2.2 O PRENOME E O DIREITO DA PERSONALIDADE
2.2.3 C ARACTERÍSTICAS DO P RENOME COMO D IREITO DA P ERSONALIDADE
O prenome como integrante do nome civil, logo, dos direitos da personalidade, possui logicamente determinadas características comuns aos demais direitos deste grupo. Sendo assim, é conveniente expor estes predicados.
2.2.3.1 O Prenome como Direito Inato ou Originário
A primeira característica do prenome que faz jus aduzir-se é ser um direito inato ou originário, isto é, este se adquire ao nascer, não dependendo de animus algum. 204
2.2.3.2 O Prenome como Direito Geral ou Genérico
Os direitos da personalidade possuem consigo uma noção de generalidade, ou seja, são concedidos a todas as pessoas pelo simples fato de existirem. 205 Ou, nas palavras de César Fiúza, são direitos genéricos. 206
Assim, o direito ao prenome como todos os demais direitos da personalidade é concedido a toda pessoa humana.
2.2.3.3 O Prenome como Direito Vitalício, Perene ou Perpétuo
O prenome é um direito vitalício, perene ou perpétuo, uma vez que subsisti por toda a vida do indivíduo, se refletindo até mesmo após a morte. 207
Quanto a este aspecto, vale recordar-se do § único, do art. 12 do CC/2002, apontado no subtítulo 1.3.1.3.1 (Legitimidade para a Tutela dos Direitos da Personalidade depois da Morte), que possibilita a proteção dos direitos da
203 BITTAR, Carlos Alberto. Os Direitos da Personalidade. p. 59.
204 VENOSA, Sílvio de Salvo. Direito Civil: Parte Geral. v. 1. p. 173 e LISBOA, Roberto Senise.
Manual de Direito Civil, Volume 1: Teoria Geral do Direito Civil. p. 248.
205 GAGLIANO, Pablo Stolze; PAMPLONA Filho, Rodolfo. Novo Curso de Direito Civil: Parte geral.
v.1. p. 146.
206 FIÚZA, César. Direito Civil: Curso Completo. p. 160.
207 VENOSA, Sílvio de Salvo. Direito Civil: Parte Geral. v. 1. p. 173.
personalidade (neste caso do prenome), até mesmo depois da morte do titular, cabendo aos parentes do falecido a titularidade para requerer a proteção do prenome do indivíduo não mais presente.
2.2.3.4 O Prenome como Direito Imprescritível
Este atributo decorre do anterior (vitaliciedade), fazendo do direito da personalidade imprescritível, ou seja, que perdure o direito enquanto existir a personalidade, isto é, por toda a vida. Ou melhor, como visto, faz o direito da personalidade transcender a própria vida, pois são tutelados mesmo após o óbito do indivíduo. 208 Portanto, os direitos da personalidade não têm prazo para o seu exercício, bem como as ações que tutelam estes direitos. 209
Neste sentido, Amorim afirma que
existem certos direitos presos à personalidade, como é o caso do direito ao nome, que, por ação ou inação, o titular jamais perderá, dadas suas características de vitaliciedade e perpetuidade. 210
A partir da mesma lógica, Limongi França assevera que não há perda do nome civil pelo seu não uso, e também, não se obtém em virtude da posse. 211
Assim, afirma-se que prenome adere à personalidade da pessoa tornando-se imprescritível como a mesma identidade que representa. 212
Diante destes registros, não há duvida que o prenome não prescreve.
2.2.3.5 O Prenome como Direito Inalienável
Os direitos da personalidade são inalienáveis, ou melhor, relativamente indisponíveis, pois, em regra, não estão no comércio, logo, não possuem valor pecuniário direto. 213 “Daí podermos dizer que o nome é inalienável, enquanto falamos em nome de pessoa física ou natural, que está fora do comércio.” 214
Nesta linha, é prudente expor que
a identidade é inerente a pessoa. A ninguém é dado transmitir sua própria identidade, face à impossibilidade de se deixar de ser quem se é para que outrem seja. Ora, o nome só é objeto de um direito, na medida em que é a expressão de uma identidade, de onde e conseqüentemente inviabilidade de
208 VENOSA, Sílvio de Salvo. Direito Civil: Parte Geral. v. 1. p. 173.
209 FIÚZA, César. Direito Civil: Curso Completo. p. 161.
210 AMORIM, José Roberto Neves. Direito ao Nome da Pessoa Física. p. 32.
211 FRANÇA, Rubens Limongi. Do Nome Civil das Pessoas Naturais. p.181.
212 FRANÇA, Rubens Limongi. Do Nome Civil das Pessoas Naturais. p. 183.
213 VENOSA, Sílvio de Salvo. Direito Civil: Parte Geral. v. 1. p. 173.
214 AMORIM, José Roberto Neves. Direito ao Nome da Pessoa Física. p. 33.
ser também alienado, porquanto a sua alienação implicaria a própria transmissão da identidade. 215
Portanto, o prenome, a priori, não possui valor pecuniário, não podendo ser transferido a outrem, não sendo objeto de negociações.
