O início da segunda Intifada parece ter sido desencadeado por uma tácita articulação política entre os dois espectros ideológicos de Israel, o Partido Trabalhista, de direita, e o Likud, de extrema direita. O estopim foi a famosa visita de Ariel Sharon, à época, líder da oposição (Likud), a um dos templos sagrados, em Jerusalém. O Templo Mount, historicamente, havia sido desprezado pelas políticas sionistas a tal ponto que o próprio plano Beilin-Abu Mazen já previra que ele deveria ficar sob soberania palestina. No entanto, a partir do governo trabalhista de Barak, começam os conflitos devido às tentativas do líder trabalhista que buscavam anexá-lo. No dia 28 de setembro de 2000, Ariel Sharon,
acompanhado de guarda armada – providenciada por Barak – enfrenta o cordão de manifestantes, formado por ativistas políticos, parlamentares e cidadãos. Ajudado pelas armas, Sharon entra no templo para exercer o que ele irá chamar de “direito elementar” e desencadeia, por meio desse ato orquestrado com o governo trabalhista, uma das maiores manifestações populares da história da Palestina invadida.
A repressão começa. Após três dias, 30 palestinos e três israelenses são mortos. A desproporcionalidade do ataque às manifestações choca a opinião pública internacional. A Assembléia Geral das Nações Unidas, em resolução do dia 26 de outubro, acusa Israel de “uso excessivo de força”. Ao longo deste mês, o exército israelense utiliza uma série de armas proibidas internacionalmente na repressão a manifestantes – helicópteros, tanques, mesmo mísseis. A tática sionista lança mão de intensivos ataques a áreas populosas, o que leva a resistência palestina a se armar e contra-atacar. Os contra-ataques são, por sua vez, taxados de “terrorismo”, o que justifica, aos olhos da cúpula militar de Israel, intensificação dos ataques. A maneira mais fácil de exterminar uma nação frágil tem sempre sido o de arrastá-la a uma guerra sem esperança (Reinhart, 2002, p. 96). Para se ter uma idéia, estudos encabeçados por especialistas, à época, apontam que a Autoridade Palestina podia lançar mão apenas de pedras, coquetéis molotov, alguns armamentos mais pesados e bombas de rua. É contra este “perigo” que Israel irá usar todo seu arsenal militar.
O próximo passo de Barak é proceder ao isolamento físico e político das áreas palestinas mais populosas, por meio de corte das ligações entre vilas, cidades e outros centros em geral. Aviões com mensagens exigindo a evacuação são seguidos de intensos bombardeios de helicópteros, tanques, mísseis e armas de precisão. Atrás da violência, parece existir um padrão altamente racional, pois grande parte das áreas atingidas fazia um verdadeiro cinturão ao redor de Jerusalém. Reinhart avalia que o conflito foi usado para evacuação destas áreas tendo em vista sua posterior anexação. É neste momento, também, que os cantões palestinos acabam adquirindo o formato atual, onde rodovias e ligações ficam sob forte escrutínio.
O modelo de ataque israelense seguia novo padrão de intervenção bélica – os bombardeios das forças aliadas ocidentais no Kosovo. A Iugoslávia oferecia analogia fascinante ao líder trabalhista, um modelo de bombardeio aéreo em densas áreas populacionais com apoio de todo o Ocidente. Bombardeios maciços, legitimação política – dois elementos que Barak parece ter procurado com insistência na sua política de extermínio da segunda Intifada. O uso de poder militar direto para obtenção de lucros políticos, no caso da Palestina, significou o massacre de “terroristas” e a anexação de territórios ao redor de
Jerusalém. O que parece ter fascinado ainda mais o líder trabalhista era o fato de que as forças ocidentais atacaram Kosovo em nome de “supremos princípios morais”. Nada mais atraente a uma tradição de generais que construíra a figura do soldado israelense nestas mesmas bases – a figura do “soldado moral”. Barak pede estudos sobre a intervenção nos Balcãs a Amos Yidlin, que chegou a algumas conclusões sobre a “lição de Kosovo”.
