F I GURA 5: E STRUTURA D A E STRATÉGIA DE RESPOSTA
2. As dinâmicas nacionais dentro do transnacional
Como sugere a literatura sobre direitos humanos, há que se atentar para as diferentes escalas operando na formação de normas, uma vez que não existe um sentido único de construção de discursos e ferramentas transnacionais (GOODALE, 2007; FRIEDMAN, 2009). Em outras palavras, não necessariamente o transnacional determina as dinâmicas que se dão no local, assim como discursos transnacionais não se definem de maneira apartada e sem influência das dinâmicas locais.
Para entender o que poderíamos chamar de uma geografia variável no processo de construção e apropriação dos discursos transnacionais, ressaltar os processos de tradução e de translocalidade nos auxiliou a não estabelecer hierarquias fixas entre as escalas de prática e elaboração dos direitos.
O processo de tradução corresponde à apropriação de um determinado debate por grupos que não necessariamente elaboraram os termos do debate. Nos casos que analisamos, podemos afirmar que há processos de tradução simultâneos de temas que envolvem a saúde das mulheres. No debate em nível interestatal, as demandas por controle populacional foram traduzidos pelos representantes dos países subdesenvolvidos como tentativas de controle do desenvolvimento de suas populações. A resistência ao estabelecimento de metas internacionais de crescimento populacional em larga medida corresponde à não-aceitação da responsabilização das populações locais pela falta de desenvolvimento. Em âmbito nacional, as organizações de mulheres entenderam que o controle populacional vinha com uma carga negativo para o exercício da sexualidade das mulheres, fazendo- se necessária a mudança dos termos do debate: fala-se então na atenção integral à saúde da mulher, com planejamento familiar e uma abordagem ampla à saúde, como forma de atender aos anseios femininos de definição do número e do espaçamento do número de filhos.
A substituição da ideia de saúde integral pela noção de direitos reprodutivos é mais curiosa no que se refere a sua chegada ao Brasil. Como vimos, as ativistas atribuem aos direitos reprodutivos uma carga desmobilizadora na luta pelas políticas de saúde para as mulheres. No entanto, o uso da ideia de direitos sexuais e reprodutivos é recorrente seja no nome, seja nos documentos das organizações de mulheres. Como provável razão para a adoção mais literal desta agenda pode-se destacar a forma como o conceito ganha atenção transnacional: ele é fruto de um processo longo de discussões em que os interesses mais tradicionais de restrição dos direitos das mulheres – defendidos por autoridades religiosas católicas e islâmicas – são substituídos por uma definição de direitos reprodutivos. Ou seja, a carga simbólica de resistência já está vinculada à própria construção da ideia de direitos reprodutivos, o que implicaria uma menor necessidade de resistência ao conceito no nível local. Outra possível explicação remete-se às hierarquias entre financiadores e as organizações: a agenda dos direitos reprodutivos ecoa de forma mais sistemática no Brasil porque a necessidade de conseguir fundos durante os anos 1990 faz que as organizações locais adaptem suas ações e documentos às exigências dos financiadores internacionais, limitando a capacidade de tradução das organizações locais.
O caso da mortalidade materna e do Rede Cegonha traz elementos diferentes sobre a tradução. Por um lado, o debate sobre humanização e a importância da redução da medicalização dos corpos
das parturientes é uma preocupação constante das ativistas da ReHuNa desde a sua criação no início dos anos 1990. Em larga medida, os programas de implementação do SUS tiveram a humanização do atendimento como foco. Para ativistas e gestoras de políticas públicas, a redução da mortalidade materna passa por um processo de humanização do atendimento às gestantes. Ou seja, ao longo do tempo o debate sobre mortalidade materna no Brasil tem uma proximidade grande com o debate da qualidade de atenção às mulheres. No entanto, em 2011, quando o debate sobre mortalidade materna modela o programa Rede Cegonha, o debate sobre humanização fica subsumido na construção de uma rede de serviços que lidaria com a entrega de mulheres em trabalho de parto para espaços garantidos de parir. O ruído que se coloca na tradução dos ODM na perspectiva do movimento de humanização do parto são os debates da campanha eleitoral de 2010. O que há então são duas traduções: a tradução do debate transnacional e a tradução do debate eleitoral em uma política ou uma estratégia de atenção às mulheres que produz a adoção do paradigma de saúde materno-infantil e o afastamento da ideia de integralidade nas políticas de saúde para as mulheres.
