Frank Schimmelfennig & Ulrich Sedelmeier, 2009:
A ASSINATURA DO ACTO DE ADESÃO
A 12 de Junho chega finalmente o grande dia, o da assinatura do Acto de Adesão, que contempla todas as decisões tomadas durante as negociações, incorporadas nos diversos capítulos. Baseado nos modelos dos alargamentos anteriores, divide-se em cinco partes: (1) os princípios da adesão; (2) as adaptações permanentes derivadas da adesão; (3) e a nível do direito derivado; (4) as medidas transitórias e derrogações temporárias; e (5) as disposições relativas à aplicação do Acto de Adesão448.
Se bem que, pessoalmente, partilhemos da opinião defendida pelo antigo ministro dos Negócios Estrangeiros espanhol, Fernando Móran, que teve a seu cargo as negociações de adesão espanholas entre 1982 e 1985, quando afirma que a parte mais importante do Acto de Adesão encontra-se fora dele, na capacidade do novo Estado-membro passar a participar no processo de decisão (MORÁN, 1990: 299).
Antes da assinatura ainda houve algumas dificuldades internas, com o fim anunciado do Bloco Central e as ameaças de Aníbal Cavaco Silva, então presidente do PSD, ao colocar “reservas à entrada de Portugal nas Comunidades e ameaçando não votar o Tratado na Assembleia da República” (ALMEIDA, 2005: 278-279), dificuldades essas que foram proteladas em nome do bem maior que era, naquele momento, e passados mais de sete anos na vida do Estado e das pessoas envolvidas nas negociações, a adesão.
Quanto à cerimónia, Ernâni Lopes exigiu que não fosse em Bruxelas e que a cerimónia no Mosteiro dos Jerónimos fosse antes da assinatura de Madrid449, talvez por
447
CONSILIUM, file 1420, “Résolution sur la ratification des traités relatifs à l'adhésion du Portugal et de l'Espagne adopté par le Parlement européenne lors de sa séance du 11 septembre 1985ˮ
448
O Acto de Adesão, oficialmente designado por Actos Relativos à Adesão do Reino de Espanha e da
República Portuguesa às Comunidades Europeias, foi comum a Portugal e a Espanha, não havendo
precedentes para tal situação; e contempla 25 protocolos e 49 declarações, duas das quais portuguesas, uma sobre questões monetárias e a outra sobre a zona abrangida pelo Comité das Pescas do Atlântico Centro-Este.
449 “O homem que negociou com FMI e CEE”,
disponível em http://dn.sapo.pt/gente/interior.aspx?content_id=1726065, a 3/12/2010
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afirmação de um ponto de honra antigo de aderir antes de Espanha, por sempre lhe ter estado adiantado nas negociações e por ter sido prejudicado pela candidatura espanhola.
Estava uma manhã soalheira em Lisboa. Precedido, primeiro, por uma sessão de boas-vindas na Torre de Belém e depois por uma sessão de cumprimentos, no Palácio de Belém, ao Presidente da República, a cerimónia decorreu entre as 10:00 e as 11:30, seguido por um almoço oferecido pelo presidente do governo português. Às 15 horas a comitiva partia para Madrid, para mais uma cerimónia de assinatura450.
Do lado português, o Acto de Adesão foi assinado por Mário Soares, Rui Machete, Jaime Gama e Ernâni Rodrigues Lopes451, por oito primeiro-ministros e quatro ministros dos Negócios Estrangeiros. Estiveram presentes na cerimónia uma delegação da Comissão, constituída pelo seu presidente, Jacques Delors, pelo Comissário Lorenzo Natali, pelo secretário geral, Emile Nöel, Ingrid Nielsen, David Goodchild e também por Roland de Kergorlay, embora já não pertencesse à Comissão; e por representantes do PE, do BEI, do Tribunal de Justiça das Comunidades Europeias, do Conselho Económico e Social.
Anos mais tarde, evocando esse dia, Mário Soares conta-nos que:
“foi uma cerimónia que ficou na memória de todos os que nela participaram: foi impressionante! No quadro do Mosteiro dos Jerónimos, no rendilhado da pedra que limita o grande claustro, instalou-se um palanque onde se procedeu à cerimónia. Aí se encontravam umas largas centenas de convidados portugueses e estrangeiros que não escondiam o seu encantamento pelo quadro histórico encontrado para tão solene acto”452
.
