espaços, pessoas e imagens
2. Trilhas da cidade
“Os lugares são histórias fragmentárias e isoladas em si, dos passados roubados à legibilidade por outro, tempos empilhados que podem se desdobrar mas que estão ali antes como histórias à espera e permanecem no estado de quebra-cabeças, enigmas, enfim simbolizações enquistadas na dor ou no prazer do corpo.” (Michel de Certeau).
Compreender a história da cidade significa levar em consideração a importância que a variável espaço exerce sobre o emaranhado das relações humanas que ela abriga. Segundo Pierre Mayol, a cidade seria “poetizada pelo sujeito: este a re-fabricou para seu uso próprio
desmontando as correntes do aparelho urbano; impondo à ordem externa da cidade a sua lei de consumo de espaço.”26
Tal qual uma fonte escrita, os espaços de uma cidade são registros que nos ajudam a entender as formas de organização do trabalho, as relações sociais, enfim, os conflitos que marcaram sua formação histórica. A associação entre a noção de espaço e a de identidade cultural serve como base para a compreensão de um outro conceito fundamental: o de território. Noções distintas, os territórios “estariam ligados a uma ordem
de subjetivação individual e coletiva, enquanto o espaço estaria mais ligado às relações funcionais de toda a espécie, funcionando como uma referência extrínseca em relação aos objetos que ele contem.”27
De acordo com Félix Guattari, o conceito de território incorpora a idéia de subjetividade, na medida em que não existe território sem sujeito. Na construção das territorialidades, ocorre todo um processo de significação, de percepção, de apropriação dos sujeitos e grupos sociais, o qual confere à idéia de espaço a noção de marca, de expressão, transformando-o em uma espécie de cartografia das relações sociais. As noções de espaço e território “permitiram pensar-se num possível
papel ativo da configuração espacial. Ativo no sentido de que ele não precede a vida social, a vida econômica, a vida política e a transformação. Nem precede e nem vem depois: vem junto na própria construção e apropriação do espaço ou na construção e reconstrução permanente do espaço.” 28
Caminhando na mesma direção, Milton Santos enfatiza que só se pode pensar o conceito de território a partir da sua utilização pelo homem. Dessa forma, a noção de território seria construída a partir da interação e do espaço feito pelos indivíduos, estimulando seu estudo em uma espectativa dinâmica, onde estariam envolvidos não apenas
26 MAYOL, Pierre. O Bairro. In:
A invenção do Cotidiano II: morar, cozinhar. Petrópolis,
Vozes, 1996, p. 45.
27 GUATTARI, Felix. Espaço e
poder: a criação de territórios na cidade. Espaço e
Debates Revista de Estudos Regionais e Urbanos. São
Paulo, NERU, nº 16, 1985, p. 110.
28 ROLNIK, Raquel. História
urbana: história na cidade?
Cidade & História.
FERNANDES, Ana e GOMES, Marco Aurélio de F. (org.) Salvador, UFBA/
AR
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componentes objetivos, relativos à realidade vivida, mas também aspectos subjetivos, ligados aos sentimentos, desejos, expectativas e às representações elaboradas. “O território em si, para mim, não é um conceito. Ele só se toma um conceito utilizável para a análise social quando o consideramos a partir do seu uso, a partir do momento em que o pensamos juntamente com aqueles atores que dele se utilizam”.29
Assim, quando falamos de território estamos compreendendo o espaço da cidade não apenas enquanto configuração física e espacial mas enquanto representação de um código, subentendido em toda a sua dimensão simbólica. Ao demarcar um território, o grupo imprime nele as suas marcas, estabelecendo a sua diferença em relação aos outros, destacando o que é característico e distintivo quanto ao ambiente considerado externo. Essa associação entre espaço e identidade cultural foi estratégica para os diferentes grupos sociais, uma vez que, na disputa pelos espaços da cidade, havia uma busca de afirmação, uma luta pelo reconhecimento da sua própria existência.30
Nesse sentido, este trabalho procura perceber os lugares da cidade – bairros, ruas, esquinas, becos, pátios - não apenas nas suas relações funcionais com os habitantes da cidade, como simples locais de passagem, circulação ou de distribuição e venda de produtos, mas como espaços carregados de história, de memórias e experiências vivenciadas por sujeitos ou grupos sociais. João do Rio, escritor carioca de princípios do século XX, já discutia a importância de compreender os espaços da cidade para além das suas funções.
