DIALÉTICA, IDEOLOGIA E DISPUTA HEGEMÔNICA
1.7 BLOCO HISTÓRICO, HEGEMONIA E CONTRA-HEGEMONIA
O conceito gramsciano de bloco histórico também é de importância proeminente para a nossa pesquisa. Enquanto um conceito analítico, não se confunde com a ideia de
alianças eleitorais ou de uma coligação para a ocupação de espaços de poder. Refere-se a uma questão teórica central do marxismo: a relação entre estrutura e superestrutura, entre teoria e prática, entre forças materiais e ideologia.
Gramsci, mais uma vez, continua seu embate contra as formas de se conceber a realidade social e política originadas de quaisquer visões deterministas e mecanicistas, principalmente aquelas situadas no interior do marxismo. Para ele, não existe uma estrutura que mova de modo unilateral o mundo superestrutural das ideias, não há uma simples conexão de causa e efeito, mas um conjunto de relações e reações recíprocas, que devem ser estudadas em seu concreto desenvolvimento histórico21.
Na concretude histórica, haverá convergência concreta entre os dois níveis, que se resolvem, ou seja, se desenvolvem praticamente e se pode conceber teoricamente, em uma “unidade real”.
Isto acarreta na dificuldade atual de se estabelecer concretamente quais os limites propriamente ditos de ambos os conceitos, por exemplo no caso dos grandes meios de comunicação de massa, que estão a um só tempo, na infra-estrutura e na superestrutura das nossas sociedades.
Infra-estrutura e superestrutura, entendidas em si mesmas de forma separada e estanque, perdem potência política, pois tendem a se relacionar de modo determinista e mecanicista, perdendo contato com o desenvolvimento real das forças produtivas, por um lado e, por outro lado, tendendo a vislumbrar o desenvolvimento da política e da cultura somente idealista.
Podemos dizer ainda que: mesmo sendo objetivamente identificável, trata-se de um movimento no interior da história, não de uma realidade externa à história e situada abaixo dela. Por isso, a política deve levar em conta as tendências de desenvolvimento da estrutura, mas isso não significa que todas elas devam necessariamente se realizar. Ou, por outro lado, de que todas as tendências que se realizam se originam exclusivamente na infra-estrutura.
Ao analista, científico e militante, trata-se, ao contrário, de captar as diversas possibilidades inscritas no decurso do movimento histórico, assim como suas contradições e limites. Existe, ao contrário, uma “reciprocidade necessária” entre estruturas e superestruturas, uma “reciprocidade que é precisamente o processo dialético real”.
Os conceitos de infra-estrutura e superestrutura compreendidas como formas de manifestação e movimento do todo social que se informam dialeticamente constituindo o bloco histórico das classes dominantes, em contradição com as alternativas contra- hegemônicas presentes em uma dada sociedade, contribuem decisivamente na contemporaneidade para a manutenção da eficácia analítica do paradigma marxista22.
Feita a contextualização desta reciprocidade, podemos afirmar que a organização objetiva da divisão social do trabalho da sociedade de classes em nossa formação histórica capitalista, configura o cenário básico no interior do qual os blocos de classe, segmentos sociais e seus instrumentos políticos e ideológicos, se constituem e formam suas alianças e rivalidades, de modo a conformarem objetivos comuns visando a conquista e o controle dos espaços de poder político.
Cada agremiação com objetivos explicitamente políticos, seja na forma de um partido, ou associação política das mais variadas características, possuem relações orgânicas – conscientes ou não – com uma ou algumas das classes e/ou segmentos de classe organizadas em pontos específicos da infra-estrutura desta sociedade e, através de suas práticas – principalmente as discursivas – tenta angariar sempre um número maior de apoiadores.
Para além das inúmeras especificidades das suas narrativas políticas e ideológicas, cada uma destas agremiações políticas se posicionam e se apropriam livremente das pautas políticas e agendas derivadas do modo de produção predominante, se organizando em torno de programas e propostas que ao longo da história dessa sociedade vieram se consolidando e se legitimando como alternativas viáveis de posicionamento político.
Seguimos a macro-análise de Mészáros, citada à página 25, que identifica três principais matrizes estratégicas de modo a perpetuar esta formação social, modificá-la ou a transformá-la revolucionariamente.
