existência pelo uso, por estar na corrente da sociedade” (FÍGARO, 2013, p. 13). Em outras palavras, “o texto só é possível de ser abordado e compreendido como discurso, ou seja, no contexto de uso, em diálogo com a corrente de discursos à qual pertence” (FÍGARO, 2013, p. 14). Ficaremos por enquanto com esta definição, ainda que preliminarmente, para que, adiante, possamos explorar outras possibilidades desse conceito a partir da perspectiva de Foucault (2008).
Dito isto e para tentar responder à pergunta que batiza este subcapítulo, partiremos de um esforço teórico que servirá para responder a outras questões, ao longo deste trabalho. De acordo com Vera Malaguti Batista (2005), é preciso conjugar Marx e Foucault para compreender como se dá o processo que, historicamente, tende a objetificar, encarcerar, torturar e assassinar corpos negros e pobres desde o início do comércio escravista no Brasil. A autora utiliza os conceitos de “biopoder” (FOUCAULT, 1988) e de “mais-valia” (MARX, 1978) para expor como os corpos de pessoas em condição de escravidão foram utilizados para o trabalho não remunerado a fim da obtenção de lucros por parte da elite política e econômica brasileira, ao longo desses mais de cinco séculos. No artigo, Batista lembra que Foucault:
[...] trataria também o racismo como ideologia intrinsecamente vinculada ao empreendimento colonial que sugou e suga as veias abertas da América Latina. O biopoder conjugaria, na modernidade e na pós-modernidade, a extração da mais-valia, aprofundando o poder sobre o corpo do homem e sobre o seu tempo. No capitalismo industrial, esta relação com o tempo se difere da do pós-fordismo. Agora, o capital tem que se apropriar cada vez mais do tempo livre do homem. A mídia e o aparato publicitário tratam de ativar coletivamente os desejos e as almas que vão dar conta do controle social pela compulsão ao consumo: das marcas aos medicamentos (BATISTA, 2005, p.30).
O sistema penal, por sua vez, foi criado e mantido por todo esse tempo de modo a conservar inalterada a estrutura social, punindo corporalmente todos aqueles que se recusassem a aceitá-la, por meio de castigos, encarceramento e extermínio. Esta conjugação do biopoder com a mais-valia não se encerrou, mesmo após oficializada a abolição do regime escravista. Ainda que com a proibição formal dos açoites, continuaram a ser aplicadas penas de
encarceramento e, de modo ilegal e discricionário, a tortura e outros castigos físicos não apenas àqueles que recusem submeter-se ao trabalho mal remunerado e a pagar para consumir itens básicos de sobrevivência, mas também àqueles que simplesmente façam parte do excedente de mão de obra, habitando ruas e praças, consumindo entorpecentes ou, em outros tempos, portando instrumentos musicais; punidos, pois, são sob a alegação de prática de “capoeira”, “vadiagem”, “malandragem”, “mendicância”, uso, tráfico ou “associação ao tráfico” de drogas ou qualquer outro artifício penal em voga em qualquer tempo.
Retomando a pergunta-título deste subcapítulo, para o pensador marxista Mikhail Bakhtin (1997), é através da interação verbal que se dão as “relações recíprocas” entre a infraestrutura e as superestruturas. De acordo com Bakhtin, pensar a filosofia da linguagem é fundamental para desvelar as questões por detrás das relações sociais na contemporaneidade:
Pode-se dizer que a filosofia burguesa contemporânea está se desenvolvendo sob o signo da palavra. E essa nova orientação do pensamento filosófico do Ocidente está ainda só nos seus primeiros passos. A ‘palavra’ e a sua situação no sistema são a parada de uma luta inflamada somente comparável àquela que, na Idade Média, opôs realistas, nominalistas e conceitualistas (BAKHTIN, 1997, p. 26).
