A partir dos acordos de Camp David, Israel atinge a condição político-militar necessária para atacar o sul do Líbano e iniciar o processo de anexação de territórios invadidos na Cisjordânia. As negociações, na verdade, liberaram a cúpula sionista da ameaça
constante do país árabe militarmente mais poderoso. Com o fim das tensões – e o isolamento político do Egito do mundo árabe -, o exército israelense podia ser deslocado da fronteira sul para as áreas fronteiriças com o Líbano. Analistas como Chomsky apontam que os acordos de 1977 abriram caminho para as guerras de 78 e 82 por meio das quais Israel tentou impor uma “nova ordem”, redesenhando politicamente a região. O contexto histórico também deve levar em consideração que os territórios libaneses recebiam massas de refugiados palestinos desde a guerra de 1948, depois 1967 e, finalmente, 1970. Neste último ano, massacres jordanianos liberam novas migrações para o Líbano que se juntam aos refugiados dos conflitos anteriores.
O ano de 1974 é descrito pela mídia ocidental como o período do massacre de Ma’alot, ocorrido em maio, no qual 20 israelenses são mortos em “ataques terroristas”. Chomsky argumenta que o ataque aéreo de Israel à vila de El-Kfeir, no Líbano, que terminara com a morte de 4 civis, não foi descrita como “terrorista”. Edward Said, por sua vez, observa que Ma’alot foi precedida por ataques de napalm no sul do Líbano, que mataram cerca de 200 pessoas. O uso de napalm e mesmo fósforo, no sul do Líbano, parece remontar a 1968, com os ataques à vila de Khiyam. A correspondente do Guardian, de Londres, Irene Beeson, irá catalogar, pelo menos, 150 vilas bombardeadas no sul do Líbano na década de 70. O número de refugiados, na região, em 1977, chegava a 300 mil pessoas. Noam Chomsky observa que a atrocidade dos bombardeios segue, no entanto, padrão racional: os ataques esvaziam toda a faixa sul do Líbano, liberando-a para futuras anexações.
A partir de 1975, início da guerra civil libanesa, a OLP se vê obrigada a entrar nos conflitos. Grosso modo, os embates se deram entre dois grandes grupos de interesses – a minoria branca maronita cristã ocidentalizada e diversos segmentos muçulmanos, movimentos de esquerda e, por fim, os palestinos. O estopim que levaria a OLP a entrar no conflito se deu em abril de 1975. Milícias falangistas (cristãs maronitas) atacaram ônibus que deixava os campos de refugiados palestinos de Sabra e Shatilla indo para Tel al-Zaatar. No ataque, 27 palestinos e libaneses muçulmanos foram mortos. Portanto, sete anos antes do famoso massacre de 1982, Sabra e Shatilla já recebiam um de seus primeiros reveses. A princípio, o papel do OLP, na guerra civil libanesa, se restringiu ao fornecimento de armas aos muçulmanos e grupos de esquerda, posição que irá, gradativamente, se tornar mais ativa. No dia 6 de dezembro de 1975, 200 muçulmanos são feitos reféns e, em seguida, executados por milícias falangistas em represália à morte de 4 de seus membros. A morte destes quatro falangistas ocorreu em ofensiva de grupos de esquerda contra hotéis cristãos fortificados.
A Síria, apoiada por países árabes e Henry Kissinger, entra no conflito em favor da minoria cristão, em 1976, chefiando as “forças de paz” da Liga Árabe. A violência deste período parece ter aumentado com a transferência de armamentos de Israel para as milícias cristãs que, em agosto, devastam o campo de Tel al-Zaatar. Para se ter uma idéia da agilidade das trocas entre Israel e maronitas, as armas usadas no massacre ainda ostentavam suas marcas em hebraico. O desenvolvimento dos conflitos, por outro lado, acaba influenciando a posição anterior da Síria que, no final deste ano, se volta contra as milícias cristãs e Israel. Chomsky aponta que os maronitas se dividiam entre duas grandes saídas. O primeiro grupo, que apoiava Israel e era, por sua vez, bancado por Yitzhak Rabin, era constituído, basicamente, por falangistas e chamounistas. O segundo, ao contrário, via o Líbano como parte do mundo árabe.
