2.3 EM BUSCA DE COMUNIDADE
2.3.4 As Especificidades das Ecovilas
Apesar de várias características em comum com outras comunidades intencionais, e também tradicionais, algumas especificidades diferenciam as Ecovilas das demais. Principalmente, o foco na vida comunitária e a busca pela sustentabilidade, que se refletem nas características do espaço físico, além de uma profunda conexão com a natureza e a vontade de ser exemplo, de servir como modelo, difundido seus princípios e práticas através dos programas de educação que oferecem.
Ecovilas são ricas em capital humano e cultural. Priorizam as necessidades e a circulação de riquezas à acumulação. Os objetivos do Movimento estão relacionados com as ações do dia-a-dia. O princípio Gandhiano „Ser a mudança que queremos ver‟ está profundamente enraizado nas ações dos ecovileiros que acreditam que a mudança social será conquistada pela construção e demonstração de outras formas de vida, que possam ser recriadas em outros contextos (KIRBY, 2004). As Ecovilas são exemplos de comunidades locais sustentáveis. (SEVIER, 2008; DAWSON, 2006) Mostram um possível caminho a ser seguido. Funcionam como verdadeiros agentes de mudança nas áreas onde se instalam. (KESSLER, 2008). Há um desejo de resgatar valores e práticas das culturas tradicionais (SEVIER, 2008) e somar isso a tecnologias de ponta, buscando demonstrar um novo modo de desenvolvimento. Distanciam-se das comunidades alternativas “contraculturais” em muitos aspectos, tanto pelas formas mais pragmáticas que elaboram e implementam suas propostas, quanto por estabelecerem diálogos com setores e agentes da sociedade hegemônica. (SANTOS JR, 2010).
Ao contrário das comunidades tradicionais, Ecovilas não são produtos dos seus meios. (ERGAS, 2010). São grupos intencionais formados por pessoas vindas, em sua maioria, de contextos urbanos, com perfil de “classe média” (FOTOPOULOS 2000; KIRBY, 2004; SANTOS JR, 2010), que conscientemente têm optado por buscar uma nova forma de viver, baseada nas relações sociais, na simplicidade e no cuidado com os impactos de suas ações (SEVIER, 2008). Existem motivações diversas para ser membro de uma Ecovila, entre elas, a busca por pertencer a uma comunidade, estar em um ambiente seguro e saudável, afastar-se das influências da sociedade de consumo, além dos princípios ecológicos (KASPER, 2008).
O maior objetivo das Ecovilas está relacionado à sustentabilidade. É vital para a identidade coletiva ser um modelo de sustentabilidade (ERGAS, 2010). As comunidades anteriores também tinham um esforço de viver próximas à natureza, mas a preocupação com a sustentabilidade data do final dos anos 80/ início dos anos 90, acompanhando o surgimento das Ecovilas. Cabe destacar que não existe uma definição teórica consensual do termo sustentabilidade. Alguns buscam defini-la a partir dos aspectos ecológicos (como as tecnologias ambientais e estratégias de design e planejamento), outros enfatizam os aspectos sociais como o cuidado com as relações, a forma de comunicar e lidar com conflitos, a utilização de processos participativos de tomada de decisão, entre outros. Geralmente fala-se em criar sistemas que possam ser continuados em um futuro indefinido (SIRNA, 2000). Uma das definições mais usadas de sustentabilidade é “satisfazer as necessidades atuais sem comprometer a habilidade das futuras gerações de satisfazerem as suas” (UNITED NATIONS, 1987 - tradução nossa).
No Movimento de Ecovilas é comum dizer que cada grupo tem sua “cola”, ou seja, aquilo que os une, o propósito comum, que varia de acordo com as especificidades, demandas e vontades dos coletivos. Diz-se que “cola” geral do Movimento de Ecovilas é a sustentabilidade.27 Vários elementos definem a condição de sustentabilidade nas Ecovilas. São aspectos diversos e complementares, como: produção de alimentos, fontes de energia renováveis, construções ecológicas, economia solidária, educação comunitária, revitalização da cultura local e tradicional, resolução não-violenta de conflitos e processos participativos de gestão (SANTOS, 2011). Para facilitar, a GEN (Rede Global de Ecovilas) criou uma ferramenta para avaliar o status da sustentabilidade nas comunidades (CSA - Community Sustainability Assessment), que está disponível em seu site 28. É um questionário que funciona como uma ferramenta de auditoria para que cada grupo possa verificar em que aspectos já está sustentável e em quais outros precisa melhorar. Uma comunidade pode ser considerada uma Ecovila se especificar uma missão clara de ser uma Ecovila nos documentos institucionais, acordos comunitários, entre outros, e fizer progressos nesta direção. Não existe um policiamento
27 Informação disponível na Apostila do Treinamento em Ecovilas de Findhorn, 2011. p. 20.
28 Community Sustainability Assessment em: http://sites.ecovillage.org/page/community-sustainability- assessment
nesse sentido. (JOSEPH; BATES, 2003). Além disso, a sustentabilidade nas Ecovilas “não é uma característica da comunidade terminada, mas sim, precisa fazer parte do pensamento e dos hábitos do grupo ao longo de sua trajetória” (GILMAN, 1991, p.6).