O autor trabalha com o conceito de ideologia, que, segundo ele, é constituída de signos. “Tudo que é ideológico possui um significado e remete a algo situado fora de si mesmo. Em outros termos, tudo que é ideológico é um signo. Sem signos não existe ideologia” (BAKHTIN, 1997, p. 31), afirma. Dito de outra maneira, o signo é tudo aquilo que contém ideologia. Por exemplo, a foice e o martelo na bandeira da União Soviética, dois instrumentos que, empregados desta maneira e nesta condição, são transformados em signos ideológicos. Por outro lado, “os instrumentos utilizados pelo homem pré-histórico eram cobertos de representações simbólicas e de ornamentos, isto é, de signos. Nem por isso o instrumento, assim tratado, torna-se ele próprio um signo” (BAKHTIN, 1997, p. 32). Já a palavra, por sua vez, “não é somente o signo mais puro, mais indicativo; é também um signo neutro”, e só adquire sua função ideológica ao ser “absorvida por sua função de signo” (BAKHTIN, 1997, p. 36). Em outras palavras, o signo nasce a partir de “uma função ideológica precisa e permanece inseparável dela. A palavra, ao contrário, é neutra em relação a qualquer função ideológica específica. Pode preencher qualquer espécie de função ideológica estética, científica, moral, religiosa” (BAKHTIN, 1997, p. 37).
A palavra também está “em todos os atos de compreensão e em todos os atos de interpretação” (BAKHTIN, 1997, p. 38). É através dela que constituímos a nossa cognição, apreendendo novos signos por meio de outros já conhecidos:
Os processos de compreensão de todos os fenômenos ideológicos (um quadro, uma peça musical, um ritual ou um comportamento humano) não podem operar sem a participação do discurso interior. Todas as manifestações da criação ideológica – todos os signos não verbais – banham-se no discurso e não podem ser nem totalmente isoladas nem separadas dele (BAKHTIN, 1997, p. 38).
Portanto, todo novo signo apreendido “resulta de um consenso entre indivíduos organizados no decorrer de um processo de interação” (BAKHTIN, 1997, p. 44). É por este motivo que “as formas do signo são condicionadas tanto pela organização social de tais indivíduos como pelas condições em que a interação acontece” (BAKHTIN, 1997, p. 44). No entanto, um outro aspecto do signo deve ser considerado: os índices de valor, quais sejam, objetos “da atenção do corpo social e que, por causa disso, tomam um valor particular” (BAKHTIN, 1997, p. 44). Para que estes objetos se tornem relevantes e, dessa maneira, resultem em um consenso no interior deste corpo específico, “é indispensável que ele esteja ligado às condições socioeconômicas essenciais do referido grupo, que concerne de alguma maneira às bases de sua existência material” (BAKHTIN, 1997, p. 45). Por meio das relações sociais, esses índices chegam à consciência individual, onde se tornam, “de certa forma, índices individuais de valor, na medida em que a consciência individual os absorve como sendo seus, mas sua fonte não se encontra na natureza interindividual” (BAKHTIN, 1997, p. 45). Em suma, para Bakhtin, a palavra, ao exercer a sua função de signo, é aquela que efetua as trocas necessárias entre os indivíduos na vida em sociedade e, em consequência disso, também atua na formação da consciência individual.
Já para Foucault (2008, p. 70), o discurso é um processo que se dá tanto por meio da exclusão e da negação, mas, sobretudo, de produção de “positividades”, ou seja, “o poder de constituir domínios de objetos, a propósito dos quais se poderia afirmar ou negar proposições verdadeiras ou falsas”. A importância de se estudar esse tema, para aquele autor, é pelo fato de que “o discurso não é simplesmente aquilo que traduz as lutas ou os sistemas de dominação, mas aquilo por que, pelo que se luta, o poder do qual nos queremos apoderar” (FOUCAULT, 2008, p. 10). De acordo com Foucault (2008, p. 20), durante muitos séculos a “vontade da verdade”, ou “a vontade de dizer o discurso verdadeiro”, criou procedimentos de exclusão, em que não apenas certos grupos sociais e marginalizados, como os loucos, os escravos, os encarcerados, não têm a palavra reconhecida, como a chancela de “verdade” é limitada a determinadas pessoas, em determinadas condições.
