John R Higgins
A A UTORIDADE DAS E SCRITURAS
RIVAISDAS ESCRITURAS
Historicamente, a Igreja Cristã tem reconhecido a autoridade das Escrituras nas questões de fé e prática. Isto não quer dizer que não tem havido, e não continua a haver, rivais quanto à reivindicação de plena autoridade feita pela Bíblia. Esses rivais tendem a subordinar, ou qualificar, a autoridade das Escrituras, ou mesmo igualar-se a ela. O primeiro rival foi a tradição oral. Lado a lado com a Palavra escrita, circulavam amplamente histórias e ensinos religiosos. A transmissão oral, todavia, independentemente de qual seja o tópico, acha-se sujeita à alteração, ao desenvolvimen- to, às mudanças e à distorção. As Escrituras forneciam um padrão, um ponto de referência, para a palavra oral. Por isso, estando a tradição oral de acordo com as Escrituras, reflete a autoridade delas; quando, porém, se desvia da Palavra escrita, a sua autoridade desaparece.
O segundo rival, quanto à autoridade religiosa, é a Igreja. Os católicos romanos sustentam essa autoridade por ter sido a Igreja divinamente estabelecida por Cristo; e por já proclamar o Evangelho antes de este haver sido registrado por escrito. Os católicos romanos alegam, também, que a Igreja foi a instituição que produziu as Escrituras do Novo Testamento e que, em certo sentido, estabeleceu o cânon das Escrituras. Na prática, a Igreja Católica coloca-se acima das Escrituras. Embora originalmente sustentasse a supremacia das Escrituras, já nos tempos da Reforma, a Santa Sé tinha exaltado suas tradições até ao nível das Escrituras. De modo ainda mais significante, a Igreja Católica insistia poderem os ensinos da Bíblia ser mediados, corretamente, através da hierarquia eclesiástica. De modo sutil, a Igreja Romana havia usurpado a autoridade das Escrituras, atribuindo-a aos seus próprios ensinos internos. Como consequência, o lema dos reformadores protestantes passou a ser Sola
Scriptura (Somente a Escritura). A Bíblia, outorgada por Deus, fala com a autoridade
de Deus, diretamente ao indivíduo. "Não precisa de Papas nem de Concílios para informar-nos o seu real sentido, como se falassem em nome de Deus; a Bíblia pode até mesmo desafiar os pronunciamentos de Papas e Concílios, condená-los como ímpios e falsos, e exigir que os fiéis se apartem deles". 60
Os credos, as confissões e outros padrões esclesiásticos de doutrina, às vezes chegam, consciente ou inconscientemente, a rivalizar com a autoridade das Escrituras. No decurso da história, igrejas e líderes têm se pronunciado (e com razão) a respeito de questões importantes da vida e da doutrina cristãs. Pessoas piedosas, grandemente usadas por Deus, têm labutado para definir padrões de doutrina e comportamento cristãos, visando refletir a atitude e a vontade de Deus. Repetidas vezes, houve apelo a esses documentos na busca de orientação autorizada. Mas sem dúvida, os escritores seri- am os primeiros a reconhecer serem as obras falíveis e passíveis de revisão, embora se reconheça facilmente a erudição bíblica relevante por detrás desses importantes escritos. Além disso, todos os grandes credos da Igreja reconhecem a plena autoridade da Escritura. Os esforços piedosos merecem a nossa estima. Deus os tem usado para a sua glória. Devem, contudo, ser conservados dentro do seu relacionamento apropriado com as Escrituras. Permitir que se rivalizem com a autoridade bíblica destruirá seu próprio valor normativo, e rebaixará a Palavra de Deus que tanto desejam honrar. O reconhecimento da autoridade incomparável das Escrituras estabelece o valor dos credos e confissões.
A autoridade da Escritura também tem sido desafiada por aquilo que alguns estimam como a autoridade do encontro pessoal que o indivíduo tem com Deus. Isto é: o encontro supremo entre a pessoa e o Verbo Vivo, e não com a Palavra Escrita. Os que sustentam tal opinião dizem que a Bíblia pode ser usada para ajudar a levar a efeito semelhante encontro; a Bíblia, porém, "não tem autoridade por si só mas, sim, em virtude do Deus de quem dá testemunho e fala nas suas páginas".61 Os teólogos
existencialistas acreditam que, mediante um encontro com Deus, "a Bíblia deve tornar- se repetidas vezes a sua Palavra para nós".62
É verdade que a autoridade do cristão é mais do que papel e tinta, mas "a revelação proposicional de Deus não pode ser distinguida da auto-revelação divina".63 Nenhum
encontro autoritativo com Deus supera a autoridade de sua Palavra escrita. Doutra forma: a "experiência de Deus" dos místicos hindus, ou de quem usa drogas psicotrópicas, poderia reivindicar igual autoridade. A validez de nosso encontro com Deus é determinada pela autoridade das Escrituras que o revelam. Todas as experiências pessoais devem ser averiguadas e avaliadas pelas Escrituras.
