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Rede de Mentiras

No documento silvioaugustodecarvalho (páginas 143-148)

A rede de mentiras e hipocrisias em que se concretizou a política sionista exige que o massacre a Gaza seja analisado dentro de um contexto mais amplo, capaz de desconstruir a posição israelense. O cessar-fogo entre Hamas e Israel foi acordado no dia 19 de junho de 2008. Apesar de sua importância para a vida dos cidadãos de ambos os lados, o acordo foi recebido com frieza pelo governo sionista. Ehud Olmer definiu o resultado das negociações como “frágil e de curto prazo”, talvez prevendo o que iria acontecer poucos meses depois. Ao mesmo tempo, a população israelense era informada pela imprensa nacional que a milícia palestina estaria utilizando a trégua para se armar. A dedução que se seque é que, afinal, o cessar-fogo estava beneficiando apenas uma parte, o Hamas. Os túneis, por sua vez, eram descritos como “demoníacos”, sem que a mesma mídia informasse que a política de Israel vetava até o transporte de cadernos escolares. Ao final da guerra, com a destruição de grande parte desta arquitetura da sobrevivência, Israel descobriu que a munição tão temida era, nas palavras do melhor jornalista israelense, Gideon Levy, “pouca, parca, fraca”.

Um dos itens centrais do acordo previa que as passagens de Gaza deveriam ser abertas por Israel, obrigação que foi desobedecida pelo Estado sionista. Ao mesmo tempo, o bloqueio econômico sobre a população, que levou a uma das mais graves crises humanitárias do novo século, não foi capaz de fazer com que o Hamas rompesse o acordo. Apesar do fechamento das passagens, do bloqueio econômico, dos apoios incondicionais a golpes contra a milícia islâmica, o grupo de resistência permaneceu fiel à trégua. Posição semelhante à da OLP, ao longo do ano de 1981, que também havia obstado seus ataques a Israel, na fronteira sul do Líbano. Para se ter uma idéia da visão sionista, pouco após o assassinato do embaixador israelense em Londres, o gabinete se Begin se reúne. Na discussão, os participantes começaram a discutir a composição do grupo de Abu Nidal, responsável pelo assassinato do diplomata, quando foram interrompidos por Begin. “Todos são da OLP”, decretou o homem que, pouco tempo depois, invadiria o Líbano para destruir a organização palestina.

Do ponto de vista técnico, não houve um míssel sequer disparado pelo Hamas no período do cessar-fogo que se estendeu de 29 de junho a 4 de novembro, de 2008. O professor

de literatura da Faculdade Suny, Buffalo (Nova York), Jim Holstun, observou, no site

Eletronic Intifada, que o próprio Centro de Inteligência Israelense registrou, oficialmente,

queda de 97% de disparos de mísses. Os 26 Quassam lançados, ao longo de junho e outubro, eram de autoria da Jihad Islâmica, braço militar do Fatah. A série de gráficos que constava do site do Ministério das Relações Exteriores com dados sobre a queda dos disparos sofreu alterações. As modificações foram feitas, de acordo com Holstun, na véspera da invasão terrestre das forças israelenses a Gaza (4 de janeiro de 2009). Por coincidência, um grupo de coreanos havia tido acesso ao site e dispunha das informações originais, referentes aos gráficos! Holstun ainda afirma que a retaliação do Hamas, desencadeada no dia 6, com disparos de foguetes, foi reutilizada como “causa” e não mais “conseqüência” da violência.

Seja como for, Israel mais uma vez, sob pretextos de que palestinos estariam se preparando para atacar bases sionistas, realiza uma verdadeira batida em Gaza. Este ato de guerra, que quebra a trégua mantida pelo Hamas, foi cometido no dia 4 de novembro de 2008, quando tropa sionista invade Gaza e mata seis palestinos. O Hamas retalia. A desculpa dos túneis, agora, é substituída pela dos mísseis. Após a invasão de 4 de novembro, os dois lados – observando que a palavra “lado” não significa e não implica, aqui, igualdade de força – se atacam mutuamente. Poucos dias antes dos bombardeios começarem, o Hamas propõe retorno ao cessar-fogo de junho. A proposta estava com o antigo assessor de Carter, Robert Pastor, que a repassou a um alto oficial do exército israelense. Outra tentativa de acordo foi levada a cabo pelo chefe do Hamas, Khaled Meshal, que anuncia no site Iz al-Din al-Quassam, a disposição para trégua. Ao mesmo tempo, Meshal propõe que a passagem de Rafah poderia ser monitorada pelo Egito, forças internacionais, AP e Hamas, nas linhas do arranjo de 2005, acordado antes da vitória do Hamas. Para concluir, o líder ainda pediu a abertura da passagem para que artigos de primeira necessidade chegassem aos palestinos. Israel responde com bombas.

