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4.1. Atividades desenvolvidas na escola B e seus desdobramentos

4.1.3. Aula de campo no Centro Histórico de Vitória

Esta atividade foi realizada no dia 31 de julho de 2015, no horário de 7 às 12h, em parceria com a Prefeitura Municipal, por meio de o Projeto Visitar, e foi organizada pela professora de Arte, pela pedagoga e por mim, com o suporte financeiro da direção da escola para aluguel do ônibus e solicitação de auxílio da Guarda Municipal. A professora de Arte, seu estagiário, o professor de Química e eu acompanhamos os estudantes. O objetivo foi proporcionar aos estudantes contato com alguns dos monumentos históricos do estado, através da experiência concreta de centenas de anos, além da noção dos seus processos de restauração.

Entre os diversos monumentos localizados no Centro Histórico de Vitória, apenas 7 estão inseridos no Projeto Visitar, que prepara monitores para receber turistas e estudantes, no horário de 9 às 17h. Para os demais pontos de interesse turístico e cultural, as visitas devem ser agendadas, como é o caso do Palácio Anchieta, atual sede do governo. Um mapa da região é distribuído aos visitantes para guiá-los no Centro de Vitória, pois o percurso de um monumento a outro é feito a pé. No nosso caso, solicitamos auxílio da Guarda Municipal para acompanhar os estudantes.

O nosso roteiro, representado na Figura 3, incluiu a visita a igrejas e conventos, além do Theatro Carlos Gomes e do Palácio Anchieta, atual sede do

governo. De acordo com o mapa, da direita para a esquerda, de acordo com os números circulados em preto, os monumentos visitados foram: (44) a Igreja do Rosário; (41) o Theatro Carlos Gomes; (30) o Convento do Carmo; (20 e 21) o Convento de São Francisco e a Capela Nossa Senhora das Neves; (28) a Capela de Santa Luzia; (31) a Catedral Metropolitana; e (12) o Palácio Anchieta. A Catedral Metropolitana fazia parte do roteiro, mas não foi visitada, pois estava fechada para restauração.

Figura 3. Mapa da região do Centro Histórico de Vitória dos monumentos visitados na aula de campo. Fonte: Adaptado de Instituto Goia28.

Conforme a programação, iniciaríamos a aula de campo na Igreja do Rosário, porém quando chegamos ao seu local, às 9h, estava fechada e não havia monitor. Esperamos cerca de meia hora, mas o monitor não chegou e decidimos seguir para o Teatro Carlos Gomes, de onde passamos a seguir o roteiro.

Nos diferentes espaços foram vários os conhecimentos discutidos na interação dos estudantes com os espaços: sobre alguns estilos arquitetônicos, como colonial, barroco, gótico, eclético, estilo jesuíta de linhas retas; alguns materiais utilizados nas construções dos monumentos, tais como pedra, cal de ostra, telhas de barro, madeira com pintura de ouro; sobre o fenômeno religioso; distinção de classes sociais, etc. Por exemplo, em 2008 durante uma reforma na Capela Nossa Senhora das Neves, localizada nos terrenos do Convento de São

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Francisco, construída no século XIX e utilizada como capela mortuária até 1908, foram encontradas ossadas humanas em nichos localizados na sua parede do altar (Figura 4), que hoje estão protegidos por vidro e aguardam análises arqueológicas (VALENTINA, 2014). Em nossa visita, os estudantes ficaram intrigados com este “depósito” de ossos nas paredes e observaram os materiais que foram utilizados na construção da capela.

Figura 4. Parede do altar da Capela de Nossa Senhora das Neves. Fonte: Acervo da pesquisadora.

Além disso, ao apreciar os monumentos os estudantes conheceram mais sobre a resistência indígena e negra no estado, os traçados indígenas, africanos e portugueses. A primeira pergunta dos estudantes no início da aula de campo foi sobre os estilos arquitetônicos dos monumentos e a professora de Arte explicou que na atualidade dificilmente se encontra um monumento com o seu estilo arquitetônico original, devido reformas e remodelagens a que foram submetidos.

