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CAPÍTULO 2 O LEPROSÁRIO SÃO FRANCISCO DE ASSIS E OS SEUS INTERNOS

2.3 As famílias isoladas do Rio Grande do Norte

A lepra era entendida como uma doença contagiosa transmitida através do contato íntimo com indivíduos portadores do bacilo de Hansen e, para alguns médicos, transmitida também por meio da picada de mosquitos infectados. O convívio com leprosos representava um perigo constante aos indivíduos saudáveis e a proliferação de mais pessoas infectadas. Além desse fator, muitos médicos também acreditavam que a lepra era uma doença hereditária. Seguindo esse pensamento científico, vários integrantes da mesma família foram internados no Leprosário São Francisco de Assis. A partir dos registros realizados durante o processo de internação, foi possível refletir sobre os grupos familiares que entraram na instituição durante as duas primeiras décadas de funcionamento do isolamento.

Entre os grupos familiares presentes nessa instituição estava a família Osório, composta por três irmãos isolados: Antonio da Silva Osório, Alberto Osório da Silva e Guiomar da Silva Osório. Eram filhos de Antonio Osório, português residente no Brasil desde 1915, escafandrista, tendo aproximadamente cinquenta e sete anos de idade, e Bela Osório de quarenta anos aproximadamente. Do casamento nasceram sete filhos: Alcides Osório, de vinte e seis anos, que residia com a tia Isabel Vilar; Anita Osório, de vinte e cinco anos, casada com João Ferreira; Bela Osório, de vinte e quatro anos, casada com Epaminondas Ferreira; Guiomar Osório, que morava com a irmã Bela; Elgisa Osório, que morava com Anita, Alberto Osório e Antonio Osório190.

Antonio Osório foi um dos primeiros irmãos internados, em dez de fevereiro de 1935, aos vinte e três anos de idade, entrou no isolamento. Um dos poucos internos com instrução na instituição, exercia a profissão de comerciante na cidade do Natal. Dos seus irmãos, tinha contato íntimo com apenas dois, Guiomar e Alcides. O seu primeiro isolamento ocorreu na cidade do Recife por dois anos. Após a saída da instituição, devido ao resultado negativo do teste bacteriológico para o bacilo de Hansen, voltou para a cidade de Natal. Mesmo com o teste laboratorial negativo, o doente ficava condicionado a exames e consultas periódicas, no ano de 1933 seu exame da mucosa nasal apontou a presença do bacilo da lepra, sendo internado no leprosário de Recife e somente dois anos depois foi transferido para o Leprosário São Francisco de Assis, no ano de 1935.

O segundo membro da família Osório internado foi Alberto Osório da Silva191, internado aos nove anos de idade, em dez de novembro de 1935. O seu contágio ocorreu através da convivência íntima com o seu irmão Antônio Osório da Silva, por dois meses, na casa onde moravam na cidade de Natal. Seu mal iniciou no mesmo ano da sua internação, com manchas eritematosas na nádega direita como principal sintoma.

A última doente da família a ser isolada foi Guiomar da Silva Osório192, solteira com vinte e um anos de idade, foi internada em vinte e quatro de abril de 1936, um ano após a entrada dos irmãos. Residia com a irmã Ana Osório da Silva e o seu esposo João Ferreira da Silva no bairro do Alecrim, na cidade de Natal. Seus sintomas surgiram aproximadamente dois anos antes da sua internação, apareceram-lhe manchas no tórax e nos membros inferiores.

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CENTRO INTERNACIONAL DE LEPROLOGIA. Ficha Clínica nº 209

191 CENTRO INTERNACIONAL DE LEPROLOGIA. Ficha Clínica nº 220. 192 CENTRO INTERNACIONAL DE LEPROLOGIA. Ficha Clínica nº 234.

Os três irmãos tiveram ingressos no Leprosário São Francisco de Assis de forma diferente, a partir das datas de ingresso não é possível afirmar se ocuparam a mesma casa, já que existiam casas para abrigar famílias ou internos solteiros em número de três a quatros doentes. O que se sabe é que os irmãos também tiveram saídas da instituição de isolamento de forma diferente. Guiomar e Alberto receberam alta hospitalar no início da década de 1940, já Antônio Osório fugiu da instituição em vinte e cinco de maio de 1939.