A guerra é deflagrada no dia 27 de dezembro -, embora tivesse sido planejada, de acordo com Gideon Levy, com seis meses de antecedência. O tempo dos bombardeios também parecido ter sido, racionalmente, escolhido. Por volta do meio-dia, na verdade, às 11:30, quando as ruas de Gaza estavam repletas de crianças voltando das escolas, o exército israelense ataca. Poucos minutos foram suficientes para o extermínio de 200 pessoas, outras 700 ficaram feridas. O prédio em cujo interior se desenrolava cerimônia de encerramento de curso para oficiais da polícia, a Estação Arafat, também foi atingido, matando dezenas de jovens e homens. Após terem sido treinadas, as vítimas estavam prestes a conquistar novo

emprego em uma das áreas mais pobres e com maior índice de desemprego no planeta. Pedestres, crianças de volta da escola, e recém-empregados – foram estas as primeiras mortes dos bombardeios israelenses. Noam Chomsky aponta que a estratégia mostra um dos princípios-guia de Israel, infringir a maior dor possível em civis para obtenção de ganhos políticos. Como o Hamas tem raízes profundas na sociedade palestina, os ataques parecem ter sido focados não apenas na milícia, mas na própria organização social na qual ela se nutre. De forma clara, o padrão dos bombardeios parece levar em consideração não apenas os “terroristas”, mas sua “base social”.

Os ataques, que fazem uso de fósforo branco, arma considerada ilegal, internacionalmente, quando usada em áreas densamente povoadas, atingem alvos indiscriminados, como o hospital al-Quds. O produto pôde ser encontrado nas proximidades de residências por técnicos da Anistia Internacional (AI). A agência entrou com pedido junto à ONU para embargo contra Israel em virtude da desobediência às Leis Humanitárias Internacionais. Ao mesmo tempo, a AI se calou sobre a fonte do fósforo, os Estados Unidos, responsáveis pelo fornecimento do produto a Israel. O fósforo causa morte horrenda, na medida em que queima a pele – e os próprios ossos. Sua ação é estancada apenas pela falta de oxigênio. Foi este o produto lançado pelo Estado judeu em zonas populosas, hospitais e instalações de ajuda humanitária. Este mesmo produto já fora usado na guerra de 82, no sul do Líbano. Um dos prédios da UNRWA, órgão da ONU responsável por refugiados, ao ser alvejado, teve milhares de toneladas de equipamentos de ajuda humanitária destruídos.

No dia 31, em pleno desenrolar das operações de guerra, os Estados Unidos alugam navio mercante alemão para transporte de armamentos da Grécia para Israel. São três toneladas de munição “não identificada”. O governo da Grécia, porém, age e não permite outro envio de armas. Para os propósitos do presente trabalho, fica claro que os EUA foram os responsáveis pelo fornecimento de armas, em geral, e de material proibido de ser usado em áreas populosas, como é o caso do fósforo. Esta relação também parece colocar em pauta outro papel de Israel no Oriente Médio, o teste de armas. Israel testa armas novas na população palestina. As menos eficientes são desviadas e vendidas a governos árabes conservadores a preços majorados. Esta relação parece estar na raiz da conexão entre Israel e as empresas de armamentos, anexando ao Estado sionista este outro papel subsidiário no Oriente Médio – a venda mercenária de armamentos de segundo nível.

Nos primeiros dias da invasão, por outro lado, as iniciativas diplomáticas americanas estavam fazendo o melhor para manter a dinâmica do massacre. Os EUA vetam o

Conselho de Segurança da ONU que havia formulado resolução determinando imediato cessar-fogo entre as partes. O argumento utilizado pelo representante americano para vetar a resolução consistia em que o Hamas não obedeceria a acordo algum. É neste contexto político que Barak Obama, rompendo o silêncio, afirma que “se mísseis caíssem onde minhas filhas dormem, faria tudo para poder pará-los”. Os embates na ONU continuam até que, em 8 de janeiro, o Conselho de Segurança consegue passar, finalmente, resolução, determinante “cessar-fogo durável”. Os EUA se abstém na votação. O irônico é que um dos pontos da resolução diz respeito ao fim da transferência de armas a Gaza, uma alusão a Síria e Iran. No entanto, o fornecimento explícito - em navios – de armas dos EUA a Israel não é mencionado. Nenhuma “lente de aumento” (no sentido de De Soto) poderia detectar qualquer menção ao fornecimento americano de armas. De qualquer forma, a resolução, pelo menos, conseguiu apontar para a necessidade de abertura das passagens de Gaza. O Acordo sobre Movimentação e Acesso (AMA) entre AP e Israel, de 2005, havia sido abandonado por Israel e EUA, após a vitória eleitoral do Hamas, em janeiro de 2006.

