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Um dos legados da Segunda Grande Guerra Mundial foi a quase extinção das reservas petrolíferas americanas que, durante o esforço bélico, haviam respondido por seis de cada sete barris fornecidos às tropas aliadas. Diante da rápida depleção de suas jazidas, o governo americano, então nas mãos de Theodor Roosevelt, determinou o primeiro estudo sobre as implicações do rápido decréscimo de petróleo. O trabalho ficou a cargo de William Ferris, assessor do Conselheiro Geral do Departamento de Estado, Max Thornburg. Os estudos, iniciados em 24 de novembro de 1941, consolidariam as bases da política externa americana para todo o Oriente Médio. O documento propunha a conservação do que restava das jazidas americanas e indicava a necessidade de políticas mais agressivas para garantir o acesso dos Estados Unidos ao petróleo do além-mar. Dentro desta mesma linha, outro documento que viria a público, em 1944, optava pela manutenção das reservas ocidentais e, ao mesmo tempo, propunha a expansão da produção petrolífera no Oriente Médio.

O impasse, provocado pela rápida queda nas jazidas americanas, levou Roosevelt a se encontrar com o monarca saudita Abdul Aziz ibn Saud a bordo do USS Quincy a 14 de fevereiro de 1945, logo após a assinatura dos acordos de Yalta. Apesar do conteúdo da conversa de cinco horas não ter sido gravado, os estudiosos apontam que, a partir do encontro, estabeleceu-se uma “aliança tácita” entre os dois países. Os pontos centrais teriam sido petróleo, para os americanos, e segurança, para os sauditas, estabelecendo o laço que, até

hoje, se mantém entre petróleo e guerra. Não podemos sequer pensar o pós-guerra sem levar em consideração a extração, refino e escoamento do petróleo, sobretudo árabe, para as economias liberais do Ocidente (e Japão). Foi com as jazidas petrolíferas do Oriente Médio que o esforço de reconstrução destas nações européias pôde ser levado a cabo. O petróleo foi responsável, em larga medida, pela estruturação de todo o arranjo capitalista pós-Yalta. Esta relação umbilical entre Estados Unidos e Arábia Saudita, em particular, e países produtores de petróleo, em geral, foi determinante na elaboração do que viria a ficar conhecido como as doutrinas dos presidentes americanos. Mais do que meros discursos, elas podem ser vistas como verdadeiras políticas hegemônicas, direcionadas para o domínio do Oriente Médio. São princípios de política externa.

A primeira delas, a “Doutrina Truman”, é também um dos maiores signos da Guerra Fria que, então, começava. No início da Segunda Grande Guerra, Reino Unido e URSS invadiram o Irã para impedir que o petróleo persa – sem falar na posição estratégica do país – caísse nas mãos das potências do Eixo. O acordo entre ingleses e soviéticos previa retirada de suas tropas do solo iraniano após seis meses do fim da guerra. A URSS, além de não se retirar depois do conflito, ainda fomentou insurreições internas no Irã, ajudando na criação do Azerbaijão. O governo americano, por meio de seu embaixador na URSS, George Kennan, comunica sua “insatisfação” com a política soviética no Irã. O embate acaba por levar Stálin a retirar suas tropas. Tendo em vista este contexto, o teor do discurso de Truman postulava a ajuda americana a qualquer nação ameaçada pela “subjugação comunista”, o que desencadeou ajudas militares à Grécia, Turquia e Irã. A partir daí, estes três países se tornariam sólida barreira de proteção às jazidas sauditas. A “Doutrina Eisenhouwer” também se pautou pela tentativa de extirpar o que a administração americana pensava ser a influência soviética na região. Á época, o líder egípcio Gamal Abdel Nasser havia fechado acordo de compra de armas com a então Tchecoeslováquia (1955) para, um ano depois, nacionalizar o canal de Suez. O ato levou à invasão do Egito por uma liga de nações (Reino Unido, França e Israel). A falta de apoio americano parece ter sido determinante para o desenlace do conflito, que culminou com a retirada das tropas invasoras. Como resultado, Nasser passaria a comprar armas, diretamente, da URSS. Na mesma linha de Truman, Eisenhower, em 5 de janeiro de 1957, autoriza o uso de forças combatentes americanas para defender países aliados aos Estados Unidos.

