O problema da economia
8.3 As transformações dos anos
Os anos 30 viam o declínio das esperanças de uma rápida transição ao socialismo. Apesar disso, Polanyi continuava fiel à sua utopia democrática, fundada, como vimos acima, em atenta análise crítica do capitalismo. Além de procurar fatos e iniciativas que confirmassem sua plausibilidade, ele utilizava a utopia democrática como modelo para entender o rumo que a reconstrução social da época estava tomando. Compreendia, assim, que nas transformações sociais em curso naqueles anos, prevalecia a tendência a ela oposta, embora a medida que isso ocorria fosse diferente nos diversos países.
Para Polanyi, a tendência diretamente contrária à hipótese democrática era o fascismo. Nos países onde o fascismo vencia, a economia capitalista era conservada, enquanto
a democracia política era abolida. Em um artigo de 1933,32 ele advertia que o fascismo alemão significava a manutenção da “primazia” da economia, não obstante suas declarações proclamassem exatamente o contrário. Também destacava que, na Alemanha, o livre mercado de trabalho, instituição fundamental do capitalismo liberal, era substituído por uma política estatal autoritária de alocação dos trabalhadores e de fixação dos salários. E concluía que, “no Reich”, a “transformação da livre economia numa construção corporativa” não significava a superação do capitalismo, mas sim sua conservação. Como era óbvio, aquelas transformações econômicas se articulavam com mudanças no campo político. Nele, a novidade consistia na negação, pelo “fascismo”, da “legitimidade” do conflito entre os “interesses organizados” do capital e do trabalho, com a paralela destruição da possibilidade de “expressão” política desse conflito, para poder governar sem precisar “escutar as partes”. “O fascismo” operava para “unificar a sociedade” mediante a “abolição da esfera política democrática”.33 Sua intervenção autoritária, visando responder às exigências da economia capitalista como um todo, acabava por fortalecer sua autonomia e seus limites intrínsecos.
A “abolição” fascista da democracia política significava a concomitante negação da promessa moderna de liberdade individual. No ensaio “A essência do fascismo”34, publicado em 1935, Polanyi o interpreta como filosofia política radicalmente antimoderna, cuja natureza última era a rejeição do “individualismo” e de suas remotas raízes cristãs. O fascismo contrapunha à sociedade democrática o “totalitarismo” comunitário cimentado por um “vitalismo” antirracional, enquanto um difuso “pseudomisticismo” e um amplo “racismo” teriam satisfeito os requisitos de “racionalidade tecnológica” e de “nacionalismo” do capitalismo corporativo. Do ponto de vista sociológico, o fascismo se colocava, diante da crise final do capitalismo liberal, como solução alternativa à democracia socialista, em que a individualização do sujeito social, tipicamente moderna, encontraria sua realização plena. A solução fascista, ao contrário, negava a liberdade individual e destruía qualquer iniciativa ou instituição destinada a fazer da sociedade o resultado “da consciente e imediata relação entre as pessoas”. Eliminando as instituições e as iniciativas democráticas, o fascismo inviabilizava até mesmo a possibilidade da ação política individual, reduzindo a vida das pessoas a uma existência meramente econômica. Na nova “ordem estrutural fascista”, o capitalismo corporativo tornava-se “a inteira sociedade”, enquanto os seres humanos eram reduzidos a
32 Polanyi, K. “Hitler e l’economia” (1933). In: La libertá in una società complessa, pp. 70-73.
33 POLANYI K., Marx sul corporativismo . In: POLANYI, K. La libertà in una società complessa.
Citado, pp. 128-133.
34
Polanyi, K., L’essenza del fascismo (1935). In: La libertà in una società complessa, a cura di A. Salsano, Turim: Bollati-Boringhieri, 1987, pp. 90-117.
“meros produtores”. Paralelamente – observava o autor, dois anos mais tarde, em ensaio sobre a nova situação que se delineava no campo das relações internacionais35 – o “Estado totalitário” se dedicava ao desenvolvimento de um tipo de ser humano obediente aos patrões e adequado à “guerra total”, escolhida como “resposta final aos problemas da história”.36
A reconstrução corporativa da sociedade de mercado e capitalista não acarretava necessariamente o fim da democracia política e do pluralismo social. Nos Estados Unidos, por exemplo, durante os anos 30, a transformação social se manifestava politicamente no conflito entre Roosevelt e a Corte Suprema quanto à constitucionalidade da legislação do New Deal, dentro de um quadro em que a democracia política sobrevivia. Tal conflito explodiu em 27 de maio de 1935, com a sentença Schechter proferida pela Corte Suprema, que declarava inconstitucional a legislação National Recovery Administration, com a qual o presidente Roosevelt pretendia implementar a organização corporativa do capitalismo norte americano.
A legislação National Recovery Administration – mediante a qual Roosevelt tinha introduzido os Códigos,37 ab-rogado a lei antitruste, regulado as atividades no setor agropecuário, instituído o subsídio desemprego e a aposentadoria, entre outras providências – superara de uma só vez quase todo o enorme atraso em que a organização econômica dos Estados Unidos – o não obstante o considerável crescimento de sua economia durante a década de 20 – ainda se encontrava em relação à Europa, no começo dos anos 30. Com essa legislação, os Estados Unidos tinham conseguido, ainda, superar rapidamente a crise econômica, iniciando um novo ciclo de expansão conjuntural.38 Assim sendo, embora numerosos fatores (como, por exemplo, a luta política entre os partidos) ainda pudessem influenciar profundamente a dinâmica da transformação39corporativa40 do país, esse processo dificilmente poderia ser revertido.
