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O Programa Ibermedia segundo cineastas e agentes públicos entrevistados

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3.3.1 O Programa Ibermedia segundo cineastas e agentes públicos entrevistados

Mas qual tem sido a importância do programa Ibermedia para a realização cinematográfica no Brasil e na Argentina? Com tal investigação, pretendíamos compreender alguns traços peculiares de possíveis diferenças e semelhanças entre as coproduções nos dois países pesquisados. Nessa linha, durante as entrevistas realizadas, essa foi uma das indagações elementares feita tanto aos cineastas brasileiros e argentinos quanto às autoridades das entidades responsáveis pelo setor cinematográfico de cada um dos países.

122 Disponível em: http://www.programaibermedia.com/categorias-proyectos/proyectos/. Acesso em: 01 fev.

Especificamente sobre a pergunta: “Qual é a importância do Ibermedia para a Argentina?”, Diogo Marambio, International Affairs do Instituto Nacional de Cinema e Artes Audiovisuais (INCAA), respondeu:

É importante. Os cineastas utilizam o fundo Ibermedia. Mas diminuiu um pouco o fundo com a crise na Espanha. Mas é importante principalmente para os primeiros desenvolvimentos de coprodução, os primeiros filmes realizados em coprodução. É como dar um maior suporte, maior respaldo para quem está começando. Os que têm mais experiência em coprodução também aplicam Ibermedia porque é um fundo e se você pode acessar um fundo todos somam. Se você pode obter dinheiro do Ibermedia, melhor ainda. Mas aplicam o dinheiro de cada país e há fundos de países estrangeiros. Sempre é um apoio, o Ibermedia. Mas para aqueles que já estão mais experientes na coprodução provavelmente não é a principal ferramenta de coprodução. (MARAMBIO, 2014, em entrevista à pesquisadora, tradução nossa) 123 Mais insistentemente, tendo por base algumas entrevistas anteriores realizadas com o foco no Brasil durante o mestrado, buscamos saber se os cineastas com grande histórico de coproduções e mais conhecidos da Argentina preferem aplicar recursos de outros fundos europeus ao invés de recorrer ao Ibermedia. Nesse sentido, Diego Marambio complementou: “Se pode aplicar o Ibermedia, a maioria aplica ou tenta com o Ibermedia. Mas quando têm maior conhecimento de coprodução ou o projeto tem outra orientação: não necessitam ou não buscam o Ibermedia”. (MARAMBIO, 2014, em entrevista à pesquisadora, tradução nossa)

Em consequência da conjuntura econômica adversa da Espanha, nos veio a preocupação com o risco de amortecimento do fundo de investimento. Convém lembrar que este país desde o surgimento do Ibermedia tem sido o seu maior investidor. Nesse ambiente, surge a pergunta: “diante de tal crise, como fica esta situação?” Hugo Castro Fau (2014), coprodutor internacional e professor da ENERC, explicou que o problema já estava afetando o programa, conforme podemos ver mais detalhadamente no seu depoimento:

Ibermedia é uma das melhores coisas que já se passou na cinematografia latino- americana. O fundo Ibermedia consiste em contribuições dadas por distintas instituições cinematográficas mais a contribuição da Agência Espanhola de Cooperação Internacional, AS. Nos últimos anos, a AS diminuiu gravemente os aportes que fazia ao programa Ibermedia e isso complicou o aprofundamento do programa de coprodução ibero-americano. (FAU, 2014, em entrevista à pesquisadora, tradução nossa)124.

Com base nesse quadro e na ampla experiência como produtor e professor de cinema, nos pareceu útil buscar um prognóstico da situação para os próximos anos. Considerando

123 Ver esse trecho da entrevista no idioma original no Apêndice C desta tese, p. 6. 124 Ver esse trecho da entrevista no idioma original no Apêndice D, p. 4.

ainda que o Brasil é atualmente o segundo maior contribuinte do fundo, quisemos saber se havia alguma projeção mais precisa de que o quadro poderia se agravar. Nessa linha, Hugo Castro Fau argumentou:

Enquanto o governo espanhol seguir em frente com as políticas neoliberais, seguramente irá reduzir ainda mais o aporte para o fundo Ibermedia. Se alguma vez na Espanha assumir um governo progressista, imagino que contribuições ao Ibermedia subirá consideravelmente, o mesmo na Argentina, o mesmo no Brasil. Com Collor de Mello, desapareceram com o Instituto de Cinema no Brasil. Tiveram que vir governos progressistas no Brasil para que desde o Ministério da Cultura e desde a Ancine voltassem a existir novamente políticas cinematográficas. O mesmo ocorre na Argentina. Para que haja cinema tem que haver consumidores. O espectador, além de espectador é um consumidor. Para que uma pessoa consuma cultura primeiro tem poder encher seu estômago. Os governos neoliberais na América Latina não enchem os estômagos dos cidadãos. Portanto, não favorecem o cinema. (FAU, 2014, em entrevista à pesquisadora, tradução nossa).