Para o especialista, o “tempo para a força militar” dependia de dois fatores primordiais: o apoio político, especialmente, do alto escalão e o apoio da opinião pública que poderia ser obtido pelo “comportamento imoral do inimigo”. Portanto, mais do que o “comportamento”, o que parecia estar em jogo era a própria construção da imagem do palestino como “terrorista”. Em maio de 2001, agora é Sharon quem autoriza o uso de aviões F-16 na medida em que as retaliações palestinas criam, aos poucos, o ambiente propício ao uso cada vez mais intenso da força aérea. Os bombardeios de F-16 tornam-se, então, rotina. São os mesmos aviões cujo uso intensivo será desviado para Gaza alguns anos depois. Kosovo, de fato, parece ter oferecido o primeiro modelo de bombardeio aéreo em populações densamente povoadas. Primeiro, a Cisjordânia e, depois, Gaza na última guerra (2008-2009). Desde que seguindo o exemplo dos Bálcãs, o da supremacia moral, os bombardeios seriam legitimados – pelo menos junto à população israelense.
A partir de setembro de 2001, Sharon percebe que outra estratégia pode ser levada a cabo, com efeitos ainda mais legitimadores do que os angariados pela comparação com Kosovo. A invasão americana do Afeganistão passa a oferecer novo modelo de extermínio, a destruição do Talibã. Para Sharon, o mundo ocidental “compraria a eliminação” da Autoridade Palestina se o ataque fosse empacotado em imagens e comparações com os terroristas afegãos. Já em abril do mesmo ano, ele havia admitido, em público, que “a guerra de independência ainda não terminara”, se referindo, naturalmente, aos conflitos de 1948. Ecos dessa posição também puderam ser ouvidos nas palavras do general do exército israelense, Moshe Ya’lon de que Israel estaria atravessando “a segunda parte de 1948”. O mês de outubro foi tão violento que os demônios pareciam estar soltos. Começa uma sistemática campanha de destruição da Autoridade Palestina.
O método afegão de ataque parece ter buscado atingir o poderio da autoridade em três frentes: asfixia econômica da sociedade palestina, destruição física de quartéis e prédios da organização e, finalmente, execução das lideranças em todos os níveis. Uma das conseqüências mais nefastas de Oslo, como vimos, foi a completa submissão da economia dos territórios invadidos a Israel, de forma que a Palestina se transformou em um verdadeiro
mercado consumidor dos produtos sionistas. Ao mesmo tempo, as regiões árabes passaram a fornecer mão-de-obra barata para ser explorada junto aos mercados israelenses, que também consumiam produtos palestinos. Essa relação desigual tornou a economia dos territórios, completamente, dependente da israelense. Por isso, dentre as estratégias de repressão contra a Segunda Intifada, Israel procurou asfixiar economicamente a Palestina enquanto seus soldados destruíam a agricultura, principalmente as plantações de oliveiras. Os conflitos, por outro lado, acarretaram grandes baixas no fluxo de turistas.
Prédios também foram destruídos, arrasando a infra-estrutura necessária ao funcionamento cotidiano da Autoridade Palestina ao passo que seus líderes começaram a ser assassinados. A própria população – principalmente os jovens – sofreu vários ataques, com o início das manifestações. As vítimas estavam sendo atingidas nas pernas, olhos, cabeças – somente nas primeiras cinco semanas das manifestações mais de sete mil palestinos foram feridos. O padrão dos ferimentos não pode ser acidental (Reinhart, 2002, p. 113). O objetivo parece ter sido quebrar ossos ou causar ferimentos que neutralizassem as vítimas sem, todavia, matá-las. Então, ao invés da execução de grande número de palestinos, o que atrairia a atenção mesmo da mídia tradicional, Barak parece ter optado pela “neutralização” física dos “terroristas”, aleijando-os ou cegando-os. A tática de guerra parece ser, sobretudo, uma complexa operação de aniquilamento biopolítico cuja eficácia, muitas vezes, reside mais na “neutralização” do corpo do oponente do que em seu extermínio puro e simples. Cegueira e aleijamento parecem não atingir os níveis ideais de noticiabilidade que, do contrário, seriam atingidos pelo assassinato em massa.
No final de 2001, Arafat é preso em seu quartel general, em Ramallah, onde fica por cinco meses. Israel lança, a partir de março de 2002, uma seqüência de ataques a cidades e campos de refugiados. Jenin está na mira de Sharon. Ele jamais perdoaria tamanha resistência. Nablus teria o mesmo destino. A estratégia do governo israelense parece ter sido a de destruir completamente todo foco de resistência palestina por meio de ataques semelhantes às incursões nazistas ao Gueto de Warsóvia. Gigantescas máquinas escavadeiras são as primeiras a chegar, incumbidas de destruir as primeiras habitações para abrir caminho aos tanques que, uma vez bem posicionados, começam seu trabalho. Mísseis foram disparados de helicópteros cobra ao passo que o trabalho das escavadeiras não parava – há relatos de motoristas que trabalharam, eletrizados, durante dias sem descanso. Quanto aos feridos, alguns choraram por dias debaixo das ruínas até que suas vozes desapareceram (Reinhart, 2002, p. 154). A destruição foi tamanha que o próprio Ministro das Relações Exteriores, Shimon Peres, comete
a indesculpável gafe e usa a palavra “massacre”.