35
Polanyi, K., Europa 1937: Guerre esterne e guerre civili. Roma: Donzelli, 1995.
36 Polanyi, K., ibid. p. 54.
37 Tratava-se de acordos com valor normativo: seu respeito, com efeito, era garantido juridicamente
porque tinham sido estabelecidas por lei as consequências civis e penais de seu eventual desrespeito. Os Códigos proibiam o emprego de jovens com menos de 16 anos, introduziam a contratação coletiva, estimulavam o desenvolvimento do sistema sindical e ensejavam a possibilidade de fixar (por setores industriais ou então por regiões) seja os preços mínimos, seja o tempo máximo do trabalho e os salários mínimos. Em geral, portanto, os Códigos possibilitavam uma auto-administração (corporativa) da indústria capitalista.
38 Ver a tal propósito: POLANYI, K. L’America nel crogiolo. In: Cronache della grande
trasformazione, ob. cit., pp. 196-203.
39 Ver a tal propósito: POLANYI, K. Roosevelt in lotta. In: Cronache della grande trasformazione,
ob. cit., pp. 204-206.
40 Ver a tal propósito: POLANYI, K. Il diritto del lavoro negli U.S.A. In: Cronache della grande
Percebendo a irreversibilidade das reformas feitas pelo presidente Roosevelt desde os meados de 1933,41 a Suprema Corte começava, aos poucos – julgando a constitucionalidade de cada um dos novos decretos com os quais o presidente dava continuidade ao New Deal42 – a abandonar sua interpretação rígida das normas constitucionais, que tinha levado, anteriormente, com a sentença Schechter, à anulação da National Recovery Administration. Um primeiro e importante sinal da mudança na interpretação dada pela Suprema Corte foi, entre março e abril de 1937, a declaração de constitucionalidade do National Labour Relations Act, decreto sobre as relações trabalhistas assinado por Roosevelt em 5 de julho de 1935. Entretanto, ainda em meados de 1937, a posição da Suprema Corte não havia se revertido completamente: declarando inconstitucional o Agricultural Adjustment Act (que regulava as atividades do setor agropecuário), o tribunal demonstrava ainda perigosa oscilação entre sua interpretação originária e rígida e aquela que o governo dava da Constituição43, e a continuidade do New Deal não deixava de ser, pois, bastante incerta. Para a superação desse impasse, Roosevelt tentou a reforma da Suprema Corte (Judicial Procedures Reform Bill – 1937)44, almejando eliminar a resistência que ela
41 No âmbito destas reformas foi criada por Roosevelt, com lei de 18 de maio de 1933, a Tenesee
Valley Authority. Segundo Polanyi, esta empresa pública surgiu visando propiciar condições de bem estar geral para a população da vastíssima área da bacia do rio Tenesee. Para tanto previu-se a implementação simultânea de diferentes projetos que pretendiam resolver problemas entre eles encadeados, cuja superação não teria sido possível de outra forma. A construção das represas, que fazia parte de uma série de obras de adequação hidrogeológica do território, permitiria a navegabilidade do rio e, portanto, o transporte fluvial, bem como a produção de energia hidrelétrica. A disponibilidade de energia barata permitiria a reconversão das obsoletas fábricas de explosivos, lá existentes, em indústrias para a produção de adubo. A pesquisa necessária para a produção do adubo acarretaria uma pesquisa mais ampla e concernente à agricultura. A EXIGÊNCIA de abrigar a mão de obra necessária à construção das represas e as demais obras de adequação hidrogeológica estimularia o desenvolvimento de pesquisas urbanísticas relacionadas especificamente com as características ambientais locais da bacia, etc. Tratava-se, portanto, de uma novidade assaz importante num país onde a atividade econômica era levada adiante por indivíduos isolados, motivados pela busca do lucro e operantes no livre mercado. Ela inseria- se num mais vasto projeto de salvaguarda racional e de utilização econômica pública de todos os recursos naturais do país, projeto que limitava, portanto, radicalmente o laissez-faire. (Ver a tal propósito: POLANYI, K. La TVA: um esperimento economico americano. In: Cronache della grande trasformazione, ob. cit., pp. 207- 216).
42 Tratava-se, por exemplo, do Social Security Bill, que dizia respeito à introdução de um sistema de
segurança social, do Wagner Labour Desputes Bill, que introduzia a composição, obrigatória por lei, das querelas trabalhistas no âmbito da jurisdição concernente aos conflitos do trabalho, do Banking Bill, que aumentava decididamente a influência estatal no sistema bancário, do Public Utilities Holding Bill, que ensejava a possibilidade de uma municipalização das empresas de gás, de energia elétrica, de água e de transportes coletivos urbanos, entre outros.
43 Ver a tal propósito: POLANYI, K. La costituzionalità della legge sindacale In: Cronache della
grande trasformazione, ob. cit., pp. 218-220.
44 Roosevelt, tentando diluir a tendência conservadora da corte, idealizou o Judicial Procedures
Reform Bill (1937), que ficou conhecido como Court-Packing Plan: ele propôs ao Congresso, em 5 de fevereiro de 1937, lei aumentando a composição da Corte para quinze juízes e estabelecendo a nomeação de um juiz adicional, até o máximo de seis, para cada outro que superasse a idade de 70 anos e 6 meses. Como aquela era, na época, a mais velha Corte da história (a Old Court), Roosevelt poderia então nomear seis juízes de uma só vez