450
CONSILIUM, file 1374, “Telex sorti – Signature du traite d'adhésion du Portugal et de l'Espagne aux Communautés Européennes (Lisbonne-Madrid, le 12 juin 1985)”
451
Nas vésperas da assinatura, devido à ruptura no Bloco Central, colocava-se (o PSD) a dúvida se se devia assinar ou não o tratado, pelo que “foi assim que para além dos três subscritores naturais — o Primeiro- Ministro e os dois principais negociadores, Jaime Gama e Ernâni Lopes — se acrescentou, à última hora, um quarto, Rui Machete”. In SOARES, Mário (1996), “Dar à Europa um contributo criador”, in Intervenções, vol. 10, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, pp. 133-134
Leitura algo diferente tem José Medeiros Ferreira quando afirma que “o Ernâni e o Machete assinaram por direito próprio, eles é que percebiam daquilo” e que estes, por sua vez, “fizeram o favor de deixar o Gama assinar”. In Entrevista a José Medeiros Ferreira, “Sentia-me capaz de exercer qualquer cargoˮ, Expresso, edição de 28 de Julho de 2012, disponível em http://expresso.sapo.pt/sentia-me-capaz-de-exercer-qualquer- cargo=f742244, a 30/07/12
452
SOARES, Mário (1996), “Dar à Europa um contributo criador”, in Intervenções, vol. 10, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, p. 133
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Imagem VII: assinatura do Acto de Adesão (1985)
Fonte: European Commission Audiovisual Services, P-002612/04-31A
Foi um dia simbólico que teve direito a destaque televisivo453 e noticioso454, e cuja data é uma referência, existindo várias reflexões sobre o significado desse dia e dessa adesão, que medeiam entre a classificação de “acto histórico” a “espécie de refundação do país” (RAMOS, 2009: 748).
453
Gisela Machado analisa os telejornais que antecederam o dia da assinatura do Acto de Adesão (telejornais dos dias 5 a 12, inclusive); o dia 12 visto pela RTP, com vários debates e emissão contínua. In MACHADO, Gisela (2005), O Primeiro Dia Europeu de Portugal – Cenas da União Selada pela Televisão, Porto, Campo das Letras
454
Notícias sobre a assinatura do Acto de Adesão: HAEU, CPPE-001658, “Madrid e Lisbona Firmano l'Adesione”, Il Sole-24 Ore, 11 de Junho de 1985; “Portugal: C'Est un pays mal Développé et Frappé de Misère qui Adhère à la Communauté Européenneˮ, Le Soir, 11 de Junho de 1983; “L'Espagne et le Portugal Signent l'Accord d'Adhésion”, L'Humanité, 12 de Junho de 1985; “Europe: Nous Serons 12 à Table, ce Soirˮ,
Le Soir, 12 Junho 1985; “Avec Madrid et Lisbonne la Vieille Europe au Grand Completˮ, Le Republicain Lorrain, 12 Junho de 1985; “Spain and Portugal Enter the EEC”, The Guardian, 13 de Junho de 1985; “Act to
Enlarge EEC Signed Amid Pledges for Democracy”, The Irish Times, 13 de Junho de 1985; “EEC is Enlarged with a Flourish of Signatures”, Financial Times, 13 de Junho 1985
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Tabela XII: o que representa a adesão
O que representa a adesão Autor
“acontecimento contemporâneo mais importante da política
externa portuguesa. Ponto de viragem e marco histórico” ALMEIDA, 2005: 457 “projecto de sociedade arquitectado na democracia
representativa”
BALSEMÃO, 1980455
“uma nova opção de Portugal” CARVALHO, 1987: 133
“essa escolha foi uma das decisões mais importantes tomadas pelos líderes políticos portugueses neste século”
COSTA, 2000: 7
“é um projecto de sociedade” FERNANDES, 1980: 213
“concretizou um mito de expansão, substitutivo do Ultramar”
FRANCO, 1994: 258
“grande acontecimento nacional” FREIRE, 1986: 9
“uma coisa que tinha que ser feita” e “um verdadeiro turning point da política externa portuguesa”
GAMA, 2011456 “a melhor maneira de voltar para o mundo (…) A
ancoragem à Europa, a ancoragem ao mundo”
GUICHARD, 1993 : 260 “um seguro contra novas tentativas de tomada do poder por
parte das forças não democráticas” LEITÃO, 2007: 272 “um marco dominante da evolução histórica de ambos os
países – e, em termos mais gerais, da própria construção europeia”
LOPES, 2007: 25 “é um dos acontecimentos mais importantes na história de
Portugal” MAGONE, 2004: 1
“a mais importante e impactante decisão política tomada pelo país no século XX”
MARTINS, 2001: 50 “maior desafio moderno posto à Sociedade e ao Estado
portugueses. A Europa é, em suma, a «nova fronteira portuguesa»”
PIRES, 1984: 52 “uma espécie de refundação do país” RAMOS, 2009: 748 “acontecimento denso de consequências doutrinárias,
morais, políticas e técnicas”
RIBEIRO, 1985: 153 “opção fundamental por um futuro de progresso e de
modernidade”
SOARES, 1985
Fonte: elaboração própria457.
