No estudo Bipoder y Biocapital. El Trabajador como moderno Homo Sacer, de Jaime2 Osório, o autor procura mostrar os limites do conceito de biopoder, propondo sua substituição por biocapital. A princípio, Osório acompanha os comentaristas tradicionais e aponta que o conceito de biopoder se funda em um momento histórico específico, a entrada dos fenômenos da vida (a espécie humana) nas ordens do saber e poder. O que implica que o biológico passa a se refletir no político. Temos, portanto, as duas séries tradicionais (a do corpo e a da população), formando os pólos do diagrama menciado por Rabinov e Rose. Como corolário deste processo, o domínio sobre o indivíduo ocorre ao nível da vida e, por
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extensão, conclui ele, o biopoder foi essencial ao desenvolvimento do capitalismo -, sistema de inserção controlada dos corpos na produção.
Em função disto, o biopoder teria feito um ajuste entre o crescimento populacional e as forças produtivas. Mas para Osório, a verdadeira forma de poder sobre o corpo humano estaria articulada em uma relação histórica específica, a de capital-trabalho. Seria, em linhas gerais, essa relação tanto o ponto nevrálgico de articulação de sentido das relações sociais quanto o modo de exploração da espécie humana, na modernidade. Marx aponta que as forças criativas e vivas não estão separadas da corporeidade viva do trabalhador, isto é, não há possibilidade de disjunção entre a força de trabalho e a existência do trabalhador. Deste modo, a mercadoria é, por extensão, fruto da própria existência do trabalhador. Sem vida e corpo, enfim, sem corporeidade viva não haveria força de trabalho, ambas estão ontologicamente unidas. Portanto, no âmbito da troca, a própria existência do trabalhador é que estaria em jogo. Por outro lado, o descanso biológico seria destinado apenas à recomposição do corpo e não à ruptura da própria exploração.
Es em estas coordenadas donde se encuentram los puntos nodales del poder del capital sobre la vida y la base de uma teoria del biopoder em el capitalismo (Osório, 2006, p. 81). Além disto, a liberdade de direito dada ao trabalhador para vender sua força de trabalho (todos “livres” diante da lei) cria as condições das quais o capital (essa relação social) precisa para se reproduzir. Ao naturalizar todo o processo, o trabalhador se submete ao regime de produção, sem questioná-lo como construção histórica. Por isso, Osório aponta que a verdadeira compreensão da violência cometida contra o trabalhador reside na concepção de capital entendido como relação social de mando e domínio, de um lado, e de vínculo de exploração econômica, de outro. É por meio desta solda político-econômica que a vida do trabalhador é apropriada, explorada, dominada e, por isso, sua corporeidade, diluída.
Neste ponto, Osório esclarece que tanto Foucault quanto Agamben deixam de lado o ponto nodal de toda sociedade capitalista -, a relação capital-trabalho. De forma que a construção de uma teoria do biopoder não leva em consideração o capital como relação social fundamental para a produção de sentido do mundo moderno e para a destruição da existência (inclusive a corporal) do próprio trabalhador. Para ele, é nesta relação:
donde reposa el punto nodal para la comprensión del ejercicio del poder sobre la vida em este ordenamiento societal. Ambos autores (Foucault, Agamben) asumen una perspectiva que despolitiza el análsis, a pesar de sua
aparent radicalidad, ya que diluyen los referentes sociales vinculados em lãs
A grande questão, portanto, reside na despolitização foucaultiana do poder na medida em que ele teria diluído as coordenadas sociais de classe. E, consequentemente, criado uma rede microfísica de poder descentralizada, diluída no corpo social em seus mais variados níveis. Essa teia se encarnaria em relações de poder do tipo psiquiatra-paciente, professor- aluno, pais-filhos, sem apreender o sentido próprio do capital como relação social única de construção de sentido (e poder!) no interior da sociedade capitalista liberal moderna. Vale ressaltar que o capital é, sobretudo, relação de domínio e de exploração social. Foucault habla del poder como relación, pero al diluir las clases sociales y sus intereses em la infinidad de puntos donde el poder se ejerce, las relaciones sociales entre aquellas pierden el sentido social própria del capital [...] (OSÒRIO, 2006, p. 87).
