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Elaboração Conceitual

No documento silvioaugustodecarvalho (páginas 35-44)

Rabinov e Nikolas Rose definem biopoder como uma forma específica de poder exercido no nível biológico da vida humana para a mobilização e gerenciamento populacional. Eles apontam que, no pensamento foucaultiano, pode-se vislumbrar um diagrama bipolar dos poderes que se exercem sobre a vida. No primeiro pólo, como apontamos, há a anátomo política do corpo humano, que busca aumentar sua força produtiva e, ao mesmo tempo, integrá-lo em um sistema eficiente e mais genérico de controle. Por outro lado, constituindo o segundo pólo do diagrama, teríamos a biopolítica populacional, pautada em mecanismos reguladores e focada nos ritmos próprios à vida (nascimento, envelhecimento, morte etc). Mas a partir do século XIX, este dois pólos, ao invés de se substituírem, inauguram uma nova configuração de poder, articulando-se um ao outro. Este aspecto é fundamental, pois aponta para modos de correlação, as modalidades relacionais que os dispositivos adquirem em contextos históricos específicos.

Dispositivos menores e descentralizados se articulam no interior de tecnologias mais abrangentes. Uma sociedade do biopoder é também um corpo social onde os mecanismos disciplinares continuam operando em diversos níveis. Processo esse que produz efeitos de poder que, por sua vez, são captados pelos mecanismos regularizadores da biopolítica. O ponto que ambos os autores ressaltam é que, pela primeira vez, encontramos mecanismos regularizadores encarnados em estratégias racionais para intervir sobre a vida humana a partir de suas características biológicas. Mas como poderíamos, então, começar a definir conceitualmente biopoder para, em seguida, apreender o sentido de biopolítica? Há, dizem os autores em questão, três elementos que formariam a própria nervura do conceito.

Primeiro, uma rede de discursos de verdade sobre o aspecto físico (biológico) dos seres humanos (entendidos, no caso, como espécie humana). O sentido “biológico”, aqui, não se vincula mais à sua acepção técnica e específica; ele implica um conjunto mais amplo de noções sociológicas ou mesmo demográficas. Tais discursos seriam, por sua vez, enunciados por autoridades competentes. O segundo elemento chave é conseqüência dos regimes de verdade anteriores, isto é, estratégias de intervenção sobre coletividades em nome da vida, da morte, das migrações etc. Estes atos de intervenção, por seu lado, podem se exercer tanto sobre populações territorializadas ou não. Na maior parte dos casos, tais comunidades são percebidas, discutidas e pensadas a partir de categorias raciais, étnicas, de gênero ou religiosas. Outro elemento do conceito de biopoder se refere aos modos de subjetivação, isto é, às técnicas e estratégias de construção de subjetividades por meio das quais os indivíduos são controlados. Essa operação requer tanto uma rede de obediência quando regimes de verdades que sejam transmitidos por ela. Estamos, então, diante de um triângulo: regime de verdade, dispositivos de poder e construção de subjetividades. Mas qual, portanto, a especificidade do biopoder na medida em que encontramos a mesma triangulação nos demais tipos de poder (como o soberano e o disciplinar)? Pela leitura do ensaio, acreditamos que o biopoder implica a atuação de dispositivos sobre um núcleo semântico único, as características biológica da espécie humana.

Os elementos intrínsecos ao aspecto biológico da humanidade (nascimento, envelhecimento, morte etc) formam uma espécie de conjunto basal que permite outros tipos de deslocamentos semânticos. Do ritmo da vida salta-se aos rótulos de raça, etnia, migração e de perigo biológico. O deslocamento conceitual parece permitir operacionalizações mais amplas dos mecanismos de gestão e controle populacional.

