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Campo Político

No documento silvioaugustodecarvalho (páginas 57-61)

Se a própria construção de representação sobre o mundo social está implicada no funcionamento do campo político, seu papel de controle sobre a opinião pública em geral não pode ser desprezado. A distribuição das opiniões entre uma população – seu conjunto de representações – é função direta do estado dos instrumentos de percepção e de expressão disponíveis. É o universo político, portanto, que não apenas se incumbe de produzir conjuntos de representação sobre o mundo, mas, também os distribui e limita. Na sua relação com o universo social mais amplo, o campo político produz um efeito de censura, pois limita o universo do discurso político e, por esse modo, o universo daquilo que é pensável politicamente (Bourdieu, 2000, p.165). Institui-se, por isso, o monopólio da produção e da expressão do mundo social, que fica a cargo dos profissionais da política. Por outro lado, os consumidores oscilam em um dramático círculo vicioso: quanto menor seu capital cultural maiores serão os constrangimentos exercidos sobre sua visão de mundo.

Se o monopólio da representação do mundo é o que está em jogo, sua obtenção implica uma série de lutas específicas cuja lógica se rege pelos conflitos simbólicos. Lutas simbólicas para manutenção ou transformação do mundo social por meio da manutenção ou transformação da visão deste mundo (e de todos os princípios de divisão nele implicados). O que está na base deste jogo impiedoso, porém, é a própria luta pela manutenção ou transformação das divisões de classes por meio dos seus instrumentos de classificação (tanto em nível incorporado quanto objetivo). As condições de possibilidade para a entrada e permanência no campo político implicam a luta pelo monopólio da construção e da difusão da visão legítima do mundo social. E, ao mesmo tempo, o monopólio dos instrumentos de poder objetivados que serão utilizados na produção de representações e na busca de mobilização de grupos sociais.

O autor reflete de forma precisa sobre o ponto em questão ao dizer que o jogo político consiste em uma luta pelo poder propriamente simbólico de fazer ver e de fazer crer,

de predizer e de prescrever, de dar a conhecer e de fazer reconhecer (Bourdieu, 2000, p. 174). O jogo político é por excelência o jogo simbólico de imposição de visões de mundo que, para se imporem, precisam ser legitimamente impostas. Dentro dos limites cognitivos por ele estabelecidos, a opinião pública é levada a ver, a crer e a se comportar a partir do fluxo de produtos simbólicos emitidos pelo universo político. Na luta política, a divisão de classes é sublimada e redirecionada, em nível simbólico, para a mobilização de grupos sociais. No entanto, a força do discurso não depende de suas qualidades intrínsecas; ao contrário, ela é função de um tipo específico de relação social. O modo como o grupo ao qual ela se destina é capaz de se reconhecer no seu conteúdo. Portanto, a força das idéias não reside na verdade, mas na “força mobilizadora”, a força do grupo que nela se reconhece. É sobre o espelho das identidades que os fatores de mobilização atuam. Grande parte desta força, por outro lado, reside no próprio crédito do autor. Por isso, sua reputação está sempre em jogo (voltaremos a este ponto).

Sintetizando, o campo político define o espaço finito dos discursos suscetíveis de serem produzidos e reproduzidos (Bourdieu, 2001, p. 65). É no seu interior e em função das relações de força nele estabelecidas que se opera a passagem do implícito para o explícito e do subjetivo para o objetivo. É em função desta mesma relação de forças objetivas que não se

operam tais passagens na medida em que grande parte das questões é censurada. E, por isso,

permanecem no campo do impensável ou, pelo menos, do impronunciável. Por isso, estamos diante de uma luta simbólica. O que está em jogo é a capacidade de formulação de veredictos políticos sobre o mundo, os grupos e as classes. É o poder simbólico de definir grupos, questões e discussões e, portanto, de lhes dar existência plena no espaço público. Mas, ao lhes dar existência, o poder simbólico também define o modo como serão vistos, percebidos, pensados, discutidos, enfim, combatidos ou legitimados. Daí, a importância que Bourdieu confere aos conceitos enquanto instrumentos de percepção e cognição historicamente construídos com fins políticos e por fins políticos.

Em seu livro O Escândalo Político, Poder e visibilidade na era da mídia, John Thompson, distingue o campo político dos demais universos sociais. Se o campo político produz ações e interações que têm a ver com a política, então devemos, antes de mais nada, apreender o sentido específico de “poder político”. O poder político está interessado na coordenação de indivíduos e na regulação de seus padrões de interação (Thompson, 2002, p. 130). Se há vários órgãos interessados na regulação de indivíduos, o poder político consistiria, na verdade, em um conjunto de instituições (o Estado). Todavia, estes órgãos estão,

primariamente, interessados na coordenação de indivíduos dentro de um território. Por isso, o

campo político pode ser concebido como um conjunto de instituições estatais direcionado à coordenação de indivíduos. Um sistema de autoridades cujo objetivo é conformar o agir dos cidadãos. Como a manutenção do poder coercitivo seria, senão impossível, pelo menos dispendiosa, a regulação depende de controles simbólicos, as formas simbólicas que têm por objetivo cultivar e sustentar a crença na legitimidade do poder político (Thompson, 2002, p. 131).