“Os dicionários dizem: rua, do latim ruga, sulco. Espaço entre as casas e as povoações por onde se anda e passeia. Abri o primeiro, abri o segundo, abri dez, vinte enciclopédias... A rua era para eles apenas um alinhado de fachadas por onde se anda nas povoações. Ora, a rua é mais que isso, a rua tem alma! (...) A rua nasce, como o homem, do soluço, do espasmo. Há suor humano na argamassa do seu calçamento (...). Algumas dão para malandras, outras para austeras; umas são pretensiosas, outras riem aos transeuntes e o destino as
conduz como conduz o homem, misteriosamente.”31
O Recife, que se consolidara desde os tempos coloniais como ponto estratégico de trocas comerciais, em função do seu ancoradouro natural e da importância para a Europa do principal gênero produzido
29 SANTOS, Milton. Território
e sociedade: entrevista com Milton Santos. Apud. KOGA, Dirce. Medidas de cidade:
entre territórios de vida e territórios vividos. São Paulo,
Cortez, 2003.
30 Sobre a questão do
espaço na afirmação e reconhecimento dos grupos populares, ver VELLOSO, Mônica Pimenta. As tias baianas tomam conta do pedaço: espaço e identidade cultural no Rio de Janeiro. In: Estudos
Históricos. Rio de Janeiro,
vol 3, nº 6, 1990, pp. 207-228.
31 RIO, João do. A alma
encantadora das ruas. Rio
de Janeiro, Garnier Editor, 1908, p. 04,10.
RECIFE NOS ANOS VINTE: espaços, pessoas e imagens
27 na capitania - o açúcar -, tinha, até meados do século XVII, seu núcleo
de povoamento restrito apenas à faixa de terra da área portuária, conhecido no século XVI como Arrecife dos Navios. Com a ocupação holandesa e a fixação da sua sede político-administrativa na povoação, órgãos foram instituídos, funções militares e comerciais foram ampliadas, gerando um aumento da concentração populacional e forçando a expansão da área urbana para a ilha de Antônio Vaz. A partir daí, a cidade cresce em direção ao continente, incorporando a chamada “várzea do Capibaribe”, região que abrange a área que vai “desde a Boa Vista e da Madalena até a Caxangá e Várzea
propriamente dita, subindo o rio e retalhando os antigos engenhos de uma e outra margem em sítios e chácaras, que, por sua vez, sobretudo a partir da década de 1840, serão objeto de loteamento. O movimento pelo qual o velho burgo, espremido no istmo e na ilha de Antônio Vaz, expande-se pelo continente e cria seus arrabaldes, tem inicialmente um caráter sazonal.”32 Abandonava-se a vila nos
meses quentes de verão em busca de clima mais ameno, para fugir às doenças e epidemias e também para gozar dos benefícios e poderes curativos dos banhos de rio.
Em finais do século XIX, a atração exercida pelo Recife, um dos principais centros de comercialização do país, vai gradativamente crescendo. A importância do seu porto, sua posição de destaque nas áreas político-administrativa, financeira e cultural e o estabelecimento, ainda que incipiente, das primeiras atividades fabris ampliaram a função da cidade como pólo e centro dinâmico da economia regional, transformando seu quadro demográfico. Para o Recife dirigiam-se rapazes de família rica para completar seus estudos na Faculdade de Direito, comerciantes em busca de estabelecer-se na praça, melhorar seus negócios, e trabalhadores do campo, que fugiam das secas periódicas e das condições de trabalho impostas pela agroindústria açucareira.