Grosso modo, não há como descolar o conteúdo e as práticas de repasse de verbas e armamentos, implícitas nestas doutrinas, da concepção dicotômica e simplista que pautou a

Guerra Fria. Se os povos do Oriente Médio se insurgiam, em grande medida, contra o domínio de potências estrangeiras sobre suas riquezas minerais, este processo é percebido pelas lentes oculares do perigo comunista. As lutas de independência árabe, determinadas, muitas vezes, por projetos de nação soberanos sobre suas jazidas, eram reconvertidas em insurreições comunistas ou processos políticos que, no final, se converteriam em tomadas comunistas. Seja como for, os líderes americanos não deixaram de intervir no Oriente Médio. Já em 1958, os Estados Unidos enviaram tropas ao Líbano para apoiar o presidente pró- ocidental, Camille Chamoun, contra insurreições internas. Os soldados se retirariam quatro meses depois, com a vitória da facção pró-ocidente. Em 1963, Kennedy enviaria aviões americanos para ajudar a conter os rebeldes do sul do Iêmen, que atacaram a Arábia Saudita. Foi a primeira vez que um governo americano mostrou real disposição de combater pelos interesses da família real saudita.

O legado da Guerra do Vietnã, por outro lado, impediu que Nixon prosseguisse o repasse direto de verbas e armamentos a monarquias e ditaduras no Oriente Médio. A pressão da opinião pública parece ter impedido novas invasões imediatas a outros países, o que obrigou a transferência do papel de proteção de interesses americanos a países aliados. Em julho de 1969, a “Doutrina Nixon”, segue outra direção: os repasses de armas passam a ser feitos sob uma condição, a de que os países recipientes se responsabilizem por sua própria proteção. Aumentam os repasses de armas a Israel e Arábia Saudita, de aportes financeiros e treinamento técnico-militar. Seja como for, a política de Nixon não impediu a participação saudita no embargo do petróleo em 1973 em retaliação a Washington por seu apoio a Israel.

O panorama político da época, porém, mudaria dramaticamente com a queda do Xá no dia 16 de janeiro de 1979 e com a invasão do Afeganistão pelas tropas soviéticas. Estes dois acontecimentos foram vistos pela administração americana como emblemas do fracasso da política de Nixon no Oriente Médio, o que desencadeou uma profunda revisão da doutrina então vigente para a região. O Irã deixaria de ser um grande escudo protetor ao mesmo tempo em que as tropas soviéticas estavam no Afeganistão, fatos que elevaram o Oriente Médio ao topo da agenda de segurança americana. Os fatores acima expostos mostram, com clareza, que as novas condições históricas determinaram um rearranjo da política externa do novo presidente, Jimmy Carter. No dia 23 de janeiro de 1980, Carter definiu o petróleo como de “interesse nacional vital” para os Estados Unidos e, segundo ele, para proteger esta riqueza seriam usados “todos os meios necessários inclusive força militar”. Uma das conseqüências desta nova direção política para ao Oriente Médio – talvez fosse melhor dizer, de maior

explicitação da antiga política americana para a região – foi o estabelecimento da Força de Projeção Rápida. Este pequeno centro militar se transformaria, no governo Reagan, no Comando Central. De qualquer forma, desde sua origem, o objetivo desta força expedicionária consistia em coordenar as operações militares na região do Golfo Pérsico.

Reagan, além de elevar o escritório a um verdadeiro comando, ainda aumenta o repasse de armas e financiamentos à Arábia Saudita. È sob este contexto que deve ser vista a relação entre Estados Unidos, Arábia Saudita e Paquistão no apoio e treinamento dos guerrilheiros contra a União Soviética que, depois, se espalhariam por todo o Oriente para a “guerra santa”. Com o dinheiro saudita e treinamento ministrado pela exercito paquistanês, os jihadistas puderam enfrentar os soviéticos e, por fim, vencê-los. Reagan ainda fornece, possivelmente a partir de 1982, ajuda aos iraquianos na guerra contra o Irã por meio dos “créditos agrícolas”, usados na compra de armas, treinamento e confecção de material químico. Até que os repasses se tornam mais complexos e passam a ser provenientes da venda de armamentos americanos aos iranianos. Essa verdadeira triangulação EUA-Irã-Nicarágua se tornará escândalo internacional (Iran-contras).

Para Michael Klare, quando as tropas americanas chegam à Arábia Saudita para defendê-la contra o “iminente” ataque de Saddam Husseim, Bush pai estava dando prosseguimento à política americana de manutenção de seu domínio sobre as jazidas petrolíferas da região. Ao mesmo tempo, a família saudita havia negado a oferta de ajuda para defesa de seu território feita por Osama bin Laden. A decisão da monarquia saudita nunca seria perdoada pelos jihadistas, já que permitiu o maior embate, até então, entre os exércitos cristão e muçulmano.