O segundo grupo familiar isolado no Leprosário São Francisco de Assis foi a família Fernandes, composta por Francisco Fernandes, Maria Francisca Fernandes e os filhos João Fernandes e Manoel Fernandes. Francisco Fernandes Pereira foi o primeiro leproso a ser isolado na instituição hospitalar, no entanto não foi possível identificar a história desse doente no leprosário. O que consta nos registros médicos é que Francisco Fernandes faleceu no leprosário aos quarenta e cinco anos, em seis de março de 1935. Do seu matrimônio com Maria Francisca Fernandes nasceram cinco filhos: Galdino Fernandes, de dezenove anos; Regina Fernandes, de dezesseis anos; João Fernandes, de quinze anos; Manoel Fernandes, de catorze anos; e Jorge Fernandes de doze anos.

Maria Francisca193, viúva, sentiu os primeiros sintomas ainda no ano de 1923, ardor na cabeça, queda dos supercílios, dormência nos pés e nas mãos, era doente de lepra há mais de dez anos. Foi internada em onze de agosto de 1936. No momento da sua internação, dois filhos também foram identificados como portadores do mal de Hansen, Jorge Fernandes e João Fernandes. Ambos foram isolados no leprosário no mesmo momento da sua mãe. João Fernandes194 entrou na instituição aos quinze anos de idade, exercia a função de agricultor em Nova Cruz. Seus sintomas iniciais foram obstrução nasal, sensação de calor no corpo e manchas na mão esquerda. Já Jorge Fernandes195 entrou na instituição com doze anos de idade, seus sintomas iniciaram aproximadamente três anos antes, com um caroço no interior do nariz e queda dos supercílios. A família Fernandes foi caracterizada com situação econômica de extrema pobreza, o que me permite inferir que seus membros, ao serem recolhidos no leprosário, foram separados a partir da organização estabilidade pela direção da instituição. Após dois anos no isolamento, Maria Francisca foi transferida para a cidade de Bananeiras, na Paraíba, onde residiam os seus familiares. Voltou a ser reinternada durante a década de 1940.

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CENTRO INTERNACIONAL DE LEPROLOGIA. Ficha Clínica nº 247.

194 CENTRO INTERNACIONAL DE LEPROLOGIA. Ficha Clínica nº 248. 195 CENTRO INTERNACIONAL DE LEPROLOGIA. Ficha Clínica nº 249.

O interno Jorge Fernandes fugiu do isolamento alguns meses após a transferência da sua mãe e foi capturado na cidade da Paraíba, voltando a ser internado no isolamento potiguar em 1939196. Diferente do seu irmão, João Fernandes permaneceu na instituição de isolamento até a década de 1950, quando atentou contra a própria vida. João Fernandes suicidou-se em dois de julho de 1954, com sintomas de esquizofrenia, segundo relato médico197. A partir dos dados presentes nos registros dessa família, observou-se que pais e filhos eram separados do convívio íntimo e investigados pela polícia sanitária, tornando-se alvo das políticas médicas segregacionistas. E mesmo aqueles que não eram isolados ao lado dos seus familiares eram atingidos pelo estigma da lepra que assolava toda a família. Segundo Curi, “[...] Os filhos não doentes nascidos nos asilos-colônias e aqueles que nesta situação se encontravam no momento do isolamento dos pais, tinham da mesma forma suas vidas marcadas. Filhos de leprosos”198.

Também foi possível identificar relações familiares a partir da paciente Petronila Maria Ferreira. Internada em nove de abril de 1935, aos trinta e três anos de idade, moradora de Ponta Negra na cidade de Natal, realizava serviços domésticos na capital199. Os seus primeiros sintomas datam de 1933, a partir da convivência intima com o seu marido por dois anos, o interno Pedro Antônio Ferreira, notificado como portador da doença em 1929. As primeiras manifestações do bacilo de Hansen no corpo de Petronila Maria Ferreira foram manchas e infiltração na face. Do seu casamento com Pedro nasceram três filhos: João, com catorze anos, Antônio, com sete anos, e Francisca, com oito anos. Os meninos viviam em Ponta Negra e Francisca era interna do Orfanato Padre João Maria. Além dos três filhos, o casal tinha um enteado, Manoel Pedro Ferreira, também leproso. A partir dos registros presentes na documentação do isolamento, não foi possível obter mais informações sobre os caminhos que os filhos de Petronila seguiram após o seu isolamento no leprosário, nem informações sobre o seu marido.

