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2 DESAFIOS DA SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA E POSSIBILIDADES

2.1 DOS REFLEXOS DOS DESAFIOS SOCIAIS NA COMUNIDADE DE

O colegiado do curso de ECOMP foi constituído por membros pertencentes a dois departamentos que ficaram responsáveis por ele: o DEXA e o Departamento de Tecnologia (DETEC). Dentre esses professores, há aqueles que possuem origem no estado, e que já faziam parte do quadro de funcionários da UEFS antes da criação do curso. Por outro lado, há professores que fizeram concurso para ocupar vagas de disciplinas específicas do curso de ECOMP, alguns dos quais vieram de outros estados do país. Isso caracteriza um grupo culturalmente heterogêneo. Quanto ao corpo discente, é constituído em sua maior parte por estudantes oriundos da cidade de Feira de Santana, mas também por alguns que vieram de outras cidades da Bahia e de outros estados do Brasil, como Sergipe.

Quando começamos a observar a comunidade de ECOMP, percebemos que os que estudantes e professores normalmente se comunicavam por meio de TIC, especialmente a internet e o correio eletrônico, para tratar dos diversos assuntos relacionados ao processo de implantação do curso, mesmo que tais pessoas se encontrassem freqüentemente e se situassem em locais próximos. Isso era feito normalmente a partir de mensagens eletrônicas encaminhadas para a lista de discussão da comunidade. Verificamos, todavia, a inexistência de um moderador de lista de discussões, mediando e articulando as idéias e as sugestões apresentadas pelos membros da comunidade.

A comunicação realizada de modo presencial, face a face, referente à implantação do curso, era realizada de modo isolado, entre professores - estudantes, professores – professores, representante docente do curso – estudantes, representante docente do curso – professores etc. Segundo relato dos estudantes, alguns professores reservavam uma parte dos encontros nas disciplinas para tecerem explicações sobre o método PBL, e algumas soluções eram levantadas, mas havia pouca socialização do conhecimento produzido para os demais membros da comunidade. A própria constituição do curso, por docentes pertencentes a dois departamentos distintos (i.e. DEXA e DETEC) motivava essa lacuna na comunicação.

Ainda sem relacionar a situação da comunidade de ECOMP aos desafios sociais motivados pelos freqüentes usos das TIC, como à fragilização da interação face a face, fizemos uma analogia das relações do cenário apresentado com os estudos que realizamos, na época de estudante, sobre os primeiros sistemas de arquivo para armazenamento de dados e informações, antes do surgimento dos bancos de dados relacionais, que eram descentralizados, que atendiam às demandas locais, e acabavam gerando redundância, inconsistência de dados e informações, conflitos interpessoais e muito retrabalho. Foi assim que começamos a pensar que as soluções isoladas poderiam gerar transtornos para a comunidade.

Somada às lacunas na comunicação entre os departamentos, e entre os professores e estudantes, houve o afastamento de muitos docentes que haviam se qualificado para trabalhar com o método PBL, que se transferiram para outras instituições de ensino do país. Além disso, com o crescimento do curso, a chegada de novos estudantes e professores, bem como do aumento da demanda de atividades como projetos para aquisição de recursos para infra-estrutura, para incentivo à pesquisa etc., a fragilização da relação humana entre os membros da comunidade se intensificou. Isso foi confirmado por algumas mensagens enviadas pelos estudantes:

Nos primeiros anos do curso, íamos todos animados para as aulas de PBL, tanto professores como Estudantes. Era uma reunião onde o problema apresentado (mesmo sem grande experiência na metodologia) conseguia prender toda a nossa atenção. O feedback realmente existia e as aulas de consultoria existiam e valiam a pena, os professores tiravam as nossas dúvidas nas consultorias (ESTUDANTE 1).

Mas com esse crescimento vem também a heterogeneidade cada vez maior de seus integrantes e descentralização de uma união que tínhamos antes (2004), quando toda essa metodologia PBL era aplicada de forma mais

justa. Os professores eram mais unidos e o espaço de atuação do estudante era maior (ESTUDANTE 2).

Além da fragilização nas relações humanas, a condição de trabalho também começou a ser afetada, quando se iniciou na comunidade uma fase caracterizada pelo envio, por parte dos estudantes, de uma série de mensagens ofensivas, com posicionamentos críticos sobre crenças e comprometimentos, algumas vezes de modo irônico e atentando contra a integridade dos sujeitos envolvidos, inclusive revelando identidades.

