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CAPÍTULO 4 AS COPRODUÇÕES BRASILEIRO-ARGENTINAS NO CONTEXTO DA ATIVIDADE CINEMATOGRÁFICA DO BRASIL E DA ARGENTINA

4.5 Ancine e INCAA: definições e diferenças elementares

No Brasil, a autoridade governamental responsável pela atividade cinematográfica é a Agência Nacional do Cinema, a Ancine, que é um órgão oficial federal que tem como atribuições o fomento, a regulação e a fiscalização do mercado do cinema e do audiovisual no País. Entre outras funções, cabe à agência “executar a política nacional de fomento ao cinema”, definida pelo Conselho Superior de Cinema, órgão colegiado integrante da estrutura da Casa Civil da Presidência da República.

Todas as competências da Ancine são discriminadas no artigo 7º da Medida Provisória 2228-1. No que diz respeito às coproduções, a Agência tem a competência de

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aprovar e controlar a execução de projetos de coprodução a serem realizados com recursos públicos e incentivos fiscais.

A seguir, discriminamos a parte que se refere às suas funções no âmbito de temas internacionais:

[...]

X – promover a participação de obras cinematográficas e videofonográficas nacionais em festivais internacionais;

XI – aprovar e controlar a execução de projetos de coprodução, produção, distribuição, exibição e infra-estrutura técnica a serem realizados com recursos públicos e incentivos fiscais, ressalvadas as competências dos Ministérios da Cultura e das Comunicações; [...]

XIII – fornecer Certificados de Registro dos contratos de produção, coprodução, distribuição, licenciamento, cessão de direitos de exploração, veiculação e exibição de obras cinematográficas e videofonográficas; [...]

XV – articular-se com órgãos e entidades voltados ao fomento da produção, da programação e da distribuição de obras cinematográficas e videofonográficas dos Estados membros do Mercosul e demais membros da comunidade internacional; [...] XXII – promover interação com administrações do cinema e do audiovisual dos Estados membros do Mercosul e demais membros da comunidade internacional, com vistas na consecução de objetivos de interesse comum; e

XXIII – estabelecer critérios e procedimentos administrativos para a garantia do princípio da reciprocidade no território brasileiro em relação às condições de produção e exploração de obras audiovisuais brasileiras em territórios estrangeiros. (Redação dada pela Lei nº 12.599, de 2012) (BRASIL, 2001).

Na Argentina, o Instituto Nacional de Cine y Artes Audiovisuales, o INCAA, é a autoridade governamental competente para tratar do setor audiovisual e cinematográfico no seu território nacional. O órgão funciona como ente autárquico público não estatal no âmbito da Secretaria de Cultura e Meios de Comunicação da Presidência da Nação.

Quanto às suas legislações específicas, a atividade cinematográfica no Brasil é regida pela Lei 8685/1993, a chamada Lei do Audiovisual. Enquanto na Argentina, o setor é regido pela Lei de Fomento e Regulação da Atividade Cinematográfica 24.377.

Para o fomento da atividade do setor, no Brasil, há o Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), enquanto os cineastas argentinos contam com o Fundo de Fomento Cinematográfico, cuja administração está a cargo da Ancine e do INCAA, respectivamente.

Dadas estas introduções, vejamos mais detidamente como algumas ações no âmbito das políticas cinematográficas dos dois países podem explicar o que ocorreu no campo da exibição, para chegar àqueles números mostrados nos quadros 20 e 21, citados no item anterior desse texto.

Como vimos nos dois quadros anteriores, as salas brasileiras exibiram 197 filmes dos Estados Unidos a mais que as salas argentinas, no período de 2009 a 2015. Por outro lado, o Brasil exibiu 325 filmes nacionais a menos que a Argentina. Enquanto o Brasil lançou 704

filmes brasileiros, a Argentina lançou 1029 filmes com a marca do cinema argentino, durante o recorte de tempo analisado.