Na Capela Santa Luzia (Figura 5) os estudantes conheceram uma janela de prospecção (Figura 6) que, no processo de preservação e restauração de edifícios históricos, é um trecho das paredes, normalmente em formato retangular, selecionado para avaliar, através da cuidadosa extração da camada exposta, as características e condições das camadas de pintura mais antigas e permitir a visualização de suas configurações originais ou anteriores à pintura aplicada mais recentemente.

Figura 5. Aula de campo no Centro Histórico de Vitória- Capela de Santa Luzia. Fonte: Acervo da pesquisadora

Figura 6. Exemplo de janela de prospecção. Fonte: Acervo da pesquisadora.

Esta aula de campo também permitiu discutir os efeitos da modernidade, responsáveis por grandes transformações urbanas, transformando a paisagem, desvalorizando os bens culturais ao modificá-los ou demoli-los para iniciar novas construções. No caso do Convento de São Francisco, por exemplo, a fachada da Igreja Conventual foi a única parte original que restou do conjunto, tombado como patrimônio cultural em 1984.

Além disso, o contato que se estabeleceu entre estudantes e patrimônio histórico‐religioso permitiu o reconhecimento por parte do estudante da rica

contribuição histórica, ontológica e antropológica por parte da religião. Isto se deu em relação ao costume de sepultar os principais religiosos da ordem no interior dos conventos ou no altar das igrejas e na oportunidade dos estudantes estabelecerem um contato direto com o fenômeno religioso na sua materialização espacial, por meio da ocupação do solo, das construções e objetos sagrados. Segundo Costa (2010, p. 15),

A religião pode ser percebida em sua configuração, função, processo e estrutura, como produtora de indicadores de identificação e da organização de forma especial do espaço geográfico (ROMERO JACOB et al, 2003; ROSENDAHL, 1996 apud COSTA, 2010, p.15).

E,

O Brasil por ter a religião católica implantada desde os primórdios da conquista pelos portugueses e continuamente pelas ordens religiosas, e pela ação dos colonos é um país repleto de manifestações culturais provenientes do fenômeno da religiosidade que é de elementar importância para as expressões e reprodução dos espaços geográficos brasileiros, pois cada região, cada cidade, cada vilarejo, apresentam características de formação e transformação baseada nos termos religiosos (ROMERO JACOB et al, 2003; ROSENDAHL, 1996 apud COSTA, 2010, p.14).

Quando analisamos a região dos monumentos, percebemos que a ocupação da cidade deu-se a partir dos mesmos. Isso poderia ser mais bem explorado pelo conteúdo de “filosofia da religião” na disciplina de filosofia e dentro da disciplina de Geografia e História sobre a ocupação do solo brasileiro e capixaba, de acordo com a proposta curricular do estado (ESPÍRITO SANTO, 2009).

A aula de campo finalizou no Palácio Anchieta, atual sede do governo, onde foi apresentado aos estudantes um resumo da sua história e processo de restauração, que manteve algumas de suas partes originais em evidência no prédio. Além disso, os estudantes visitaram uma exposição sobre o corpo humano.

A aula de campo foi muito importante para professores e estudantes, pois ambos não conheciam ou conheciam pouco do Centro de Vitória, e/ou não tinham feito o percurso entre os sete monumentos inclusos no roteiro do Projeto Visitar. Nas nossas condições da aula de campo havia somente professores de Química e Arte e percebemos a necessidade da participação de professores de outras áreas como Geografia e História para enriquecê-la quanto aos conhecimentos e observações oportunizados, o que foi em parte resolvido com a presença dos

monitores do Projeto Visitar, que possibilitaram a realização da atividade. Estes atuaram como mediadores do conhecimento a partir da perspectiva de que

[...] o conhecimento e o entendimento, inclusive o entendimento científico, são construídos quando os indivíduos se engajam socialmente em conversações e atividades sobre problemas e tarefas comuns. Conferir significado é, portanto, um processo dialógico que envolve pessoas em conversação e a aprendizagem é vista como o processo pelo qual os indivíduos são introduzidos em uma cultura por seus membros mais experientes. À medida que isso acontece, eles ‘apropriam-se’ das ferramentas culturais por meio de seu envolvimento nas atividades dessa cultura (DRIVER et al, 1999, p.34 ).