As estatísticas sobre o número de habitantes do Recife no início do século XX variavam muito, gerando dúvidas e polêmicas que alimentavam debates intensos entre médicos, engenheiros e políticos.33 Segundo o engenheiro Saturnino de Brito, contratado em
1909 para chefiar os serviços de construção da nova rede de esgotos do Recife, os recenseamentos e estatísticas populacionais da época eram contraditórios e discutíveis. “Falhas pelo descaso de uns, ou
viciadas pelo exagero de alguns e pelas pilhérias de outros”, os
levantamentos, segundo ele, não eram confiáveis. As manipulações feitas
32 MELLO, Evaldo Cabral de.
Canoas do Recife. In: O
Recife – quatro séculos de sua paisagem. Org. SOUTO
MAIOR, Mário e SILVA, Leonardo D. Recife, Editora Massangana, 1992, p. 195- 196. Sobre o processo de divisão das terras dos engenhos e a formação dos arrabaldes, ver PEREIRA da Costa F. A. Arredores do
Recife. Recife,
Massangana, 2001.
33 Uma análise da discussão
acerca das estatísticas populacionais do Recife no início do século XX pode ser encontrada em “Figuras da Cartografia e da Estatística.” In: LIRA, José Tavares Correia de. Mocambo e
cidade.regionalismo na arquitetura e ordenação do espaço habitado. São
Paulo,Tese (Doutorado de Arquitetura e
AR
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pelo Estado para fins políticos e de propaganda e o descaso e desconfiança da própria população quando do preenchimento das “listas” geravam grandes distorções nos números.
No recenseamento realizado em 1913, o prefeito Eudoro Correia, utilizaria algumas alternativas para driblar o analfabetismo e a falta de instrução dos entrevistados: fichas de cores variadas, desenhos de figuras humanas e outros, que facilitavam o preenchimento dos dados pela população. Segundo Lemos Filho, “apesar das dificuldades encontradas pela falta de compreensão do
povo e do tirocínio dos recenseadores, foram preenchidas 218.255 fichas, sendo computada a população da cidade em 230.000 pessoas.” 34 O número
de perguntas e a insistência dos recenseadores para que as pessoas respondessem corretamente, deram motivo para muitas quadrinhas jocosas do tipo:
“Tem que ficar assentado, Conforme está no papé, Que nos dois semo casado,
Que eu sou home e ela é muié.”35
Em 1924, ao comemorar um ano de governo, Sérgio Loreto faz publicar na imprensa local uma espécie de prestação de contas das obras realizadas e da aplicação de recursos em diversas áreas: saúde, instrução, serviços urbanos, justiça, dentre outras. No relatório, também estão divulgados dados relativos a um censo que o Departamento de Saúde e Assistência, realizara. O chamado “recenseamento resumido” teria apurado que a cidade contava, em 1923, com 313.150 habitantes, sendo 144.413 homens e 168.737 mulheres.36 Os números eram surpreendentes para a época, uma vez que o
relatório faz referências ao Censo Federal de 1920, que teria contabilizado 238.000 pessoas residentes no Recife.
A observação feita por Saturnino de Brito de que os problemas com relação às estatísticas e aos números do censo se deviam também “às pilhérias” da população quando das respostas aos questionários, e a gozadora quadrinha popular citada acima, destacando de forma irônica a distância entre as práticas vivenciadas pelos habitantes da cidade e as formas de conduta consideradas como padrão, refletem as reações da população ao crescente poder que as autoridades instituídas tentavam estabelecer no espaço urbano. Essas reações eram maneiras de resistir que estavam fora dos referenciais socioeconômicos compreendidos pelas elites dirigentes. Utilizando outros códigos de resistência, os moradores do Recife tinham suas ações interpretadas pelos grupos dominantes como sendo fruto da ignorância, da
34 LEMOS FILHO, op. cit p. 45. 35 LEMOS FILHO. Idem. 36 Jornal do Commercio,
RECIFE NOS ANOS VINTE: espaços, pessoas e imagens
29 falta de instrução, ou mesmo da brincadeira de indivíduos inconseqüentes.
