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PRAZERES DO DIA E DA NOITE

2. Cafés do Recife

Não se pode falar de diversão e prazer nos anos 1920 sem falar dos cafés da cidade. Territórios vistos por alguns como “suspeitos”, já que a maioria era freqüentada sobretudo por boêmios e por mulheres consideradas “de reputação duvidosa”, os cafés constituíam-se em espaços disputados não apenas nas noites, mas, também durante o dia, por fregueses que procuravam os serviços que ofereciam, e, sobretudo, as possibilidades de encontros, conversas e integração social que esses lugares ofereciam.

No Recife dos anos vinte, havia cafés para todos os gostos e bolsos. Se existiam aqueles endereçados a um público mais seleto, como o Café Continental, mais conhecido como Esquina da Lafayette, ou o Brasil, freqüentados por políticos, intelectuais, funcionários públicos, comerciantes, estudantes e profissionais liberais, havia também os estabelecimentos que se dirigiam aos trabalhadores e grupos populares.84

Segundo Mário Sette, o período áureo dos cafés recifenses foi na virada do século, quando eles serviam como “ponto de ligação

com os amigos. Pontos de palestra num Recife vazio de

diversões.”85 Nessa fase, marcaram época na cidade o Café

Santos Dumont e o Modelo, na Rua da Imperatriz, o Café 15 de Novembro e o Cascata, na Rua do Imperador, além do Café Familiar e do mais famoso de todos, de acordo com Sette, o Café Rui, localizados na Rua Nova. Ambientes vistos com desconfiança,

freqüentados apenas por homens, principalmente estudantes, os cafés não eram considerados lugar de família:

“Na época, as famílias de raro freqüentavam um café e isso mesmo de dia. À noite não parecia de boa moral. Tanto estudante lá dentro. Às vezes mulheres da vida fácil. O Café Rui (...) era o ponto predileto dos acadêmicos de direito. Viviam em constante algazarra, em brindes, em vaias, em pilhérias de moços. Das portas do “Rui” eles

espiavam as pernas das moças ao subir nos bondes.”86

Ainda de acordo com Sette, na virada do século XX, apenas o recatado Café Familiar, também na Rua Nova, conseguia, atrair as famílias. Eram proles inteiras, acompanhadas dos pais, 37. Dirigido à “fina boemia”,

conforme enfatiza o anúncio, o Cascata foi um dos cafés que marcaram época na cidade no início do século XX. (Café Cascata, 1908).

84 Sobre os cafés do Recife no

início do século XX, ver SETTE, Mário. Os antigos cafés. In:

Maxambombas e maracatus,

op. cit pp. 142-145. SOUZA BARROS. Joaquim Cardoso e o “Cenáculo” da Lafaiete.In: A

década de 20 em Pernam- buco Recife, Fundação de

Cultura Cidade do Recife, 1985, pp. 217-245. PARAÍSO, Rostand. A Esquina do

Lafayette e outros tempos do Recife. Recife, Companhia

Editora de Pernambuco, 2001. Uma análise dos cafés do Rio de Janeiro pode ser encon- trada em VELOSO, Mônica Pimenta. Os cafés como espaço da moderna sociabi- lidade. In: LOPES, Antônio H. (org.). Entre a Europa e a

África: a invenção do carioca.

Rio de Janeiro, Topbooks, 2000, pp. 231-244. Sobre os cafés de Belo Horizonte no início do século XX, ver: SILVEIRA, Anny J. Torres. O sonho de uma petite Paris: os cafés no cotidiano da capital. In: DUTRA, Eliana de Freitas (org.). BH Horizontes históricos. Belo Horizonte, C/Arte, 1996, pp. 119-182.

85 SETTE, Mário. Os antigos

cafés. In: Maxambombas e

maracatus, op. cit p. 144.

86 SETTE, Mário.

Prazeres da noite e do dia

121 parentes e eventualmente serviçais de confiança, que se dirigiam

às tardes ao modesto e barato café: ”Mais calmo e mais

recatado, [o Familiar] atraía melhor as famílias para o

sorvetezinho modesto dos tempos.”87

Com o crescente número de diversões e novos espaços de sociabilidade surgidos nas primeiras décadas do século XX, os cafés vão perdendo importância enquanto principal lugar de encontro e distração dos grupos de elite, conforme podemos constatar na documentação da época.