2.2.3.6 O Prenome como Direito Incessível Como ensina Limongi França,
a incessibilidade não é bem a inalienabilidade. Na alienação, o sujeito se despojaria da própria identidade (o que é impossível), para que outrem a revestisse; ao passo que na cessão, o titular conservando a identidade que lhe diria respeito, apenas a emprestaria a outrem. 216
O nome por ser inerente à identidade, não pode ser cedido a outrem, pois existiria desvinculação, bem como despersonalização, isto é, o elo entre o nome e a pessoa se perderia. 217 Além do mais, seria impossível concretizar-se a cessão, uma vez que importaria na subsistência de duas pessoas distintas com a mesma identidade. 218
Logo, mesmo que temporariamente, ninguém tem como ceder seu prenome para outro indivíduo utilizá-lo.
2.2.3.7 O Prenome como Direito Absoluto
Os direitos da personalidade são absolutos, isto é, oponíveis erga omnes. 219
“Em outras palavras, o titular do direito poderá exigir que toda a comunidade o respeite. Não é como o direito de certo credor de exigir apenas de seu devedor um direito de crédito.” 220
Logo, toda pessoa tem o direito de exigir de outrem o devido respeito ao seu prenome.
215 FRANÇA, Rubens Limongi. Do Nome Civil das Pessoas Naturais. p. 183.
216 FRANÇA, Rubens Limongi. Do Nome Civil das Pessoas Naturais. p.183-184.
217 AMORIM, José Roberto Neves. Direito ao Nome da Pessoa Física. p. 33.
218 FRANÇA, Rubens Limongi. Do Nome Civil das Pessoas Naturais. p. 184.
219 VENOSA, Sílvio de Salvo. Direito Civil: Parte Geral. v. 1. p. 173.
220 FIÚZA, César. Direito Civil: Curso Completo. p. 160.
2.2.3.8 O Prenome como Direito Extracomercial
“O nome é res extra commercium. Esta ponderação é conseqüência da sua inalienabilidade e da sua incessibilidade” 221. O comércio supõe alienação, cessão ou troca de algo por outro, recebendo-se contraprestação, mas como mencionado anteriormente, o nome da pessoa natural é insuscetível de comércio. 222
Destarte, o prenome é um direito que possui o atributo da extracomercialidade.
2.2.3.9 O Prenome como Direito Inexpropriável
Até mesmo havendo razões de interesse público, ninguém, nem mesmo o Estado, pode tomar de um indivíduo seu nome, pois importaria em descaracterização da própria personalidade. 223
Então, é “evidente a inexpropriabilidade do nome, porque na qualidade de direito da personalidade, adere ao indivíduo de forma a não perdê-lo mais.” 224
Em outros termos, seja pessoa humana ou o Poder Estatal, em hipótese alguma há como apoderar-se do prenome de outrem.
2.2.3.10 O Prenome como Direito Intransmissível
No art. 11 do CC/2002 encontra-se a disposição legal inerente a determinação de que os direitos da personalidade, salvo as exceções legais, são intransmissíveis, bem como irrenunciáveis. 225
Desta forma, não apenas porque o legislador assim entendeu, mas também porque a doutrina de tal modo constatou, os direitos da personalidade são intransmissíveis, pois são direitos “intrínsecos ao ser humano, não podem ser transmitidos ou transferidos e, caso tal hipótese seja admitida, estar-se-á fugindo à aplicação jurídica do instituto e o desnaturando.” 226
Lisboa elucida que “mesmo os direitos personalíssimos suscetíveis de exploração econômica não são suscetíveis de transferência, apenas permitindo-se o
221 FRANÇA, Rubens Limongi. Do Nome Civil das Pessoas Naturais. p. 185.
222 AMORIM, José Roberto Neves. Direito ao Nome da Pessoa Física. p. 34.
223 FRANÇA, Rubens Limongi. Do Nome Civil das Pessoas Naturais. p. 186.
224 AMORIM, José Roberto Neves. Direito ao Nome da Pessoa Física. p. 35.
225 Art. 11 - Com exceção dos casos previstos em lei, os direitos da personalidade são intransmissíveis e irrenunciáveis, não podendo o seu exercício sofrer limitação voluntária.
226 AMORIM, José Roberto Neves. Direito ao Nome da Pessoa Física. p. 35.
seu uso.” 227 Logo, deduz-se que é isto que se dá com as pessoas famosas, quando concedem o direito ao uso de seu nome ou pseudônimo para divulgação de determinado produto em propaganda comercial em troca de valor pecuniário.
Diante destas considerações, é nítido que não há como o prenome de alguém ser transferido a outrem, pois ele é elemento íntimo do indivíduo.
2.2.3.11 O Prenome como Direito Irrenunciável
Como mencionado acima, o CC/2002 em seu art. 11 faz menção à característica da irrenunciabilidade dos direitos da personalidade.
Desta forma, Amorim ensina que
os direitos da personalidade são irrenunciáveis, o que impossibilita seu titular de deles dispor livremente, dada sua natureza de ordem pública, normas inderrogáveis por vontade do próprio indivíduo. 228
Mas, apesar da existência desta regra, é necessário aludir que há exceções legais, uma vez que objeto de estudo é a possibilidade de alteração do prenome.
Como informa Limongi França, a irrenunciabilidade não se dá nos casos de alteração do nome civil das pessoas naturais. 229 Em outros termos, quando se alcança a alteração de prenome por determinada causa (evidentemente por justo motivo), o prenome anterior é renunciado.
Portanto, apesar da existência de possibilidade de renúncia do prenome, constata-se que esta não é a regra geral, mas a exceção (imutabilidade relativa do prenome).