Para Liliana Mazure (2014) - cineasta, política, deputada pela cidade de Buenos Aires e ex-presidente do INCAA - a presença da Argentina no programa Ibermedia foi de crucial importância. Vale destacar que Mazure, como cineasta, tem experiência em coproduções internacionais, especialmente com o México, o Peru e o Brasil.

O Ibermedia é um programa fundamental para a produção na latinoamérica.Se não fosse pelo Ibermedia, esses países não estariam produzindo. No Ibermedia, todos esses países coproduzem com a Argentina. A Argentina até o ano de 2012 investia três milhões de dólares ao ano em coproduções minoritárias associadas a diretores estrangeiros. (MAZURE, 2014, em entrevista à pesquisadora, tradução nossa125). No que diz respeito especialmente à crise econômica da Espanha e a relação com o financiamento do Ibermedia, Liliana Mazure responde apontando uma peculiaridade de coproduzir com a Argentina, um dos porquês do sobressaltante número de coproduções do seu país comparado tanto a vizinhos da Latinoamérica quanto a países de outras regiões:

Para a Argentina foi um golpe muito duro porque a Argentina coproduzia muitíssimo com a Espanha. Sobretudo por isso: porque convinha à Espanha coproduzir com a Argentina; porque podia filmar na Argentina com muito melhores custos de produção do que na Espanha; porque a Argentina tem um formato de produção diferente, um formato que tem seguido as regras do cinema independente, são equipes muito menores. (MAZURE, 2014, em entrevista à pesquisadora, tradução nossa).

Qué te parece la ayuda del Programa Ibermedia? Essa pergunta foi dirigida a Nicolas Batlle, cineasta argentino com experiências em coprodução internacional. Na época, o

seu último trabalho tinha sido Wakolda (2013), que estreou no Brasil como O médico alemão, uma coprodução entre Argentina (como país majoritário), Espanha, França e Noruega, como minoritários. O filme foi dirigido por Lucia Puenzo, conceituada cineasta argentina, que obteve importantes prêmios internacionais e, inevitável dizer, filha de Luís Puenzo, um dos nomes mais famosos do cinema latino-americano, diretor de A História Oficial (1985) - filme que trouxe para a Argentina o seu primeiro Oscar de melhor filme estrangeiro. Por sua vez, Nicolas Batlle (2014) declarou:

Ibermedia tem mais de dez anos e creio que tem sido fundamental para o desenvolvimento da cinematografia ibero-americana. Eu acho que é muito importante. Sobretudo quanto menos desenvolvida é a indústria desse país mais fundamental é o Ibermedia. Por exemplo, estou agora no Equador, que talvez não tenha tanta tradição cinematográfica como países maiores em tradição cinematográfica, como a Argentina, Brasil, México ou Venezuela. No entanto, um país como o Equador tem Lei de Cinema e há quinze anos atrás, produzia um ou dois filmes por ano, e hoje faz entre quinze e vinte filmes por ano. Isso tem a ver, por um lado, obviamente, pelas novas tecnologias e o digital, mas também tem que ver que países com menos tradição cinematográfica é muito importante a coprodução. Produzir é coproduzir porque os fundos locais não são suficientes para atender o financiamento de 100% de um filme. Assim, para os países em vias de desenvolvimento, o Ibermedia é uma ferramenta absolutamente essencial. Creio que é uma ferramenta para todos aqueles que fazem parte do espaço cinematográfico ibero-americano. Mas também é fundamental para os países que estão em um incipiente desenvolvimento, onde se o programa Ibermedia não continuar, será uma verdadeira catástrofe. Por isso, o mais importante me parece é que o programa Ibermedia siga tendo a continuidade que já tem há mais de dez anos. (BATLlE, 2014, em entrevista à pesquisadora, tradução nossa) 126

Na busca por outro ângulo de observação, agora na perspectiva de um pesquisador espanhol, entrevistamos, em Madrid, José Manuel Palacio, decano da Faculdade de Humanidades, Comunicação e Documentação da Universidade Carlos III e autor do artigo Elogio posmoderno de las coproducciones (2002). Respondendo ao nosso questionamento “Qual é a importância do Programa Ibermedia para a produção de filmes na Espanha?”, Palacio opinou: “A importância para a Europa é pequena, mas para a Latinoamérica é relativamente grande. É necessário pensar que as fronteiras estão relativamente limitadas, portanto, não é fácil estabelecer os mecanismos rápidos, amplos...” (PALACIO, 2015, tradução nossa) 127

Ainda na parte europeia da Ibero-América, dessa vez em Portugal, entrevistamos o realizador Tino Navarro (Constantino Alberto Fernandes Navarro), cineasta da produtora portuguesa MGN Filmes, com vasta experiência em coproduções internacionais. Navarro já