Outra família isolada na instituição foi a composta por Maria Francisca de Araújo e Bento Gomes de Oliveira. O leproso Bento de Oliveira foi o terceiro paciente isolado na instituição, sua entrada ocorreu em quatro de outubro de 1926, aos vinte e oito anos de idade.

196 CENTRO INTERNACIONAL DE LEPROLOGIA. Ficha Clínica nº 249. 197 CENTRO INTERNACIONAL DE LEPROLOGIA. Ficha Clínica nº 248.

198 CURI, Luciano Marcos. “Defender os sãos e consolar os lázaros”: lepra e isolamento no Brasil (1935-1976).

2002, 231f. Dissertação (Departamento de História) – Universidade Federal de Uberlândia, Uberlândia, 2002, p. 60.

Faleceu em vinte e nove de abril de 1927.200 Natural da cidade de Macaíba, era casado com Maria Francisca de Araújo, internada no leprosário em trinta e um de março de 1932. A família Gomes Oliveira ainda teve dois filhos internados, Estevam Gomes de Oliveira e Maria Gomes de Oliveira.201 No decorrer da pesquisa não foi possível investigar mais informações sobre os filhos o casal leproso.

Entre os internos, destaca-se a história da paciente Luiza Francisca de Lima.202 Internada em quatro de outubro de 1930, como retratou a sua ficha clínica, foi isolada no dia que irrompeu o movimento revolucionário no Estado. Somente no ano de 1936 seus exames médicos foram realizados, permanecendo na instituição sem um diagnóstico médico positivo para a presença da bactéria da lepra no organismo. Tendo convivido por mais de cinco anos com leprosos, os seus sintomas antes inexistentes, começaram a ser visualizados no seu corpo, como a queda dos pelos dos supercílios. Entre os seus comunicantes, identifiquei um filho leproso isolado no Leprosário São Francisco de Assis, nomeado pelos médicos como ficha cento e quarenta e dois, sem nome ou qualquer outra característica, apenas com o número do registro. Essa forma de identificação dos pacientes ocorrida em instituições totais evidencia o que Goffman203 denominou de mortificação do eu, ocorrida no momento da admissão dos indivíduos. O doente perde o seu o nome em detrimento de um apelido, um nome genérico, um número.

Utilizando a prática da identificação dos doentes a partir do registro numérico na ficha de admissão, posso inferir que Luiza Francisca de Lima e seu filho foram internados em dias próximos, ou até no mesmo momento. Esse fato pode indicar que Luiza Francisca não era suspeita de estar doente de lepra, mas foi isolada no leprosário para conviver com o seu filho. Mesmo no processo de revisão médica, a paciente continuou não apresentando sintomas graves da doença. Sobre o seu filho, no momento da pesquisa não foi possível obter mais informações, Mas, foi possível verificar que Estevam Gomes de Oliveira e Luiza Francisca de Lima não conviveram no isolamento, já que no momento da internação de Luiza Francisco Estevam Gomes já tinha falecido.

200 LEPROSÁRIO SÃO FRANCISCO DE ASSIS. Ficha Clínica nº 03. 201 CENTRO INTERNACIONAL DE LEPROLOGIA. Ficha Clínica nº164. 202

CENTRO INTERNACIONAL DE LEPROLOGIA. Ficha Clínica nº 141.

Outra família que viveu no Leprosário São Francisco de Assis foi a família Varela Barca, que isolou três irmãos nessa instituição. O primeiro interno foi João Varela Barca204, internado aos cinquenta e oito anos de idade, casado, deu entrada na instituição em doze de março de 1928. Sua doença iniciou no ano de 1925, com surgimento de úlceras e manchas no corpo. Logo depois teve obstrução nasal com corisa. João Varela Barca conviveu por dois anos com um irmão leproso, que tinha sintomas bem claros da doença. Seu exame bacteriológico foi realizado em 1926 e sua internação ocorreu apenas dois após a notificação médica. Assim, posso inferir que João Varela Barca era um doente notificado isolado no próprio domicílio, já que o leprosário estava em processo de construção e o estado não possuía outro edifício para o isolamento dos doentes.