Outros fatores de destaque nas Ecovilas são a importância da relação com a natureza e a noção de interdependência. (KIRBY, 2004; KASPER, 2008; ERGAS, 2010). As Ecovilas apresentam um forte senso de reconexão com a natureza e de responsabilidade para com o mundo natural. (SEVIER, 2008). Buscam formas de viver em parceria com a natureza, e em comunidade uns com os outros. (NORBERG- HODGE, 2002; SEVIER, 2008). Promovem estilos de vida que regeneram ao invés de diminuir a integridade do meio ambiente. (KASPER, 2008). Uma Ecovila é desenvolvida de tal maneira que os negócios, as estruturas físicas e tecnológicas não interfiram na habilidade inerente à natureza de manter a vida. Um dos princípios fundamentais do modelo é não tirar do planeta mais do que podemos devolver a ele. Há uma profunda reverência pela vida. Outra afirmação comum do movimento é que: “Ecovilas honram, restauram e celebram os quatro elementos e seus processos interconectados à natureza e às pessoas”. 29
Os ideais das Ecovilas, como alta qualidade de vida e comunidade forte, estão implícitos nas características físicas das comunidades e podem ser observados a partir da utilização dos princípios da Permacultura no desenho do espaço, como a destinação de parte da propriedade à preservação, garantindo a qualidade de vida da comunidade a longo prazo; a criação de diversos locais de convivência, como praças e áreas de recreação, caminhos para pedestres com distâncias curtas entre os espaços; além das facilidades partilhadas (refeitório comunitário, lavanderia, casa de ferramentas, etc), favorecendo as relações sociais. (CHRISTIAN, 2003). A integração social é um dos requisitos da vida em Ecovilas (BISSOLOTI, 2004). É dada uma enorme importância para os encontros e a interação entre as pessoas. As decisões são tomadas de forma participativa, e as questões do dia-a-dia geridas pela comunidade (KESSLER, 2008). Os membros geralmente fazem as refeições juntos (KASPER, 2008) além de trabalharem juntos na manutenção do espaço, e também realizam em conjunto celebrações e rituais. Os mais velhos são honrados como fonte de sabedoria e as crianças são cuidadas pela comunidade (DAWSON, 2006).
O que reforça a identidade e os objetivos das Ecovilas é se mostrarem como modelos viáveis de uma vida sustentável. Para isso, o investimento em educação é fundamental, uma vez que seus princípios, valores e ferramentas são disseminados através dos cursos e oficinas que promovem (KASPER, 2008). As Ecovilas têm sido consideradas os melhores locais para se aprender sobre sustentabilidade, uma vez que vivenciam a sustentabilidade na prática da vida cotidiana, em seus diversos aspectos (KESSLER, 2008), e a educação tem sido um dos fatores de maior sucesso em criar pontes com a sociedade dominante, tornando-se a base da economia de diversas Ecovilas. (DAWSON, 2006). É através dos programas e treinamentos que as Ecovilas vêm ganhando reconhecimento e legitimidade (KESSLER, 2008).
Apesar de reconhecidas como centros de vivências, experimentações, e treinamento (DAWSON, 2006), as Ecovilas não são espaços de aprendizagem convencionais. São „campus‟ de experimentação. Promovem uma educação da práxis. Para além de livros e salas de aula, usam fazendas orgânicas, sistemas apropriados de tratamento de água e gestão dos resíduos, entre outros, demonstrando na prática a viabilidade dos novos sistemas. E não se trata apenas de aprender os aspectos ecológicos da sustentabilidade, mas experienciar a vida em comunidade como um todo, e a cultura do lugar (KESSLER, 2008). Em uma Ecovila, é comum, por exemplo, os visitantes participarem de práticas de yoga, dança e meditação, além dos círculos de partilha, onde cada um tem a oportunidade de contar ao grupo como vivenciou aquele dia, o que aprendeu, quais foram seus desafios, entre outros. A partilha é um momento de interação profunda entre membros e participantes, onde se experimenta uma das ferramentas utilizadas na gestão comunitária. É importante destacar que essas ferramentas sociais podem ser mais facilmente levadas e integradas na vida e trabalho de quem passa por uma Ecovila (KESSLER, 2008). Segundo Dr. Daniel Wahl, então diretor acadêmico dos cursos de pós-graduação em sustentabilidade do Findhorn College (Escócia):
Ao abordarem a transformação pessoal, dinâmicas de grupo e relações interpessoais, assim como comunicação não-violenta, tomadas de decisão por consenso e facilitação de conflitos, esses programas oferecem o “software” de vital importância para uma cultura sustentável, sem o qual, o “hardware” das tecnologias sustentáveis e design de infraestruturas estariam fadados ao fracasso (apud KESSLER, 2008, p. 62 - tradução nossa).