Logo em seguida, pressionado pelo governo, volta atrás e nega ter dito o que disse. Enquanto isto, consciente da dimensão da tragédia, o governo resolve agir, inaugurando uma maciça campanha de propaganda. Exército e Ministério das Relações Exteriores se unem e criam o Centro de Relações Públicas para negar o massacre. Grosso modo, a estratégia midiática consiste na ênfase por repetição em dois pontos. A batalha que se desenrolou em Jenin foi “feroz”, mas não um massacre. A ferocidade da luta se deveu, na verdade, aos ataques “terroristas”. Apesar da tentativa de engodo por parte do governo, reproduzida pela mídia ocidental, a comunidade internacional se estarrece. O clamor pressiona a ONU que cria comissão, incumbida de apurar os crimes. A questão consiste na “suspeita” de que Jenin fora palco de crimes contra a humanidade. Alguns integrantes da comissão, porém, desagradam Israel que, por sua vez, articula-se com os representantes dos Estados Unidos. A comissão é vetada.
Como conseqüência dos massacres, tem-se hoje a conformação territorial da Cisjordânia e, de certa forma, grande parte da geopolítica da crise atual. Logo após Jenin e Nablus, Israel se lança em nova ofensiva (19 de junho) com objetivo específico: o ataque às famílias de suicidas. O gerenciamento populacional dos palestinos parece, agora, conhecer outro elemento, a divisão no interior dos próprios palestinos entre os adestráveis e aqueles que tiveram, em seu meio, elementos suicidas. Um projeto semelhante ao racismo é, aqui, politizado. O racismo é, em linhas gerais, a possibilidade de estabelecer na uniformidade da espécie humana um corte artificial que, ao diferenciar, legitima intervenções, chacinas e atrocidades. Sharon parece ter percebido que no interior aparentemente indiferenciável da população palestina, havia radicais, os “terroristas” que, por isso, deveriam ser vistoriados, controlados e, finalmente, banidos com suas famílias. A geopolítica de Gaza parece ter sido construída, em grande parte, como prisão a céu aberto, destinada como último refúgio a grupos de resistência armada e suas famílias. É, no interior desta política de Sharon, - o homem responsável pela evacuação de Gaza -, que se definiram as diretrizes de controle sobre dois segmentos populacionais distintos. O legado de Sharon parece ser a definição de níveis diferentes de políticas de repressão, agora cindidas entre a Cisjordânia (administrável) e Gaza (“berço de terroristas”). Neste sentido, parte do que se seguiu na Palestina – a exemplo da década de 70 e o legado de Kissinger -, parece ser fruto da engenharia política de Sharon. Ao redefinir os cantões palestinos em duas grandes áreas, ele acabou por determinar o destino da última guerra de Gaza. Kadima, Likud, Partido Trabalhista, todo o espectro político sionista
oscila entre os novos limites geopolíticos definidos pelo general Ariel Sharon. A questão que daí surge é se o general havia tido a intenção de, ao evacuar Gaza, em 2005, fazer desta faixa territorial campo propício aos massacres israelenses? Gaza como exemplo do destino que espera por todos aqueles que, porventura, ousem desafiar o poderio sionista.
Para essa nova massa populacional, considerada a fatia mais radical e “terrorista”, o destino será Gaza, prisão a céu aberto. De forma genérica e sintética, a configuração que o massacre da Intifada cria é a de duas grandes áreas territoriais com populações diferenciadas e, portanto, passíveis de políticas de controle diferenciadoras e específicas. O fato que nos chama a atenção é que, desde Jenin e os ataques de Junho, Gaza parece ter sido preparada para receber o “rebotalho” da população palestina. As primeiras estratégias políticas da guerra de 2008-2009 parecem ter ocorrido no interior desse processo de reorganização geopolítica dos territórios entre a Cisjordânia e Gaza. Para os primeiros, a humilhação dos controles cotidianos; para os segundos, a “colônia penal” que, a qualquer momento, como vimos na última guerra, pode ser objeto das mais impressionantes ataques. È uma estratégia bem- calculada de limpeza étnica (Reinhart, 2002, p.180).