O que não significa que a pauta associada diretamente ao modo de produção seja a única digna de atenção, ou que a sua identificação matricial resolva as diferenças entre as diversas formas de agremiações políticas, uma vez que a multiplicidade de aspectos da vida social sempre pode ser reatualizada enquanto interesses e aspirações politicamente autônomas e divergentes.
22 O que equivale dizer que a contribuição gramsciana vem sendo fundamental para a permanência da
viabilidade teórica da tradição marxista de pensamento no campo das ciências humanas, uma vez que, em última instância é a eficácia interpretativa um elemento vital para a sobrevida dos paradigmas teóricos complexos.
Entretanto, por mais autonomia que o espaço da política tenha em relação ao espaço da infra-estrutura, este será sempre um dos pilares fundamentais através dos quais se moverão os atores políticos e sociais, e em função dos quais se conformarão alianças e antagonismos, principalmente em momentos de crise. Em outras palavras, as novas questões e pautas que surgem no universo da luta política, mais dia, menos dia, são chamadas e se posicionar frente às formas objetivas de produção e reprodução da vida, oriundas da organização social do trabalho.
Em função de sua aceitação, se conformarão os blocos sociais dominantes na sociedade. Ao passo que, no campo de expectativas de reforma ou substituição daquela configuração de forças entre as classes, estarão aqueles que se organizarão com a perspectiva de lhe fazer frente e construir uma outra forma de organização política e social.
Quanto à organização e funcionamento do Estado, apesar da importância dos espaços de poder e, principalmente, dos meios de se garantir coercitivamente a obediência social em sua máxima expressão, nenhum grupo social em nenhuma formação histórica dotada de consistência e de futuro pode prescindir de uma expressão intelectual e moral, de um cimento de ideias e de valores.
Para Gramsci, o terreno privilegiado para a construção da hegemonia das classes dominantes, assim como da contra-hegemonia das classes subordinadas, nas sociedades modernas de perfil ocidentalizado, é o terreno da sociedade civil enquanto uma terceira esfera, que se diferencia tanto do universo do mundo da produção de mercadorias, quanto da esfera do Estado e seus mecanismos de coerção política, jurídica e militar.
Assim como se dá com outros conceitos do pensamento gramsciano, o conceito de sociedade civil possui uma forte dimensão histórica e se articula dialeticamente com as outras duas esferas, como pode ser notado em relação ao Parlamento, que é caracterizado ao mesmo tempo como espaço aberto à sociedade civil, estando, porém situado nos marcos da organização legal do aparato estatal.
A hegemonia assume uma conotação de direção política e ideológica, moral e cultural, que se soma ao controle das funções de domínio político, ou seja de coerção propriamente dita. Nessa medida, hegemonia não é homogeneidade, muito menos exclusividade de um ator social, ou bloco de atores, na arena política e sim o exercício concreto e cotidiano, de modo multidimensional, da prevalência de interesses, valores e visão de mundo de um conjunto social dominante, sobre os restantes conjuntos, subordinados ativa ou passivamente.
[...] uma combinação de liderança (ou direção moral, política e intelectual) com dominação que é exercida através do consentimento e da força, da imposição e da concessão, de e entre classes e blocos de classes e frações de classe. [...] pode se dar de forma ativa, como vontade coletiva, ou se manifestar de forma passiva, através de um apoio disperso ao grupo dirigente/dominante (ALMEIDA, 2003, p. 28).
Pensar o exercício da política, e a própria viabilidade de uma organização social complexa e dividida em classes, sem o exercício frequente de algum espaço significativo de direção e consenso, é o mesmo que imaginar que um monarca poderia exercer eternamente o seu reinado somente recorrendo a natureza da besta, seja na força do leão ou na astúcia da raposa23; em outras palavras, seria imaginar uma situação sem
paralelo na história, pois mesmo os regimes mais violentos e autoritários de que se teve notícia, de alguma forma, em alguma medida, mesmo que religiosa, mítica, simbólica ou cultural, possuíam áreas, ou temas, arregimentadores de consenso.
Podemos portanto afirmar:
[...] o que uma hegemonia estabelece é um complexo sistema de relações e de mediações, ou seja, uma completa capacidade de direção através de um conjunto de atividades políticas, econômicas, culturais, simbólicas e ideológicas que organizam, operam e viabilizam o consenso24.
