3.2. Clérigos e “Profissionais Liberais”
3.3.4. Atafoneiro/Moleiro
Datas Extremas:1379-1480;
Representação Geográfica: Évora, Lisboa e Loulé.
438
Vereações da Câmara Municipal do Funchal: Século XV, p. 634.
439
Livro das Posturas Antigas, p. 284.
440 Calculando este em 64 alqueires e em 30 reais o alqueire, valor registado em Tomar. 441
O salário líquido de um atafoneiro ou moleiro baseava-se na subtracção do pagamento recebido pelas despesas inerentes à produção. Embora de difícil análise, as fontes sugerem duas modalidades de remuneração: a soma de duas parcelas, a maquia (geralmente traduzida na reserva de parte da produção, embora, em alguns casos, o seu valor pudesse ser calculado em numerário) e o que designámos, genericamente, de taxa de moagem (parcela paga em numerário). Aquando do exercício desta modalidade, é de crer que a maquia surgisse como a remuneração do trabalho e a taxa de moagem como a remuneração do capital, esta calculada em função das despesas442. Numa segunda modalidade, a taxa de moagem surge como a única parcela de pagamento, podendo projectar ou não o valor da maquia443. Quanto às despesas, estas dependiam do tipo de mecanismo de produção. No caso das atafonas movidas por força animal, mais complexas e dispendiosas do que as mós manuais444, se bem que mais produtivas, as posturas eborenses de finais do século XIV previam: forragem para duas bestas; soldada, vestuário e mantimento de um mancebo; ferragem; aluguer de casa e iluminação (azeite)445. Infelizmente, são raros os registos que, para um mesmo momento, englobem toda esta informação e, desse modo, permitam o cálculo dos salários líquidos.
Segundo Oliveira Marques, o valor da maquia não terá variado grandemente, apontando um documento de 1338 e outra da década de 1470 (1474?) em que aquele é estabelecido em 1/14 da produção “segundo o costume”446. Aceita-se esta ideia, embora se deva ampliar um pouco o nível de variação sofrido pelo valor das maquias, como, aliás, revela uma postura eborense de 1392 (“Item. leve de maquia de XVI hum”)447. Por sua vez, em nova postura eborense de finais do século XIV, a vereação estipulava as “maquias das móos de braço a 2
soldos (1,05 g) o alqueire como foi sempre de costume levarem e nom maquiar”448. Duas notas relativamente a esta ordenação, uma primeira de estabilidade, em linha com a ideia apontada por Oliveira Marques, já a segunda para exemplificar os casos em que a maquia é calculada em numerário.
442
Oliveira Marques refere apenas esta modalidade, atribuindo-lhe os mesmos fins remuneratórios: soma da maquia (remuneração do trabalho) e de outra percentagem que não apelida (remuneração do capital e calculada em função das despesas). Discordamos do autor apenas na evocação de um cenário único. Cf. MARQUES, Introdução à História…, p. 204- 205.
443 Desconhece-se se, em alguma altura, a maquia surgiu como única parcela de pagamento. É natural que assim tenha
acontecido, sobretudo em tempos/espaços de menor circulação monetária ou em tempos de maior desvalorização e desconfiança monetária.
444
Registam-se apenas dois valores relativamente às taxas e maquias de mós manuais, os quais, curiosamente, coincidem em termos de valor real (1,05 g). Nos finais do século XIV, em Évora, estipulava-se uma maquia de 2 soldos (1,045 g) por alqueire. Em 1403, em Loulé, a vereação local, vendo que “na dicta villa avia muitas moos de braços e o poboo recebia muito dapno
emgano dos mooleiros que levavam de moer moor preço que mereciom”444, impunha um máximo de 3 reais (1,05 g) para a moagem do alqueire. Actas de Vereação de Loulé: Séculos XIV-XV, p. 133.
445
Documentos Históricos…, I, p. 141 e 150.
446
MARQUES, Introdução à História…, p. 205.