O educador deve buscar que os estudantes aprendam em interação com o outro, e não apenas recebam o conhecimento passivamente. De acordo com Bruner (1985 apud DRIVER et al, 1999)

Não existe nenhuma maneira, nenhuma mesmo, através da qual o ser humano poderia ter domínio desse mundo sem a ajuda e a assistência de outras pessoas, pois, na verdade, esse mundo são os outros (BRUNER, 1985, p.32 apud DRIVER et al, 1999, p.34).

Outro ponto importante desta atividade foi o fato de que as nossas condições da aula de campo contribuíram para que professores e estudantes ficassem na posição de aprendizes. Ademais, os professores dialogaram e discutiram sobre vários temas sem que a especialização de cada área predominasse. O professor de Arte discutiu sobre estilos arquitetônicos; os professores de Química sobre processos de restauração; mas ambos também discutiram e refletiram sobre a história do estado, sobre as mudanças advindas da modernidade etc. Conforme Rosa (2007, p. 59), nesta atividade ocorreu um

processo de descentramento, em que cada professor (a) se desdobrou no outro também, enfrentando “o estilhaçamento de sua identidade acadêmica docente e passou a transitar por campos de desestabilização” com a fragmentação de sua própria forma disciplinar de existir na escola.

Neste ponto é importante ressaltar que o trabalho de campo possibilita

[...] enfrentar a dominante fragmentação do conhecimento, que bloqueia os mecanismos de análise de problemas reais ao não facilitar a relação de conceitos, procedimentos e de atitudes, trabalhados em diferentes disciplinas do currículo. Por meio das atividades de campo, a categoria geocientífica “lugar” é entendida como o locus de ligação com o todo, uma interação sutil da particularidade e da generalização. Assim, é possível sair do paradigma da causalidade tão enraizado no ensino de ciências e praticar

um ensino mais contextualizado, situar espaço-temporalmente os fenômenos, ou seja: levar em conta o aspecto histórico dos fenômenos e, ao fazer isso, compreender a complexidade do contexto e causalidade de um fenômeno (COMPIANI, 2007, p.32).

Além disso, a atividade permitiu uma crítica ao espaço da sala de aula e o rompimento com a monotonia e a posse exclusiva do discurso pelo professor.

No campo, no afloramento, naquela “bagunça saudável”, a geografia da ordem, das quatro paredes, cai por terra. As atividades de campo, numa concepção formativa, exacerbam a semelhança entre fazer e aprender ciência, não existindo quem ensina (transmite a verdade), mas, sim, os que aprendem fazendo uma ciência escolar. A propriedade do discurso por parte do professor na sala de aula tradicional é visivelmente quebrada, já que não existem o “palco” e a lousa. No campo, tudo pode prender a atenção do aluno, ser fonte de informações, de problemas e dados a serem trabalhados (COMPIANI, 2007, p. 36).

De acordo com Carvalho e Machado (2015),

[...] a aula de campo possibilita que o professor trabalhe nesses espaços com atividades que valorizam, e problematizam, temas da atualidade, quase impossíveis de virem à tona dentro da sala de aula, caso de uma igreja ou um manguezal, por exemplo, os quais se constituem em ambientes culturalmente construídos, dotados de múltiplas potencialidades temáticas (CARVALHO e MACHADO, 2015, p. 163).

Partindo do pressuposto de que a educação patrimonial pode ocorrer em diversos contextos educacionais e espaciais,

[...] uma aula de campo pode colaborar para a formação do ser humano cidadão, visto que, pautado em pressupostos histórico-culturais, em contato com o meio, com a historicidade, de forma interativa, sob intervenção do professor, o trabalho em campo pode desenvolver nele um olhar crítico sobre a realidade e relacionar o conhecimento científico com seu cotidiano (CARVALHO e MACHADO, 2015, p. 164).

Após a realização desta aula de campo, estudantes e professores compartilharam suas impressões, observações e descobertas em sala de aula e estas serviram de base para discussões nas atividades seguintes.