Até mesmo o Espírito Santo tem sido considerado por alguns como um rival da autoridade bíblica. O Dr. Martyn Lloyd-Jones entende que o pentecostalismo e o catolicismo romano ficam em extremos opostos nas áreas tais como a estrutura e a hierarquia, mas são muito semelhantes na ênfase que dão à autoridade. O catolicismo enfatiza a autoridade da Igreja, ao passo que alguns pentecostais parecem realçar a
autoridade do Espírito acima da autoridade da Palavra.64 Erickson cita uma pesquisa de
opinião pública feita pela Gallup, em 1979, que revelou que não eram poucas as pessoas que, entre 18 e 29 anos de idade, haviam escolhido o Espírito Santo, ao invés da Bíblia, como sua autoridade religiosa principal.65 Alguns enaltecem uma "impressão direta" do
Espírito Santo, ou uma manifestação do Espírito, tal como a profecia, acima da Palavra escrita.66 O Espírito Santo é aquele que inspirou a Palavra e que lhe concede autoridade.
Ele nada falará contrário àquilo que a Palavra inspirada declara, e nada além disso. As reivindicações quanto à autoridade religiosa são engrossadas pelas fileiras das religiões e seitas. Deve-se crer em Jesus mais do que em Sun Myung Moon? O Corão tem autoridade igual à da Bíblia? Uma palavra profética, hoje, tem a mesma autoridade das Escrituras? Essas e outras perguntas fazem com que seja essencial considerarmos as evidências da autoridade bíblica. Virtualmente todas as religiões têm suas escrituras sagradas. Embora muitas delas contenham ensinamentos morais dignos, o Cristianismo tem sustentado historicamente ser a Bíblia a única e exclusiva Palavra de Deus.
EVIDÊNCIASDA AUTENTICIDADEDAS ESCRITURAS
Os parágrafos que se seguem, apresentam algumas das evidências em favor da identidade da Bíblia como a Palavra de Deus.
Apoio interno. É legítimo procurar a origem e o caráter de uma obra escrita por
meio do exame de seu conteúdo. A Bíblia fornece um testemunho interno convincente de sua autoridade incomparável como a mensagem da parte de Deus. "E a evidência interna positiva de sua origem divina que dá poder e autoridade às reivindicações da Bíblia”. 67
A Bíblia revela unidade e consistência espantosas quanto ao seu conteúdo, levando- se em conta a grande diversidade havida na sua composição. Foi escrita no decurso de um período de quinze séculos por mais de quarenta autores provenientes de várias classes sociais - políticos, pescadores, agricultores, médicos, reis, soldados e outro. Escreveram eles em diferentes locais (no deserto, no palácio, na prisão) e em várias circunstâncias (na guerra, no exílio, nas viagens). Alguns escreveram história; outros, leis; e ainda outros, poesia. Os gêneros literários variam entre alegoria, biografia e correspondência pessoal. Todos tinham os seus antecedente, experiências, virtudes e fraquezas pessoais. Escreveram em continentes diferentes, em três idiomas distintos, e trataram de centenas de temas. Mesmo assim, os seus escritos combinam-se entre si para formar um todo consistente que desdobra, de modo belíssimo, na história do relacionamento entre Deus e a humanidade. "Não é uma unidade superficial, mas profunda... Quanto mais profundamente a estudamos, mais completa essa unidade se nos revela”. 68
Josh McDowell conta interessante história que compara a Bíblia com os Grandes
Livros do Mundo Ocidental. Posto que o conjunto de livros consista na obra de
muitos autores diferentes, o vendedor da coletânea reconhece que não oferece nenhuma "unidade", mas uma mera "conglomeração”. 69 "A Bíblia não é simplesmente uma
antologia; há nela uma unidade que harmoniza todo o conjunto. Uma antologia é compilada por um antólogo, mas nenhum antólogo compilou a Bíblia".70 Semelhante
unidade extraordinária pode ser mais plausivelmente explicada como o resultado da revelação outorgada por um só Deus.71
A Bíblia, correlacionada com a natureza complexa do ser humano, lida com todas as áreas essenciais de nossa vida. À medida que uma pessoa lê a Bíblia, esta, por sua vez, lê a pessoa. Embora escrita há muitos séculos, fala dinamicamen-
te às necessidades de cada geração. É a voz de Deus que a penetra até ao próprio
âmago de nosso ser, e oferece respostas plausíveis às perguntas mais importantes (Hb 4.12,13). A Palavra de Deus dirige continuamente o leitor em direção a Deus como a fonte originária da relevância e do propósito para si mesmo e para o seu
mundo. Para quem acolhe a sua mensagem, a Palavra tem poder de transformação. Cria fé no coração, e leva-nos a um encontro dinâmico com o Deus vivo (Rm 10.17).