A tradução no caso da epidemia do vírus Zika se dá na construção de uma ameaça de saúde e na promoção dos direitos reprodutivos das mulheres. A ameaça de saúde é construída a partir da determinação da ESPIN no país e da posterior comunicação do Brasil à OMS: a emergência de caráter local ganha proporção nacional e em seguida global. Nesse último movimento, há uma mudança do problema: o problema central sobre a epidemia deixa de ser o vetor e o seu controle e passa a ser a falta de conhecimento sobre as formas diferentes de transmissão da epidemia, assim como a necessidade de produção de vacinas e de meios eficazes de combate ao vírus. A vinculação entre a contaminação pelo vírus Zika durante e gravidez e o nascimento de crianças microcefálicas aliada à mudança da caracterização do problema permite que as organizações do movimento de mulheres, sobretudo o movimento feminista, passe a defender que a epidemia do vírus Zika é uma ameaça aos direitos reprodutivos das mulheres, particularmente das mulheres em situação de vulnerabilidade ambiental. Nessa chave, os temas da oferta de cuidado em contraponto à participação na economia produtiva no caso das mulheres mães de bebês com microcefalia e da capacidade de as mulheres negociarem o uso de preservativos com os companheiros para evitar a transmissão sexual do vírus ganham maior importância, deslocando o debate do mosquito e da pesquisa científica.
Juntamente com o processo de tradução dá-se um processo de translocalização dos discursos: cada tema quando debatido por diferentes movimentos de mulheres, que refletem as diferentes posições que as mulheres ocupam na sociedade ressaltam elementos diferentes do mesmo problema. No caso da saúde integral, a participação do movimento de mulheres negras problematiza a
esterilização compulsória como prática recorrente dentro das iniciativas privadas de planejamento familiar da década de 1980. O debate sobre mortalidade materna, quando abordado por mulheres negras ressalta o racismo institucional que determina a maior mortalidade de mulheres pretas e pardas, assim como o maior sofrimento dessas mulheres por falta de alívio da dor, da demora no atendimento, por exemplo. O movimento feminista ressalta o papel dos abortos inseguros como principal razão dos altos índices de mortalidade materna. Por sua vez, as ativistas pela humanização do parto ressaltam o exagero da medicalização, por exemplo pelo número exagerado de cesáreas, como causa das mortes de mulheres durante a gravidez, o parto e o puerpério. Para o debate sobre o vírus Zika, as versões do movimento de mulheres é menos variável, as organizações ressaltam o ataque aos direitos reprodutivos das mulheres e a falta de atenção às mulheres que terão que se dedicar exclusivamente como cuidadoras das crianças com a síndrome congênita do vírus Zika. Desde o ponto de vista do Estado brasileiro e das agências interestatais da ONU, a ênfase é no desenvolvimento de estratégias para o controle da epidemia – seja via combate do vetor, seja via desenvolvimento de drogas capazes de lidar com os efeitos da contaminação – em que pese o reconhecimento da especificidade da epidemia para as mulheres.
Assim, podemos concluir que há constantemente processos de tradução que se baseiam nos locais ocupados por indivíduos e organizações que lidam com os temas com implicações locais, nacionais e transnacionais. Em outras palavras, tradução e translocalidade fazem parte dos debates transnacionais. Como consequência, não é possível se manter o debate do transnacionalismo em torno de uma ideia fixa de enquadramentos (frames), na medida em que em diferentes níveis e posições do debate sobre determinado tema, as percepções sobre a mesma ideia e o mesmo problema variam muito.