O mesmo não ocorria com relação às camadas populares, que tinham os cafés como uma das mais importantes formas de sociabilidade. Eram os conhecidos cafés-cantantes, ou cafés- concerto, espalhados por diversas ruas do centro e subúrbios do Recife. Vistos com desconfiança pelas autoridades e pelas famílias, devido à freqüência considerada pouco seleta tidos como, responsáveis pela promoção de arruaças, bebedeiras, desordens e atentados aos bons costumes, os cafés eram uma presença constante nas notas policiais e nos livros de queixas das delegacias nos anos vinte. 88

Nos anos vinte, o café mais famoso e visitado da cidade era o

Café Continental. Mais conhecido como Esquina da Lafayette,

por se localizar vizinho à charutaria e loja de cigarros da fábrica Lafayette, na Rua 1º de Março, o Continental era um dos canais de organização e locais de convivência preferidos dos moços e senhores da cidade. Por mais chic e refinado que fosse o estabelecimento, o café não era um espaço usualmente freqüentado pelas mulheres, a não ser pelas atrizes, dançarinas e pelas chamadas “mulheres de moral duvidosa.” Somente algumas poucas precursoras, como a escritora Raquel de Queiroz, chegaram a visitar esses territórios masculinos, conforme um relato de Souza Barros. Levada pelo marido, habitual freqüentador dos encontros vespertinos, Raquel compareceu a algumas reuniões dos intelectuais na Esquina Lafayette, no início dos anos 30.

“As mulheres, bem vestidas, com suas jóias e chapéus e habitualmente portando luvas e sombrinhas (...), ao saltar dos bondes tinham o cuidado de evitar as calçadas do Lafayette, lugar para o

qual apenas disfarçadamente se permitiam olhar.”89

87 Idem, ibidem. 88 Anny Torres Silveira,

referindo-se aos cafés de Belo Horizonte, diz que eles iam do “chic e refinado ao simples e rastaqüera”, reunindo em suas mesas ou balcões, grupos os mais variados. Alguns se tornaram redutos de grupos

específicos, com opiniões políticas, esportivas ou intelectuais semelhantes; outros, com clientela mais eclética e diversificada, serviam de ponto de informação das novidades e circulação de boatos”. Ver SILVEIRA, Anny J. Torres, op. cit pp. 119 -182.

89 PARAÍSO, Rostand. A

Esquina do Lafayette e outros tempos do Recife,

AR

TES DE VIVER A CIDADE

SYLVIA COSTA COUCEIRO

122

Território quase exclusivamente masculino, o Lafayette tinha como clientes jornalistas, políticos, intelectuais, comerciantes, funcionários públicos, profissionais liberais, estudantes, conhecidos boêmios, que se reuniam para discutir política, fechar negócios, contar piadas, debater as últimas tendências da arte e da literatura, escrever versos, boatar e comentar vida alheia, ou simplesmente para conversar sobre as ocorrências do dia-a-dia: “Fervilhava a esquina de jornalistas que trabalhavam à noite, nos

cinco jornais próximos; atraía também boateiros e curiosos, além de pessoas que marcavam ali os seus encontros. Uma encruzilhada, onde apesar da agitação, pontificava o grupo liderado pela inteligência viva e dialética de Joaquim Cardozo.”90

Extremamente heterogêneo, composto por intelectuais de tendências as mais diversas, tanto literárias quanto políticas e religiosas, o grupo de freqüentadores da Esquina da Lafayette, apelidado por Souza Barros de “Cenáculo da Lafayette”, tinha uma característica comum: a vontade de rediscutir os padrões estabelecidos, a curiosidade pelo novo, um anseio de renovação, numa época em que as polêmicas culturais e políticas fervilhavam. De acordo com Barros, as animadas discussões e palestras do grupo não se resumiam apenas a criticar os modelos literários do parnasianismo: “Não era apenas um reflexo de outros

movimentos do país, era toda uma inquietação trazida pelo pós- guerra. Havia uma agitação não só nos quadros literários, mas igualmente nos políticos e sociais (...). Para muitos, o protesto não era só contra as fórmulas verbais de expressão, era contra toda a estrutura.”91

Nas mesas do Café, espalhadas pela larga calçada da esquina da 1º de Março com a Rua do Imperador, circularam assíduos freqüentadores, os chamados “visitantes contumazes” da confraria, que diariamente batiam o ponto nas mesas do Café, e os visitantes esporádicos. Eram escritores, músicos, poetas, jornalistas, pintores, gráficos, professores, estudantes que, ansiosos por mudanças, passavam horas a discorrer sobre os mais diversos assuntos. Segundo Abdias Moura, as reuniões do grupo eram um “perpétuo

meeting (...) onde se discutem os fatos palpitantes e se submete a língua ao exercício ginástico de falar da vida alheia, como convém a todos os cavalheiros que não cuidam da própria vida.”92

Na Esquina da Lafayette apresentavam-se os últimos lançamentos editoriais, debatia-se sobre artes, cinema, música, falava-se de