3.2. Clérigos e “Profissionais Liberais”
3.3.9. Forneira e Padeira
Datas Extremas: 1392-1499;
Representação Geográfica: Alcochete e Aldeia Galega, Évora, Funchal, Montemor-o-Novo e Porto.
Inicie-se este ponto pelos registos disponíveis acerca do ganho de uma forneira de pão. Em 1392, na cidade de Évora, as posturas locais recordavam como “ao corregedor e homeens
bons foy dito como he verdade que senpre as forneiras levam do pam que cosiam em seus fornos ou alheos de poya de vinte paães hum e que ora levavam mais, e punham outros costumes, mandarom que nom seja nenhum ousado que forno tever ou forneira for que leve de poya mais que de vinte paães hum como senpre foy”488.
Em 1421-22, descobre-se uma postura para os lugares de Alcochete e Aldeia Galega, segundo a qual se estipulava “que nenhumas forneiras não levem de poias mais que, de 15
pães atá 25 pães, um pão, e de trinta atá quarenta cinco pães, dous pães, e de cinquenta atá 60 pães, três pães”489.
Em 1457, na cidade de Lisboa, expunha-se a posição do governo concelhio nos seguintes termos: “E comsirando os tempos em que o pam e lenha e outras coussas ssom as vezes majs
e menos caras e elles (forneiros) mays e menos gançom e ssegumdo em esto huua bõoa e jguall temperança nam a todo rrigor dalguuas pusturas antigas nem toda largueza do que
486
Livro das Posturas Antigas, p. 154.
487 Em 1443, era a vez dos oficiais da vereação alentejana de Montemor-o-Novo terem o cuidado de não permitir que
ferraduras de qualidade inferior fossem vendidas pelo mesmo preço da melhor ferragem. Nesse sentido, “ordenarom e
mandarom que quando os ferradores trouverem ferrajem de Lixboa ou d’Evora ou doutras alguas partes que nom seja tam boa como aquella que he ordenado de se fazer per os ferreiros da dicta villa nam sejam oussados de a ferrar ataa a mostrar ao dicto veador pera alvidrar a que preço a devem dar”. FONSECA, Montemor-o-Novo no Século XV, p. 98.
488 Documentos Históricos…, I, p. 183. 489
elles querem leuar e levam como nam deuem dando lhes ganço rrezoado e ao pouoo conportauell mandom que daquy em dyamte todos os que fornos e fornalhas teuerem nam leuem mays de poya que de doze pãaes huu Jhuall dos outros e asy dhy pera çima e pera fundo .s. se de doze paaes hy nam ouuer e ouuer sseys leuem a metade do dinheiro que huu pom valler ou lhe faça o que cozer mayor pom que lhe aJa de dar e asy que onde comto çerto nam ouuer que lhe dem pom e onde nom ouuer que sse jgualle a dinheiro nam leuando mays que a rrespeito de doze huu”490.
Em 1495, nova postura lisboeta mantém inalteráveis as condições de 1457, as quais, sim, devem ter sido alvo de reformulação em inícios do século XVI, embora a postura lisboeta que ordena o pagamento de um pão por cada fornada de quinze não se encontre datada.
Estas verbas permitem perceber ou um claro aumento do ganho das forneiras em meados do século XV ou uma melhor remuneração das forneiras lisboetas ou ambos os cenários. É possível, todavia, que a primeira hipótese ganhe maior prevalência, isto se atendermos à expressão segundo a qual o poder municipal lisboeta caracterizava as ordenações passadas como excessivamente rigorosas (enquadrando-se, porventura nesse plano, as posturas eborense e alcochetense). Permitem, por sua vez, vislumbrar uma grande estabilidade ao longo da segunda metade do século XV, pelo menos na cidade de Lisboa. Finalmente, sublinhe-se o conceito de pagamento em géneros (a “poia”) neste mester, adoptando-se o numerário apenas em último caso. Passível de ser estipulada apenas devido às características deste serviço, esta modalidade visava a estabilização do seu pagamento, enquadrada num equilíbrio entre produtor e consumidor.
