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Interior Doméstico Datas Extremas: 1367-1499;

Representação Geográfica: Alvorge, Lisboa, Loulé, Montemor-o-Novo e Porto.

A vulgar casa medieval não tinha, por regra, um recheio muito diversificado. Algumas peças de mobiliário, alguns têxteis e utensílios de cozinha constituíam o núcleo do que nela se

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Partindo da suposição pouco provável, nomeadamente no que respeita aos trabalhadores agrícolas, de que aqueles conseguiriam poupar metade do seu ganho diário.

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Segundo Iria Gonçalves, “o açor era uma das aves de presa mais apreciadas e a sua constituição física tornava-o particularmente adaptado à caça em terrenos boscosos e de matagal, onde outras aves, especialmente o falcão, com mais dificuldade penetravam”. GONÇALVES, As Finanças…, p. 111.

podia encontrar com maior frequência. O leilão de 1367 regista, novamente, as primeiras informações sobre preços de mobiliário, destacando-se, sem dúvida, o lance de 55 soldos (9,68 g) por uma ucha forrada, quantia equivalente à compra, pela mesma ocasião, de um marrão e três marrãs e que revela bem o grande valor atribuído a uma das peças fundamentais na dita casa medieval, à arca onde se guardavam as principais riquezas da família, fossem elas alimentares, têxteis ou de qualquer outra espécie348. Seguiam-se, com preços de licitação bastante inferiores, um escano, adquirido por 16 soldos (9,68 g); outra ucha forrada, mas pequena, por 12 soldos (7,26 g); uma mesa velha por 10 soldos e 1 dinheiro (6,1 g); uma cadeira por 5,5 soldos (3,33 g); dois leitosa 5 soldos cada (3,03 g); um uchote pequeno com fechadura e chave por 2,5 soldos (1,51 g) e, finalmente, um simples talho de quatro pés, adquirido por uns escassos 1 soldo e 4 dinheiros (0,8 g). Note-se a barateza dos leitos349, os

quais, por exemplo, custavam menos 4 dinheiros do que uma panela com manteiga. Com efeito, estes deviam ser apenas umas tábuas350, não espelhando o verdadeiro valor da peça mais importante de uma casa medieval, a cama.

Em 1453 e 1454, Afonso Loureiro, porteiro da casa dos contos de Ceuta em Lisboa, recebia uma quantia de 220 reais (45,98 g) “pera conpra de hua mesa com seus pees e dous

bancos pera os contos de Cepta”351 e “pera conpra de hua mesa com seus pees pera os ditos

comtos”352, valor bastante mais elevado do que o despendido em 1367 pela referida ucha e que indicia a exigência de bom mobiliário por uma entidade administrativa importante como eram os contos. Sabemos, por outro lado, que nesse início da década de 1450, 220 reais eram suficientes para a compra de cerca de 12 alqueires de trigo ou 2,4 côvados de um pano de média qualidade como era o Bristol. Em 1496, Heitor Garcia, encarregado da realização de pedido régio, despendera 200 reais (20 g) “por hua arqa de pinho que comprou para ter seus

dinheiros e livros e conhecimentos”353, quantia suficiente para aquisição de 6,6 desses livros, 16,6 pergaminhos ou cerca de 14 alqueires de trigo.

Finalmente, em 1499, o procurador de Montemor-o-Novo desembolsou 210 reais (21 g)

“por hua escrevenhina (sic) pera a câmara”354, praticamente o mesmo valor da arca de pinho. Bastante mais baratas foram as aquisições de um banco por 40 reais (4 g) e de 25 reais (2,5 g) “por hua cadeyra pera a camara”355 (relembre-se que uma cadeira tinha custado um

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Segundo Oliveira Marques, a arca “servia para tudo, até de leito. Na arca se guardavam a roupa de casa, as peças de indumentária, os livros, a loiça, os objectos de adorno, etc.”. MARQUES, “A Vida Quotidiana”, p. 472.

349 Um novo, pequeno e de pés e um velho, de torno. 350

COELHO, “O Senhorio Crúzio do Alvorge”, p. 39.

351

Documentos das Chancelarias Reais…, II, p. 689.

352

Documentos das Chancelarias Reais…, II, p. 708.

353

CUNHA, “A compra de fio para as naus…”, p. 525.

354 FONSECA, Montemor-o-Novo no Século XV, p. 173. 355

pouco mais em 1367, mais precisamente 5,5 soldos ou 3,33 g). Uma quantia de 25 reais não chegava para, nesse ano e espaço, se adquirir um alqueire de farinha (35 reais).

