2 DESAFIOS DA SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA E POSSIBILIDADES
2.4 DELIMITAÇÃO DA PESQUISA
2.5.5 Processo de pesquisa
2.5.5.1 As etapas da pesquisa
A pesquisa ocorreu ao longo de quatro etapas, conforme apresentado no Quadro 2.2:
ETAPAS PERÍODO
Etapa 1 – Identificação das situações iniciais Janeiro de 2006 a abril de 2008 Etapa 2 – Identificação de fatores históricos relacionados à
resistência dos estudantes
Etapa 3 – Identificação de alternativas pedagógicas para motivação dos estudantes
Abril de 2006 a março de 2009
Etapa 4 – Análise e interpretação dos resultados obtidos Março a setembro de 2009 Quadro 2.2 – Etapas da pesquisa.
A Etapa 1 – Identificação das situações iniciais começou desde o momento em que observamos as primeiras mensagens encaminhadas pelos estudantes de ECOMP para a lista de discussão da comunidade abordando questões relacionadas à organização do currículo, ao método PBL e ao tipo de conhecimento que estavam obtendo no curso, bem como à relevância das disciplinas humanísticas para a sua formação. Ela ocorreu até o momento em que assumimos a primeira turma de EXA 829 – TFH na condição de docente e pudemos constatar as demandas da comunidade e decidir realizar a pesquisa.
Então, foi durante essa etapa que identificamos o cenário, o campo de investigação, o grupo alvo (inicialmente os estudantes da disciplina EXA 829 – TFH), e ampliamos a nossa compreensão sobre eles; definimos o objeto a ser investigado resistência dos estudantes em cursarem as disciplinas humanísticas; levantamos as questões, o problema, os objetivos, o método, as técnicas de pesquisa e os primeiros referenciais sobre o tema, que foram agrupados e descritos neste capítulo.
Assim que atentamos para as mensagens dos estudantes, iniciamos a pesquisa documental, e o currículo do curso de ECOMP bem como o texto das próprias mensagens enviadas serviram-nos como fonte de dados iniciais. Além disso, as referências bibliográficas sobre as Ciências Humanas e Humanidades, com que tivemos contato durante os encontros das disciplinas do curso de Educação e nos encontros da REDPECT, foram utilizadas como lastro teórico para compreendermos a necessidade e a importância do conhecimento produzido e difundido pelos diversos campos de saber, e de uma educação integrada e multirreferencial. Ademais, o material coletado foi ponto de partida para a pesquisa bibliográfica.
Um resumo das atividades relacionadas à Etapa 1 da pesquisa pode ser encontrado no Quadro 2.3.
OBJETIVOS DE
PESQUISA ATIVIDADES FONTE DE DADOS
Identificação das situações iniciais
• Identificação de demandas de pesquisa; cenário de investigação; do campo de investigação; e do grupo alvo;
• Construção do objeto a ser investigado e das questões e objetivos de pesquisa;
• Levantamento do método e das técnicas utilizadas durante a pesquisa;
• Mensagens eletrônicas dos membros da
comunidade ECOMP; • Material obtido nas disciplinas da FACED e na REDPECT;
Identificação das situações iniciais
• Freqüência e participação da disciplina EDC603 – Educação, sociedade e práxis pedagógica;
• Freqüência e participação na disciplina EDC 557 – Abordagens e técnicas de pesquisa em educação;
• Freqüência e participação na atividade EDC793 – Projeto de tese I;
• Freqüência e participação na REDPECT.
• Discussões nas disciplinas da FACED e na REDPECT • Referências bibliográficas; • Documentos instituicionais.
Quadro 2.3. Resumo das atividades realizadas na Etapa 1 – Identificação das situações iniciais.
Nossa primeira ação na Etapa 2 – Levantamento de fatores relacionados à resistência dos estudantes foi identificar situações históricas que tivessem relação com o processo de resistência dos estudantes de ECOMP em cursarem as disciplinas de formação humanística.
Neste sentido, durante a investigação, sentimos a necessidade de ampliarmos o nosso conhecimento sobre a mente e comportamento humanos. Sempre ouvíamos falar da Psicanálise durante as reflexões coletivas nas disciplinas do curso de Educação e também percebemos que servia como lastro para alguns dos teóricos que selecionamos para interagir, como Castoriadis (2000) e Barbier (1998). Assim, matriculamo-nos no curso de Formação em Psicanálise oferecido pela Sociedade de Estudos de Psicanálise e Hipnose Aplicada (SEPHIA) de Feira de Santana, coordenada pelas Psicanalistas Ivone de Matos Cerqueira e Isabela Brandão.
Na SEPHIA, participamos de 24 módulos temáticos: alguns apresentando conceitos fundamentais da psicanálise freudiana e contemporânea, e outros buscando relacioná-los aos saberes produzidos pelas Ciências Humanas. Além disso, pudemos discutir várias situações relacionadas ao comportamento humano (tanto no âmbito da neurose quanto no da psicose) que são contempladas pela Psicanálise, com outros cursistas, formados pelas mais diversas áreas do conhecimento, como Biologia, Matemática, Contabilidade, Pedagogia, Direito, Letras, Teologia etc.