Mais um diferencial das Ecovilas em relação a outras comunidades intencionais é o engajamento com o entorno (ERGAS, 2010). Ao contrário do que se imagina, morar em uma Ecovila não significa se isolar ou se refugiar num espaço bucólico, mas fazer parte de um objetivo maior (DAWSON, 2006; KASPER, 2008; SEVIER, 2008), contribuindo com o desenvolvimento da sua biorregião e se conectando com uma rede ampla que busca desenvolver e disseminar princípios e práticas relacionadas a sustentabilidade, nos seus diversos aspectos (DAWSON, 2006; ERGAS, 2010) além de uma outra visão de mundo. A intenção é de experimentar o mundo de outra forma, aliando teoria e prática, conhecimento, reflexão e ação (KASPER, 2008). É também, relacionar-se com os outros, ensinar e aprender juntos, multiplicando esses conhecimentos (ERGAS, 2010). Trata-se, acima de tudo, de uma ação política (KIRBY, 2004; ERGAS, 2010) desenvolver um estilo de vida alternativo em resposta aos desafios atuais, criar uma nova cultura que possa fazer frente à cultura dominante, à alienação e ao materialismo da sociedade industrializada. Partem do empoderamento e do engajamento de indivíduos e comunidades, que se conectam em redes, influenciando não apenas a nível local, mas regional e global. Os ecovileiros são vistos como “ativistas pacíficos” (KIRBY, 2004; ERGAS, 2010), que buscam ganhar a opinião pública pelo exemplo. São inovadores e pioneiros em diversos aspectos (KIRBY, 2004; DAWSON, 2006). O modelo das Ecovilas sugere que a possibilidade de sociedades sustentáveis depende não apenas do que fazemos, mas de como pensamos, daí a importância das subjetividades para manter e reforçar a visão de mundo (KASPER, 2008).
Muitos consideram o movimento de Ecovilas como sendo a-político (TRAINER, 2000; FOTOPOULOS, 2000; SANTOS JR, 2010), entretanto, existem outras perspectivas. Criar outra forma de vida que sirva de modelo para a construção de sociedades sustentáveis, também pode ser vista como uma ação política, consciente e efetiva. Segundo Buckminster Fuller, “A única forma de mudar algo é torná-lo obsoleto.” Para tornar obsoleto é preciso criar uma nova forma, melhor, de fazer (apud GILMAN, 2013). Isso é pioneirismo e inovação. É o exercício das Ecovilas, contruir o novo aqui e agora e, aos poucos, ir ganhando adeptos, gerando massa-crítica para essa mudança tão necessária (TRAINER, 2000). Dessa forma, não é preciso o confronto, mas sim, criar, aprimorar e replicar experiências viáveis para maximizar a contribuição na transição para sociedades sustentáveis (TRAINER, 2000).
As Ecovilas nos mostram uma nova forma de atuar e também de fazer política. Trata-se de um movimento afirmativo e não de protesto. Nos países ricos do Norte, buscam revitalizar a vida social e reduzir o consumo. Em países em desenvolvimento, do Sul, elevam os padrões de vida de forma sustentável, incorporando tecnologias ecológicas, ao mesmo tempo em que preservam os aspectos culturais locais. Em ambos os contextos, a motivação partilhada é criar comunidades sustentáveis que possam servir de resposta à crise global (LITFIN, 2009).