447 Documentos Históricos…, I, p. 184. 448
A análise evolutiva da remuneração mensal dos atafoneiros de mós de tracção animal exige um esclarecimento prévio. Em primeiro lugar, que esta, à imagem do que se procurou realizar para todos os mesteres, baseia-se em indicações de ganhos diários, os quais podem ser consultados em anexo, mas cujas médias deixamos já expostas no quadro XVIII. Em segundo lugar, que uma das informações chave para se proceder ao cálculo do salário, ou seja, a capacidade de produção diária, apenas surge por três vezes e nos registos dos finais do século XIV. Considerando que a falta desse elemento nas posturas Quatrocentistas não era suficiente para impedir a sua utilização como peça importante para se perceber a evolução do ganho do atafoneiro, optámos por adoptar o mesmo quantitativo médio de produção diária, ou seja, 16,5 alqueires. Fica a questão se, entre 1380 e 1480, a produtividade cresceu significativamente em função da evolução das técnicas (obviamente, as comparações têm de ter por base o mesmo quadro de trabalho humano e animal) ao ponto da nossa opção metodológica ser inviável. Pensamos que não. À imagem do defendido por Oliveira Marques, somos da opinião que, no período em causa, a evolução técnica não foi significativa ao ponto de induzir um significativo crescimento da produtividade. Por último, importa salientar que apenas dois registos do século XIV informam das despesas de produção e, por conseguinte, permitem o cálculo do ganho líquido do moleiro, pelo que, à excepção desses momentos, as considerações de teor evolutivo terão na sua base os quantitativos mensais ilíquidos.
Quadro XVIII:EVOLUÇÃO E COMPOSIÇÃO DO SALÁRIO DIÁRIO ILÍQUIDO DE UM ATAFONEIRO (1380-1480)
Data Local moagem por alq. Taxa de Valor da maquia por alq. Produtividade Total ilíquido
1379 (?) Évora 1,33 s. (0,7 g) ? 16,5 alq. (?) ? 1380 Évora 1,5 s. (0,79 g) 0,44 s. (0,23 g) 16,5 alq. 32,01 s. (16,74 g) a. 1382 (Jun.) Évora 2,83 s. (1,48 g) 1,31 s. (0,69 g) 16,5 alq. (?) 68,31 s. (35,73 g) d. 1382 (Jun.) Évora 2,16 s. (1,13 g) 0,53 s. (0,28 g) 16,5 alq. (?) 44,39 s. (23,22 g) 1384 (?) Évora 12 s. (3,83 g) 3,75 s. (1,2 g) 16 alq. 252 s. (80,39 g)
1454 Lisboa 2,75 r. (0,57 g) 1,5 r. (0,31 g) 16,5 alq. (?) 70,13 r. (14,66 g) 1469 Lisboa 3 r. (0,43 g) ? 16,5 alq. (?) ? 1474 Lisboa 4 r. (0,48 g) 1,14 r. (2,28 g) 16,5 alq. (?) 84,86 r. (10,27 g) 1480 Évora 4 r. (0,46 g) - 16,5 alq. (?) 82,5 r. (9,49 g)
Dito isto, reportemo-nos à cidade de Évora de finais do século XIV e a uma postura não datada, mas que cremos ter rondado o ano de 1379. Esta, não informando sobre as despesas de
produção, nem sobre o preço da cevada ou do trigo necessário para calcular o valor da maquia, apenas permite apontar o ganho mensal ilíquido advindo das taxas de moagem: 450 soldos (235 g) por moagem de trigo lento ou 418 soldos (219 g) por moagem de trigo seco e de segunda (cevada).
O segundo registo, datado de 1380, desponta como um dos escassos momentos passíveis de apreender o salário de um moleiro na sua totalidade. Em termos ilíquidos, este rondaria os 631 a 658 soldos (330 a 344 g): 500 soldos pela taxa de moagem mais entre 131 a 158 soldos de maquia por trigo lento ou seco449. Deduzida as despesas, orçadas em 277 soldos (145 g)450, percebe-se um salário líquido de 354 a 381 soldos (185 a 199 g), mediante moagem de trigo lento ou seco. Um mancebo ajudante recebia, de soldada e mantimento, cerca de 120 soldos (63 g) ou, em média, menos 66% do que o seu empregador. Perante estes valores, pode-se afirmar que tanto o moleiro como o seu assistente recebiam uma boa remuneração. Não tão avultadas como os máximos passíveis de serem atingidos por um mestre ferreiro e seus assistentes (400 e 160 soldos) mas bastante superiores às de um mestre carpinteiro ou pedreiro (200 a 250 e 80 soldos).