Quadro XIX:EVOLUÇÃO DAS “POIAS” ATRIBUÍDAS ÀS FORNEIRAS (1392 - Inícios do séc. XVI?)
Data Local Quantidade “Poia”
1392 Évora 20 pães 1 pão 15 a 25 pães 1 pão 30 a 45 pães 2 pães 1421-22 Aldeia Galega Alcochete e
50 a 60 pães 3 pães 6 pães dinheiro de 1 pão metade do 12 pães 1 pão 1457 Lisboa
24 pães 2 pães 1495 Lisboa 12 pães 1 pão
490
Inícios do séc.
XVI (?) Lisboa 15 pães 1 pão
À semelhança do que a vereação eborense estipulara para as forneiras em 1392, também às padeiras era imposto um ganho na proporção de 1/20, com a diferença de este ser vencido em numerário (“toda vendedeira que vender pam cosido leve de vinte rs. hum, segundo
sempre foi de costume”491). Reconheça-se, igualmente, nova nota de permanência e estabilidade na regulamentação dos salários por parte dos poderes concelhios, a qual, no entanto, não se coadunava com o processo de desvalorização monetária e conduziu, muito possivelmente, a uma perda real no ganho das padeiras. Para se obter uma ordem de grandeza, refira-se que, neste mesmo ano e cidade, um real era a quantia paga a um acarretador de pão por transporte de cada oito a dez alqueires e 1/16 era a proporção da maquia atribuída a um moleiro. No mesmo ano, mas na cidade do Porto, o encarregado do relógio auferia 25 reais mensais.
Em 1414, nesta cidade do Porto, a vereação local tabelava o preço do pão e, com um cunho de grande raridade, o correspondente ganho das padeiras: “E acharam que deuyam de
dar o pam de quatrro onças E seer de xb soldos quando o trigo valer noue Reais asy como ora vall E acharom que per esta guisa gançauom doze Reais a teiga pagados todos custos E poor quanto lhes tinham tomados os penhores por que nom queriam fazer o pam de xb soldos acordarom que lhes fosem entregues sem coymhas”492. Assim, sabendo que o lucro apontado por alqueire493 era de 420 soldos (2,1 g) e que os gastos andariam em redor dos 800 soldos (630 soldos pelo trigo, 157,5 soldos pela moagem494 e mais alguns gastos menores495) chega- se à conclusão que uma padeira tinha de vender uma quantia, em pão, nunca inferior a 1220 soldos por alqueire, ou seja, cerca de 81 pães com a dita medida, para obter a referida margem de lucro. Por sua vez, para uma padeira arrecadar um vencimento mensal na ordem do que auferia, na mesma cidade e período, um bom carpinteiro de casas ou um bom pedreiro (250 reais), tinha de conseguir vender cerca de 3375 pães alvos de quatro onças (169 pães por dia).
Em 1486, os oficiais da vereação funchalense “acordarom que os almotaces mandem
moer des alqueires de trigo e o mandem amassar e o pessem e tirados os custos que dem de ganho a cada padeyra de cada hu alqueire qujnze rrs.”496. Este testemunho permite perceber uma quebra de 27,6% no ganho das padeiras face a 1414, manifestada entre 15 reais brancos 491 Documentos Históricos…, I, p. 184. 492 “Vereaçoens”. Anos de 1401-1449, p. 174. 493
Um alqueire equivalia, por esta altura, a meia teiga na cidade do Porto. Cf. “Vereaçoens”. Anos de 1401-1449, p. 143.
494
Estimando em 25% o preço da farinha sobre o cereal. Veja-se o título 3.3.4. relativo aos moleiros.
495 Como, por exemplo, a medição e o transporte da farinha. 496
de 1486 (1,52 g) e 420 soldos de 1414 (2,1 g), constituindo novo exemplo da tendência geral de quebra dos salários que temos vindo a apontar.
Uma última nota para apontar o pagamento de 10 reais (10 g), registado em Montemor-o- Novo, no ano de 1499, a uma padeira “por amasar ho pam pera o peso”497 desconhecendo- se, todavia, a quantidade de farinha em causa.