126 Ver a entrevista completa no Apêndice G. 127 Ver a entrevista completa no Apêndice F.

produziu filmes na Ásia, na Índia, nos Estados Unidos, no Brasil, na França, na Espanha e em Luxemburgo. “Já produzi para o mundo inteiro”, declarou o cineasta. Metodologicamente, é útil contextualizar ainda que, embora tivéssemos morado durante nove meses em Portugal, em virtude do doutorado-sanduíche, e já estivéssemos relativamente habituados com a peculiar forma de responder a perguntas de muitos portugueses e, naquela altura, percebéssemos as nuances de usuais diferenças culturais entre brasileiros e portugueses, especialmente no modo de construir um raciocínio, tal entrevista foi provavelmente a mais difícil de ser realizada tanto entre as realizadas durante o doutorado quanto em nossa trajetória como jornalista. Antes da entrevista, havíamos nos deparado com a informação de que Tino Navarro ocupava o cargo de diretor-presidente de uma das associações de produtores de cinema de Portugal, razão pela qual ilustrava o temperamento de algumas perguntas. Inclusive, o contato com o cineasta foi realizado a partir de telefonemas para a referida entidade. Após tal ambientação, prossigamos com o resultado da entrevista.

Diante da pergunta: “como o senhor percebe a importância do Programa Ibermedia para a produção de filmes em Portugal? Tem sido importante para os realizadores portugueses?”, Navarro contraria todos os outros entrevistados anteriores e responde o seguinte:

Não me faça perguntas genéricas porque não consigo responder a perguntas genéricas. Se fizer perguntas sobre a minha experiência e o meu ponto de vista pessoal... Eu não tenho que responder pelos produtores portugueses. Provavelmente, ajudará alguns produtores portugueses e outros não ajudará. Eu nunca utilizei o Ibermedia porque o Ibermedia é uma ficção um bocadinho estranha de misturas de países de língua portuguesa e de países de língua espanhola. E isso como é evidente complica um bocadinho as coisas. Não é natural. (NAVARRO, 2015, em entrevista à pesquisadora128).

Perante tal resposta, replicamos, buscando entender o conceito por trás daquele “natural”. “Não é natural, como assim?”. Nesse momento, Tino Navarro prosseguiu:

Os produtores portugueses não conhecem a realidade cinematográfica da Colômbia, ou da Venezuela, ou da Argentina, ou do Chile. Quem tem essa relação são os espanhóis, porque é natural. É muito complicado você ter projetos que possam envolver países tão diferentes. Pelo menos, para mim é. Provavelmente, para outros produtores o Programa Ibermedia é muito interessante. Não sei. Não posso falar por eles. (NAVARRO, 2015, em entrevista à pesquisadora)129.

128 Ver a entrevista completa no Apêndice I. 129 Ver a entrevista completa no Apêndice I.

Na tentativa de explicar a natureza da pergunta, prorrogamos o assunto: “Perguntei porque o senhor é o presidente da Associação de Produtores de Cinema (de Portugal)130”. Nesse momento, Navarro foi categórico: “Não sou, é um erro. Sobre isso, nunca falaria em nome da Associação de Produtores. Falo exclusivamente em meu nome pessoal, das empresas que eu dirijo e dos filmes que eu produzo”. (NAVARRO, 2015, em entrevista à pesquisadora).

Com base nesse quadro, é interessante destacar: desde 1998, quando o Ibermedia lançou a sua primeira convocatória, até 2015, um total de 38 projetos de filmes majoritários portugueses foram beneficiados com o programa, no eixo de coproduções internacionais. Enquanto isso, no período mais específico da nossa análise, de 2009 a 2015, foram contabilizados 13 filmes majoritariamente portugueses que receberam esse financiamento. Entre eles, as produtoras espanholas predominavam como as coautoras das obras; nenhum filme tratava-se de coprodução envolvendo a Argentina; e seis referiam-se a coproduções com o Brasil, O último voo de Flamingo (2010); O Manuscrito Perdido (2010); Embargo (2010); América – Uma História Portuguesa (2011); O Grande Kilapy (2012); e Tabu (2012).

Diante de tais ressalvas e diferentes pontos de vista, as entrevistas nos ajudaram a perceber alguns detalhes antes não reconhecidos e também a confirmar alguns pressupostos apontados no início da pesquisa. A criação do Ibermedia simboliza um marco para o modelo da coprodução cinematográfica entre a Europa e a Latinoamérica. Como podemos observar, no período analisado, o programa possibilitou a garantia da realização de filmes nos países integrantes do fundo, sobretudo ganhando salutar importância para os países onde não havia uma tradição de produção cinematográfica. De modo que, podemos dizer, embora possam ser identificadas algumas críticas ao Ibermedia, ele constrói uma trajetória fundamental de democracia audiovisual na Ibero-América. Um possível amortecimento do financiamento e dos objetivos do programa poderia significar um grande prejuízo para a diversidade cultural e cinematográfica na região.