Em período anterior a 20 de Junho de 1382 o rendimento dos moleiros subira consideravelmente, podendo ser calculado o ilíquido entre 1294 a 1433 soldos (677 a 750 g): 900 a 960 soldos pelas taxas de moagem mais 394 a 473 soldos pela maquia, mediante moagem de trigo lento ou seco. Face a 1380, tinha ocorrido uma subida média de cerca de 111%.
Considerando que esse rendimento fora tabelado com a cevada a valer entre 10 e 11 soldos e que, por aquela data, já tinha descido para 4 a 4,5 soldos “e que nom he razom de
moerem atam caro”, a vereação eborense reduzia o ganho ilíquido para 859 a 911 soldos (449
a 476 g): 700 a 720 soldos pelas taxas de moagem mais 159 a 191 soldos pela maquia, mediante moagem de trigo lento ou seco. Ora, ainda que se tivesse cortado à volta de 35% no rendimento do moleiro, este constituía mais 37% do que em 1380.
Em nova postura da cidade de Évora, a qual infelizmente não se encontra datada, surge novo registo mais pormenorizado. Em termos ilíquidos, este rondaria os 5040 soldos (1608
449
Todos os cálculos do valor mensal das maquias obedecem à seguinte fórmula: preço do alqueire de trigo x 15/18 (nº de alqueires moídos diariamente) ÷ 16/14 (percentagem da maquia) x 20 (n.º de dias de trabalho). Os valores de 1/16 e 1/14 atribuídos às maquias respeitam as ordenações de 1392, estipulada para a cidade de Évora, e de 1474, estipulada para a cidade de Lisboa. Quando desconhecido, o preço do trigo é calculado no dobro do preço da cevada. No caso de 1380, temos: 7 x 15/18 ÷ 16 x 20 = 131/158.
450
João Afonso afirmava ser capaz de moer, com duas bestas, 15 alqueires de trigo lento ou 18 alqueires de trigo seco num dia e madrugada. Apontando como despesas o custo de dois alqueires de cevada para as bestas (7 soldos), da grama ou erva (1,5 soldos), da soldada e mantimento de um mancebo (4 soldos), do aluguer da casa (1 soldo) e da ferragem (4 dinheiros), a vereação eborense permitia a venda do alqueire de trigo lento por 1,66 soldos e a venda do alqueire de trigo seco por 1,33 soldos. Fazendo os devidos cálculos, chega-se a um ganho diário de 11,16 (trigo lento) ou 10,16 soldos (trigo seco).
g): 3840 soldos pela taxa de moagem mais 1200 soldos de maquia. Deduzida as despesas, orçadas em 1980 soldos (632 g)451, percebe-se um salário líquido de 3060 soldos (976 g). Por sua vez, um mancebo auferia, de soldada, mantimento e vestuário, cerca de 990 soldos (316 g) ou menos 68%. Tomando em consideração o facto de os oficiais eborenses apelidarem este vencimento como “mui grande ganho”452 e cruzando-o com os coeficientes de moeda da época, surge como data provável desta postura o ano de 1384. Caso, de facto, esta data se apresente válida, estar-se-ia perante um vencimento líquido total de 976 g de prata, o que, por sua vez, representaria uma subida impressionante de cerca de 408% face a 1380. A comparação do rendimento ilíquido com os valores de 1382 indicia subidas de 37 e 111%, respectivamente. Estes números provam, sem margem para dúvidas, que o rendimento dos moleiros subiu à medida que o clima económico do país se agravou, o que se compreende tendo em conta a inflação do custo de vida. Muito provavelmente, foi este elevado custo de vida que levou os atafoneiros a não aceitarem certas medidas de moderação salarial, entretanto, impostas pela vereação eborense, e a conduzirem uma greve. Ficou assim guardada a memória desse acontecimento singular: “disserom que alguns atafoneyros se
ajuntarom em maneira de confraria e que andarom por todallas atafonas da cidade tomando lhe as segurelhas pera averem azo de nom moerem por a cidade em tal que lhes leixassem moer como elles quisessem (…) e o juiz tomara enquirçom sobre ello”453.