A vontade da verdade apoia-se sobre um “suporte institucional”, qual seja, um “sistema dos livros, da edição, das bibliotecas, como as sociedades de sábios de outrora, os laboratórios de hoje” (FOUCAULT, 2008, p. 17), que restringe as possibilidades de discurso e de vozes a
pronunciá-las. Todo este processo é realizado “pelo modo como o saber é aplicado em uma sociedade, como é valorizado, distribuído, repartido e de certo modo atribuído” (FOUCAULT, 2008, p. 17). A respeito do sistema penal, Foucault (2008, p. 18-19) cita “uma teoria do direito, depois, a partir do século XIX, [...] [todo] um saber sociológico, psicológico, médico, psiquiátrico” como o suporte institucional que lhe valeu a condição de discurso de verdade. Assim, a vontade de verdade atua no sentido de mascarar toda a “prodigiosa maquinaria” para encontrar a verdade e, desta maneira, “justificar a interdição e definir a loucura”, esta que poderia ser mais uma possibilidade de discurso, mas que termina por ser limitada, reduzida, excluída (FOUCAULT, 2008, p. 20).
Os sistemas de exclusão atuam de modo a tornar alguns discursos mais verdadeiros do que outros. Para que se torne “verdade”, um discurso precisa passar por uma série desses sistemas. Dentre os quais o comentário, o “segundo texto” que “permite construir (e indefinidamente) novos discursos: o fato de o texto primeiro pairar acima, sua permanência, seu estatuto de discurso sempre reatualizável” (FOUCAULT, 2008, p. 25). O segundo é o autor, não o indivíduo que escreve ou fala, mas aquele que organiza o discurso, que lhe dá unidade, origem, coerência. O autor é fundamental na construção do discurso, não apenas pelo que escreve, mas também pelo que não escreve, “aquilo que desenha, mesmo a título de esboço da obra, e o que deixa, vai cair como conversas cotidianas” (FOUCAULT, 2008, p. 29). Outro princípio de limitação do discurso são as disciplinas, que podem ser definidas como “um conjunto de métodos, um corpus de proposições consideradas verdadeiras, um jogo de regras e de definições, de regras e instrumentos” (FOUCAULT, 2008, p. 30). Elas podem variar de acordo com o tempo e o lugar, mas são a reunião de normas e condições por meio das quais um discurso pode ser considerado verdadeiro. Em outras palavras, a disciplina é “um princípio de controle da produção do discurso. Ela lhe fixa os limites pelo jogo de uma identidade que tem a forma de uma reatualização permanente de regras” (FOUCAULT, 2008, p. 36). Não basta, portanto, ao discurso ser verdadeiro, ele precisa estar disciplinado para ser considerado verdade, ainda que para isso seja um “erro disciplinado”. Foucault dá o exemplo do biólogo e botânico Gregor Mendel, que se utilizou de horizontes teóricos e métodos científicos “estranhos à biologia da época” (FOUCAULT, 2008, p. 34.) para investigar as leis da hereditariedade, a partir de pesquisas com plantas.
Mendel dizia a verdade, mas não estava ‘no verdadeiro’ do discurso biológico de sua época: não era segundo tais regras que se constituíam objetos e conceitos biológicos; foi preciso toda uma mudança de escala, o desdobramento de todo um novo plano de objetos na biologia para que Mendel entrasse ‘no verdadeiro’ e suas proposições aparecessem então, (em boa parte) exatas. (FOUCAULT, 2008,. p. 35).
Obviamente, aqueles que pronunciam o discurso também são limitados. É o que Foucault denomina de rarefação. “Trata-se de determinar as condições de seu funcionamento [do discurso], de impor aos indivíduos que os pronunciam certo número de regras e assim de não permitir que todo mundo tenha acesso a eles” (FOUCAULT, 2008, p. 36). Os exemplos daqueles que detêm a autoridade da fala são presumíveis: o sacerdote, o professor, o médico, o juiz, o jornalista, o governador etc.: “[...] ninguém entrará na ordem do discurso se não satisfizer a certas exigências ou se não for, de início, qualificado para fazê-lo” (FOUCAULT, 2008, p. 37). Para saciar as exigências deste sistema de restrição, é preciso que o indivíduo passe pelo processo que Foucault denomina de “ritual” (FOUCAULT, 2008, p. 38), ou seja, aquilo que “define os gestos, os comportamentos, as circunstâncias, e todo o conjunto de signos que devem acompanhar o discurso” (FOUCAULT, 2008, p. 39).
