3.1. Oficiais Públicos Datas Extremas: 1389-1498;
3.1.7. Oficiais de justiça e serviços de escolta
Datas Extremas: 1361-1499;
Representação Geográfica: Évora, Funchal, Lisboa, Loulé, Montemor-o-Novo e Porto.
Inicia-se este ponto com a breve observação de que a maioria dos salários de carcereiros e oficiais relacionados se compunha, grosso modo, à base de duas parcelas: uma quantia fixa, paga pela entidade empregadora, e uma quantia variável, advinda de percalços, como por exemplo, as carceragens ou troncagens pagas pelos infractores. Em Novembro de 1494, a vereação de Loulé nomeava Vasco de Torres por carcereiro da vila, atribuindo-lhe 500 reais (50,5 g) mensais mais “todallas cacerajeens per inteiro sem dellas o alcaide mor nem outra
alguua pessoa aver coussa alguua e mais seus percalços que aos semelhantes caregos pertenceem aver”390. Este salário mantinha-se praticamente o mesmo (500 reais ou 50 g) decorridos dois anos, altura em que Afonso Anes Cabrita era nomeado para a mesma função. Em 1499, o procurador de Montemor-o-Novo procedia a um embolso de 500 reais (50 g) ao carcereiro da dita vila. Embora não se especifique o motivo do pagamento, a coincidência de valores pode, perfeitamente, indiciar a mesma remuneração mensal391.
Ainda que seja impossível calcular os proventos advindos das carceragens, percalços, etc., pensamos que aqueles salários ocupariam uma posição média-alta num contexto de escassa remuneração do oficialato público, realidade que se deve ler à luz dos perigos e adversidades inerentes à função de aplicar a justiça. A título de exemplo, refira-se que, por estes últimos anos de Quatrocentos, o mais bem remunerado oficial da câmara lisboeta, o contador da
390
Actas de Vereação de Loulé: Século XV, p. 178.
391 Uma quantia de 500 reais (50 g) traduzia também o salário de um guarda do carcereiro lisboeta em 1501, altura em que o
cidade, não receberia mais do que 1215 reais (121,5 g). Da mesma forma, um vereador ou juiz da mesma cidade não ganharia mais do que 490 reais (49 g).
Recebendo, todavia, um pobre pecúlio fixo e frequentemente enfraquecido pela desvalorização monetária, os carcereiros e oficiais afins procuraram sempre dilatar o seu rendimento através das carceragens. As fontes encontram-se repletas de queixas contra carcereiros que exigiam maior quantia do que a legislada. D. Pedro I expunha e respondia, da seguinte forma, à posição da cidade de Évora nas cortes de Elvas de 1361: “E do que disiades
que os meus alcaides dessa cidade levom maiores carceragens que soyom, convem a saber, do que soyom a levar cinco soldos de carceragem levom ora novamente vinte e seis soldos mais dous dinheiros (…) e que fosse minha mercê de mandar que se nom fizesse. Sobresto tenho ser bem e mando que se guarde como usou e costumou em esta rasom.”392 Note-se que entre os 5 soldos (3,03 g) reclamados pela vila alentejana e os cerca de 26 soldos (15,83 g) praticados pelos alcaides registava-se uma diferença superior a 420%. Como dissemos, esta acção recorrente dos carcereiros procurava também atenuar o processo de desvalorização monetária. Refira-se, por exemplo, que em 1392, na mesma cidade, as carceragens oscilavam entre esses mesmos 5 soldos (0,23 g) para feito não crime e 25 soldos (1,15 g)393 para feito crime, o que espelha uma enorme desvalorização. Por sua vez, em 1403, na vila de Loulé, era
“dicto e denonciado que Vasco Affomso alcaide que sya presente levava das caçarageens moito mais que aquello que lhe de direito e custoume e ordenaçom amontava e que porende lhe deffendia em sua pessoa que nom levasse (…) salvo quinze por hua”394. A carceragem era o pagamento mais comum feito pelos presos, mas não o único. Em 1495, sabe-se que a troncagem seguia, no Funchal, a regra de Lisboa, ou seja, 14,5 reais (1,45 g).