Em termos de roupa da casa, o leilão de 1367 aponta os almadraques como o género mais valioso, indo desde 48 a 70 soldos (29,04 a 42,35 g), sendo que o mais caro era um exemplar velho, listado branco e cárdeo, e de pena. Seguiam-se os chumaços, de 19 a 60 soldos (11,5 a 36,3 g), sendo o mais caro de lã de Castela e com pena; os cabeçais, de 20 a 34 soldos (12,4 a 20,57 g), sendo o mais caro de lã de carneiro de Castela; as mantas, de 19 a 35 soldos (11,5 a 21,8 g), sendo a mais cara um exemplar velho preto e branco; as cobertas, de 10 a 20 soldos (6,05 a 12,1 g), sendo a mais cara de burel; as almocelas, de 10 a 15 soldos (6,25 a 9,08 g), sendo a mais cara um exemplar velho e tricolor (cárdeo, branco e vermelho) e os lençóis, de 9 dinheiros a 14 soldos (0,45 a 8,47 g), sendo o mais caro um exemplar velho e roto de lã. Refira-se ainda o lance de 23 soldos (13,92 g) por três mantéis velhos.

“Na cozinha, além do fogão, continham-se os espetos para assar a carne e a utensilagem indispensável: panelas, tachos, cântaros, enfusas, tigelas, alguidares, sertãs, grelhas, etc., de barro ou metal consoante a riqueza da habitação”356. Ocorrem-nos três fontes como as mais privilegiadas para ilustrar o valor de alguns destes e de outros utensílios da cozinha medieval: o leilão de 1367 e dois tabelamentos, um de finais do século XIV, relativo a Évora, e um de 1403, relativo a Loulé, ambos sobre o trabalho dos oleiros.

Dentro do cuidado a ter sempre que consideramos a especificidade de preços nascidos de licitação, temos que o momento trecentista revela a caldeira e o agomil como os objectos mais valiosos. Com efeito, duas caldeiras, uma boa e outra quebrada, conduziram a um lance de 25 soldos (15,13 g) e um agomil convidou ao desembolso de 20,5 soldos. Seguiram-se lances de 15,5 soldos por sertão com sua “rapadoira”; 12,67 soldos por pichel de estanho (bastante mais do que os cerca de 1,5 soldos disponibilizados por um pichel “loar”); 10 soldos por gamela; 9 soldos por gral de pedra (bastante mais caro do que outro gral, cuja menor qualidade levou ao desembolso de apenas 1,16 soldos); cerca de 2,83 por espeto de ferro; 3 e 1,08 soldos por duas colheres de ferro; 2 soldos por tabuleiro; 1,25 soldos por galheta de estanho; 1,16 soldos por panela grande, 1 soldo por funil e 6 dinheiros por salseiro velho, de estanho e sem cobertura. Um lance de 6 soldos por um conjunto de 17 escudelas, a um preço médio por escudela de 0,35 soldos (0,21 g), leva a considerar esse recipiente básico como o utensílio mais barato à altura.

A postura eborense de finais do século XIV, relativa ao trabalho dos oleiros, estipulava as talhas como o objecto mais dispendioso, podendo custar entre 7 a 15 soldos (3,66 a 7,85 g).

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Seguiam-se alguidares (2 a 8 soldos); “vasados” de dois cântaros (4 soldos); cântaros (20 dinheiros a 2 soldos); tijelas (6 dinheiros a 1 soldo); panelas e “paperinhaes” (2 a 20 dinheiros); enfusas de água e outras (3 a 8 dinheiros); testos para panelas e candieiros de barro (6 dinheiros) e púcaras(os) para vinho (3 a 6 dinheiros). As peças de olaria mais baratas eram, por esse tempo, um tipo de panelas não especificado e “paperinhaes” a 2 dinheiros (0,087 g).

O tabelamento algarvio de 1403 estabelece o cântaro de almude como a peça de barro mais cara, importando 3 reais de 3,5 libras (1,05 g). Seguiam-se preços de 2 reais por quarta; 1 real por panela de arrátel, enfusa de quarto de cântaro, “alquadrom”, sertã, tigela grande para cozer pescados ou funil grande; 35 soldos por panela de meio arrátel, tigela meã ou funil pequeno; 20 soldos por panela de quarta; 10 soldos por púcaros e púcaras para beber água; 8 soldos por alguidar de dois alqueires e, finalmente, apenas 6 soldos por alguidar de alqueire e meio (0,03 g).

Gostaríamos de finalizar este pequeno apontamento com uma das informações mais curiosas no conjunto de todo o leque de valores monetários reunidos, informação extraída de acta de vereação portuense de 22 de Março de 1449 e pela qual se regista que à “dicta

Rollaçam Veeo Joham martinz da Rua noua e disse que elle fora rendeiro da sissa dos panos e que perdera em ella canto tjnha e que lhe nom ficaua saluo huma cama e alfayas de cassa que valiam tres mjl rreaes”357. Ora, através desta passagem fica-se a conhecer o valor aproximado do recheio de uma casa portuense de meados do século XV, ou seja, 3000 reais (690 g), valor equivalente a 600 alqueires de milho ou a 4285 arráteis de carne de vaca ou ainda a cerca de 37 dúzias de pescadas.

2.11. Escravos