4.1 COMPREENDENDO CONCEITOS: AS REDES (SOCIAIS) NA SOCIEDADE
4.1.1 Dos Laços às Conexões: As redes na teoria social
Polissêmico e conflituoso, o conceito de redes é, sobretudo, acionado por contínuas apropriações e ressignificações em diferentes matrizes disciplinares da ciência. De sua gênese até a atualidade, refletimos as redes de formas diversas, ajustadas, muitas vezes, ao nosso entendimento sobre o que conforma a tessitura social. Fala-se hoje em sociedade em rede, redes de computadores, redes digitais e movimentos sociais em rede, mas a emergência deste conceito pode ser pensada já na sociologia simmiliana e nas análises antropológicas de Lévi- Strauss, ambas do início do século XX.
Filosofando sobre a ideia de uma rede, Pierre Musso (2004) nos situa que o termo é reconhecido historicamente na medicina clássica, quando Hipócrates (460 a.C - 377 a.C) o utiliza como metáfora para designar as conexões venais do organismo humano. Continuando essa reflexão, ao considerar uma rede um sistema “pensante” análogo à estrutura cerebral reticular, Musso (2006) afirma que:
desde o início da medicina, a rede está associada ao corpo e esse vínculo atravessará toda a história das representações da rede, designando ora corpo e sua totalidade como agenciamento do fluxo ou tecido, ora parte deste, principalmente cérebro (MUSSO, 2006, p. 198).
Outra designação recorrente do termo aparece em nossa história recente quando o sentido das redes é materializado e elas são identificadas como forma e instrumento: de caça e pesca ou como material de malhas e tecidos que envolvem o corpo. Segundo Musso, é a partir da possibilidade de observar que uma rede pode ser tecida não apenas “sobre o corpo ou dentro do corpo” que ela passa a ter um sentido autônomo como um “objeto pensado em sua relação com o espaço” (MUSSO, 2004, p. 20), podendo, dessa forma, ser construída tanto naturalmente quanto socialmente. Ao longo da história, assim como o emaranhado de laços e separações que forma um tecido ou instrumento, as redes passam a ser encaradas como uma
estrutura metafórica que sugere o mesmo processo para organização de sociedades. Como se observa, por exemplo, na sociologia simmiliana das primeiras décadas do século XX.
Ao refletir os processos de sociabilidade60, Georg Simmel pensava, pois, a sociedade como uma grande rede de interações. Para o teórico: “‘sociedade’ propriamente dita é o estar com um outro, para um outro, contra um outro que, através do veículo dos impulsos ou dos propósitos, forma e desenvolve os conteúdos e os interesses materiais ou individuais”
(SIMMEL, 1983, p. 168). Isto é, para Simmel, a sociedade seria a forma na qual os processos interacionais dos sujeitos se articulam e são acionados a partir de elementos de dimensão individual para o encadear coletivo.
A proposta simmiliana de network pode ser percebida com maior destaque em um ensaio de 1909, denominado de A ponte e a porta. No texto, Simmel (1909) supõe que nossos elos sociais são formados por ciclos de interações e afastamentos sucessivos. Enquanto a
ponte seria, ao mesmo tempo, a distância e o enlace entre os indivíduos, as portas seriam a
própria individualidade, ou seja, a vontade do indivíduo de manter uma relação, socializar ou não. Recai, portanto, ao sujeito e a sua capacidade estabelecer interações a construção de portas e pontes – redes – que, por sua vez, possuem laços próprios e “existem por si mesmo e pelo fascínio que difundem pela própria liberação destes laços” (SIMMEL, 1983, p. 168). Se trouxermos a metáfora de Simmel, criada no início do século passado, para compreensão da vida contemporânea – do universo tecnológico desde o advento da telefonia, da televisão até o do computador – e internet, vamos perceber que criamos com frequência muitas portas e
pontes, ou ainda, muitos nós e interconexões.
As interações em rede não são, assim, um fenômeno propriamente atual de organização social, mas comumente tomam essa proporção ao serem pensadas a partir das tecnologias da informação e comunicação, sobretudo em consonância com o advento da comunicação pela internet. Conforme Castells (2003), este conceito nos atravessa enquanto sociedade desde a mitologia até a modernidade, quando ele é análogo às práticas de informação potencializadas pela internet. Enquanto, “um conjunto de nós interconectados” (CASTELLS, 2003, p. 7), as redes funcionam como módulos de organização flexíveis e adaptáveis conforme o domínio no qual se proliferam.
Sendo os vínculos nela estabelecidos o seu fator determinante, uma rede pode ser definida através de algumas características estruturais, tais como seu tamanho, composição,
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Não nos debruçamos sobre o conceito de sociabilidade propriamente dito, mas na reflexão que Simmel se utiliza para pensá-lo. Para o autor, a “sociabilidade é uma construção social que realiza-se por meio da vida cultural que viabiliza a junção das formas associativas concretamente existentes. Por ser uma produção cultural, um artifício socialmente secularizado, constantemente gestado e perpetuado pelas sequências das gerações” (SIMMEL, 1983, p.170).
alcance, homogeneidade, heterogeneidade, organização e números de nós ou enlaces (RIZO GARCÍA, 2006). Assim, a partir das relações estabelecidas entre os atores sociais, instituições ou grupos e suas formas de comunicação, sejam elas face-a-face ou mediadas por tecnologias, conforma-se um tipo específico de rede (pessoais, coletivas, produtivas etc.). Elas são, em si, formas autogestionárias de interação e cumprem funções diversas. A mercê disso, as redes não são geradas de um dia para o outro e, em seu sentido formal, elas “confluem em movimentos que precisam ser organizados, e para isso, é de suma importância ter um grau de clareza em torno dos problemas comuns que uma rede busca resolver, as expectativas e modos de perceber aquela realidade” (RIZO GARCÍA, 2006, p. 3).