3.3.10. Pedreiro
Datas Extremas: 1340-1499;
Representação Geográfica: Alcobaça, Évora, Funchal, Lisboa, Loulé e Porto.
Em 1340-41, um mestre e um servente às ordens do cabido da Sé de Évora receberiam, em regime de jornal “sem governo”, entre 140 a 150 soldos (86,1 a 92,3 g) e entre 40 a 80 soldos (24,6 a 49,2 g), respectivamente. Neste mesmo contexto, o salário de um comum trabalhador agrícola rondaria apenas os 60 soldos (36,9 g), ou seja, o mesmo de um servente de pedraria.
Pelos finais da década de 1370 ou inícios da década seguinte, registava-se uma clara subida no salário deste mester, o que se encontra perfeitamente de acordo com a tese vigente de subida salarial pós Peste Negra. Com efeito, um mestre pedreiro recebia agora 200 soldos (104,6 g) e um sargente 80 soldos (41,84 g). Embora o numerário já evidencie um leve incremento monetário, a grande diferença deste tabelamento face a 1340-41 prende-se com o facto de se introduzir o complemento alimentar. Se calcularmos este em 1/4 do salário (realidade louletana de 1403), chegamos aos seguintes valores: 250 (130,75 g) e 100 soldos (52,3 g), os quais podem indiciar um aumento talvez a rondar a casa dos 40%. Noutra perspectiva, percebe-se que a diferença de vencimento estipulada entre um mestre e um servente não diferiu muito face a 1340-41, estabelecendo-se em 150%.
Em 1403, a vereação louletana tabelava o ganho dos melhores mestres de cada mester em 400 reais “sem governo” (140 g) ou 300 reais (105 g) “com governo” e dos “aprentises e aos
outros da condiçom destes”498 em 320 reais (112 g) “sem governo” e 240 reais (84 g) “com governo”. Tratam-se de valores ligeiramente superiores aos de 1380, o que pode não reflectir necessariamente um aumento salarial, mas tão-somente uma realidade regional díspar. Por outro lado, entre o mestre e aprendiz algarvios verificava-se uma separação salarial de 25%, o
497 FONSECA, Montemor-o-Novo no Século XV, p. 171. 498
que se entende se percebermos que o conceito de aprendiz parece ser aqui adoptado no sentido de um oficial auxiliar.
Descobre-se novo tabelamento para o ano de 1413 e para a cidade do Porto, pelo qual se atribuíam 200 reais (70 g) ao melhor pedreiro e 160 reais (54,4 g) “ao nom tall”. Estes valores, “com sseu mantymento” 499, revelam uma clara descida face a 1380 e 1403. Calculando novamente a alimentação em 1/4 do salário, verificar-se-iam os seguintes rendimentos secos: 250 (87,5 g) e 200 reais (70 g), o que confirma o movimento descendente, pelo menos à luz da realidade portuense, ainda que tudo indique ter-se tratado de um movimento geral. De salientar que a diferenciação salarial estabelecida entre o melhor e um mestre regular era a mesma do que a ocorrida dez anos antes na vila de Loulé, ou seja, 25%.
Em 1420, era a vez da vila de Arraiolos tabelar os ganhos dos seus pedreiros, desta feita em 240 e 300 reais (74,4 e 93 g) com alimentação. Sem “governo”, estes salários rondariam 300 e 375 reais (93 e 116,25 g). Salienta-se aqui a já referida diferenciação introduzida por motivos climáticos, sendo o trabalho realizado na época estival melhor remunerado em 25%. Em termos evolutivos, confirma-se a quebra salarial face aos finais do século XIV e inícios do século seguinte, mas também a ideia de uma maior remuneração no Alentejo do que na cidade do Porto, o que, verificar-se, parece estar de acordo com uma realidade mais gravosa em termos de custo de vida. Esta última interpretação saí reforçada com um pagamento, decorridos dois anos, de 15 reais secos na vila alentejana de Montemor-o-Novo, ou seja, os mesmos 300 reais mensais (93 g).