Apesar do clima de tensão, OLP, Síria e Líbano chegam ao acordo de Shtaura que apontava para o fim do conflito civil e o congelamento das atividades palestinas no sul libanês. As premissas para o reestabelecimento da paz na região são quebradas pelo comandante Saad Haddad cujas milícias lançam ofensiva contra palestinos, contando com o apoio de Israel. Os conflitos ressurgem ao passo que um dos objetivos do governo libanês, que consistia em repor seus exércitos no sul do país, é destruído. Haddad, mercenário que foge do exército libanês para se tornar protegido de Israel, recebe, como prêmio, a faixa sul do Líbano, que é transformada em área tampão. O nível das tensões aumenta, culminando com o início da ofensiva maciça de Israel contra o Líbano em 1978 cujo estopim se deu com o ataque da OLP a Israel. Os guerrilheiros palestinos deixam o Líbano pelo mar, nas imediações de Beirut e atacam tropas israelenses, matando 34 soldados. O saldo da guerra é de 2 mil mortos e 250 mil refugiados.
Com a reeleição de Menachem Begin, Sharon é designado Ministro da Defesa. Os preparativos para a guerra seguinte, a de 1982, começam. Aumenta a repressão na Cisjordânia. Em abril de 82, Israel completa a retirada do Sinai. Yamit é evacuada sob comoção nacional. Os colonos se recusam a sair; o exército é obrigado a evacuar o assentamento à força. A ação é televisionada. O paradoxo de que nenhum manifestante sofre ferimentos é, posteriormente, explicado pelo general Chaim Erez, ao admitir que “tudo foi planejado”. Após a evacuação, Yamit é destruída e o deserto, novamente, introduzido. Os árabes, que antes foram banidos da área, submetidos a trabalhos humilhantes, retornam em silêncio. O fim dos conflitos com o Egito sela o destino do Líbano. De agosto de 1981 a maio de 1982, foram catalogadas 2.125 violações do espaço aéreo libanês e 652 de suas águas
territoriais. Em abril de 1982, Sharon se encontra com Bashir Gemayel para acordo político que iria culminar com a vitória eleitoral do libanês, que representava forças falangistas. No entanto, ao romper com a cúpula sionista, Gemayel será assassinado (voltaremos a este ponto).
Em mais outra quebra dos acordos de paz, Israel bombardeia alvos palestinos no Líbano em abril de 1981. O ataque é justificado como retaliação à morte de soldados israelenses cujo veículo é destruído em mina. No dia 9 de maio, mais bombardeios. O estopim para a nova guerra é dado pela tentativa de homicídio de Abu Nidal ao embaixador israelense, em Londres, Shlomo Argov. A OLP, que já decretara a morte de Nidal, nega sua participação no atentado, mas não é ouvida. Em junho, a ofensiva é lançada e Israel bombardeia alvos palestinos no Líbano. Sabra e Shatilla, meses ainda antes do massacre, são bombardeadas por quatro horas ininterruptas, culminando com a morte de 200 pessoas. A OLP revida e ataca, com mísseis, vários assentamentos no norte de Israel. A invasão, de fato, começa. Sob o nome de “Paz para a Galiléia”, lançada para “proteger a fronteira norte”, uma das guerras mais genocidas das últimas décadas, enfim, começa.
Ariel Sharon já visitara os Estados Unidos, pouco tempo antes da guerra, avisando o governo americano de que “precisamos agir no Líbano”. Como resultado, Israel obtém o aumento de repasse de armas nos três primeiros meses de 1982, contingente que continua sendo entregue até junho. Lançada no dia 6 de junho de 1982, a “Paz para Galiléia” tem como primeiro alvo o campo palestino de Rashidiyeh, habitado por 9 mil cidadãos. Os tanques invadem a área. Homens e jovens são levados ao centro do campo, onde têm seus olhos vendados e, em seguida, amarrados. Dali, serão levados aos campos de concentração judaica, espalhados pelo Líbano e Israel, em um dos períodos mais infames da história do Sionismo. A estratégia de Israel parece ter consistido em levar as populações árabes para Beirut ocidental (basicamente muçulmana), cercá-la, cortar água, eletricidade, alimentos, medicamentos. Cindida do mundo – como Gaza poucos anos depois – Beirut seria submetida a bombardeios. Hospitais se tornaram alvos preferenciais. Instituições que abrigavam doentes mentais, ostentando tarja da Cruz Vermelha, também foram alvejadas. Os pacientes – inclusive os esquizofrênicos – tiveram de ser soltos nas ruas da capital libanesa. Gaza, poucos anos depois, conheceria o mesmo destino. Ao invés da Cruz Vermelha, as marcas nos edifícios atacados seriam as da ONU.