As Escrituras expõem um padrão de ética que supera em muito o que seria esperado de homens e mulheres comuns. Conclama a pessoa a uma moralidade que supera a nossa medida de justiça. "Cada um desses escritos... apresenta ideias morais e religiosas muito adiantadas para a época em que surgiram, e tais ideias continuam orientando o mundo".72 A Bíblia lida, com franqueza, com os fracassos humanos e com o problema
do pecado. Seu sistema ético é compreensivo, pois inclui todas as áreas da vida. O alvo da ética bíblica não é meramente o que a pessoa faz, mas o que a pessoa é. Aderir a um código exterior está aquém da exigência que a Bíblia faz: a bondade no íntimo (1 Sm 16.7; Mt 5; 15.8). Mas tanto o nosso fracasso moral quanto a nossa redenção são entendidos somente em termos de nosso relacionamento com um Deus santo. Através da Bíblia, Deus — nos chama, não a uma simples melhoria, mas à transformação, para nos tornarmos novas criaturas em Cristo (2 Co 5.17; Ef 4.20-24).
As profecias que falam dos eventos futuros (em vários casos, muitos séculos antes) permeiam as Escrituras. A exatidão dessas predições, conforme o demonstra seus respectivos cumprimentos, é realmente notável. Dezenas de profecias dizem respeito a Israel e às nações em seu redor. Por exemplo: Jerusalém e o seu templo seriam reedificados (Is 44-28); e Judá, embora salva dos assírios, cairia nas mãos de Babilônia (Is 39.6; Jr 25.9-12). O restaurador de Judá, Ciro da Pérsia, é mencionado pelo nome mais de cem anos antes de seu nascimento (Is 44.28).73 A Bíblia contém centenas de
profecias feitas séculos antes dos próprios eventos.74 Entre elas, há predições acerca do
nascimento virginal de Cristo (Is 7.14; Mt 1.23), do local de seu nascimento (Mq 5.2; Mt 2.6), da maneira de sua morte (SI 22.16; Jo 19.36), e do local de seu sepultamento (Is 53.9; Mt 25.57-60). 75
Alguns críticos têm procurado, através da atribuição de novas datas aos livros do Antigo Testamento, minimizar o milagre preditivo das profecias bíblicas. Mesmo se concordássemos com as datas menos antigas, as profecias ainda teriam sido escritas centenas de anos antes do nascimento de Cristo. (Posto que a tradução da Septuaginta [LXX] das Escrituras Hebraicas foi completada cerca de 250 a.C, as profecias nela contidas teriam sido, forçosamente, compostas antes dessa data).
Alguns têm sugerido que as profecias não predisseram a atividades de Jesus, mas que o próprio Jesus agiu deliberadamente para cumprir o que fora dito no Antigo Testamento. Muitas das predições específicas, porém, estavam além do controle ou manipulação humanos. E os cumprimentos das predições não eram meras coincidências, levando-se em conta o número significativo das pessoas e eventos envolvidos. Peter Stoner examinou oito das predições a respeito de Jesus, concluindo que, na vida de uma só pessoa, a probabilidade de elas se coincidirem era de 1 e 1017 (1 em
100.000.000.000.000.000).76 A única explicação racional de tantas predições exatas,
específicas, a longo prazo, é que o Deus onisciente, soberano sobre a história, haja revelado tais conhecimentos aos escritores sagrados.
Apoio externo. A Bíblia também tem áreas de apoio externo à sua asseveração de
que é a revelação divina. Quem negaria sua tremenda influência sobre a sociedade humana? Impressa, no todo, ou em parte, em mais de dois mil idiomas, é o livro mais lido de toda a história. 77 Reconhecendo-lhe a sabedoria e o valor, cristãos e incrédulos,
indistintamente, citam-na em apoio aos seus pontos de vistas. Tem se dito que se a Bíblia fosse perdida, poderia ela ser reconstruída em suas partes base a partir das citações tiradas dos livros que se acham nas prateleiras das bibliotecas públicas. Seus princípios têm servido como o alicerce das leis das nações modernas, e como o ímpeto maior para as grandes reformas sociais da história. "A Bíblia... produziu os resultados supremos em todas as profissões existentes na vida humana. Tem inspirado
sublimemente as artes, a arquitetura, a literatura e a música... Não há livro que se compare a ela na sua influência benéfica sobre a raça humana." 78
Deus atua na sociedade através das vidas das pessoas transformadas, e que seguem os ensinamentos de sua Palavra (SI 33.12).
