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C ONHECIMENTO DE J ESUS

No documento Teologia Sistemática - Stanley Horton (páginas 163-165)

David R Nichols

C ONHECIMENTO DE J ESUS

Devemos reconhecer, já de início, ser o conhecimento a respeito de Jesus Cristo igual e ao mesmo tempo diferente ao de outros assuntos. Como Líder espiritual do Cristianismo, Jesus é o objeto do conhecimento e também da fé. Ele produz ainda, dentro de nós e mediante o Espírito Santo, conhecimentos espirituais. Os cristãos acreditam universalmente que Jesus continua vivo hoje, séculos depois da sua vida e morte na Terra, e que Ele está na presença de Deus Pai, no Céu. Mas esta convicção certamente provém da fé salvífica, mediante a qual a pessoa encontra Jesus Cristo e é regenerada, por meio do arrependimento e da fé, tornando-se assim nova criatura. O conhecimento de Jesus como Salvador leva, através da experiência, ao reconhecimento imediato da existência pessoal de Jesus no presente. Dessa maneira, o conhecimento de Jesus é diferente do conhecimento do de outras figuras históricas.

Os escritores do Novo Testamento eram cristãos dedicados, e escreviam a partir dessa perspectiva. O teólogos liberais do século XIX não deixaram despercebido esse fato, asseverando que os livros do Novo Testamento não poderiam ensinar história a respeito de Jesus porque não eram objetivos, no sentido moderno.3 No entanto,

pesquisas recentes na hermenêutica demonstram que ninguém escreve coisa nenhuma de um ponto de vista neutro ou totalmente objetivo.4 Que melhor perspectiva poderia

haver que a de cristãos escrevendo a respeito de alguém que haviam conhecido na carne e permaneceu num estado ressurreto depois de sua vida na Terra? Assim, temos a questão do Jesus histórico.

Nossa pesquisa, para ser válida, precisa considerar o lado histórico da existência de Jesus. No século XIX, iniciou-se uma busca pelo Jesus histórico, na tentativa - sujeita às severas pressuposições anti-sobrenaturalistas da alta crítica - de distilar fatos que os estudiosos liberais pudessem aceitar, para então compilar um quadro de Jesus que fosse relevante e compreensível às pessoas modernas. Tal empenho acabou por forçar uma cunha entre o Jesus histórico - que supostamente poderia ser conhecido somente através da crítica racionalística5 e histórica dos evangelhos - e o Cristo da fé. Este último era

considerado muito maior que o histórico, porque a fé que os escritores dos evangelhos depositavam nEle os levou a apresentá-lo com base no que era pregado - o querigma6 -

mais do que em fatos históricos (conforme os liberais os definiam). 7

Essa teoria, com ampla aceitação entre os estudiosos liberais, montou o palco para a abordagem da crítica da forma, liderada por Martin Dibelius e Rudolf Bultmann. Estes acreditavam que, pesquisando até para além das "formas" que a Igreja usava para descrever Jesus no querigma,8 poderiam pelo menos tentar descobrir o Jesus histórico.

Afirmavam não serem confiáveis os evangelhos sinóticos, como apresentação do Jesus histórico, por estarem estes obscurecidos pelo querigma.

Bultmann desfez os evangelhos sinóticos em unidades individuais, tentando demonstrar sua formação paulatina, "a partir das condições e necessidades bem específicas da vida, de onde surgiu um estilo muito específico com suas formas e categorias apropriadas".9 Segundo ele, a Igreja Primitiva criara conceitos sobre a

natureza e obra de Jesus diferentes do modo de Ele próprio entender as coisas. Bultmann sugeriu que os Evangelistas "impuseram sobre a matéria tradicional a sua própria crença no messiado de Jesus".10 Acreditava que, trabalhando no século XX, com

ferramentas racionalistas e históricas, conseguiria separar o Jesus histórico do Cristo proclamado pela Igreja.11 As deficiências da abordagem de Bultmann começaram a ser

apontadas por alguns de seus próprios alunos, Ernst Kãsemann e Gunther Bornkamm. Ernst Kãsemann é usualmente considerado o iniciador da "nova busca do Jesus histórico", proposta por um grupo de estudiosos referidos como pós-bultmanianos. Argumentava que os escritores do Novo Testamento atribuíam a mensagem que pregavam ao Jesus histórico, e que assim o investiam "sem a mínima dúvida, com autoridade preeminente".12

Outro representante dessa escola de pensamento, Gunther Bornkamm,13 escreveu

que Jesus não tinha consciência messiânica e que os títulos cristológicos lhe foram aplicados pelos cristãos depois da ressurreição. Seguiram-se variações desse tema. Gerhard Ebeling14 declarou que Jesus era conhecido como o Filho de Deus já antes da

ressurreição. Ernst Fuchs15 levantou a questão da legitimidade teológica dessa busca,

sustentando que a solução do problema está em ver Jesus como o exemplo da fé em Deus. Quando o cristãos seguem o seu exemplo, o Cristo da fé é o Jesus histórico.