A segunda a entrar no leprosário foi Adalgisa Varela Barca205, internada aos quinze anos de idade, em doze de março de 1928, junto com o seu pai. Nascida em Ceará-Mirim, solteira, a sua doença iniciou em 1921, com o aparecimento de manchas na perna esquerda, aproximadamente aos onze anos de idade. Faleceu em vinte de agosto de 1929. Seu exame foi realizado pelo Serviço de Profilaxia Rural no ano de 1924. Além desses dois internos, também foi contaminada com o bacilo de Hansen Teresinha Varela Barca, filha de João Varela Barca e irmã de Adagilsa Varela Barca.

Teresinha Varela Barca entrou no leprosário em seis de maio de 1936, aos dezoito anos de idade, após alguns anos da entrada do seu pai e da sua irmã na instituição. Segundo o relato presente nos seus registros, foi contaminada nos primeiros anos de vida, através do contato com a irmã Adagilsa. Encontrava-se doente de lepra há mais ou menos onze anos, estando isolada com senhora Adelaide Barros. Saiu do leprosário em primeiro de setembro de 1939, transferida para o Recife206. A partir dos dados, inferi que os internos da família Varela Barca não se encontraram na instituição devido as suas diferentes trajetórias.

Antonio Fernandes de Melo207 entrou no Leprosário São Francisco de Assis em dezoito de dezembro de 1934, aos trinta e três anos de idade. Natural da Paraíba, era pequeno agricultor, casado com Antonia Gonçalo de Melo. Seus pais eram Fernando Correia de Melo e Ana Correia de Melo. Todos os seus familiares residiam em Bananeiras, na Paraíba. Seus

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LEPROSÁRIO SÃO FRANCISCO DE ASSIS. Ficha Clínica nº 16.

205 LEPROSÁRIO SÃO FRANCISCO DE ASSIS. Ficha Clínica nº 17. 206 CENTRO INTERNACIONAL DE LEPROLOGIA. Ficha Clínica nº 239. 207

primeiros sintomas surgiram ainda na Paraíba, a partir de junho de 1934, com manchas eritematosas no pé esquerdo. Conviveu intimamente com o leproso Francisco Correia de Lira. A partir da análise das fichas, é importante destacar que alguns pacientes eram transferidos entre os isolamentos, como ocorreu com Antonio Fernandes de Melo. Até a conclusão deste trabalho, não foi possível identificar o motivo das transferências dos internos, nem se fazia parte de uma política de cooperação estabelecida entre os Estados.

A partir da análise dos internos presentes no Leprosário São Francisco de Assis, observa-se que os doentes eram provenientes de diferentes cidades do Estado e que apresentaram características próprias no momento da internação, na sua trajetória dentro do isolamento, na aceitação de ser isolado. De forma geral, posso afirmar que os doentes isolados tinham como perfil serem de origem pobre, com sintomas iniciais de dormência, infiltrações, manchas no corpo e apresentavam testes bacteriológicos positivos para a presença da bactéria do bacilo de Hansen. O grupo de internos do Leprosário São Francisco foi composto, na sua maioria, por homens com idade entre trinta e quarenta anos, agricultores e casados. Também apresentaram como elemento comum a convivência intima com indivíduos doentes, como pai ou irmãos e a presença no extremo norte do país.

Os internos apresentavam características semelhantes no que diz respeito à descoberta da doença no corpo, ao aparecimento dos sintomas, à chegada ao isolamento, ao tratamento recebido pelos médicos. Contudo, cada interno teve uma trajetória única no isolamento, compondo a história da instituição. É importante destacar que as transformações na estrutura física do Leprosário São Francisco de Assis influenciaram a trajetória dos internos na instituição, bem como as práticas médicas desenvolvidas pelos médicos. Assim, o próximo capítulo disserta sobre as práticas médicas desenvolvidas no interior do isolamento, observando como ocorria o diagnóstico inicial e o tratamento dos doentes pelos chamados doutores da ciência.

CAPÍTULO 3: AS PRÁTICAS MÉDICAS DESENVOLVIDAS NO LEPROSÁRIO SÃO