Mas o que pode estar por trás desses números? Um modo de explicar tal situação são algumas medidas tomadas pelo governo argentino. A mais emblemática é a cobrança de um imposto de 10% sobre as entradas de cinema. O tributo é direcionado ao Fundo de Fomento Cinematográfico, que tem o objetivo de promover a autossustentabilidade do cinema argentino. A cobrança é prevista na Lei 17.741 (ARGENTINA, 2001). Essa política protecionista é igualmente um modo de verificar o nível de vantagens oferecidas a coprodutores internacionais.

Uma das semelhanças entre as legislações dos dois países a ser ressaltada é quanto à regulação que prevê obrigatoriedade de exibição de conteúdos audiovisuais nacionais dentro das programações de TVs, que implicam no “reconhecimento de direitos que antes eram negados ao reservar a exploração do espectro, que é um bem público, a uns poucos setores” (ARGENTINA, 2013, p. 235, tradução nossa). Vale ressalvar que, as leis abordadas a seguir são bem diferentes quanto às suas amplitudes, no entanto, estamos considerando nesse momento apenas ao aspecto relacionado à reserva de horas nos canais de TV por assinatura.

Entre os dois países, a pioneira nesse campo foi a Argentina, com a Lei de Serviços de Comunicação Audiovisual (LSCA) 26.522, a chamada Lei dos Meios, promulgada em 2009, que prevê a reserva de conteúdos nacionais na programação não somente nas TVs por assinatura, mas também nos serviços de radiodifusão sonora e na televisiva aberta. No caso, como determina o seu artigo 65, os serviços de radiodifusão de televisão aberta ficam obrigados a emitir um mínimo de 60% de produção nacional e no mínimo 30% de produção local independente em cidades com mais de um milhão e quinhentos habitantes; já nas estações localizadas em cidades com mais de seiscentos mil habitantes, o percentual diminui, a obrigação é de no mínimo 15% de produção local independente; e ainda um mínimo de 10% em outras localidades.

Dois anos depois, em 2011, o governo brasileiro promulga a Lei 12.485, a chamada Lei da TV Paga, regulação bem menos ambiciosa, mas que se tornou um marco na legislação audiovisual brasileira para a ocupação do mercado interno. Essa legislação assegura a veiculação de conteúdo nacional além de percentual para obras de produtoras independentes nos canais de TV por assinatura que exibem predominantemente filmes, documentários, séries e animação. Tal lei aumentou significativamente a produção de conteúdo audiovisual brasileiro pensado para esse tipo de janela. Mecanismos como este, comuns em países como

França, Espanha, Alemanha, Canadá e Reino Unido, são atrativos para coprodutores estrangeiros. Nesse contexto, de certa forma, a Lei dos Meios, na Argentina, e a Lei da TV Paga, no Brasil, também podem ser consideradas como mecanismos indiretos de apoio às coproduções internacionais.

Nas palavras de Mario Lozano, então reitor da Universidade Nacional de Quilmes, que prefacia o livro La Ley de la comunicación democrática (2013):

A Lei 26.522 de Serviços de Comunicação Audiovisual é uma das maiores conquistas das três décadas que completa este ano a democracia argentina. Foi construída a um consenso maduro durante anos, enriquecida em foros participativos ao longo e em todo o país e votada por amplas maiorias no Congresso formado pelo voto popular. É um instrumento fundamental para desmonopolizar e descentralizar o cenário midiático, habilitar novas vozes e democratizar a palavra. (LOZANO, 2013, p. 19, tradução nossa)

No quadro 22 a seguir, tratamos de sistematizar os modos de determinar alguns aspectos básicos em torno da atividade cinematográfica, onde pode-se perceber as diferenças quanto às definições de longa-metragem, filme nacional, coprodução e cota de tela; além de perceber em que regime jurídico estão enquadrados cada um dos órgãos públicos responsáveis pelo fomento, regulação e fiscalização do setor do cinema no Brasil e na Argentina.

Quadro 22 - Definições nas Políticas de Cinema e nas Resoluções ou Instruções Normativas sobre Coprodução Internacional no Brasil e na Argentina

ANCINE/