Já Maurício Lazzarato aponta outro dado sobre o conceito de biopoder. De acordo com o comentarista, o surgimento da vida (no sentido biológico) na política corresponderia à emergência do capitalismo, em uma espécie de sintonia entre esse modelo de controle e novos modos de produção. A introdução do caráter biológico da espécie humana na história teria criado uma nova ontologia que começa no corpo e que, em virtude disso, jogaria por terra todas as categorias clássicas do pensamento helênico. Teríamos, portanto, a introdução do homem “natural” no espaço da pólis, momento decisivo da modernidade. Por isso, biopolítica é a forma de governo criada por uma nova dinâmica de forças que, em conjunção, expressa relações de poder que o mundo clássico não poderia ter sabido (Lazzarato, 2006, p.10).

estariam além do escopo do feixe de relações capital-trabalho. Para ele, o problema fundamental da modernidade consistiria em que não há mais uma simples força de poder soberano, mas uma infinidade de forças que agem e reagem entre si de acordo com relações de comando e obediência (Lazzarato, 2006, p.12). Ou seja, estaríamos diante de uma nova complexidade histórica que, ao lado da relação capital e trabalho, construiu redes de dominação específicas como a de homem-mulher, professor-aluno, médico-paciente etc. Redes essas que se estenderiam pelo corpo social de maneira descentralizada, fundando a microfísica do poder. A biopolítica, portanto, seria uma coordenação estratégica destas relações de poder para extrair um surplus de poder dos seres vivos (Lazzarato, 2006, p. 12). O que implica afirmar que a biopolítica – enquanto estratégia e dispositivo – e o próprio biopoder estão intrinsecamente articulados ao liberalismo modernos.

Basta lembrar a segunda aula de Território, Segurança e População, onde Foucault aponta um dos aspectos centrais do pensamento conservador no que tange a um importante fenômeno, a escassez de alimentos. A análise conservadora neutraliza a escassez, faz dela um fato natural, que pode ser sanado pelas próprias regras de livre circulação. Apoiando-se na realidade, o pensamento conservador procura gerenciá-la, introduzindo-lhe elementos de regularidade, sem a proibição dos mecanismos legais ou a obrigatoriedade das tecnologias disciplinares. A intervenção na realidade se dá de tal maneira que os elementos já existentes devem se correlacionar uns aos outros para que as coisas se desenvolvam. A liberdade é condição fundamental de todo esse processo, isto é, ela é correlativa ao desenvolvimento dos dispositivos de segurança.

Estas regularizações primeiras, sementes dos mecanismos de segurança, se apoiaram, ou melhor, necessitaram da liberdade como condição de possibilidade. Foucault ainda aponta que, além das mutações das técnicas de poder em função do caráter biológico da espécie humana e da produção dos interesses coletivos pelo desejo, a população se tornou um

terreno privilegiado para intervenções autoritárias. É nesse ponto, enquanto superfície de

intervenção, que se vê surgir uma série de novos domínios de objetos. Em virtude disso, o próprio Foucault elabora uma conceituação cristalina de biopoder como o conjunto de mecanismos pelos quais aquilo que na espécie humana constitui suas características biológicas fundamentais vai poder entrar numa política, numa estratégia política, numa estratégia geral de poder (Foucault, 2008, p. 3).

Quais as implicações destes desenvolvimentos conceituais para o panorama internacional? Como entender a articulação entre poder soberano e dispositivos de segurança

nas relações internacionais pós 11 de setembro? E que tipo de desenvolvimento conceitual se torna necessário para a aplicação do instrumental foucaultiano na arena internacional? No ensaio, Governamentalidade global, Biopoder, Poder Soberano e Discurso de Segurança

Humana, os autores Miguel de Larrinagra e Marc Doucet fazem várias considerações

pertinentes a nossas questões. Para ambos, o novo discurso sobre segurança humana é uma das ferramentas conceituais mais importantes de justificação às intervenções no mundo pós- colonial. Os autores buscam ilustrar como o discurso de segurança humana pode ser lido como trabalhando para estabelecer o terreno discursivo à forma de ordem mundial realizada pela corrente de guerra global contra o terrorismo (Larrinagra & Doucet, 2007, p. 3). Em outras palavras, sob o signo de “guerra ao terror”, pelo menos dois dispositivos de poder estariam se articulando, os mecanismos biopolíticos e o velho modelo do poder soberano. Por um lado, teríamos, grosso modo, ações internacionais visando ao bem-estar de determinados povos, beneficiados por políticas assistencialistas. Por outro, o direito sobre vida e morte, a função assassina do Estado, estaria sendo legitimada pelas intervenções (incluindo guerras preemptivas), em nome do combate ao terror.