A crítica de Foucault à ordem do discurso é fundamentalmente a esses sistemas de exclusão, àquilo que se afirma como verdade e, ao mesmo tempo, descarta todas as demais possibilidades. Podemos observar esta característica nos discursos científico, médico, jurídico, econômico, pedagógico e outros tantos. Sob este aspecto é que se encontra, não apenas, mas a principal cisão entre a perspectiva da filosofia da linguagem, em sua abordagem marxista, de Bakhtin, e o pensamento de Foucault. Para este autor, as doutrinas filosóficas, políticas, religiosas etc. – ao contrário das “sociedades de discurso”, em que o número dos indivíduos que falam é limitado – se difundem a partir “de um só e mesmo conjunto de discursos que indivíduos, tão numerosos quanto se queira imaginar, definem sua pertença recíproca” (FOUCAULT, 2008, p. 42). Desta forma, a doutrina questiona não apenas os discursos divergentes dos dela, como também os indivíduos que os pronunciam:
A doutrina liga os indivíduos a certos tipos de enunciação e lhes proíbe, consequentemente, todos os outros; mas ela se serve, em contrapartida, de certos tipos de enunciação para ligar indivíduos entre si e diferenciá-los, por isso mesmo, de todos os outros. A doutrina realiza uma dupla sujeição: dos sujeitos que falam aos discursos e dos discursos ao grupo, ao menos virtual, dos indivíduos que falam. (FOUCAULT, 2008, p. 43).
Certamente é importante considerarmos a crítica de Foucault às ciências, aos enunciadores e ao que ele denomina de “doutrinas filosóficas”, dentre as quais podemos incluir o marxismo, devido aos processos de exclusão aos quais os discursos se submetem até que consagrem a sua “verdade”, em detrimento de outras tantas possíveis. No entanto, o que este trabalho está interessado é em buscar os pontos convergentes entre essas teorias, de modo a compreender a relevância dos discursos e, em específico, de que maneira aquele que trata sobre
o crime e a violência legitima uma política de segurança pública. Neste sentido, pensamos ser relevante também o pensamento de Bakhtin, que considera a palavra, repleta de sua função de signo, como aquela carregada de ideologia, e que realiza o papel de interlocução entre a infraestrutura e as superestruturas, em conjunção com o pensamento de Foucault sobre o discurso, aquilo que ele define como “uma verdade nascendo diante de seus próprios olhos” (FOUCAULT, 2008, p. 49). E, para que esta verdade nasça, é preciso que todas as demais morram, para que ela reine absoluta e sem concorrência.
Veremos mais adiante de que maneira essa ideia poderá se aplicar nesta pesquisa. Mas, se é possível antecipar, podemos pensar sobre como o discurso acerca do crime e da violência aparecem nos meios de comunicação. Podemos nos questionar quais são os indivíduos que detêm o poder de fala, conquistam mais espaços na imprensa, aparecem como vozes de autoridade e detentores de uma “verdade” indubitável, e quais são aqueles que têm sua fala limitada, reduzida ou mesmo silenciada; quais são os aspectos dessas falas mais ressaltados e quais são aqueles menos visíveis, ou simplesmente ocultados; e, não menos importante, qual o motivo de determinadas vozes e determinados enunciados terem prevalência sobre os outros. Foucault sugere uma resposta, entre outras tantas possíveis:
Há, sem dúvida, em nossa sociedade e, imagino, em todas as outras mas segundo um perfil e facetas diferentes, uma profunda logofobia, uma espécie de temor surdo desses acontecimentos, dessa massa de coisas ditas, do surgir de todos esses enunciados, de tudo o que possa haver aí de violento, de descontínuo, de combativo, de desordem, também, e de perigoso, desse grande zumbido incessante e desordenado do discurso. (FOUCAULT, 2008, p. 50).