Vários estudiosos têm confiado mais no relacionamento entre o Jesus da História e o Cristo da fé. Nils Dahl16 argumenta de que a investigação histórica de Jesus tem

legitimidade teológica e pode resultar em entendê-lo melhor, principalmente diante das tendências da Igreja de criá-lo à sua própria imagem. Charles H. Dodd argumenta que os títulos cristológicos realmente provêm do ministério terrestre de Jesus, e que este, quando foi submetido ao tribunal romano, considerava-se o Messias.17 Finalmente,

Joachim Jeremias defende que é necessário basear o Cristianismo nos ensinos de Jesus conforme relatados nos evangelhos, que ele acredita fidedignos. O mesmo teólogo demonstra ainda que um dos perigos da abordagem da crítica da forma é basear o Cristianismo numa forma abstrata de Cristo, e não na realidade histórica que a teoria promete.18

As Q

UESTÕESDA

M

ETODOLOGIA

Em qualquer estudo responsável, as metodologias usadas para analisar os dados e produzir conclusões devem ser submetidas a cuidadoso escrutínio. Os métodos assim examinados oferecerão um estudo mais sólido do que os menos criteriosos. O estudo da cristologia sugere pelo menos algumas áreas para marcar as fronteiras da metodologia.

A frase "fazer versus ser" levanta as questões da cristologia funcional versus a ontológica.19 Uma cristologia que primariamente define Jesus por aquilo que Ele fez é

funcional. E é ontológica a que primariamente define Jesus por quem Ele é. Tradicionalmente, as duas abordagens alinham-se a dois tipos de teologia. A cristologia funcional20 tem sido proposta, em grande medida, por teólogos e exegetas bíblicos, e a

ontológica21, pelos teólogos sistemáticos. A cristologia funcional ressalta a ação de Jesus

na Terra, como homem, e tende a enfatizar sua humanidade, às custas de sua divindade.22 A cristologia ontológica ressalta a existência eterna de Deus Filho, e tende a

enfatizar sua divindade, às custas da sua humanidade. Note que são tendências, e não posições absolutas. Desde que ponderem cuidadosamente as declarações da Palavra de Deus, ambas as abordagens podem assumir uma posição ortodoxa.

Um dos mistérios mais profundos da fé cristã é a união entre o divino e o humano em Jesus Cristo. Nenhum outro assunto despertava mais controvérsia do que este, nos tempos dos pais da Igreja. As heresias cristológicas condenadas nos séculos III a V são descritas posteriormente neste capítulo.

Nosso estudo não estaria completo se omitíssemos a relação existente, no Novo Testamento, entre a cristologia, a salvação e o Reino de Deus profetizado. Para os escritores do Novo Testamento, a cristologia não ocupa uma posição isolada como categoria abstrata do conhecimento. Seu assunto principal é a salvação da humanidade por Deus, através do único Mediador, o Senhor Jesus Cristo (Mt 28.19,20; At 2.38; Rm 1.16). Logo, do ponto de vista exegético, a existência da salvação divina na Terra produz a necessidade de entender aquEle que nos salvou. Uma vez reconhecido esse fato, é possível adotar o ponto de vista teológico, que faz da cristologia uma matéria específica por si só merecedora de investigação. E, sendo a salvação o ponto de partida da mensagem do Novo Testamento, a cruz de Cristo é o elemento central de definição, pois nela, segundo os escritores do Novo Testamento, nossa salvação foi levada a efeito.

A cruz, portanto, define o relacionamento orgânico entre a doutrina da salvação e a cristologia, pelo menos no nível exegético.

Há, também, a questão do relacionamento do profetizado Reino de Deus com a cristologia e a salvação. Quando Jesus é chamado Cristo (Messias, o "Ungido"), entra- se imediatamente no âmbito da profecia. Esse título tinha um enorme peso profético para os judeus, proveniente tanto dos livros canónicos quanto dos escritos apocalípticos intertestamentários. O cumprimento de muitas profecias do Antigo Testamento,23 na

encarnação, vida, morte e ressurreição de Jesus revelam o poder com que o Reino de Deus foi-se introduzindo.

A profecia tem uma função importante nesse contexto, porque nos ajuda a compreender as diferenças entre o Cristianismo e o Judaísmo. O Judaísmo esperava que o Messias desempenhasse um papel de destaque na libertação política da nação; o Cristianismo ensina que Jesus é verdadeiramente o divino Messias, embora tenha recusado o governo político na sua primeira vinda - o que, na teologia cristã, como realidade futura, leva à necessidade da segunda vinda. São duas verdades baseadas, obviamente, nos ensinos de Jesus relatados no Novo Testamento. As duas vindas de Cristo são dois pólos no plano de Deus, sendo cada um deles necessário para o quadro completo de Jesus, o divino Messias. Essa divisão das profecias não é possível na teologia do Judaísmo e continua sendo uma grande barreira entre os dois sistemas.

No documento Teologia Sistemática - Stanley Horton (páginas 163-165)