Um dos objetivos do massacre parece ter sido a tentativa de Israel de resgatar o capital político perdido na guerra com o Hisbollah, em 2006. Em outras palavras, a impressionante capacidade de revide da milícia libanesa diluiu, em grande parte, a capacidade sionista de aterrorizar pela força. Era necessário resgatá-la e provar a todos que Israel ainda era capaz de submeter qualquer oponente. Como apontamos anteriormente, a definição da nova geopolítica, determinada por Sharon, parece ter exercido influência em todo este processo. Com Gaza feita prisão a céu aberto, concentrando setores de resistência armada, as terras mais preciosas da Cisjordânia poderiam ser anexadas. Mas não apenas o solo. O que parece ter ficado sob a mira sionista se refere a todo o aparato necessário à construção de um

imperium. As terras aráveis, fontes hídricas e subúrbios ricos que estão ao redor de Jerusalém

e Tel Aviv, juntamente com os rincões anexados pelo muro da separação e a Vale do Rio Jordão são os focos da colonização. Uma espécie de crescimento interno que deixaria aos palestinos somente fragmentos, cortados por colônias judaicas. É essencial que não esqueçamos que o processo de expansão sionista é dual: as fronteiras externas crescem, grosso modo, ao sabor das guerras; as internas, ao ritmo da invisibilidade midiática das anexações coloniais.

Mas a plena colonização da Cisjordânia somente poderia ser levada a cabo com a “pacificação” de Gaza. Na década de 80, Sharon pouco antes de destruir o Líbano e a OLP, definira sua política, sintetizada no argumento de que não poderia haver paz na Cisjordânia

com a manutenção da OLP, no Líbano. A “paz de Sharon” implicava a destruição da organização. Raciocínio similar, ao que tudo indica, parece ter sido usado pela cúpula sionista. A paz na Cisjordânia somente será colhida com o silêncio de Gaza. Seguindo o padrão dos bombardeios e ataques, os objetivos parecem ter sido o de destruir, nas palavras de Chomsky, “todos os meios de vida”. Terras aráveis, gado, aves foram destruídas. Quando não, longos trechos de terras foram contaminados por fósforo, munições, esgotos químicos, carcaças de animais. As áreas urbanas mais pujantes, por outro lado, tiveram suas escolas e universidades arrasadas.

Para dar mais racionalidade ao massacre, atingindo todas as dimensões da sociedade, os ataques também se voltaram para o mar. As zonas pesqueiras de Gaza responsáveis pela sobrevivência de 40 mil pescadores também foram alvos de ataques, sendo, depois, vetadas à presença de palestinos. Os ataques aumentaram ainda mais com a descoberta de ricas reservas de gás natural na região costeira. Após a descoberta, ainda sob o clamor dos ataques, a Israel Corporação Elétrica, estava negociando a produção de 1.5 bilhões de metros cúbicos de gás natural na zona mediterrânea de Gaza. Até que ponto a riqueza da área não foi levada em consideração para mais este massacre talvez não seja sabido, mas o fato é que os palestinos não têm acesso a seus recursos naturais. E, neste caso, às benesses econômicas deles oriundas.

Um dos pontos centrais que, naturalmente, passou despercebido pelos jornalistas e especialistas liberais diz respeito ao time político do ataque. Hamas e Fatah haviam se reunido no Cairo, Egito, estabelecendo as bases para o Governo de Unidade Nacional. Na verdade, tratava-se do primeiro encontro entre líderes dos dois blocos oponentes após a guerra civil de 2006/2007, que havia cindido a Palestina. Portanto, o povo palestino contava, pela primeira vez, com a possibilidade de um governo de união cujos arranjos políticos apontavam para o início de um longo processo de recuperação interna. O jornalista David Rose, em uma longa reportagem na Vanity Fair, conseguiu comprovar a longa cadeia de ligações, responsável pela tentativa de golpe ao Hamas. O então presidente dos Estados Unidos, George Bush II, sua secretária de Estado, Condolezza Rice, e outro alto assessor da cúpula republicana, Elliott Abrams, decidiram apoiar Muhammad Dahlan. Conhecido entre o alto escalão americano como pró-ocidental, Dahlan, figura da Fatah, recebeu fundos e armas, destinados a fortalecer seu grupo para combater o Hamas em Gaza. O que a cúpula republicana não contava era que os homens de seu pupilo seriam derrotados em sangrenta guerra civil.

Cisjordânia e Gaza. Com a derrota, Estados Unidos e Israel decidem se aliar com a Jordânia cujo objetivo é armar e treinar grupos para controle de palestinos na Cisjordânia. A criação desta força paramilitar ficará a cargo do general americano, Keith Dayton.

No documento silvioaugustodecarvalho (páginas 143-148)