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5.1 O PRIMEIRO OLHAR SOBRE A MARCHA DAS VADIAS: NOTAS SOBRE A

5.1.2 As reuniões e o encontro: a voz e a vez do diálogo?

Um lugar de encontro. É assim que posso definir as reuniões abertas de construção do ato de protesto da Marcha das Vadias. Definitivamente não o único lugar de encontro, mas um espaço onde se ativam as experiências pessoais para a definição de um grupo que objetiva compor, planejar e desenvolver uma ação coletiva. Nesse sentido, é importante destacar que as reuniões abertas têm em síntese a concisão do ato e, por esse motivo, são tomadas pela ênfase em certas questões de ordem tanto ideológica quanto organizacional.

Centralizadas no entorno da universidade, as reuniões são divulgadas a partir da comunicação estabelecida pelo Coletivo na rede social online Facebook. Acontecendo de forma sistemática, com o intuito de estabelecer a data do protesto e a organização dos grupos que irão compor o ato, elas são organizadas uma vez por semana, geralmente nos finais de semana, durante todo o período definido como pré-marcha, dois meses que antecedem o ato de protesto. Os convites compartilhados no Grupo e na Página da Marcha das Vadias são dimensionados através enunciados convocatórios. Como este, produzido para a primeira reunião do ano de 2014:

Figura 2: Convite para as reuniões abertas da Marcha das Vadias - SM 2014 Fonte: Print Facebook Página Marcha das Vadias

Passarei a descrever agora, as reuniões de organização da marcha ocorridas entre os meses de junho e julho de 2013, período no qual iniciei meu trabalho de campo. As observações aqui retratadas fazem parte, portanto, de um olhar sobre as questões que atravessam o espectro organizacional da marcha das vadias dependendo de um tom reflexivo a respeito:

O frio de Santa Maria é penoso nesta época do ano, há chuva e vento quase todos os dias. Os finais de semana em que ocorriam as reuniões eram típicos de um inverno gaúcho. O lugar escolhido para reunir o grupo era um velho auditório localizado no prédio do Diretório Central dos Estudantes (DCE), da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), no centro da cidade. Um lugar de ocupação e reflexão estudantil. Foram seis reuniões, seis semanas de intenso contato e diálogo com o processo de organização e militância do movimento Marcha das Vadias.

As reuniões agregavam uma média de trinta e cinco pessoas por encontro, com duração de cerca de duas horas. Com o limiar dos encontros, as pessoas iam chegando e se entrosando nas discussões. Nem sempre o grupo era mesmo, a não ser as treze militantes do Coletivo. Organizados no formato de debate, os encontros tinham, geralmente, uma apresentação inicial na qual cada pessoa se identificava com: nome, ocupação e os motivos que os levavam a estar lá pensando a organização de uma marcha feminista. As reuniões possuíam certo protocolo, memorava-se aquilo que havia sido discutido no encontro anterior e definiam-se parâmetros para o que estava por vir.

As militantes do Coletivo organizavam, então, um debate. Os temas das discussões adivinham, habitualmente, de pautas comuns ao Coletivo: definições pragmáticas sobre o ato, reflexões sobre o feminismo e sobre os objetivos de marchar. Em um sentido dialógico, as reflexões do grande grupo tornavam-se mais amplas do que as definições pré-estabelecidas pelo Coletivo. Assim, mesmo com o poder de decidir as pautas que seriam argumentadas e organizar essas reuniões, o Coletivo se mostrava aberto à deliberação de novos temas. As reuniões conformavam um grande grupo que, em conjunto, definia e argumentava o mote das discussões, conduzidas a priori para a problematização e reflexão sobre as múltiplas questões de gênero.

No entanto, nem sempre essas definições conjuntas ocorriam com a inexistência de conflitos. É notável a predisposição do Coletivo em organizar um ato que transcenda uma formulação centralizada, porém, mesmo acentuando a abrangência da ação, aqueles que participam das reuniões, muitas vezes, calam-se ou esquivam-se do diálogo. As interlocutoras se mostram conscientes destes fatos ponderando alguns aspectos sobre o Coletivo:

(...) existem aspectos negativos no caráter da própria construção, é um pouco complicado essa questão de ter um Coletivo que chama para a organização e de como acontece a interação e as discussões dentro desse coletivo maior, nas reuniões abertas. Eu acho que um pouco deve ser intimador, nós inclusive já ouvimos isso, que é muito intimidador chegar numa reunião da marcha, porque, às vezes, as falas se centralizam muito através daquelas meninas que já são empoderadas, já se sentem mais a vontade para falar nesses espaços, e isso pra quem nunca foi, ou nunca participou, ou nunca teve contado com coletivos de mulheres, às vezes não é tão fácil. Então, eu acho que é preciso ter a clareza de que nem todo mundo está ao mesmo nível de debate e consciência, tanto de classe, quando de gênero e o próprio feminismo interseccional. O fator negativo disso, é que às vezes não é tão homogêneo. A gente precisa se ligar como um Coletivo que quer cada vez ser mais aberto e ter gente conosco a gente não pode centralizar algumas coisas, precisamos realmente deixar mais coletivo mesmo (Marina, 2014).

A constituição do Coletivo é, sem dúvidas, baluarte na elaboração da Marcha das Vadias em Santa Maria. No campo, pude observar que sua edificação torna-se prescritiva para a continuação da marcha. O que ocorre, no entanto, é a forte vinculação de um grupo restrito de mulheres a um acontecimento que intenciona avolumar a ação junto de mulheres outras, que talvez não se sintam preparadas, ou abertas ao diálogo. Uma situação ao mesmo tempo contraditória e útil ao movimento. O acontecimento da marcha não se desvincula à existência de um Coletivo, assim como, não se dissolve igualmente a todos que participam do ato. Existem estruturas de poder constituintes dessas definições. Porém, o movimento, como um todo, se equaciona pelo processo de diálogo e vinculação entre o Coletivo, o grupo das

reuniões abertas e aqueles que participam do ato de protesto, relacionados por uma identificação coletiva.

Um exemplo dessa interseccionalidade de participantes, mas de orquestragem do Coletivo enquanto concatenador identitário, foi quando na primeira reunião as militantes do Coletivo produziram um relato sobre a marcha que havia sido realizada no ano de 2012, justificando a criação de um movimento feminista na cidade de Santa Maria e sua relação com a história da Marcha das Vadias em caráter global. Os sentidos de ser e participar da Marcha das Vadias foram compartilhados com os demais presentes na reunião, fato indiciático das reflexões que encontrei no campo em muitos momentos durante as reuniões. Nota-se, assim, o desenvolvimento de um processo ritualístico que se define através da prática feminista já previamente desenvolvida pelas militantes do Coletivo. Suas histórias, ações e objetivos são sempre narrados, no sentido de assegurar vinculações e afirmar um lugar de fala.

Pensando em consonância ao que propõe Castells (2013), sobre o repetido processo autonarrativo dos sujeitos, para que dele se ativem a relação com o movimento social através de um reconhecimento opressivo em comum, a Marcha das Vadias acaba sendo construída enquanto um movimento através do enlace do grupo na perseguição de uma autodefinição coletiva. Logicamente estas vinculações não se desenvolvem através de processos pragmáticos, pelo contrário, estão diluídas em ações múltiplas. E como veremos posteriormente, estão também intimamente relacionadas à circularidade comunicacional disposta no entorno do movimento através de redes de sociabilidade online.

As reuniões, assim, se mostraram mais do que somente um encontro para a organização das possibilidades do ato nas ruas da cidade. Os rituais nela produzidos conduziam a um sentido de buscar a unicidade daquele grupo. Em diversas ocasiões, as bandeiras de luta eram lembradas e reforçadas, como uma didática de construção conjunta de objetivos. Assim como pensa Melucci (2001), percebe-se que esses momentos serviam de nuances, ou até mesmo caminhos para os sujeitos construírem uma identificação coletiva junto aos projetos idealizados naquelas situações. Como se percebe claramente na atividade que descrevo a seguir:

Denominada pelos sujeitos de pesquisa de “formação”, essa atividade foi organizada

na terceira reunião que participei. Visando o nivelamento dos debates e dos objetivos do grande grupo enquanto participantes da Marcha das Vadias, o conjunto realizou uma dinâmica, na qual os que lá estavam foram subdivididos em grupos de três pessoas. A esses pequenos grupos foram entregues recortes de jornais, anedotas populares e textos que traziam

em suas referências enunciados sobre construção da imagem da mulher. A proposta do exercício era refletir o conteúdo do material distribuído através da pergunta: “Por que

lutamos?”, e relacioná-lo à oposição de uma das bandeiras defendidas pela Marcha,

previamente estabelecidas pelo Coletivo.