A violência continua a aumentar. Ataques com fósforo ocorrem ao lado de Sabra e Shatilla – ataques com fósforo ocorreriam, novamente, em Gaza poucos anos depois. Em
agosto, considerado um dos meses mais violentos, de cada nove prédios oficiais, oito deles foram atacados, muitos com armas químicas – em todos, a tarja da Cruz Vermelha estava presente. Nos campos invadidos, todos os homens entre 16 e 60 eram reunidos, amordaçados e levados a áreas de concentração. Os tanques costumavam rodear as vilas, enquanto vários dos colaboradores (de uniforme) se perfilavam ao lado dos soldados israelenses. O serviço de espionagem parece ter sido essencial na seleção das vítimas – havia notas em hebraico com informações sobre cada um dos escolhidos com detalhes de seus “crimes”. Nos campos, os prisioneiros eram obrigados, a exemplo dos regimes nazistas, a se levantar de madrugada, submetidos a humilhações, agressões e mordidas de cães. Quem se defendia apanhava ainda mais. Os mais jovens, adolescentes entre 15 e 16 anos, choravam de terror. A tortura com barra era cotidiana e atingia genitais, mãos, pés.
Em muitos casos, as vítimas eram amarradas pelos pés e serviam como sacos de pancadas. Nos relatos, coletados por Noam Chomsky no Ha’aretz – espécie de New York
Times judaico -, os pedidos por água eram respondidos com oferecimentos de urina. Após o
fim do conflito, um dos prisioneiros, ao ser liberado do campo de concentração, escuta de soldado israelense que “a justiça triunfara”. “Não sei o que ele quis dizer com isso”, conta o ex-detento. Os prisioneiros ainda eram levados a público, onde a população local se incumbia de apedrejá-los. Essa tradição parece ter se consolidado depois de Deir Yassim, quando os sobreviventes do massacre passaram a ser expostos pelas tropas do Irgun (comandadas por Begin). Há outro caso, no qual 25 sobreviventes cujas vidas estavam nas mãos de outra milícia israelense, o Haganah, foram colocados em caminhão, expostos e, depois, executados sumariamente. Após a destruição de Jaffa, em abril de 1948 (mesmo mês de Deir Yassim), seus sobreviventes são expostos, com vendas nos olhos, nas ruas de Tel Aviv. A Tel Aviv dos sonhos de Weizmann que, tantos anos antes, ansiara pela supressão da inesquecível Jaffa. Em termos delleuzianos, a humilhação pública é despojo de guerra das ruínas de Jaffa e dos anseios de Weizmann, o signo desejante da futura Israel.
Outro relato diz respeito à história de um libanês, de 55 anos, diabético e com problemas de coração, que se sentiu mal no ônibus no qual viajava com outros sobreviventes. O grupo estava sendo transportado sob a guarda de soldados israelenses de um campo de concentração a outro. Ao pedir para sair e respirar, o libanês é jogado fora do veículo por um dos soldados. Cai do ônibus e, com o impacto da queda, morre. O filho, que estava com o pai, vê a cena e tenta socorrê-lo, mas é detido por socos e pontapés – ele é liberado em janeiro de 1983, em Ansar. Ao mesmo tempo, os bombardeios aumentam ao longo de agosto de 1982,
na Beirut ocidental. No dia 26 de julho, as bombas começam a cair a exatos 2:42 e, depois, às 3:38, concatenando o tempo dos ataques às resoluções da ONU (242 e 338)! Mesmo após os acordos, que visavam à retirada da OLP do Líbano, os ataques mantêm sua força. O dia 12 de agosto conhece 11 horas ininterruptas de bombardeio. Os cristãos do outro lado de Beirut assistiam à destruição da parte ocidental (muçulmana) de suas varandas.