O que sobra é uma microfísica – altamente complexa, sem dúvida -, mas despolitizada e diluída de suas origens sócio-históricas. Toda teoria do biopoder, neste sentido, tem de levar em consideração a premissa de que a força de trabalho é um dos elementos da corporeidade viva do trabalhador (da sua própria existência). Por outro lado, já que o capital tende a extrair a força de trabalho e, por isso, a vida do trabalhador, ele o reduz ao seu mínimo biológico. É a própria “vida nua” de Agamben, encontrada em um regime histórico moderno de exploração. Enfim, o poder do capital, ao tomar conta da vida, teve acesso ao corpo humano e, naturalmente, à própria corporeidade viva do trabalhador, explorada e desfalcada de suas energias vitais no cotidiano do processo de exploração trabalhista. Foucault acaba encobrindo a relação capital (domínio e exploração) sob o denso véu da microfísica do poder e, por isso, contribui para a fetichização do próprio capital (agora revestido novamente por uma rede diluída e descentralizada).
Para Osório, o capital se apropria de um “plus de vida”. Se o trabalhador moderno está sob o signo do “fazer viver”, Foucault não teria percebido a própria lógica contraditória que rege as relações do capital. Por um lado, tal relação se volta para a recomposição das forças do trabalhador; por outro, ela coloca sua vida em interdito. É esta lógica dual que, no limite, termina açambarcando a vida. Essa defasagem entre a gestão populacional pelo corpo (mecanismo biopolítico) e seu interdito pelo capital (relação de domínio e exploração capitalista moderna) não encontra espaço de resolução em Foucault. Portanto, o “fazer viver” dos mecanismos de gestão populacional modernos não consegue apreender a função de interdito sobre a vida. Antes de ser gerenciada, esta mesma vida é submetida à exploração e, por isso, é interditada, antes de tudo, em sua corporeidade. Antes do biopoder, já havia o biocapital. E, desta forma, a análise do surgimento da população, como conceito, e do
processo de urbanização tem que ser repensada na medida em que, no mesmo período histórico, as classes sociais estavam se constituindo. Mais do que a população, a história do século XVIII é a história da construção de um sistema histórico específico, calcado em diferenças objetivas de classes. Foucault parece não ter percebido que, sob o signo da população, o que estavam em construção eram as divisões sócio-históricas do próprio capitalismo e seus mecanismos de controle de classes subalternas e de segmentos populacionais que precisavam ser inseridos no sistema nascente.
Tendo em vista a crítica de Osório, a questão consiste em formular um espaço teórico que nos permita apreender os pontos de vista de Marx, Foucault e Immanuel Wallerstein. Em outras palavras, articular as tradições de forma que o que cada pensador não viu possa ser suprido pelo ponto de vista do outro. A primeira conseqüência é a de que a substituição do biopoder pelo biocapital, como aventado por Osório, não seria a saída mais frutífera. Levar ao limite uma operação intelectual deste porte implicaria jogar por terra o instrumental focaultiano in toto e, por isso, deixar de apreender uma série de relações de poder que não foram vistas por Marx e Wallerstein. O que Marx descobriu foi uma nova relação social que implicava não apenas exploração, mas modos específicos e históricos de domínio. A separação entre o trabalhador e os meios de produção levou a uma reconfiguração do modo de produção moderno, tendo o capital como elemento nodal de produção de sentido, domínio e exploração. Como a força produtiva é ontologicamente inseparável da corporeidade viva do trabalhador, o domínio se exerce, no limite, sobre o corpo cuja existência é posta em interdito.
O ponto de articulação seria, portanto, a inserção do arsenal foucaultiano na relação social apreendida por Marx de forma que a descentralização da microfísica do poder seja instaurada dentro da relação capital-trabalho. Se o capital é uma relação social de domínio e exploração, a rede do poder foucaultiana partiria deste ponto para, então, se espalhar pelo tecido social. Como conseqüência, as referências sociais antes diluídas – as classes sociais e seus interesses - seriam rearticuladas como lugares estratégicos de produção de sentido e domínio a partir das quais a microfísica das teias açambacaria o social. As relações descentralizadas e hierarquizadas (pais-filhos, psiquiatra-paciente, professor-aluno) seriam inseridas no interior da relação social de domínio por excelência da sociedade moderna (o capital). E, por serem reinseridas, as relações antes individualizadas seriam percebidas sob o ponto de vista de relações sociais mais amplas, implicando divisões de classes objetivas. Este deslocamento, portanto, acabaria com o binarismo foucaultiano, substituindo-o por
relações de classes, encarnadas em mecanismos de poder descentralizados. A família passaria a ser vista como um campo capitalista ao passo que as relações médico-paciente, juiz-acusado etc seriam, na verdade, representações de conflitos de classe. A microfísica é outra tática do capital.