Se caracterizarmos uma rede como um sistema de laços ou nós conectados, o termo rede social, derivado deste conceito, representará as formas dinâmicas de interação entre indivíduos em um determinado sistema social (RIZO GARCÍA, 2006). Definindo-se fundamentalmente por trocas e compartilhamento a partir das mais diversas necessidades humanas, uma rede social apresenta um número de participantes autônomos que unem suas ideias e recursos em torno de valores comuns (MARTELETO, 2001). As sociedades, partindo dessa definição, sempre viveram em redes mais ou menos complexas de relações sociais, sejam elas econômicas, parentais, afetuosas ou sobre a perspectiva de qualquer outro sentimento espontâneo para fins urgentes.
Amplamente utilizado em nosso tempo, o termo redes sociais aparece como uma expressão que passou a ser sinônimo de ser e estar na sociedade contemporânea. No entanto, a gênese teórica do conceito, em similaridade ao de redes, é atravessada pelo pensamento clássico, estando desde sua origem atrelada às formas de relação que estabelecemos uns com os outros. Já na década de 1940, Lévi-Strauss, ao pensar as estruturas simbólicas que percorriam os graus de parentesco, utilizou-se da expressão “redes” para determinar os limites que vinculavam os grupos familiares a seu comportamento social. Remonta-se ao antropólogo J. A. Barnes, contudo, a introdução do conceito como o conhecemos hoje. Conforme nos situa Tomaél (2007, p. 3), com a utilização do termo por Barnes passou-se a aplicar “o emprego metafórico da ideia de rede social para enfatizar que as ligações sociais de indivíduos, em qualquer sociedade, ramificam-se por meio dessa mesma sociedade”.
Durante boa parte da história, as redes sociais exerceram a função de organizar recursos em ligações verticais com centralidade de poder. De acordo com Castells (2003, p. 7), “as redes foram suplantadas como ferramentas de organização capazes de congregar recursos em torno de metas centralmente definidas”, anterior às possibilidades da internet e da
comunicação por computador, os nós ou laços estabelecidos entre os indivíduos partiam de uma perspectiva mais hierarquizada dos processos sociais – de parentesco, de produção etc. –, continuando a reflexão de Castells, eram “fundamentalmente o domínio da vida privada”. No entanto, com a introdução das tecnologias da informação, as redes passaram a possibilitar que os vínculos dela recorrentes adquirissem maior intensidade, abrangência e maior ou menor grau de horizontalidade para fins determinados, passando a serem vistas sob a perspectiva de uma comunicação global e multifacetada (CASTELLS, 2003).
Segundo Ugarte (2007, p. 32), “originalmente, as estruturas descentralizadas são produto da interconexão efetiva de redes centralizadas”, ao encontro da reflexão de Castells, o autor sugere que a largo prazo as redes passam a produzir uma lógica própria gerando nós que são superiores aos que o formaram. Nesse sentido, as estruturas hierárquicas perdem seu papel de importância nas relações e os laços informais e espontâneos são valorizados: “hoje o trabalho informal em rede é uma forma de organização humana presente em nossa vida cotidiana e nos mais diferentes níveis de estrutura das instituições modernas” (MARTELETO, 2001, p. 72).
Pensar em redes, na sociedade contemporânea, é também buscar a reflexão de organizações propositivas e de ações que se dão em função do próprio desenvolvimento das socializações e interações construídas na rede. Nesse sentido, a ideia de uma rede como uma estrutura que busca descentralizar relações e congregar grupos de indivíduos em nós que são conectados diante de perspectivas comuns, nos é extremamente cara para pensar as ações coletivas de nosso tempo, em movimentos sociais como a Marcha das Vadias que, por exemplo, se organizam essencialmente diante deste tipo de interação. Isto nos evoca a refletir, como suscita Marteletto (2001, p. 81), que “mesmo nascendo em uma esfera informal de relações sociais, os efeitos das redes podem ser percebidos fora de seu espaço, nas interações com o Estado, a sociedade ou outras instituições representativas”.
As redes podem ser formadas, como afirma Brignol (2010), por ações diversas: subjetivas, objetivas ou híbridas, “além de se caracterizarem pela organização através da mediação das tecnologias da informação e da comunicação, ao mesmo tempo em que são dinamizadas por espécies de “teias invisíveis”, formadas por sujeitos que não têm acesso às tecnologias” (BRIGNOL, 2010, p. 69). A concepção básica de redes sociais, hoje, configura um processo que prevê a criação de vínculos interpessoais com cruzamentos diversos que ligam indivíduos a grupos ou instituições a partir de redes técnicas e não técnicas. Assim, as
práticas que “tecem” uma rede social são definidas pelos sujeitos e pelos contextos sociais que dela fazem parte.