Os autores apontam que a repressão sexual na sociedade vitoriana foi uma das primeiras estratégias específicas do biopoder, na busca da normalização e controle social. Com o desenvolvimento da sociedade capitalista, ele teria se tornado mais difuso, aprofundando-se em novas dimensões sociais, com uma singularidade: procuraria melhorar a vida, conformando o bem-estar social dos indivíduos e suas expectativas. As estratégias atingiriam diversas áreas com influência decisiva sobre os indivíduos: o ambiente, o seguro social, aposentadorias etc. Portanto, o biopoder, ao contrário das outras tecnologias de poder, estabelece o bem-estar e a saúde da população como problemas propriamente políticos (Larrinagra & Doucet, 2007, p. 5). Os autores colocam que este movimento esclarece um dos aspectos centrais e diferenciadores entre biopoder e poder soberano: o primeiro tem a vida como objeto; o segundo se reserva o direito de matar. Em função da complexidade das sociedades liberais modernas, o biopoder, no entanto, adquire uma dimensão capilar inusitada, atuando em diferentes níveis para manter o bem-estar (e acrescentamos nós, o controle) populacional.

A questão, já colocada anteriormente, adquire agora novas conotações em função de sua densidade histórica: como um poder centrado na vida e baseado na transparência e difusão capilar, se articula com o poder soberano, capaz de preconizar intervenções militares e genocídios nos pós-11 de setembro? Ou seja, como o poder soberano circula no interior

desta rede difusa que, para melhor controlar, atua sobre o bem-estar populacional? Já havíamos apontado que, para Foucault, isso é possível em virtude do racismo, que abriria cesuras no contínuo biológico da espécie humana. Por isso, racismo pode ser visto como introduzindo no biopoder o princípio da soberania (Larrinagra & Doucet, 2007, p.5). Mas o que nos interessa, no caso, é entender a forma histórica assumida pelo poder soberano no interior do biopoder, após o ataque às torres gêmeas. Do ponto de vista estratégico, a cesura introduzida pelo racismo permite com que o poder soberano opere no interior do biopoder como um dispositivo. O biopoder incorpora o poder soberano como uma tecnologia de poder (Larrinagra & Doucet, 2007, p. 6). Um dispositivo que transmuta a natureza do inimigo político em perigo biológico, racial, étnico, para criar o terrorista como figura emblemática do inimigo moderno – do corpo ao terror, o que existe é uma complexa cadeia de deslocamentos semânticos que engendram os discursos modernos e seus aparelhos militares.

Para entender, na sua moderna historicidade, a operacionalização dos dois poderes e seu modo de articulação, os autores recorrem a outro pensador, Giorgio Agamben. Um dos temas centrais no desenvolvimento teórico de Agamben é o Homo sacer. Figura inscrita no Direito Romano, marcada pela mais completa falta de valor, o Homo sacer teria sido reduzido ao mínimo biológico – a “vida nua”. Seres humanos sem valor, que podem ser mortos aleatoriamente, sem cerimônia, compõem os aspectos que constituem o núcleo basal desta figura marginal no Império Romano. De acordo com o pensador italiano:

[o homo sacer] foi excluído da comunidade religiosa e de toda a vida política: não pode participar de sua gens, nem [...] cumprir qualquer ato jurídico válido. Além disto, visto que qualquer um pode matá-lo sem cometer homicídio, a sua inteira existência é reduzida a uma vida nua despojada de todo direito, que ele pode somente salvar em uma perpétua fuga ou evadindo-se em um país estrangeiro. Contudo, justamente por ser exposto a todo instante a uma

incondicionada ameaça de morte, ele encontra-se em perene relação com o poder que o baniu. (Agamben 2007: p.189)