Em 1454, D. Afonso V estabelecia o valor das taxas de moagem para a cidade de Lisboa, através do qual calculou-se o rendimento mensal ilíquido entre 1320 a 1485 reais (276 a 310 g): 825 a 990 reais pelas taxas de moagem mais 495 reais pela maquia. De salientar que a diferenciação aqui introduzida responde às estações do ano e não à qualidade do trigo. Assim, o pagamento das taxas de moagem era superior em 20% no período de 1 de Maio a 31 de Outubro do que no período de 1 de Novembro a 30 de Abril. Em termos evolutivos, parece ser possível apontar uma clara descida no rendimento ilíquido dos moleiros face aos registos da década de 1380: 13% face a 1380; 59% face a período anterior a 20 de Junho de 1382, 36% face à segunda metade de 1382 e 82% face a 1384 (?). Desconhece-se, todavia, como evoluiu o nível de despesa e, por conseguinte, o salário líquido do atafoneiro.
Em todo o caso, parece ser possível afirmar que a ocupação de moleiro foi bastante procurada, na medida em que, até ao lançamento desta postura, a cidade de Lisboa havia
451 Álvaro Martins e Afonso Anes afirmavam serem capazes de moer, com duas bestas, 16 alqueires de trigo. Apontando como
despesas o custo de dois alqueires de cevada para as bestas (60 soldos), da soldada, mantimento e vestuário de um mancebo (33 soldos), do aluguer da casa (3 soldos), da ferragem (2 soldos) e do azeite (1 soldo), a vereação eborense permitia a venda do alqueire de trigo por 12 soldos. Fazendo os devidos cálculos, chega-se a um ganho diário de 4 libras e 13 soldos.
Documentos Históricos…, I, p. 150.
452 Documentos Históricos…, I, p. 150. 453
assistido a uma multiplicação de atafonas, o que indicia claramente ter-se tratado de uma actividade bastante lucrativa454. É possível, no entanto, que as taxas introduzidas e outras medidas tenham quebrado o ganho dos atafoneiros e, por conseguinte, cerceado o crescimento dessa actividade. Com efeito, em 1469 voltava-se a fazer referência a esta postura, o que, se por um lado revela estabilidade, por outro revela incumprimento por parte dos atafoneiros:
“que nam seja nenhuu atafoneiro nem senhorio datafana tam ousado que daquy em diamte leue mays por moher alqueire de trigo de tres rreaes (0,43 g) segumdo se conthem na hordenaçom”455. Além disso, é importante perceber que o facto de a mesma regra se ter mantido, independentemente da desvalorização monetária, conduziu, entre 1454 e 1469, a um agravamento da quebra, neste caso superior a 30% no que diz respeito apenas à taxa de moagem (desconhece-se o preço da cevada ou do trigo que permitiria o cálculo do salário total ilíquido).
Em 1474, D. Afonso V estabelecia a maquia em 1/14 e, muito provavelmente devido ao processo de desvalorização monetária, subia a taxa de moagem para 4 reais por alqueire durante todo o ano, quer os anos “seiam caros de çeuada que elles com as bestas gastam (…)
quer seiam baratos”456. Em termos mensais, ocorreria um ganho mensal ilíquido de cerca de 1697 reais (205 g), resultado de 1320 reais (160 g) de taxa de moagem e 377 reais (46 g) de maquia. Em termos evolutivos, pode-se assistir à continuação do movimento de quebra, desta feita de 30% face aos 1403 reais (293 g) de 1454.
Em Maio de 1480, D. Afonso V pronunciava-se novamente sobre o valor das taxas de moagem, desta feita dirigindo-se à cidade de Évora. Da sua missiva extraem-se preciosas informações. Desde logo, que todas as taxas de moagem são estipuladas “sem maquia
alguma”457. Em segundo lugar, que a administração municipal eborense chegou a tabelar um custo máximo de moagem, do qual se infere um rendimento imutável de 1320 reais por alqueire de trigo. Terceiro, que o rei, após queixa dos proprietários de atafonas, substituiu aquela taxa por outra que obedecia ao preço corrente da cevada e da qual se inferem os seguintes rendimentos ilíquidos: 1320 reais com a cevada a valer até 12 reais; 1650 reais com a cevada a valer entre 13 e 20 reais e 1980 reais com a cevada a valer mais de 20 reais. Finalmente, que D. Afonso V, após novo pedido dos atafoneiros e tendo em conta “a grande
454
D. Afonso V havia proibido a existência de atafonas na cidade e termo de Lisboa, em virtude da grande “perda que os
moradores da dicta çidade rreçebiam por a grande multijpricaçam que em ella auya datafanas e çaquaaes dizendo que os serujdores mantjmentos bestas por causa dellas eram em tam grande carestia que o poboo ho nam podya soportar”. No
entanto, “por mjnguoa das moendas” e do “mujto e muj boom pam”, o soberano viu-se obrigado a revogar essa decisão, impondo, no entanto, as taxas mencionadas e obrigando cada atafoneiro a semear, anualmente, um quarteiro de cevada por cada besta que possuísse. Livro das Posturas Antigas, p. 43-46.