A perda da hegemonia cultural, ideológica ou moral, de uma classe ou bloco de poder, fazendo com que esses deixem de ser dirigentes e passem a exercer somente uma dominação está destinada à instalação de uma crise, que pode levar à decadência e ao colapso do poder desta classe ou bloco, ou à sua substituição por outra fórmula de dominação.
A possibilidade de perda de hegemonia parte da compreensão de que esta não é absoluta, mas como todas as formas de consciência, é relacional, portanto passível de predominar ou ser suplantada por um outro conjunto de valores, símbolos e ideias oriundos das classes outrora subordinadas; pressupõe a existência de forças e construções ideológicas contra-hegemônicas.
23 “Ensinaram isso aos príncipes, em segredo, os antigos cronistas, que relatam o que se passou com
Aquiles e com outros príncipes da Antiguidade, entregues aos cuidados do centauro Quíron, que os educou. É que isso (ter um preceptor metade animal, metade homem) significa que o príncipe sabe utilizar-se de uma e de outra natureza. E uma sem a outra é causa de instabilidade. [...] Precisa, portanto, ser raposa para conhecer as armadilhas e leão para atemorizar os lobos” (MAQUIAVEL, 2004, p. 108 e 109).
Assim como assinala Eagleton (1997, p. 113) não interpretamos a formulação de Gramsci acerca do sujeito histórico da construção de um projeto societário socialista, como um sujeito absoluto. A nosso ver o sujeito histórico, seja ele a classe operária ou o conjunto das classes e grupos sociais que o compõe não é puro, uno e indivisível.
O sujeito histórico da prática contra-hegemônica, para ser minimamente eficaz, deve articular uma complexa aliança de forças sociais, perspectivas simbólicas, e pautas políticas unificadas em torno de um programa político comum, entretanto, diferenciadas por suas origens diversas quanto às lutas de resistência às múltiplas formas de opressão nas sociedades de classes: de gênero, étnica, internacional, regional, racial, geracional, de orientação sexual, etc.
A construção de uma contra-hegemonia passaria, portanto, por uma prática complexa que articulasse discursos, sensibilidades, lutas e programas diversos, porém conectados em sua utopia emancipatória. Neste processo, a sua dinâmica seria também relacional, não constituída de fora da experiência concreta. É no campo vivo da disputa política que o sujeito histórico se constitui, tendo na ação e na visão dos movimentos do seu antagonista, elementos constituintes, dialogicamente, da sua identidade, das suas ações e dos seus movimentos.
Qualquer classe hegemônica, escreve ele em Cadernos do Cárcere, deve levar em conta os interesses e tendências daqueles sobre os quais exerce o poder e deve estar preparada para soluções de compromisso nesse aspecto (EAGLETON, 1997, p. 113).
O bloco de classes e grupos sociais hegemônicos dialogam com os subalternos – não só no sentido de dar ordens – mas nesse também. Como em cada enunciação discursiva específica, o contexto é definidor dos interesses e da construção de sentidos que serão predominantes.
A luta pela hegemonia no conjunto da sociedade, a constituição de agremiações políticas para esta disputa, assim como para a afirmação de sistemas de ideias e valores emancipadores no interior das forças contra-hegemônicas, estão intrinsecamente vinculados com a constituição de ideologias autônomas, originadas e favorecidas por uma compreensão crítica de si mesmo. Esta é o resultado:
[...] da luta de ‘hegemonias’ políticas, de direções contrastantes, primeiro no campo da ética, depois no da política, atingindo, finalmente, uma elaboração superior da própria concepção do real. A consciência de fazer parte de uma determinada força hegemônica entre (isto é, a consciência política) é a primeira fase de uma ulterior e progressiva
autoconsciência, na qual teoria e prática finalmente se unificam. Portanto, também a unidade de teoria e prática não é um fato mecânico, mas um devenir histórico, que tem a sua fase elementar e primitiva no senso ‘distinção’, de ‘separação’, de independência apenas instintiva, e progride até a possessão real e completa de uma concepção de mundo coerente e unitária. É por isso que se deve chamar a atenção para o fato de que o desenvolvimento político do conceito de hegemonia representa – além do progresso político-prático – um grande progresso filosófico, já que implica e supõe necessariamente uma unidade intelectual e uma ética adequadas a uma concepção do real que superou o senso comum e tornou-se crítica, mesmo que dentro de limites ainda restritos (GRAMSCI, 1978, p. 21).