Da mesma forma que as carceragens constituíam uma parte do salário de um carcereiro, a aplicação de certas penas concedia um complemento remuneratório aos carrascos. Em 1482- 83, na cidade do Porto, esse oficial recebeu 120 reais (13,8 g) por açoitar seis pessoas, entre as quais um “moço” e uma “moça”395; 60 reais (6,9 g) por decapitação e açoitamento de uma escrava; 50 reais (5,75 g) por enforcamento e 20 a 30 reais (2,3 a 3,45 g) por aplicação de tormentos. Para se ter uma melhor ideia destes valores, apontem-se os preços, na mesma cidade e ano, de 11 reais por galinha ou de 120 reais por gibão de homem. Em 1491-92, o açoitamento de uma pessoa contribuiu com 100 reais (10,1 g) para o orçamento do carrasco, quantia que lhe permitiria comer uma gamela de tripas (80 reais) e beber três canadas de
392
Documentos Históricos…, I, p. 57.
393
Mais 1 soldo de “mal entrada” em ambos os casos.
394 Note-se a clara menção à equivalência monetária. Actas de Vereação de Loulé: Séculos XIV-XV, p. 92. 395
vinho branco (16 reais). E, em 1493-94, novos açoitamentos valeram-lhe 60 e 80 reais (6,06 e 8,08 g), importâncias semelhantes a um almude de vinho tinto (70 reais) ou a um carneiro (50 reais).
Em 1499, surgem algumas quantias curiosas para a vila de Montemor-o-Novo. Assim, a guarda da cadeia por uma noite rendeu a um habitante local 40 reais (40 g), o mesmo valor pago a um negro por levar e trazer a escada à forca. Por sua vez, “a dous negros que
allevantaram o enforquado sasenta reaes”396 (6 g). Por 60 reais se compravam, na dita vila, 1,7 alqueires de farinha, um almude de vinho branco ou duas galinhas.
Finalizamos com a remuneração de serviços de escolta de presos ou dinheiro. Em 1422- 23, na referida vila alentejana, a deslocação de um besteiro a Palmela ou a Coruche, com aqueles fins, era avaliada entre 3 a 6 reais (0,93 a 1,86 g), supõe-se que mediante o nível de risco (por exemplo, a perigosidade ou importância do preso e a quantidade de dinheiro transportada). Tratavam-se, no entanto, de quantias bastante reduzidas como se pode constatar pelo pagamento de cerca de 20 reais atribuído a um enviado do concelho ou do preço de 1,4 reais por canada de vinho.
Tanto em 1437 como em 1442, o transporte de dinheiro por porteiro (de Lamego a Lisboa e de Ponte de Lima a Leiria) conduziu a um pagamento diário de 8 reais: “e em mantimento e
crecentamento do dito porteiro que leuou os dictos dinheiros a dicta cidade de lR dias queallo andou por três uezes a biijº reaes por dia”397; “e mantijmento dAlvaro Gonçallvez
porteiro que levou os ditos dinheiros de vijnte dias que alla [andou e] pos a oyto rreaes por dia”398. Estes 8 reais (2,46 e 2,63 g) constituíam cifras bem mais elevadas do que a anterior, o que pode ser explicado em função dos anos de carestia então ocorridos ou pelo facto de se ter tratado do transporte de dinheiros do rei. Em todo o caso, eram, recorde-se, quantias similares às atribuídas pela vereação de Mós de Moncorvo e pelo mosteiro de Alcobaça aos seus enviados.
Os seguintes pagamentos, relativos à cidade do Porto, espelham essencialmente o mencionado cariz de imutabilidade institucional do mantimento público, o qual não se coadunava com o processo de desvalorização monetária. Com efeito, conhece-se apenas um valor para a remuneração diária atribuída a um besteiro em serviço de escolta em toda a segunda metade do século XV. No entanto, a quebra da moeda originou uma corte real desse valor em mais de 50%, ou seja, desde os 12 reais (2,5 a 2,76 g) de 1450-51 aos 12 reais (1,21 g) de 1493-94. Em todo o caso, 12 reais, que perfizeram ainda a quantia atribuída, em 1450-
396
FONSECA, Montemor-o-Novo no Século XV, p. 171.
397 Documentos das Chancelarias Reais…, I, p. 206. 398
51, por uma noite de guarda de presos em trânsito, constituíram pagamento superior ao efectuado, nos mesmos moldes, em 1422-23, pela vereação montemorense.
Registe-se, por fim, um embolso diminuto de 10 reais (1,01 g) atribuído, em 1491, pela vereação funchalense a um seu porteiro por ter transportado dinheiros à vila vizinha de Câmara de Lobos.