Bush filho assume a presidência em meio a uma grande crise energética. Com a criação do Grupo de Desenvolvimento de Política de Energia Nacional, nas mãos de Dick Cheney, o resultado das pesquisas já está definido de antemão. Antigo membro da cúpula da Halliburton, uma grande firma prestadora de serviços de petróleo, Cheney gerencia contatos com as mais diversas empresas do setor energético, como Texaco, Enron etc. O resultado, concretizado na Política de Energia Nacional, em 17 de maio de 2001, opta pela perpetuação da dependência da economia americana do modelo desenvolvido nos últimos anos. O documento aponta que a importação de petróleo americana terá que aumentar em torno de 68% entre 2000 e 2020 (de 11 a 18,5 milhões de barris por dia). Esta previsão exige alianças com países ricos em petróleo e relações estreitas entre governo e empresas privadas do setor. O Departamento de Energia americano, por sua vez, apontava, em 2003, que países como

Iraque, Kuait, Qatar, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos deveriam aumentar sua produção de 22,4 para 45,2 milhões de barris por dia apenas para satisfazer as projeções de consumo americano e internacional (de 2001 para 2025). Como resultado, o departamento pede políticas de apoio à abertura do setor energético daqueles países aos investimentos estrangeiros.

Todas estas idéias já haviam sido desenvolvidas em anos anteriores. O Guia de Plano de Defesa (GPD), para os anos de 1994 a 1999, traz consigo as grandes diretrizes para a manutenção do domínio americano no planeta. O plano não apenas aponta para a necessidade de prevenção contra um novo grande rival; seu cerne destaca a importância de impedir que o rival tenha acesso a regiões ricas em recursos. De acordo com seu autor, Paul Wolfowitz, que então trabalhava para o secretário de Defesa, Dick Cheney, caso o país rival conquiste controle sobre tais recursos, ele adquiriria poder sobre todo o planeta. Daí, a necessidade de que o acesso às jazidas petrolíferas do Oriente Médio seja permitido apenas às potências ocidentais. O conteúdo deste documento secreto, que acabou vindo a público, foi sintetizado pelo senador democrata, Joseph Biden, como a “Pax Americana”. A repercussão foi tamanha que o teor do documento teve que ser reescrito, especialmente no que dizia respeito à dominância global.

Os números, neste caso, são sempre cruciais. Em 1940, os Estados Unidos começam suas importações. Dez anos depois, as importações chegam a 10% do total do petróleo consumido; em 1960, atingem 18%. Na década de 70, chegam a 36%. Nesta mesma década, começa o declínio da produção doméstica de petróleo (1972). Já em 1973, as importações eram de cerca de 30% atingindo os 40% três anos depois. O final da década é ainda mais dramático em virtude de que ao aumento do consumo se aliam dois eventos políticos de grandes dimensões – a queda do Xá e a invasão soviética do Afeganistão. Carter então definiria o fluxo de petróleo para o Ocidente como “questão de segurança nacional”. Passando por todos os presidentes, os dois Bush, Clinton e, agora, Obama, este princípio de política externa, magistralmente registrado na Doutrina Carter, parece ser a pedra de toque da hegemonia americana no Oriente Médio. Neste sentido, a figura de Obama apenas encobre uma complexa e longa política hegemônica de controle de recursos minerais que havia perdido quase todo seu capital político em virtude das invasões bárbaras da administração Bush. Observando as atitudes do atual governo – suas invasões e assassinatos no Paquistão e no Iêmen – fica claro que a política da nova administração procura deslocar o eixo do domínio para o sul da Ásia. Tendo em vista a fragmentação do Iraque em três grandes zonas,

é a região turbulenta do Afeganistão e adjacências que parece estar sobre escrutínio da Casa Branca – sem mencionar, é claro, o Irã, na mira de Israel. O capitalismo é, de fato, um sistema complexo que, para se legitimar, pode, naturalmente, lançar mão de várias raças, cores, etnias e credos.

século XIX até seus terríveis desdobramentos ao longo dos últimos anos. Buscamos, em rápidas pinceladas, traçar um amplo painel dos conflitos entre Israel e Palestina, desvendando as raízes objetivas do processo colonizador na região. Neste sentido, enfocamos o legado da década de 1970, na qual as propostas dos povos árabes foram suplantadas pela política dos governos americano e sionista – não esquecendo o papel de Henry Kissinger. Em seguida, procuramos analisar a guerra de 1982 que, em grande medida, configurou o panorama político do Oriente Médio, abrindo caminho para os Acordos de Oslo e suas trágicas conseqüências. Ainda enfocamos os Acordos de Campo David (entre Barão e Arafat) para, em seguida, entrarmos na época recente da história deste processo colonizador, que culminou com as duas Intifadas, o massacre de Genes e, finalmente, a invasão seguida de massacre em Gaza. Também lançamos mão dos relatórios de Richard Goldstone, que investigou os crimes de guerra praticados tanto por Israel quanto pelo Hamas, além do documento de Álvaro de Sotto, diplomata peruano que participou do grupo intitulado, O Quarteto. O grupo foi responsável, em grande medida, pela legitimação da política americano-sionista na Questão Palestina.

No documento silvioaugustodecarvalho (páginas 73-79)