455
Livro das Posturas Antigas, p. 37.
456 Cit. por RODRIGUES, Aspectos da administração…, p. 100. 457
carestia das cousas pera suas atafonas cada dia recrecia”458 alargava a dita taxa para os 1650 reais enquanto a cevada valesse até 20 reais e para 1980 reais quando a cevada ultrapassasse 20 reais. Em termos globais, estes valores de 1320 a 1980 reais (151,8 a 227,7 g) revelam nova diminuição dos vencimentos face a 1474, desta feita em 7%. Dissipam-se as dúvidas sobre a quebra do rendimento dos moleiros na segunda metade do século XV e, muito provavelmente, face ao mesmo período do século anterior.
Conclua-se esta breve exposição com o seguinte dado: entre 1380 e 1480 verificou-se uma oscilação mínima de 275% (746% no caso do valor atribuído a 1384 se revelar acertado) no que diz respeito ao vencimento ilíquido do moleiro, o que faz dele um dos mais instáveis no conjunto dos salários medievais. Um mestre carpinteiro, para um período ainda mais extenso (1340-1499), não viu o seu salário oscilar muito mais de 60% e cerca de 10% foi a flutuação registada para o jornal máximo de um mestre ferreiro no mesmo período de 1380 a 1480. Esta imagem espelha claramente a instabilidade de uma remuneração que respondia, em grande medida, ao preço corrente dos cereais, o qual, como vimos, foi dos que mais facilmente e amplamente oscilou na Baixa Idade Média.
3.3.5. Carpinteiro
Datas Extremas: 1340-1499;
Representação Geográfica:Évora, Funchal, Guimarães, Grijó, Lisboa, Loulé, Montemor-o-Novo e Porto.
Começa-se a análise do salário deste oficial pelos anos de 1340-41, altura em que um mestre e um servente às ordens do cabido da Sé de Évora recebiam, em regime de jornal “sem governo”, entre 140 a 150 soldos (86,1 a 92,3 g) e entre 40 a 80 soldos (24,6 a 49,2 g). Neste mesmo contexto, o salário de um comum trabalhador agrícola rondaria apenas os 60 soldos (36,9 g), ou seja, o mesmo de um servente de carpinteiro.
Já em 1365, o mosteiro de Grijó pagava a “huum carpenteiro pera adubar cubas e cassas
do moesteiro e apeiiros de lavoira (…) por calçar e vistir e soldada treze libras”459. Embora muito inferior, este salário mensal de cerca de 21,66 soldos (13,1 g) tinha a vantagem de ser acompanhado de alimentação460 e constituir um rendimento fixo, independente de maior ou menor oferta de trabalho, algo que o dito carpinteiro ao serviço do cabido eborense não tinha assegurado. Além disso, é plausível assumir que o carpinteiro gaiense conseguisse ainda
458
Documentos Históricos…, II, p. 149.
459
Livro das Campainhas…, p. 71.
460
Cujo valor mensal calculamos em mais de 35 soldos (21,18 g). Destaque-se a grande despesa que constituía a alimentação no cômputo do salário, parcela superior em 75% ao conjunto da soldada, vestuário e calçado. Cf. Livro das Campainhas…, p. 72-73.
conjugar, mesmo que pontualmente, o prestigiado serviço no mosteiro com outros trabalhos. Em todo o caso, tratava-se de um bom mantimento no conjunto dos servidores “fixos” do mosteiro, superior em 33,33% ao que recebia um mancebo de lavoura e um boieiro (16,25 soldos), em 62,5% face à soldada de um almuinheiro e de uma moleira (13,33 soldos) e em 333,2% face à soldada de uma lavandeira (5 soldos).
