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3 OS QUADROS E MARCOS DA MEMÓRIA SOCIAL: RECONSTRUINDO

3.2 OS QUADROS SOCIAIS DA MEMÓRIA: CONSENSOS E

3.2.3 As classes sociais e as memórias coletivas

Outro ponto importante quando Halbwachs (2004) realizou seu estudo sobre classes sociais, no qual ele desconsiderou o perfil socioeconômico dos indivíduos, ao desenvolver sua análise sobre necessidades das classes trabalhadoras na Alemanha entre guerras. Para esta análise, o autor se baseou “[...] em dados sobre os níveis de vida dos membros destas classes e as aspirações de hierarquia de gastos e seus pressupostos de consumo [...] (URTEAGA, 2013, p.153). Segundo Halbwachs (2004), “as classes sociais se distinguem uma das outras por suas representações coletivas e pelo lugar particular que ocupam na sociedade” (Idem).

É importante ressaltar que para a compreensão das formas como Halbwachs define este quadro social, considerando as concepções de vida de cada grupo a partir de seus membros e das relações sociais que se estabelecem nos referidos grupos, Urteaga (2011) faz uma análise acerca da abordagem sobre as classes sociais em todas as obras, na qual o autor explica que:

Na medida em que todas as análises de classes sociais de Halbwachs são baseadas em resultados de pesquisas, onde as categorias usadas nas últimas são tomadas como tal. Deste ponto de vista os trabalhos deste autor se aproximavam dos estudos de Marx. Este último era citado regularmente em seu assunto sobre classes sociais. À primeira vista, são impostas certas semelhanças, tendendo ao caráter realista do foco das classes e à referência permanente à consciência de classe (URTEAGA, 2011).

Entre alguns estudiosos de sua época, Friesdmann (1946) observou que estando interessado na sociedade industrial e nas relações de produção que influenciam a mentalidade, a sensibilidade e o comportamento social dos indivíduos, Halbwachs se aproximava da sociologia marxista. Mobilizando numerosos resultados de pesquisas realizadas com os trabalhadores, analisando dados acerca de orçamentos e a distribuição das despesas correntes, visitando casas, se fosse preciso, Halbwachs é provido com os meios necessários para falar de realidades objetivas e atribui grande transcendência às descrições referentes aos padrões de vida, às condições de trabalho nas fábricas e às manifestações das representações coletivas (consumo, frequência, formas de sociabilidade).

A segunda semelhança com Marx é a referência à consciência de classe como condição sine qua non de sua existência. Halbwachs levanta como um axioma de uma classe social que ela não existe enquanto não se percebe o lugar que é atribuído à hierarquia social. Para ele, "parece contraditório supor que a classe existe sem consciência de si mesma” (HALBWACHS, 1912).

Essas semelhanças aparentes não impediram que Halbwachs propusesse uma análise das classes sociais que diferisse profundamente da análise defendida por Marx. Duas diferenças fundamentais os separam. A primeira é o relacionamento estabelecido entre a adesão à classe e o modo de consumo e o nível de socialização; e não como em Marx, o lugar ocupado nas relações de produção. Enquanto a sociologia marxista é dominada pela presença de um antagonismo fundamental entre as classes que compõem a sociedade, Halbwachs privilegiou a dimensão da integração dentro de cada grupo social, mostrando o que reúne os seus membros, quais as condições materiais da vida compartilhada, os comportamentos e os sentimentos comuns, assim como a solidariedade que foi estabelecida. O autor relegou a um segundo plano não só a questão do contato entre as classes, mas também o seu caráter conflitivo. A segunda diferença refere-se à questão do número de classes sociais, pois durante muito tempo essa questão pareceu não ter preocupado Halbwachs. Para abordar este tema, o autor teve que aguardar a obra as “As Classes Sociais” (1937) e o esboço (1955) para que a estratificação social fosse ali contemplada como um todo, sem justificar verdadeiramente o modo de divisão escolhido. Para Halbwachs (1912), as classes sociais distinguem-se umas das outras não tanto pela sua posição no processo de produção e de acordo com seu padrão de vida, mas pela sua forma de consumir, seus gostos, suas preferências e o nível de participação na vida social. Dependendo das sociedades, pode se tratar do acesso a alguns bens simbólicos e intangíveis, aos mistérios, aos ritos sagrados, ao poder e às responsabilidades, o acesso à riqueza e aos bens materiais.

Enfim, para Halbwachs, a abordagem de classe enquanto quadro social da memória não se insere no contexto da produção e sim da solidariedade e coesão, como apresenta no texto “A memória social dos músicos, onde analisou a construção da memória deste grupo a partir das suas representações e do capital simbólico dos grupos, segundo argumenta Bourdieu (2001) quando trata de classe social. Não quero dizer que a definição de Halbwachs sobre classes sociais se equipare à teoria de Bourdieu, mas tento compreender os quadros sociais relativos à classe com base em parâmetros fundamentados nas relações estabelecidas em determinados grupos que possuem o mesmo fim, e que se unem por redes de interesses comuns.

No caso desta pesquisa, tomei como referência esta concepção básica de Halbwachs sobre quadros sociais da memória de classe, considerando-a em relação à classificação dos indivíduos a partir de suas representações compartilhadas nos grupos em que estão inseridos num determinado espaço social e no campo das relações sociais, neste caso, tratando da feira e hortomercado do bairro da Terra Firme. Neste sentido, busquei entender as interações e a construção da memória dos atores sociais que se inserem naquele contexto, sob as seguintes

categorias de classes: os que fazem parte de um tipo de atividade profissional, no caso, os trabalhadores da feira; um grupo de compradores denominados de consumidores da feira; e um grupo de moradores que foram classificados em duas categorias: os engajados nas lutas sociais do bairro e os não engajados, sendo considerados como indivíduos de classes diversificadas.