Neste sentido, os efeitos de poder oriundos destas relações esparsas e descentralizadas seriam abarcados por mecanismos mais abrangentes e genéricos, que, por sua vez, seriam captadas por divisões de classe (porque nelas nasceram). A produção de efeitos de poder tem sentido na medida em que possui um núcleo específico, uma origem -, as relações de domínio e oposição entre classes. São elas que se beneficiam dos efeitos de poder que nelas nascem.
A estrutura social das sociedades modernas em classes ainda permite apreender as relações de poder soberano, disciplinar e de biopoder sob o signo da relação capitalista. Portanto, ao invés de aceitarmos a generalidade do “fazer morrer” ou do “fazer viver” modernos, nós a apreenderíamos historicamente, inserindo as gestões populacionais e os dispositivos de morte dentro da hierarquia capitalista das nações modernas. Mas, para tanto, precisamos inserir outro instrumental que nos auxilie a apreender o que Marx e Foucault não viram – Immanuel Wallerstein.
Wallerstein concentrou sua análise da estrutura relacional capitalista, em âmbito internacional. Por meio do sistema-mundo, categoria analítica fundamental, o autor acompanhou a estruturação da sociedade capitalista desde o século XVI até o período atual. Ao se espalhar pelo globo terrestre, o capitalismo determinou uma verdadeira hierarquia entre nações, divididas, grosso modo, entre as responsáveis pelo fornecimento de matérias-primas e produtos elementares e aquelas que se incumbem do processo tecnológico de ponta. Estas últimas configuram o pólo desenvolvido. Portanto, a exploração pode, também, ser encontrada em nível internacional por meio da divisão entre nações desenvolvidas e “periféricas”, categorias analíticas que somente tem sentido dentro do escopo maior do sistema-mundo3. Para os propósitos, desta parte, basta o esboço de sistema-mundo como conceito que apreende a construção sócio-histórica do capitalismo até seu pleno desenvolvimento nos dias atuais. Processo que culminou com a divisão internacional do trabalho e exploração, que liga Estados poderosos e companhias multinacionais. Se, para Foucault, o modelo do poder soberano, na Europa Medieval, foi a figura do monarca
3 No capítulo de Relações Internacionais, iremos detalhar o conceito de sistema-mundo e sua importância para
absolutista; agora, seu diagrama é um conjunto que articula Estados-nação e multinacionais. O poder moderno, em âmbito internacional é, sobretudo, o sistema-mundo, essa hierarquia entre países capitalistas.
Tendo em vista esse dado sócio-histórico, as questões que devem ser apreciadas por essa dissertação têm como base teórica central a categoria do sistema-mundo. Não mais quem exerce o poder, mas que relação de forças históricas e capitalistas forma, dirige, compõe e, enfim, exerce o poder? Mas uma relação que tem uma origem específica – a divisão e hierarquia entre nações no plano internacional. O “quem”, no nosso entendimento, deve ser substituído pelo feixe de relações que constitui, cria e recria o poder em um sistema histórico específico e concreto.
Como conseqüência desta digressão teórica, teríamos, portanto, uma estrutura internacional fraturada entre países, um eixo América do Norte-Europa e o restante do planeta. Em outras palavras, o capital como relação de domínio, exploração e produção de sentido e uma densa e complexa rede de poder, nascida desta hierarquia e se espalhando pelos mais diversos níveis. Neste sentido, os mecanismos biopolíticos do poder seriam um dos aspectos centrais dessa relação aos quais se articulariam dispositivos de função assassina. Os centros de poder dessa rede seriam conjuntos relacionais (países hegemônicos e multinacionais). Ao mesmo tempo, é preciso pensar biopoder e biocapital como elementos articulados que se referem ao mesmo processo de domínio, exploração e controle, partindo do princípio de que o ponto central repousa sobre a relação de exploração capital-trabalho.
Agora, veremos como a mídia pode agir como instrumento regulador de comportamento por meio da construção de agendas de segurança inscritas na psique do medo.