Regressando à cidade de Évora, mas cerca de 1380, constatam-se três escalões de pagamento: 200 soldos (104,6 g) “aos carpinteiros boons”, 160 soldos (83,68 g) aos carpinteiros “que nom som taaes e aos revoldeiros das cousas” e 80 soldos (41,84 g) ao
“sergente”461. Não tendo registado alterações significativas no valor monetário dos vencimentos, a grande diferença deste tabelamento face a 1340-41 prende-se com o facto de se introduzir o complemento alimentar. Se calcularmos este em 1/4 do salário (realidade louletana de 1403), chegamos aos seguintes salários mensais: 250 (130,75 g); 200 (104,6 g) e 100 soldos (52,3 g) o que espelha, sem dúvidas, um aumento do salário dos carpinteiros entre 1340 e 1380, talvez a atingir os 40%. Noutra perspectiva, percebe-se que a diferença de vencimento estipulada entre um bom e um médio carpinteiro era de 25% e de 100% entre um médio carpinteiro e um servidor.
Em 1403, a vereação louletana tabelava o ganho dos melhores mestres de cada mester em 400 reais “sem governo” (140 g) ou 300 reais (105 g) “com governo” e dos “aprentises e aos
outros da condiçom destes”462 em 320 reais (112 g) “sem governo” e 240 reais (84 g) “com governo”. Estes valores são ligeiramente superiores aos de 1380, o que pode não reflectir necessariamente um aumento salarial, mas tão-somente uma realidade regional díspar. Registe-se ainda o facto do conceito de aprendiz equivaler, nesta postura, ao de mestre “regular”, sendo que o nível de separação salarial se situaria nos 33,33%.
Descobre-se novo tabelamento para o ano de 1413 e para a cidade do Porto, pelo qual se atribuíam 280 reais (98 g) ao melhor “carpenteiro de naao”, 240 reais (84 g) ao “que tall
nom for”, 200 reais (70 g) ao melhor carpinteiro de casa e 160 reais (54,4 g) “ao nom tall”.
Estes valores, “com sseu mantymento” 463, revelam uma descida face a 1380 e, sobretudo, face a 1403 (esta a rondar os 12,5%), pelo menos na cidade do Porto. Com efeito, calculando novamente a alimentação em 1/4 do salário verificavam-se os seguintes rendimentos: 350 (122,5 g), 300 (105 g), 250 (87,5 g) e 200 (70 g). Espelham, igualmente, a desvalorização monetária (repare-se como os vencimentos dos carpinteiros de casas são exactamente iguais aos de 1380, mas como a depreciação conduziu a uma perda superior a 32,5%) e a
461
Documentos Históricos…, I, p. 149.
462 Actas de Vereação de Loulé: Séculos XIV-XV, p. 128. 463
desvalorização social sofrida pelos carpinteiros de casas do Porto. Com efeito, a vocação marítima desta cidade permitiu que dentro da classe dos carpinteiros se verificasse uma especialização na carpintaria naval e que estes, socialmente mais valorizados, passassem a ocupar os patamares salariais superiores (com salário superior entre 40 a 50% aos mestres de carpintaria “habitacional”). De referir que a diferenciação salarial estabelecida para distinguir os melhores oficiais dos oficiais “regulares” se traduzia, neste caso, entre 16,66% a 25%.
Em 1420, era a vez da vila de Arraiolos tabelar os ganhos dos seus carpinteiros, desta feita em 240 e 300 reais (74,4 e 93 g) com alimentação. Sem “governo” estes salários rondariam 300 e 375 reais (93 e 116,25 g). Salienta-se aqui a já referida diferenciação introduzida por motivos climáticos, sendo o trabalho realizado na época estival melhor remunerado em 25%. Em termos evolutivos, estes valores mantêm a linha de 1413, já que deverão ser comparados com os carpinteiros mais bem remunerados desse registo. Obviamente, a desvalorização socio-económica do carpinteiro de casas portuense fica bem patente num ganho inferior de cerca de 25% face ao seu congénere alentejano.
Em 1450-51, um carpinteiro contratado pela vereação portuense auferia entre 400 e 500 reais (83,6 e 115 g) e, em 1461-62, entre 560 e 640 reais (85,68 a 97,92 g). Supondo que os jornais em que se baseiam estes mantimentos seriam secos, verificara-se estabilização salarial.