Em 1437-38, um mestre pedreiro recebia, em Alcobaça, cerca de 480 reais (147,36 g) secos. O facto de se tratar do maior vencimento registado não deixa quaisquer dúvidas acerca de uma inversão do movimento descendente, o que, aliás, fica comprovado com um registo afecto à região norte, mais precisamente à cidade do Porto de 1443, altura em que se identificam vencimentos secos de 400 reais (131,6 g) para um mestre encarregado de obra e de 360 reais (118,44 g) para um mestre auxiliar. Face ao tabelamento de 1413, referente à mesma cidade, ocorrera uma subida de cerca de 50%.
Em 1450-51, um pedreiro contratado pela vereação portuense auferia 400 reais (83,6 a 92 g) e um servente 300 reais (62,7 a 69 g), ou seja, menos 25%. Já em 1461-62, um mestre recebia 560 reais (85,68 g). Supondo que estes salários seriam, igualmente, secos, registara-se nova descida dos salários na primeira década da segunda metade do século XV.
Em 1471, Costa Lobo aponta um vencimento anual de 1050 reais e dois moios de trigo para um pedreiro da câmara de Lisboa, o que, segundo os nossos cálculos, produziria um
499
ganho mensal de cerca de 247,5 reais (37,62 g). À semelhança do que foi dito para o mestre carpinteiro, a escassez deste mantimento face aos verificados na cidade do Porto não pode ter como única explicação a durabilidade do contrato, pelo que é provável que o pedreiro lisboeta conjugasse o serviço na edilidade, por certo honroso, com outros trabalhos.
Em novos dados relativos a pedreiros contratados pela câmara do Porto, vemos que estes receberiam mensalmente as seguintes quantias: 700 reais (84,7 g) em 1474-75 e 1000 reais (101 g) em 1491-94. Um servente, em 1491-92, arrecadava 800 reais (80,8 g) ou menos 20%. Se a década de setenta parece não trazer grandes alterações, o mesmo não se afirma relativamente à última década de Quatrocentos, registando-se nova subida. Esta ideia saí reforçada com os registos de 1400 reais (141,4 g) para um mestre e 800 reais (80,8 g) para um servente (menos 800%), salários relativos à construção da cerca funchalense em 1493. Pode- se também supor uma realidade salarial funchalense mais elevada, o que novamente se compreende tendo em conta o maior custo de vida aí registado.
O mesmo se induz para a cidade de Lisboa. Em 1499, no único tabelamento conhecido para essa cidade, estabelecem-se vencimentos de 1200 reais (120 g) para mestre encarregado de obra, 1000 reais (100 g) para mestres auxiliares e quando “forem chamados pera fazerem
allguuas cousas pequenas asi como em corregijmemto dallguas cousas de cassas honde abasta huu soo ofiçiall com seus moços” 500 e 700 reais (70 g) para braceiros. Estes vencimentos eram “secos”, já que “damdo lhes de comer lhes sera descontado”501 400 reais no caso dos mestres e 300 reais no caso dos braceiros. Caso os últimos valores portuenses tenham sido relativos a mantimentos secos, o que parece provável, chega-se à conclusão de que os salários de pedreiros eram mais elevados na cidade de Lisboa um mínimo de 25%, isto no cenário de não ter ocorrido subida geral dos salários. Refira-se que a alimentação vê o seu peso aumentar, face ao registo algarvio de 1403, para 1/3 do cômputo geral do salário de um mestre. Em termos de diferenciação salarial, estabelecia-se uma separação de 20% entre o salário de um mestre encarregado de obra e de um mestre auxiliar, a qual “he por o trabalho e
cuydado que leua em ella aalem dos outros que com elle andam”502. Entre um mestre oficial e um braceiro a diferença situava-se nos 42,9%.
Sintetizando os dados obtidos numa perspectiva evolutiva cremos ter ocorrido: clara subida entre 1340 e 1380; estabilização entre 1380 e 1403; descida entre 1403 e 1430, subida
500
Como vimos, o salário dos aprendizes seria arbitrado por dois oficiais.
501 Livro das Posturas Antigas, p. 230. 502