Como se trata de conquista e manutenção de imagem política no espaço público, o poder político depende do poder simbólico para sustentar a crença na sua própria legitimidade. Sem o poder simbólico, os profissionais da política não mais teriam a capacidade de influenciar acontecimentos ou mesmo de criá-los. A acumulação de prestígio e reconhecimento é o outro lado da moeda do capital simbólico dos políticos. É por meio da reputação que se luta, se influencia e se intervém neste universo. Em outras palavras, o campo político é o universo por excelência onde a aquisição de reputação se dá por meio do poder simbólico. Os indivíduos que agem dentro do campo político dependem crucialmente, como vimos, do uso de poder simbólico para persuadir e influenciar outros e para articular o curso dos acontecimento (Thompson, 2002, p. 136). Em uma espécie de paradoxo, o poder simbólico é, ao mesmo tempo, meio e fim: a diminuição do capital simbólico implica na menor capacidade de exercício de poder simbólico.

Um “estoque sadio” de capital simbólico é fundamental para condução e participação nas lutas políticas. Por outro lado, o escândalo – ou qualquer outra forma de ataque à reputação - pode acarretar efeitos contrários. Para Thompson, o escândalo pode afetar, ao esvaziar o capital simbólico, as próprias fontes de exercício do poder político. Destruir a reputação de alguém é destruir sua credibilidade e, com isso, sua capacidade de ação no universo político, pois o escândalo atinge as fontes concretas de poder (Thompson, 2002, p. 137), que são simbólicas. Para chegarmos à relação que nos interessa -, a de escândalos e mídia -, é necessário atentar para as características estruturais dos sistemas democráticos liberais. Thompson aponta que, nestas democracias liberais, o sistema partidário é competitivo e as eleições, regulares.

Dentro deste marco eleitoral, o campo político funciona sob uma lógica dupla: a do subcampo político, no interior das instituições estatais, e a do campo político mais amplo que liga políticos e eleitores. Se as eleições se realizam dentro de períodos demarcados, os políticos se vêem obrigados a, constantemente, se apresentarem aos eleitores. A competição

entre profissionais consiste, grosso modo, numa tentativa permanente de desacreditar o oponente. Nos dois casos, porém -, a lógica interna do subcampo e a lógica externa do campo mais amplo -, é sempre por meio do uso do poder simbólico que se obtém prestígio. Elemento de status que, por sua vez, confere poder efetivo nas lutas competitivas implicadas nos dois campos. Se o marco eleitoral consiste na obrigatoriedade de apresentação do político diante do eleitor, os meios de comunicação de massa se tornam espaço nevrálgico. Ponto privilegiado de construção de reputações, a mídia se torna a arena central onde essa luta por poder simbólico é travada (Thompson, 2002, 139).

Na medida em que o político somente tem acesso aos eleitores por intermédio da mídia, ela se torna o meio principal tanto de acúmulo como perda de capital simbólico. Daí, a constante necessidade dos profissionais da área de gerenciamento de visibilidade já que os dois campos – o político e o midiático – se interpenetraram na sociedade moderna. A visibilidade midiática se tornou a condição para a visibilidade política e, portanto, da própria vida política.

Para terminar com a parte referente a Bourdieu, gostaríamos que apontar que por trás do processo de construção dos instrumentos de visão do mundo, está a luta pela definição do que é legítimo. A legitimidade é a fonte de todo o arbítrio social na medida em que a realidade é também uma relação de sentido e que não pode ser mantida e reproduzida apenas através da força bruta. Nos meios de comunicação, o que está em jogo é o monopólio da informação – isto é, um sistema de representação do mundo. Mas uma representação que somente pode se manter, caso se legitime como portadora da verdade, como símbolo que, ao invés de cindir o real, apenas o reporta porque o recorta sem mais. Ora, ao se impor como portadora de verdade, ela exerce a violência simbólica por excelência que repousa na imposição de suas categorias de percepção sobre o leitor. Violência essa que se exerce plenamente na medida em que opera com o desconhecimento tanto dos profissionais da comunicação quanto de seus destinatários.

Vimos as especificidades do campo político como espaço privilegiado de luta pela visão de mundo mais legítima e como universo em que se luta pela posse dos meios simbólicos para a construção de prestígio. Como nas sociedades liberais, os pleitos são demarcados, a necessidade de exposição na mídia, leva os políticos a lutarem incessantemente por sua permanência e pela capacidade de imporem sua visão de mundo no espaço público. Dentro deste contexto, o escândalo – mas também a criminalização e o estigma – atingem as fontes concretas do poder político. Ao mesmo tempo, observamos o modo como o campo

político é entrecortado pela mídia, o que faz dos jornais pontos privilegiados de controle de reputação. As visibilidades da mídia e política se articulam e se auto-referem na estrutura das sociedades modernas.

Na próxima parte, desenvolveremos o conceito de esfera pública, como instrumento que pode ser útil na compreensão do espaço midiático, no seu âmbito internacional. No entanto, entendemos o termo como dimensão estruturada por divisões de classe e perpassada por relações de poder. A questão não consiste, sob hipótese alguma, em como as coisas devem ser passar. Ao contrário, nosso interesse diz respeito à apreensão sócio- histórica da realidade social, onde a esfera pública está situada.

No documento silvioaugustodecarvalho (páginas 57-61)