Outra experiência relevante para o desenvolvimento deste trabalho foi participarmos do processo analítico, previsto como requisito para o psicanalista em formação. No setting analítico pudemos intensificar a busca pelo “conhecimento de si”, por meio dos métodos, técnicas e instrumentos disponibilizados pela Psicanálise.
Além disso, buscamos na literatura acontecimentos históricos que estão relacionados à tendência do estudante de cursos de engenharia normalmente atribuir prioridade às disciplinas técnico-profissionalizantes e ao saber proporcionado por elas em detrimento do saber proporcionado pelas Ciências Humanas e Humanidades.
Um resumo das atividades relacionadas à Etapa 2 da pesquisa pode ser encontrado no Quadro 2.4. OBJETIVOS DE PESQUISA ATIVIDADES TÉCNICAS/FONTE DE DADOS Compreensão do processo de resistência.
• Acompanhamento e planejamento da primeira disciplina de formação humanística mediada por nós: EXA 829 – TFH 01;
• Compreensão do funcionamento da mente humana e do comportamento dos indivíduos, a partir da
Psicanálise;
• Levantamento de comportamentos que sinalizam a resistência dos estudantes;
• Observação da turma EXA 829 – TFH 01; • Pesquisa bibliográfica. Levantamento de fatores históricos relacionados à resistência dos estudantes de engenharia em cursarem disciplinas humanísticas
• Investigação sobre a história da formação do pensamento ocidental;
• Pesquisa bibliográfica • Pesquisa documental
Quadro 2.4. Resumo das atividades realizadas na Etapa 2 – Identificação de fatores relacionados à resistência dos estudantes.
A Etapa 3 – Identificação e aplicação de estratégias para motivação dos estudantes também começou desde quando iniciamos o acompanhamento da disciplina EXA TFH – 01. Assim que assumimos a turma, conforme já dito, ela já se encontrava em andamento, então, começamos uma investigação sobre como o componente curricular vinha sendo articulado e formulamos as seguintes questões de ação para nos nortearem no campo:
• como apresentar os temas de formação humanística em um curso fortemente voltado para a exatidão, precisão, à velocidade, aos números e à objetivação?
• como motivá-los nas discussões, despertar-lhes à atenção, fazer com que relaxem a mente e se sintam à vontade para falar de questões sociais, políticas, econômicas, comportamentais, filosóficas e culturais? Como incentivá-los ao desenvolvimento do
pensamento sistêmico-local-crítico, no intuito do desenvolvimento de sua autonomia e de sua contribuição para o coletivo?
• como trabalhar a relação com o outro e, ao mesmo tempo, trabalhar a relação consigo mesmo?
• como, em um componente curricular aparentemente teórico, introduzir as ferramentas computacionais, interagir com as principais áreas de atuação do profissional, ou seja, praticar a multirreferencialidade sem perder o foco principal?
• como estabelecer um diálogo entre o saber e o fazer nesses componentes? • e como representar o conhecimento elaborado em sala de aula, principal espaço de aprendizagem do componente curricular, de modo que o computador possa atuar como ferramenta de apoio na busca automática de informações, inclusive identificando conceitos trabalhados por mais de um componente, ou em mais de um eixo curricular?
Além dessas questões, tínhamos em mente que todas as ações deveriam estar apoiadas pelo método de aprendizagem adotado pelo curso, o PBL, de modo que pudéssemos transformá-lo em objeto de estudo e reflexão, ampliando com isso a forma de compreender como se dá a produção, apreensão, gestão, representação e difusão do conhecimento ao longo da dinâmica dos sete passos.
Começamos, assim, a alterar a nossa maneira de trabalhar, buscando motivar os estudantes a freqüentarem e participarem dos encontros, bem como a se interessarem pela aprendizagem dos temas humanísticos.
Neste sentido, adotamos no processo educacional e verificamos algumas estratégias: • a “chuva de conceitos”, que criamos com base em um dos passos da dinâmica PBL (Brainstorm, ou tempestade de idéias) e na técnica da associação livre da Psicanálise, com o intuito de provocarmos a fala e participação dos estudantes ao longo dos encontros;
• recursos disponibilizados pela cultura das humanidades: especialmente os filmes e as músicas, a fim de potencializarmos o processo de socialização do conhecimento e intensificar o princípio de prazer;
• situações-problemas, compreendendo os temas previstos nos cursos, a partir dos desafios locais da comunidade como o uso ético das tecnologias e a própria resistência quanto às disciplinas humanísticas;
• os mapas conceituais e as ontologias para auxiliar a representação do conhecimento produzido;
• o CMAP TOOL e o Protege, editores de mapas conceituais e ontologias, respectivamente, visando à contribuição com a formação técnica e a religação entre as disciplinas humanísticas e profissionalizantes.
Além disso, durante o processo, a fim de ampliarmos as possibilidades de compreensão de como o conhecimento é produzido, apreendido, gerido, representado e difundido adotamos a espiral de conhecimento de Nonaka e Takeuchi (1997), que reúne quatro processos que nos auxiliam na compreensão da transformação do conhecimento ao longo da discussão dos problemas.