Agamben aponta que a forma clássica do Homo sacer saltou das margens da história romana para o centro da vida moderna, cujo exemplo máximo seria o dos campos de concentração. Nestes territórios, homens e mulheres de “vida nua” foram exterminados aleatoriamente e sem cerimônia. Os campos são, para o autor, a excelência da vida moderna dessa figura. No entanto, Larrinagla e Doucet observam que a questão do poder fica ausente dos campos de extermínio na medida em que, neles, a resistência se torna, praticamente, impossível. Para haver poder, há de haver resistência. Toda análise de poder deve, portanto,

ter em vista este elemento relacional. Ora, nos tempos atuais, a figura do Homo sacer pode ser vista em diversas arenas internacionais, como Guantánamo, onde os prisioneiros não precisam ser mortos para que o poder soberano exista. Na verdade, o que constitui o poder soberano é a zona de vida reduzida ao seu nível biológico mínimo, mais do que a matança da vida por ela mesma (Larrinagla & Doucet, 2007, p. 7). Portanto, mais que o direito de espada, o que compõe a relação poder soberano e “vida nua” é a possibilidade de controle, coerção, marginalidade e redução ao nível biológico.

As zonas nas quais o Homo sacer é incluído também apontam o caráter paradoxal desta figura, pois são territórios que incluem excluindo. São espaços de exclusão por excelência (voltaremos a este ponto em breve). Na arena internacional, portanto, o exercício do poder soberano não se exerce mais sobre um território em particular. (Havíamos mencionado, a princípio, que a capitalização territorial é uma das características centrais da soberania clássica.) É um poder que se descentraliza, que inclui excluindo, mas que sempre reduz o valor humano daqueles sobre os quais exerce seu controle (e, no limite, sua função assassina). Agamben ainda coloca que a soberania implica outro paradoxo: a suspensão da lei que lhe permite agir com atos de força que têm a força da própria lei.

O soberano está dentro e fora do aparato legal. Ora, esta posição de força determina todo o modo de operacionalização do poder. É por meio dela que se pode decretar

estados de exceção e fazer da exceção um estado permanente. Tendo em vista que a soberania

atua sobre a arena internacional (território sem fronteiras), o eixo anglo-americano consegue fazer com que o discurso de combate ao terrorismo adquira uma nova configuração. No pós 11 de setembro, apontam os autores, houve uma desterritorização do poder soberano e, acrescentamos nós, reconfiguração temporal – a guerra ao terror se torna permanente de forma que o estado de exceção é normalizado. Novo espaço de poder; nova temporalidade de poder. As categorias tradicionais de tempo e espaço, pensadas pela política tradicional são redimensionadas.

Então, se perguntam os autores, qual a nova cartografia moderna das relações internacionais? O discurso moderno de guerra ao terror teria, em primeiro lugar, justificado a excepcionalidade dos tempos modernos e, por isso, levado a uma nova configuração militar e policial da ordem mundial. De acordo com as premissas deste raciocínio, o panorama internacional se encarna em uma hierarquia de países e territórios, habitados por populações que devem estar sob domínio e vigilância de Estados soberanos ocidentais. Estas populações, reduzidas ao seu mínimo biológico, tendem a ser berços de atividades “terroristas” que

estariam pondo em risco o bem-estar de populações ocidentais, o que, infelizmente – segue o raciocínio -, leva à necessidade de intervenções militares. Regimes de verdade, poderio militar, controle de subjetividades (por meio da psique do medo, disseminada nos meios de comunicação de massa). Talvez, portanto, seja justamente na construção de uma nova psique moderna, calcada na fobia, que os meios de comunicação estejam exercendo seu papel, isto é, sua contribuição à legitimação das invasões no Oriente Médio.

Para os autores, estes novos sujeitos, cujas vidas são praticamente despidas de valor, criam as condições de possibilidade para intervenções no plano internacional, reconfigurando toda a dinâmica e operação da política moderna. Em grande medida, a nova ordem se constrói sobre a desvalorização de determinados povos, cujo valor permanece na fímbria do substrato biológico. À título de recapitulação, há alguns elementos centrais que podem ser colhidos destas análises. Entre eles, o conceito de “vida nua”, a habilidade do poder soberano de decretar estado de exceção permanente, seguida da desterritorização do poder, e o próprio discurso de guerra ao terror. Parece-nos que estes são os elementos centrais da reconfiguração do poder soberano moderno. As duas modalidades de poder, agora, exercidos sobre massas populacionais já que o poder soberano estaria funcionando como dispositivo interno aos gerenciamentos de massas populacionais.