Para Masiero (2004, p. 165-166), que vem desenvolvendo estudos na área de ética em computação, “ofensa é um tipo de estado de infelicidade, de angústia mental ou algum tipo de sofrimento”, alerta ainda que, “ao contrário de um dano físico, só pode causar dano a uma pessoa se ela se sentir ofendida”, e que “muitas vezes, a mesma frase dita a diferentes pessoas pode ofender umas e não ofender outras”. Conforme afirma este autor, as pessoas podem se sentir ofendidas por diversas razões e em uma grande diversidade de área (e.g. linguagem sexualmente explícita, nudez, figuras, linguagem racista etc.). Injúria, agravo, afronta, lesão, dano, desconsideração, menosprezo, violação de regras, transgressão, falta, mágoa ou ressentimento de pessoa ofendida são outros significados para a palavra ofensa encontrados no dicionário Aurélio (FERREIRA, 2004).

Quando consideramos a amplitude e a velocidade com a qual a comunicação se propaga pela internet, e que, por isso, tais mensagens logo chegavam para toda a comunidade, compreendemos porque o ambiente de trabalho se tornou tenso. Os seguintes trechos de mensagens, que foram enviadas por professores para lista de discussão da comunidade, em resposta às mensagens dos estudantes, confirmam o sentimento de ofensa:

Estou cansado de abrir a minha caixa de e-mails para ler mensagens com desaforos à classe dos professores, ou mensagens que não tenham nada a ver com o curso, ou pior ainda, mensagens com linguagens pobres e com palavras de baixo calão (PROFESSOR 1).

Atacar os professores não é a melhor solução. Discutir é muito importante e válido, mas esta discussão deve ocorrer de forma respeitosa. Nunca faltei com respeito com nenhum de meus estudantes, e quando leio esta lista, sinto-me desrespeitado (PROFESSOR 2).

Acompanhamos os debates a distância, já que todas essas mensagens, mesmo quando se tratavam de assuntos específicos de um dado domínio de conhecimento, como dúvidas relacionadas a uma dada disciplina, eram direcionadas para toda a comunidade.

Além disso, percebemos entre os membros do curso de ECOMP uma demanda relacionada à necessidade de pensar/dialogar sobre o processo de produção e apreensão do conhecimento. Isso pode ser verificado por meio de outra discussão realizada pelos estudantes, relacionada à forma como o curso lida com o conhecimento e aos propósitos da educação, que também nos instigou muito:

Vivemos num curso baseado na motivação pela construção. Somos forçados a construir coisas, resolver problemas, implementar algoritmos que vieram de teses de doutorado [...]. o tempo gasto implementando algo específico poderia ser revertido em horas de estudo dos conceitos gerais da disciplina. Assim, no futuro, quando eu estiver no mercado, terei segurança em fazer as escolhas. Saberei o quê e como pode ser feito. O que precisamos é: saber que existe, saber para que serve, saber como usar e testar pequenos exemplos. Quando for necessário, criamos algo, baseado no conhecimento prévio. Não estou dizendo que devemos ter um curso teórico, claro que não! Mas acho que não deveria ter enfoque no fazer e sim no saber. O enfoque não deveria ser na implementação e sim na aquisição de conhecimento. É bem mais importante entender os princípios e conhecer as técnicas, do que fazer um programa rodar ou ler a tensão correta no multímetro. O triste é saber que meus ‘SS’ não significam que eu tenho conhecimento de nível superior, mas apenas que sou um bom técnico, um bom implementador (ESTUDANTE 1). Outro estudante respondeu:

Realmente perdemos mais tempo do que deveríamos fazendo implementação (sem falar nos relatórios). Contudo, num curso tradicional reclamaríamos da falta de prática. Realmente não posso afirmar com certeza quem está correto, penso que os dois caminhos têm lados bons e ruins. Para mim, um foco maior na implementação prepara melhor para o mercado de trabalho, principalmente em quem optar pela área de software. Já a área de hardware é lesada sim, em certo sentido, pois alguns conceitos importantes (matemáticos, a maioria deles) se perdem ao longo do curso, seja pela atenção dada à implementação ou pela falta de algumas disciplinas importantes para o perfil (ESTUDANTE 2).

Quando Morin (2006a, p. 20) se refere aos desafios da sociedade contemporânea, reforça a idéia de que “um problema crucial de nossa época é o da necessidade de destacar todos eles de modo interdependentes”. Para o autor, o conhecimento pertinente para a vida na atual sociedade é aquele capaz de situar qualquer informação em seu contexto e, se possível, no conjunto em que está inscrito. Conforme nos explica, o conhecimento progride não tanto por sofisticação, formalização e abstração, mas, principalmente, pela capacidade de contextualizar e englobar, e, para tanto, que é importante dispor ao mesmo tempo de uma aptidão geral para colocar e tratar os problemas e de princípios organizadores que permitam ligar os saberes e lhes dar sentido.