Os quadros da memória de classes mudam para adaptar-se aos novos valores que surgem na sociedade. Toda mudança nos quadros na memória coletiva de classes sociais conduz a uma mudança do seu sistema de valores de acordo com o tempo social destes grupos e das suas representações sociais, que variam de um grupo para o outro.

As lembranças coletivas mais importantes surgem e se conservam na parte da sociedade em que os homens exercem a sua atividade profissional não apenas em função da produção econômica, mas principalmente do capital social destas classes. Segundo Halbwachs (2004), quando ocorrem mudanças em uma sociedade, também mudam os quadros da memória de classe:

A memória coletiva de classe deve adaptar-se às condições modernas. O dia em que a sociedade for diferente do que era, no momento em que as tradições têm sido gestadas, aquela não encontraria mais em si mesma os elementos necessários para reconstruí-las, para consolidá-las e repará-las. Se veria obrigada a sustentar-se em novos valões e apoiar-se em outras tradições em melhor relação com suas necessidades e tendências atuais (HALBWACHS, 2004, p. 308).

Os quadros sociais asseguram às lembranças a ordem do tempo pela imagem; e a ordem do sentido pela ideia. Se os quadros sociais da memória são noções, é porque são passagens, mediações da imagem vivida numa sucessão temporal com significação, símbolo e ideia sobre a qual ela desemboca. O quadro configura uma dupla organização das lembranças: num tempo e numa lógica de sentidos.

E por uma série de reflexões nos parece que passamos de um objeto a outro, de um sentimento a outro, como se ao mesmo tempo em que no objeto e seu suporte exterior e no seu lugar, no tempo e no espaço, pensamos a sua natureza e significação. Em outros termos, objetos e acontecimentos se organizarão em novo espírito, de duas maneiras, seguindo a ordem cronológica de seu aparecimento e seguindo os nomes que lhe dá sentido que lhe é atribuído em nosso grupo. Cada um deles corresponderia a uma noção que seria, por sua vez, uma ideia ou imagem (HALBWACHS, 2004, p. 282).

Ao tratar o quadro social da memória como lugar da organização, da temporalidade e do sentido das lembranças do grupo, Halbwachs (2004) responde às teses de Bergson (1999; 2006), que se contrapunham à imagem e aos elementos de uma memória inteligente e social. Sua resposta toma a forma de um mito do trem de madeira, que simbolizava o quadro de duração da imagem e na eternidade da ideia.

Os quadros sociais da memória estão na duração e fora dela. Fora da duração, comunicam às imagens e lembranças concretas, de que são fatos, um pouco de sua estabilidade. Mas eles deixam prender em parte no curso do tempo. Assemelham-se a esses trens de madeira que descem ao longo dos cursos d’água tão lentamente que se passar sobre eles de um lado a outro, entretanto eles caminham e não são imóveis. São assim os quadros da memória; pode-se, seguindo-os, passar também de uma noção a outra, todas duas gerais e atemporais, por uma série de reflexões e raciocínios que descem ou sobem o curso do tempo de uma lembrança a outra, mais exatamente seguindo o sentido que se escolha para percorrê-lo, quer suba-se a corrente ou se passe de um rio a outro, as mesmas representações nos parecerão ora lembranças, ora noção ou ideias gerais (HALBWACHS, 2004, p. 289).

O poder unificador da memória é relativo a cada grupo particular. Trata se da experiência individual, da rememoração das lembranças familiares, religiosas, de classe e profissionais que o atestam. O indivíduo evoca suas lembranças auxiliado pelos quadros sociais da memória. Em outros termos, diversos grupos em que a sociedade se decompõe são capazes de reconstruir seu passado a cada instante (HALBWACHS, 2004, p. 289).

Este relativismo mostra que há tantas reconstruções do passado quanto grupos em que o indivíduo se faz presente, e essas reconstruções do mesmo acontecimento diferem segundo a deformação, a escolha e os esquecimentos que constituem a memória desses grupos. Mas, para Halbwachs (2004) “[...] temos visto mais frequentemente ao mesmo tempo que reconstroem, deformam, algumas vezes há ora fatos, ora detalhes de certos fatos que o indivíduo esqueceria se outros não guardassem as lembranças para ele” (HALBWACHS, 2004, p. 290).

Entende-se que os quadros sociais são os elementos catalizadores da memória e que, a partir disso, há sempre um jogo social de construção de sentidos. Dessa forma, nos diversos grupos surgem aqueles que serão os mediadores e/ou os guardiões da memória, os quais têm a função de garantir que determinadas dimensões do vivido pelos grupos, principalmente o familiar e o de classe, sejam mantidas na memória.

O marcos espaciais e temporais configuram-se nos espaços de memória como elementos materiais e simbolicamente constituídos pelo grupo social, transformando-se em espaços onde essas memórias são interpretadas de formas diversas pelos atores sociais. Percebe-se, assim, a complexidade da memória, pois resulta de uma multiplicidade de agrupamentos sociais e dos sentidos socializados. A memória torna-se assim um trabalho permanente no decorrer do tempo, através do qual os seus conteúdos são reconstruídos ou abandonados e até mesmo esquecidos pelos grupos.

Quando se projeta no estudo da memória social de grupos residentes em periferias de grandes cidades, busca-se compreender como se estruturam os sentidos da vida cotidiana e qual a sua importância e as implicações no campo da pesquisa sobre memória social.

3.3 - NOVAS ABORDAGENS SOBRE A MEMÓRIA SOCIAL