Enganar os recenseadores com respostas chistosas e informações falsas foi uma das táticas empregadas pelos habitantes da cidade para driblar as formas de controle que, baseadas em uma razão técnica e numa lógica científica e racional, eram empreendidas pelos governantes. O humor, a disposição de espírito para a brincadeira e a pilhéria constituíram-se, portanto, no que Michel de Certeau chama de “pequenos golpes”, “jogos de palavras”, no sentido de desarticular a ordem social que se buscava estabelecer.37
Ao observar a polêmica e as discussões que os números relativos à população ganharam na época entre sanitaristas, médicos e outras autoridades que buscavam implantar um novo modelo de cidade, podemos destacar que essas táticas dificultavam a viabilização de planos e projetos urbanos, confundiam as autoridades e adiavam determinações oficiais que interfeririam na vida cotidiana da população.
Na virada do século XIX para o XX, o Recife, assim como outras grandes cidades brasileiras, passava por problemas de infra-estrutura gerados por esse crescimento populacional: carência de serviços públicos básicos, principalmente com relação a moradia, abastecimento d’água, saneamento e saúde. Recém- saído do sistema de governo monárquico, de uma economia baseada na mão-de-obra escrava, de cunho eminentemente agroexportador, ainda engatinhando em termos de industrialização, o que país precisava, na visão dos políticos e intelectuais republicanos, era de reformas urgentes dentro do novo contexto capitalista que se apresentava: “O advento da República
viria proclamar, inicialmente, uma atitude de repúdio difuso à vida rotineira e aos arcaísmos,(...) como forma dos indivíduos desarmarem-se dos modos provincianos e das sociabilidades causadas pela sociedade escravista. Assim, uma atmosfera ansiosa por cosmopolitismo, gerada no Rio de Janeiro (...), percorre o país, num desejo sôfrego da europeização e da modernização.”38
Nessa fase, as representações construídas em torno das nossas cidades vinculavam-nas à idéia de atraso, falta de civilidade e desordem. O aumento crescente da população transtornava ainda mais o já complexo panorama urbano do país. O Rio de Janeiro, por sua posição de capital política, financeira e cultural do país, iniciou seu processo de modificação ainda no alvorecer do século XX. São Paulo e outras capitais, em diferentes graus, sofreram processos semelhantes.39
O caso do Recife não fugiu muito à regra geral, seguindo a lógica da reforma empreendida na Capital Federal. Na década de dez, iniciou- se a modernização do porto e as vias principais de acesso ao cais, plano que aos poucos foi sendo ampliado, promovendo alterações
37 CERTEAU, Michel de. A
invenção do cotidiano I: artes de fazer. Petrópolis,
Vozes, 1994.
38 SALIBA, Elias Thomé. A
dimensão cômica da vida privada na República. In:
História da vida privada 3,
op. cit p. 292.
39 Para maiores detalhes
sobre as questões que envolviam as cidades brasileiras, as reformas urbanas e modernização no início do século XX, ver, dentre muitos outros, BRESCIANI, Stella. Imagens
da Cidade. São Paulo,
ANPUH/ Marco Zero, 1994. CARVALHO, Maria Alice Rezende de. Quatro Vezes
Cidade. Rio de Janeiro, Sette
Letras, 1994. Revista Estudos
Históricos. Cultura e História
Urbana. Rio de Janeiro, CPDOC/FGV, vol.8, n.16, 1995. FERNANDES, Ana e GOMES, Marco Aurélio de F. (org.) Cidade e História. Salvador, UFBA/ ANPUR,1992. Revista
Espaço e Debates. Cidade e
História. São Paulo, NERU, 1981. NEEDELL, Jeffrey D.
Belle Époque Tropical. São
Paulo, Cia. das Letras, 1993.
Revista Brasileira de História.
Cultura e Cidades. São Paulo, ANPHU/Marco Zero, 1985. Revista do Patrimônio
Histórico e Artístico Nacional.