A reunião dessas estratégias culminou, no final do acompanhamento da turma EXA 829 – TFH 02, com a elaboração de uma metodologia para as disciplinas de formação humanística que denominamos de Problem Based Learning – Knowledge Building, e ao final do período reservado para análise das informações e interpretação dos resultados com uma nova interpretação do ciclo PBL, alterando o foco dos problemas-soluções para o conhecimento produzido e apreendido, essa interpretação foi motivada pela perspectiva da complexidade (MORIN, 2006a).
Um resumo das atividades relacionadas à Etapa 3 da pesquisa pode ser encontrado no Quadro 2.5. OBJETIVOS DE PESQUISA ATIVIDADES TÉCNICAS/FONTE DE DADOS Levantamento de alternativas pedagógicas para motivar os estudantes no curso.
• Aplicação dos problemas trabalhados para contemplação das demandas locais;
• da chuva de conceitos no final dos encontros para motivar a participação e a aprendizagem dos temas; • de mapas conceituais para amparar o processo de representação do conhecimento obtido;
• de recursos tecnológicos: CMAP TOOLS e Protege para edição dos mapas e ontologias;
• Pesquisa bibliográfica; • Observação participante;
Levantamento de alternativas pedagógicas para motivar os estudantes no curso.
• de filmes e músicas para potencialização do processo de socialização do conhecimento; • de ontologias para motivar a representação do conhecimento produzido pelos estudantes. • dos passos do método PBL;
• dos processos de transformação do conhecimento existentes na espiral de conhecimento de Nonaka e Takeuchi (1997) para ampliação da compreensão da produção, apreensão, gestão, representação e difusão do conhecimento.
• Pesquisa
documental: solicitação de escrita de diários reflexivos.
Quadro 2.5. Resumo das atividades realizadas na Etapa 3 – Identificação de estratégias para motivação dos estudantes.
Finalmente, na Etapa 4 - Análise e interpretação dos resultados obtidos, após a adoção dos recursos pedagógicos identificados, procuramos obter a opinião dos estudantes quanto à sua motivação em freqüentar e participar dos encontros e quanto ao seu interesse em apreender os temas relacionados às disciplinas. Os diários reflexivos escritos por eles ao longo dos encontros foram importantes fontes de informação para levantarmos os dados e as informações sobre o processo educacional. Além disso, aplicamos questionários para nos auxiliar no processo (Apêndice D). Um resumo das atividades relacionadas à Etapa 4 da pesquisa pode ser encontrado no Quadro 2.6.
OBJETIVOS DE PESQUISA ATIVIDADES TÉCNICAS/FONTE DE DADOS Verificação do processo educacional.
• verificação dos problemas trabalhados para contemplação das demandas locais;
• da chuva de conceitos no final dos encontros para motivar a participação e a aprendizagem dos temas; • de mapas conceituais e ontologias para amparar o processo de representação do conhecimento obtido; • de recursos tecnológicos: CMAP TOOLS e Protege para edição dos mapas e ontologias;
• de filmes e músicas para a potencialização do processo de socialização do conhecimento; • verificação do processo educacional.
• Pesquisa bibliográfica • Pesquisa documental: solicitação de escrita de diários reflexivos • Análise contrastiva a partir dos relatos obtidos nos diários reflexivos
Quadro 2.6. Resumo das atividades realizadas na Etapa 4 – Análise e interpretação dos resultados obtidos.
Ainda nesta etapa buscamos identificar possíveis reflexos do trabalho realizado nas disciplinas na comunidade ECOMP.
Neste capítulo buscamos descrever como ocorreu o processo de construção do objeto de pesquisa deste trabalho. Partimos de uma ampliação da problematização; que começamos no Capítulo 1, quando abordamos a intensificação da desigualdade social na sociedade contemporânea e o papel da educação na formação e inserção do ser humano; e destacamos outros desafios sociais potencializados pelo desenvolvimento tecnológico, como a fragilização da relação face a face, o aumento do consumismo, a reconfiguração das cidades, a insegurança e medo no cotidiano, os danos à saúde etc.
Ao enfatizar tais desafios objetivamos levantar a necessidade do desenvolvimento do pensamento sistêmico-local-crítico-reflexivo dos estudantes de engenharia, motivada pelas noções de complexidade e multirreferencialidade, por meio de uma maior atenção às disciplinas de formação humanística previstas no curso, que são normalmente resistidas por eles. Almejamos, com isso, contribuir com o desenvolvimento de habilidades e competências fundamentais para sua vida individual e coletiva, como o desenvolvimento da autonomia e a capacidade de participação na construção do curso de ECOMP. Além de uma ampliação da problematização, buscamos definir as questões, os objetivos e a metodologia da pesquisa.
Nos Capítulos 3, 4 e 5 detalharemos o percurso prático-teórico que trilhamos para responder, ainda que de modo inacabado, as questões de pesquisa que foram levantadas.