Com todos em círculo, as bandeiras de luta foram materializadas em cartazes ao centro

com dizeres como: “Pelo fim da exploração social”; “por segurança física e psicológica”;

“por representação digna da mulher na mídia”; “pelo fim da discriminação”; “contra homofobia, lesbofobia e transfobia”; “por salários iguais, e direitos trabalhistas para as mulheres”. Estabelecidos alguns minutos para reflexão sobre o material recebido, os

conjuntos passavam a relatar ao grande grupo suas considerações sobre cada caso que discutiram atribuindo-os a uma das bandeiras. A atividade de formação se estendeu durante as horas de reunião e transformou-se em um grande relato de grupo a respeito de experiências individuais e coletivas das mulheres que lá estavam.

O que é notório dessa atividade, emblemática para minha observação, é a caracterização do que explanaram Melucci (2001) e Castells (1999) sobre o processo de construção de uma identidade coletiva. Em um exercício/ritual de autorreflexão e tomadas de posicionamento, aprimoraram-se os vínculos entre os sujeitos que ali dialogavam. Os relatos concretizados a partir da problematização dos casos tornaram-se oportunidade para o compartilhamento de experiências pessoais sobre o ser mulher a partir de um processo interacional, que caracterizei em meu diário de campo como denso:

Em forma de atividade, o ritual de formação buscou fonte no aparato subjetivo e emocional dos sujeitos, densas e apuradas interrelações com as quais eles poderiam estabelecer elos individuais e coletivos para com os projetos de luta do grupo (Diário de campo, 16 junho de 2013).

A possibilidade de tratarmos essas questões enquanto coletivas estão figuradas e, talvez, potencializadas neste ritual acima descrito. Definir o porquê da luta, assim, torna-se uma interrogação constante nas reuniões e nos espaços de atuação comunicacional do movimento nos ambientes online. Necessário a todos que neles interatuam para a definição de uma matriz política de ação coletiva.

Muitos podem se perguntar sobre a existência afirmativa de definições coletivas em um movimento como a Marcha das Vadias, no entanto, como sabemos, as experiências postuladas sob o espectro dessa Marcha são variadas e não findam em frutificar em muitos países do globo. É sabido da potencialidade individualista, assegurada em questões

relacionadas à liberdade de expressão corporal, porém, aqui neste campo, essas questões são ampliadas, ressignificadas e desenvolvidas no entorno de enlaces coletivos. Há, certamente uma preocupação estrutural nos questionamentos da Marcha das Vadias – SM, Laura e Marina falam sobre isso demarcando algo que para elas parece definidor:

O objetivo da Marcha é colocar as questões em pauta, na verdade não tem como tu resolver problemas como a violência contra a mulher, então, na minha opinião, ela visa trazer esse assunto para roda, para que as pessoas sejam obrigadas a ver essas mulheres na rua, e aí elas vão ter que discutir sobre isso (Laura, 2014).

Possibilitar que mais pessoas tenham contato com a luta e se sensibilizem pela pauta da igualdade de gênero. Ao mesmo tempo em que tem esse discurso da desconstrução do “Vadia”, isso a gente tenta meio que fazer com todo o universo de pautas que existem dentro do feminismo. O próprio nome “feminismo” já carrega uma carga pejorativa muito grande. Então, é abrir a discussão e tentar jogar a contradição para cima das pessoas que ainda não entendem, ou não tem a percepção de que as mulheres são submetidas a uma lógica dominante, sempre sofreram, e ainda sofrem muitas opressões, seja em relação ao corpo. Pode ser que o corpo ainda possa ser enxergado por muitas pessoas como a pauta principal, mas é que o corpo passa por todas as relações culturais e de poder na sociedade historicamente. Então, não pautamos o corpo só por questões estéticas ou de liberdade, não. É isso levando a uma causa muito maior, que é o empoderamento, o direito ao próprio corpo, que é a igualdade. O principal objetivo do Coletivo é conseguir que mais pessoas venham construir com a gente, e que essas pessoas comecem a enxergar um pouco além daquilo que está colocado (Marina, 2014).

Conscientizar e questionar sobre os sentidos de uma dominação estrutural acabam sendo os objetivos pautados pela Marcha das Vadias e expressos nas reuniões abertas. Construir debates e diálogos nesses encontros, assim, fomenta a construção de saberes compartilhados sobre o quê e a quem se opõe o movimento e com qual finalidade essa luta é nutrida.