Para finalizar a elaboração conceitual, gostaríamos de tecer algumas relações entre o instrumental teórico desenvolvido, especialmente o foucaultiano, e os meios de comunicação de massa. O saudoso sociólogo Gilberto Barbosa aponta, ao comentar o conceito de biopoder, que se trata de uma modalidade nova de poder cujo foco central reside na preocupação com o sentido estratégico e político das formas de controle e dominação sobre o corpo (Barbosa, 2008, p.11). Os mass media, no caso, seriam um dos “vetores” destes dispositivos de poder voltados para regularização e normalização de comportamentos sociais. As implicações da análise apontam para várias direções. Produtores de discursos de verdade e normalizadores sociais, estes dispositivos, portanto, se articulariam sobre o ponto nodal da
subjetividade moderna. O estudioso destaca quatro formas singulares de saber-poder que estariam percorrendo a mídia: eleições, saúde, criminalidade e guerra.
O caráter normativo da mídia pode ser visto claramente nas reportagens que cobrem a vasta área de saúde, uma enorme e sofisticada agenda de controle social e monitoramento de comportamento (Barbosa, 2008, p. 13). Por meio de uma pauta hipocondríaca, a mídia estaria prescrevendo normas de comportamento social atinentes à vida e aos cuidados com o corpo. A mesma modulação comportamental pode ser detectada no que tange à criminalidade, construindo por meio do controle do imaginário (Luiz Costa Lima) um populismo punitivo no Brasil (André Gaio). O populismo punitivo, porém estaria engendrando na psique social o que o autor chama de pânico norteador do núcleo neurótico das populações. O controle se efetiva pela gestão da psique do medo (esse é um dos pontos centrais que iremos desenvolver em nossa análise posterior). Fundamental, aqui, é também se compreender a guerra como a maior empreitada a serviço da política de controle populacional (Barbosa, 2008, p. 15).
Além disto, cabe apreender as implicações da guerra como princípio de inteligibilidade do real. Neste sentido, Salgado extrai várias conclusões que devem servir de balizamento ao estudioso. Se a política é a guerra continuada por outros meios (inversão do dito de Clausewitz, já abordado anteriormente), toda ação humana é política. Daí, podemos inferir que o estado de guerra permanente levaria à busca e gerenciamento de mecanismos de controle e dominação permanentes. Ora, tendo em vista a perenidade da guerra, o controle envolve “todas as esferas sociais”, desde o micro ao macro. As disputas hegemônicas deixam de ser apenas ideológicas e se alçam ao terreno das lutas epistêmicas (o que, no caso, desloca Salgado para o campo foucaultiano em relação ao marxismo). Daí, a necessidade de uma teoria que dê conta de toda essa nova configuração bélica refletida no terreno hermenêutico.
Este novo modelo insere os meios de comunicação como ponto nevrálgico dos dispositivos de saber-poder da sociedade capitalista e, paradoxalmente, comuta tais dispositivos em diferentes áreas. Para Salgado, as estratégias midiáticas de guerra servem a
posteriore para utilização política (Salgado, 2008, p.16). Para concluir, as tecnologias de
segurança são o correlato da emergência de um novo poder pastoral cujo princípio reside na seleção populacional e no monitoramento demográfico e territorial. É dentro do neoliberalismo que todas estas tecnologias surgem, regulando comportamentos em um novo panorama econômico. O governo dos homens chegaria ao seu limiar pela modernidade biológica (Salgado, 2008, p. 18). O homo economicus se funde ao homo comportamentalis.
O que implica um tipo específico de arte de governar que Foucault aponta como a governamentalidade, isto é, conjunto de práticas e teorias de governo que adquirem sua plenitude no neoliberalismo. Vinculado ao gerenciamento de massas populacionais, o governamentalidade lança mão dos conhecimentos desenvolvidos pela Economia Política para controle deste novo objeto de saber (a população). Apesar de o conceito ser altamento técnico, elaborado nas primeiras aulas de Segurança, Território e População, Foucault, gradativamente, utiliza-o de forma mais livre. Até que, por meio de vários deslizes conceituais, já em O Nascimento da Biopolítica, governamentalidade está para “arte de governar”. Para nós, o importante é usá-la como um conjunto não apenas de dispositivos, mas de práticas e reflexões sobre a arte de conduzir almas, gestada no tecido social, e que foi, por um complexo processo, reinserida nos modos de operação do Estado moderno. Portanto, de arte de conduzir almas (dentro de uma concepção do pastorado cristão), ela se desenvolve como modo operacional e reflexão de controle governamental nas mãos do Estado.
Nas últimas linhas, portanto, vimos os meios de comunicação como vetores do biopoder no sentido de dispositivos de regularização de comportamentos sociais. Sua eficácia reside, em grande parte, na capacidade de construir agenda social capaz de gerir massas populacionais pela psique do medo. Como a guerra é considerada princípio político-abstrato permanente, a gestão tem de seguir a mesma permanência, desenvolvendo mecanismos de dominação. O controle social, daí oriundo, envolve todas as esferas sociais, inclusive a mídia, enquanto ponto nevrálgico da relação saber-poder. Neste sentido, as estratégias da guerra também podem ser percebidas – mais tarde – como estratégias político-midiáticas. Em outras palavras, a tecnologia política e cotidiana é, grosso modo, o resultado do desenvolvimento de técnicas bélicas que são, posteriormente, repassadas (e revendidas) à população. Este processo de repasse político-tecnológico, por outro lado, é fundamental para a compreensão do modo como a guerra determina a construção da percepção humana moderna.
As tecnologias de segurança midiática, ainda, podem ser compreendidas como novas modalidades do poder pastoral, forma de controle e domínio de mentes e corpos cujo modelo primeiro residia na figura de Moisés e dos pastores da região mediterrânea. Tendo em vista que as raízes desta modalidade, nos dias atuais, residem no sistema-mundo, a dimensão econômica tende a estar, cada vez mais, por meio da mídia, conformando e regulando comportamentos. Fato que, por outro lado, deve sempre ser matizado por análises de recepção (apesar de não ser o objetivo do presente trabalho).
como armas em um conflito, mas como espaço social de conflitos, ou seja, campo social no qual lutas são travadas constantemente. Estes conflitos pelo monopólio do direito de ter a última palavra sobre o real são construções simbólicas sobre o real. Com a economia das trocas simbólicas, podemos destacar a formação dos universos sociais dos meios de comunicação e apreendê-los no processo político-simbólico de construção, seleção da representação (sempre em disputa) da vida e, principalmente, das guerras.