455
AHCE BAC 250/1980 n.º 19, “Pinto Balsemão no seminário sobre Europa – Adesão de Portugal à CEE é projecto de nova sociedade”, O Dia, de 12 de Outubro de 1980
456
Entrevista a Jaime Gama, realizada a 26 de Maio de 2011
457
Citações recolhidas em: ALMEIDA, Rui Lourenço Amaral de (2005), Portugal e a Europa – Ideias,
Factos e Desafios, Lisboa, Edições Sílabo; CARVALHO, Virgílio de (1987), Cumprir Agora Portugal – Uma Proposta para uma Grande Estratégia Nacional, Lisboa, Difel; CONSILIUM, file 1374, “Discurso proferido
pelo Primeiro Ministro da República Portuguesa por ocasião da assinatura do tratado de adesão de Portugal às Comunidades Europeias”; COSTA, Francisco Seixas da (2000), “A European Vocation”, in A. Vasconcelos e M. J. Seabra (eds.), Portugal a European Story, Cascais, Instituto de Estudos Estratégicos e Internacionais/Principia, pp. 7-9; GUICHARD, François (1993), “L'Europe comme Question Ibérique: Le Regard d'un Géographe“, in L'Adhésion de l'Espagne et du Portugal à la CEE – Bilan et Perspectives,
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Classificações à parte, começava então uma nova fase no relacionamento entre Portugal e a CEE, que perdura e que tem sido vivido com êxitos, mas também com fracassos.
Bordeaux, Maison des Pays Ibériques, pp. 255-262 [Actes du Colloque International de Talence, 29-30 Janvier 1993]; FERNANDES, Carlos Roma (1980), Portugal, a Europa e o Terceiro Mundo, Lisboa, Editorial Pórtico; FREIRE, Siqueira (1986) “Portugal entre o Mar e a Terra – Reflexões sobre a identidade Nacional”, Estratégia – Revista de Estudos Internacionais, n.º 2, Lisboa, Instituto de Estudos Estratégicos e Internacionais, pp. 9-22; LEITÃO, Nicolau Andresen (2007), Estado Novo, Democracia e Europa, 1947-
1986, Lisboa, ICS; LOPES, Ernâni (2007), “As negociações de adesão (a fase final)”, in N. A. Leitão (org.), 20 Anos de Integração Europeia (1986-2006) – O Testemunho Português, Chamusca, Edições Cosmos, pp.
23-44; MAGONE, José M. (2004), The Developing Place of Portugal in the European Union, New Brunswick, Transaction Publishers; PIRES, Francisco Lucas (1984), “Na Fronteira da Europa – Uma Política para a Integração Europeia de Portugal”, Democracia e Liberdade, número temático A Contribuição de
Portugal para a Construção da Unidade Europeia, Lisboa, IDL, pp. 51-65; RAMOS, Rui (coord.) (2009), História de Portugal, Lisboa, A Esfera dos Livros; RIBEIRO, D. António (1985), “Nota Pastoral sobre a
Adesão de Portugal às Comunidades Europeias”, in Democracia e Liberdade, n.º 33, Lisboa, IDL – Instituto Amaro da Costa, pp. 153-163