Portanto, a construção discursiva de uma nova área de interesse, a de segurança humana, foi decisiva para a suspensão de certos fundamentos da lei internacional. Novos conceitos de segurança, novas concepções de direitos humanos, novas situações de excepcionalidade, intervenções. Diante dos atentados de 11 de setembro de 2001, parece ter havido a configuração de pólos de discussão política, calcados na agenda de segurança. Esta agenda parece ser, nos tempos atuais, a grande matriz política de debate público no que tange à legitimação de intervenções, ajuda, crises humanitárias etc. A segurança humana, elevada ao plano internacional como prioridade número 1 das nações ocidentais (Israel incluída), cria as condições políticas necessárias para as estratégias de intervenção. Na opinião dos autores, o paradoxo, aqui, reside no fato de que, antes de justificar as intervenções, a nova discursividade moldou políticas assistencialistas voltadas a populações pobres. Prevenção a drogas (no Afeganistão), luta contra o vírus do HIV (na África), acesso à educação (em Kosovo). No nível biopolítico, parece ter havido uma série de práticas assistencialistas cujo objetivo foi “fazer viver” às massas populacionais de regiões que seriam vitimadas por intervenções genocidas (do poder soberano).

preocupações de gerenciamento de massas populacionais, o poder soberano – dentro do estado de excepcionalidade – é, por sua vez, usado como dispositivo aniquilador. O poder é sempre um amálgama das mais variadas formas de controle. O estudioso, Btihaj Ajana, no ensaio Vigilância e Bipolítica, observa que o poder não precisa ser forçado, mas apenas internalizado através de mecanismos de auto-regulação (Ajana, 2005, p. 6). Para ele, teríamos passado de um modelo de controle disciplinar, cuja estrutura paradigmática é o panóptico, a uma sociedade de controle (aqui ele se refere ao filósofo francês Gilles Deleuze). O controle físico teria sido substituído por controles eletrônicos cujas técnicas e modalidades escapam ao panóptico e, com isso, novas modalidades de subjetivação estariam surgindo. Mas o grande avanço de Ajana consiste na sua utilização do conceito de fronteira. As fronteiras seriam zonas espaço-temporais por excelência onde a vigilância confere substância ao funcionamento biopolítico e à manifestação do biopoder (Ajana, 2005, p. 8).

O estudioso aponta que a fronteira não pode ser compreendida como o limite de um território. Ao contrário, ela é infinitamente atualizada dentro de processos mundanos de administração internacional e organização burocrática, diluindo a lógica dualista do dentro e fora sobre as quais a soberania ocidental é calibrada (Ajana, 2005, p. 9). Mais do que limite, a fronteira é de “natureza polissêmica” (Balibar), onde seu sentido político é constantemente formado e ressituado a partir de um princípio dual que seleciona os regimes de circulação. O apartheid internacional se encarna nas fronteiras, assim como ele também é exercido nos territórios palestinos, pedaços de fronteira adensados. Por isso, as fronteiras se transformam em zonas específicas de vigilância, isto é, espaços onde os controles disciplinares são atualizados em função de mecanismos mais amplos de gerenciamento populacional. Logo, nas fronteiras a modalidade de poder se conformaria seguindo estratégias micro e virtuais de vigilância e rastreamento cujos efeitos seriam absorvidos, em nível mais geral, atuando dentro de critérios étnicos de controle de massas populacionais. Pequenas disciplinas, grandes regulações de segurança. As modalidades de poder não se excluem; ao contrário, articulam-se em um processo altamente complexo de funcionalidades.

Submetidas a triagens, essas massas populacionais estariam fadadas a permanecer nas fronteiras e, com isso, vivem uma vida que é mais espera do que tudo, uma não vida. O gerenciamento destas vidas teria como condição a figura encontrada por Aganbem no Direito Romano, o Homo sacer, cuja morte caiu no abismo da insignificância (Ajana, 2005, p. 10). A biopolítica das fronteiras, por outro lado, não atuaria no espaço fronteiriço apenas, ela seria atualizada por mecanismos e instituições internas ao próprio Estado e, no limite, internalizada

pelos sujeitos. Hospitais, aparato policial, os próprios cidadão atuariam, portanto, como

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