A exatidão da Bíblia em todas as áreas, incluindo pessoas, locais, costumes, eventos e ciência, tem sido mostrada pela história e pela arqueologia. Ás vezes, pensa-se que a Bíblia está historicamente errada, mas as descobertas têm dado testemunho de sua veracidade. Por exemplo: há algum tempo, pensava-se que a escrita não havia sido inventada senão depois dos tempos de Moisés. Mas agora, sabemos que essa ciência remonta até antes de 3000 a.C. Houve tempos quando os críticos negavam a existência de Belsázar. As escavações, contudo, identificam-no com seu nome babilónico: Bel- shar-usur. Os críticos diziam que os heteus, mencionados 22 vezes na Bíblia, nunca existiram. Agora sabemos que eles foram uma grande potência no Oriente Médio. 79
A história bíblica é confirmada pelas respectivas histórias das nações envolvidas com Israel. As descobertas arqueológicas continuam a apoiar e a ajudar a interpretar o texto bíblico. McDowell compartilha com seus leitores uma citação interessante de uma conversa entre Earl Radmacher, presidente do Seminário Batista Conservador do Oeste, e Nelson Glueck, arqueólogo e ex-presidente de um seminário teológico judaico:
Tenho sido acusado de ensinar a inspiração verbal e plenária das Escrituras...
Mas só cheguei a dizer que, em todas as minhas investigações arqueológicas, nunca descobri um único artefato da antiguidade que contradissesse qualquer declaração da Palavra de Deus. 80
O mesmo juízo foi pronunciado pelo renomado arqueólogo William F. Albright: O ceticismo excessivo dirigido contra a Bíblia por escolas históricas importantes dos séculos XVIII e XIX... vem sendo progressivamente desacreditado. Uma descoberta após outra tem confirmado a exatidão de pormenores, e tem aumentado cada vez mais o reconhecimento do valor da Bíblia como fonte de informações exatas para a história. 81
Mesmo os estudiosos que negam a exatidão total da i Bíblia por motivos filosóficos, sentem grandes dificuldades em defender a alegação de que há inexatidões no texto bíblico. Kenneth Kantzer comenta: "Embora Barth continuasse a asseverar a presença de erros nas Escrituras, é muitíssimo difícil localizar qualquer exemplo nos seus escritos de que realmente tais erros existem".82 Considerando o grande número de pormenores
na Bíblia, espera-se uma coletânea considerável de tais erros. No entanto, a exatidão espantosa da Bíblia indica que ela é, realmente, a revelação do Deus verdadeiro.
A capacidade notável da sobrevivência da Bíblia também dá testemunho de sua autoridade divina. Comparativamente, poucos livros sobrevivem aos estragos produzidos pelo tempo. Quantas obras literárias de mil anos de idade podemos mencionar pelo nome? Um livro que sobrevive um século é um livro raro. A Bíblia, porém, além de sobreviver, tem se multiplicado. Existem literalmente milhares de ma- nuscritos bíblicos; mais do que todos os manuscritos reunidos das demais obras literárias. 83
O que torna mais notável a sobrevivência da Bíblia é o fato de ela haver passado por incontáveis períodos, quando sua leitura era proibida pelas autoridades eclesiásticas (du- rante a Idade Média) e das tentativas de vários governantes em se eliminá-la. Desde o Edito de Diocleciano em 303, que ordenou a destruição de todos os exemplares da Bíblia, até o presente, houve esforços organizados para se destruir a Bíblia. "A Bíblia não somente tem recebido mais veneração e adoração do que qualquer outro livro, como também tem sido objeto da mais implacável perseguição e oposição". 84 Considerando
que durante os primeiros séculos do Cristianismo, as Escrituras eram copiadas manualmente, a extinção total da Bíblia não teria sido humanamente impossível. O
célebre deísta francês Voltaire predisse que dentro de cem anos, o Cristianismo desapareceria. Cinquenta anos depois da sua morte ocorrida em 1778, a Sociedade Bíblica de Genebra estava usando o seu prelo e a sua casa para produzir grandes pilhas de Bíblias!85' Se, porém, a Bíblia realmente for a mensagem da redenção divina à
humanidade, sua indestrutibilidade não seria tão espantosa. Deus, com a sua mão onipotente, tem protegido a sua obra!