Apesar da maior parte dos estudiosos ser favorável ao modelo e estratégia propostos pelas Ecovilas, há quem discorde. Takis Fotopoulos acredita que precisamos de um movimento político de massa para sermos capazes de criar uma nova sociedade. Para o autor, mudar o estilo de vida não faz parte de um programa político compreensivo de mudança de paradigma. Para isso, seria fundamental a luta contra o capitalismo. E vai além em sua crítica ao Movimento de Ecovilas, não o reconhecendo enquanto um movimento, mas como “atividades marginais de grupos que possuem uma filosofia compatível com o sistema atual, e que estão preocupadas com seus próprios interesses” (FOTOPOULOS, 2000), além de ver “a espiritualidade presente nas Ecovilas como uma forma de irracionalismo [...] sendo qualquer forma de irracionalismo incompatível com uma sociedade democrática”. (FOTOPOULOS, 2000, p. 10 – tradução nossa) Desta forma, o autor aponta para o “papel perigoso das Ecovilas” as vendo como “parte do problema atual, não a solução” (FOTOPOULOS, 2000, p. 11). Fotopoulos acredita que irá encontrar as soluções no mesmo modelo que criou os desafios atuais, ou seja, na racionalidade e na luta contra.
Também Garden critica o Movimento de Ecovilas ao afirmar que as Ecovilas não são comunidades alternativas e que, “ao invés de um movimento, seria mais apropriado descrevê-lo como um clube exclusivo elitista que se capitalizou com o crescente interesse no tema da sustentabilidade” (GARDEN, 2006, p. 2-3 – tradução nossa). A autora critica o fato de comunidades pré-existentes ao surgimento das Ecovilas terem que „trocar de etiqueta/rótulo‟ para se integrarem, e questiona os critérios do que seria ou não uma Ecovila. Garden declara que sua objeção ao Movimento de Ecovilas é por sugerirem que um estilo de vida ecológico e sustentável não seja possível na sociedade dominante, ao mesmo tempo em que dependem da sociedade dominante em diversos aspectos. Também “não acredita que os ecovileiros vivam de forma mais harmoniosa do
que a sociedade dominante” (GARDEN, 2006, p. 3 – tradução nossa), uma vez que os conflitos e contradições também acontecem nas Ecovilas. Por fim, é clara ao dizer que não reconhece o Movimento de Ecovilas enquanto um movimento significativo de transição, uma vez que a maioria das pessoas nunca ouviu falar das Ecovilas. (GARDEN, 2006)
Sem dúvida, o movimento de Ecovilas é um Movimento que emerge na classe- média, mas não podemos negligenciar os inúmeros „Ecovileiros‟ do continente africano que não podem, de forma alguma, ser considerados como elites. As Ecovilas são parte integrante da sociedade, se reconhecem como tal, e estão atuando na busca de soluções para os desafios globais. Conflitos e contradições demontram a nossa humanidade, resta buscarmos outras formas de lidar com eles. Ecovilas e comunidades intencionais “contribuem qualitativamente e não quantitativamente para o desenvolvimento sustentável” (KUNZE, 2012, p.50). Demonstram formas inovadoras de co-habitação, novos modelos de governança e de resolução de conflitos, e estimulam o crescimento pessoal (SCHEHR, 1997; KUNZE, 2012). Possuem um enorme potencial enquanto laboratórios vivos nos mais diversos aspectos, “sendo uma resposta direta para os problemas sociais, riscos ambientais e incertezas em todos os níveis”. (KUNZE, 2012, p. 66).
Apesar das críticas, as Ecovilas vão ganhando espaço e adeptos dia após dia, e pelas estratégias utilizadas, o Movimento não é visto como perigoso pelo status quo por não optarem pelo enfrentamento direto (KIRBY, 2004), o que é uma vantagem para a difusão de seus princípios e práticas. Embora tenham ainda alguns desafios a superar, estão atraindo a atenção de pessoas e organizações que antes as rotulavam de hippies, entre eles, governos e universidades. (DAWSON, 2007; KESSLER, 2008). Como afirma Jonathan Dawson, passamos de “malucos a eco consultores” (DAWSON, 2007). Agora os ecovileiros são requisitados para colaborarem na criação e implementação de tecnologias e ferramentas sustentáveis na sociedade dominante.
Muitas das Ecovilas já são Best Practice da ONU (reconhecidas como melhores experiências), ditando caminhos que possivelmente se tornarão normas de conduta no futuro. (SEVIER, 2008) Apesar de serem „processos em construção‟ (JOSEPH; BATES, 2003; CHRISTIAN, 2003; JACKSON, 2004; SEVIER, 2008), as Ecovilas estão estabelecendo as fundações de uma nova cultura (SEVIER, 2008), exibindo uma ética
distinta (KASPER, 2008; SEVIER, 2008), e esse é um dos grandes legados das Ecovilas: relembrar que somos seres interdependentes, e criar modelos cooperativos e resilientes que possam ser replicados e perpetuados, servindo como alternativas a atual forma de vida.