Tanto a autenticidade quanto a historicidade dos documentos do Novo Testamento estão confirmadas de modo sólido. Norman Geisler indica que as evidências documentárias em favor da autenticidade do Novo Testamento são esmagadoras, e fornecem uma base, igualmente sólida, para a reconstrução do texto grego original. 86
Bruce Metzger, especialista em crítica textual, informa que, no século III a.G, os estudiosos em Alexandria indicavam que as cópias que possuíam da Ilíada de Homero apresentavam cerca de 95% de fidedignidade. Indica, também, que os textos setentrional e meridional da Mahabharata da índia diferem entre si numa extensão de 26.000 linhas.
87 Isto se contrasta com "mais de 99,5% de exatidão para as cópias manuscritas do Novo
Testamento".88 Esse meio-porcento de diferença consiste principalmente nos erros de
ortografia dos copistas e, mesmo assim, passíveis de correção. Nenhuma doutrina da Bíblia depende de algum texto cuja forma original não possa ser determinada com exatidão.
JESUSESEU CONCEITODAS ESCRITURAS
No fim do século I (no mais tardar) os escritos do Novo Testamento já haviam sido completados; muitos destes, entre 20 e 30 anos apenas após a morte e ressurreição de Jesus. / Temos ainda a garantia de que até mesmo a narração dos eventos foi orientada pelo Espírito Santo a fim de que fossem evitados os erros ocasionados por eventuais esquecimentos (Jo 14.26). Os evangelhos, que contam detalhadamente a vida de Jesus, foram escritos por contemporâneos e testemunhas oculares. Tais escritos, fartamente corroborados, fornecem informações fidedignas a respeito de Cristo e de seus ensinos. A autoridade da Palavra escrita está ancorada na autoridade de Jesus. Posto que Ele nos é apresentado como o Deus encarnado, seus ensinos são verdadeiros e plenos de autoridade. Por isso, o que Jesus ensina a respeito das Escrituras, determina sua justa reivindicação à autoridade divina. Jesus dá testemunho consistente e enfático de que elas são, de fato, a Palavra de Deus.
Em especial, Jesus dirigia a sua atenção ao Antigo Testamento. Quando falava de Adão, de Moisés, de Abraão ou de , Jonas, Ele os tratava como a pessoas reais e históricas. Às vezes, correlacionava situações que lhe diziam respeito com um evento histórico do Antigo Testamento (Mt 12.39,40). Noutras ocasiões, buscava num determinado fato do Antigo Testamento apoio, ou reforço, para alguma coisa que estava ensinando (Mt 19.4,5). Jesus honrava as Escrituras do Antigo Testamento, e enfatizava que Ele não viera abolir a Lei e os Profetas, mas cumpri-los (Mt 5.17). As vezes, fustigava os líderes religiosos por haverem elevado as próprias tradições acima das Escrituras (Mt 15.3; 22.29).
Jesus, nos seus ensinos, citou pelo menos quinze livros do Antigo Testamento, e fez alusão a muitos outros. Tanto no modo de falar quanto nas declarações específicas, demonstrava com clareza a sua estima pelas Escrituras do Antigo Testamento como a Palavra de Deus. Era a palavra e o mandamento de Deus (Mc 7.6-13). Citando Gênesis 2.24, Jesus declarou: "O Criador [não Moisés]... disse: Portanto, deixará o homem pai e mãe" (Mt 19.4,5). Disse que Davi fez uma declaração "pelo Espírito Santo" (Mc 12.36). A respeito de uma declaração registrada em Êxodo 3.6, Ele perguntou: "Não tendes lido o que Deus vos declarou?" (Mt 22.31). Repetidas vezes, Jesus apelou à autoridade do Antigo Testamento, citando a fórmula: "Está escrito" (Lc 4.4). John W. Wenham assevera que Jesus entendia essa fórmula no sentido de "Deus diz!"
"Há uma objetividade grandiosa e sólida no uso do tempo pretérito perfeito
gegraptai, 'permanece escrito': 'aqui está o testemunho eterno e imutável do Deus
Eterno, registrado por escrito para a nossa instrução'."89 O modo decisivo de Jesus
utilizar essa fórmula revela de modo enfático como ele considerava a autoridade das Escrituras. "A Palavra escrita, portanto, é a autoridade de Deus para solucionar todas as disputas a respeito da doutrina ou da prática. E a Palavra de Deus nas palavras humanas;