Cidades, n.23, 1994. Revista
USP. Dossiê Cidades. São
Paulo, USP, nº 05, 1990. SEVCENKO, Nicolau. Orfeu
Estático na Metrópole. São
Paulo, Cia. das Letras, 1992. Idem, Literatura como
missão. São Paulo,
Brasiliense, 1983. VELLOSO, Mônica Pimenta. Modernismo
no Rio de Janeiro. Rio de
Janeiro, Fundação Getúlio Vargas, 1996. Idem, As
tradições populares na belle époque carioca. Rio de
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profundas na paisagem do bairro portuário e na vida das pessoas que lá moravam ou tinham seus negócios. Na década seguinte, sobretudo no governo de Sérgio Loreto, mais reformas nos bairros do Derby, melhorias e embelezamento de praças, como a Sérgio Loreto, localizada na antiga Campina do Bodé, abertura da Avenida Beira-Mar em Boa Viagem, construção de mercados públicos, dentre outras.40
Nos debates e discussões que envolviam as reformas e a política urbana, o que estava em jogo era a “tensão entre
um movimento de singularização e de expressão territorial e um padrão de homogeneização ou de alisamento do território, de retirada desses elementos desses códigos de significação, tornando lisos, destendidos estes territórios existenciais, que são absolutamente rugosos, cheios de marcas e de códigos específicos.”41 Nesse jogo de recriação das
cidades, uma espécie de cruzada civilizatória foi empreendida. Não apenas a arquitetura dos prédios, o traçado das ruas, enfim, a estrutura urbana foi questionada, mas também os hábitos, a organização familiar, a higiene pessoal, as formas de diversão, o comportamento em público: os modos de vida da população da cidade passaram por uma revisão sob o ponto de vista dos novos saberes modernos. Intelectuais e autoridades políticas e sanitárias, simpatizantes das idéias modernistas e regionalistas, discutiam de forma acirrada as questões que envolviam a chegada da modernização e suas transformações na cidade.
Em princípios dos anos vinte, os bairros do Recife, Santo Antônio, São José e Boa Vista, que constituíam o núcleo mais antigo da cidade, aos poucos iam mudando de perfil, agregando serviços e adquirindo nova paisagem à medida que esses projetos e reformas iam sendo implementados. Fazer um breve passeio por esses lugares, conhecer trajetos, principais ruas, serviços, enfim, o movimento cotidiano desses bairros nos anos vinte é um dos objetivos desse trabalho. O percurso escolhido é uma das muitas possibilidades de itinerário, refletindo apenas algumas das faces e imagens desses lugares.
O itinerário, segundo Michel de Certeau, é uma série discursiva de operações; é uma cadeia de operações espacializantes, pontilhada de referências que produzem uma representação dos lugares. São descrições e narrativas a partir de escolhas do sujeito, são indicações performativas, artes de gestos e relatos de passos que transformam os 5. A abertura da Avenida
Beira-Mar possibilitou a implantação do serviço de bondes, encurtando as distâncias entre a região central e as áreas ao sul da cidade - Pina, Boa Viagem- abrindo novos espaços de diversão e sociabilidade na temporada de veraneios. (Av. Beira Mar, 1925).
40 Sobre as reformas
urbanas empreendidas no Recife nas duas primeiras décadas do século XX, ver: MOREIRA, Diniz Fernando. A construção de uma cidade moderna: Recife (1909- 1926). Recife,Dissertação (Mestrado em Desenvolvimentos Urbano) - UFPE, 1994. WEINSTEIN, Flávio Texeira. As cidades enquanto palco da modernidade: o Recife de princípios do século. Recife, Dissertação (Mestrado de História) - UFPE, 1994. LUBAMBO, Cátia. Bairro do Recife: entre o Corpo Santo e o Marco Zero. Recife, CEPE, 1991.
41 ROLNIK, Raquel. História
urbana: história na cidade?
Cidade & História.
FERNANDES, Ana e GOMES, Marco Aurélio de F. (org.) Salvador, UFBA/ ANPUR,1992, p. 29.
RECIFE NOS ANOS VINTE: espaços, pessoas e imagens
31 espaços da cidade de mapa descritivo, em fabricações, em feituras
do espaço.42
Já os mapas, até meados do século XVII, recheados de indicações de trajetos, desenhos e figuras – animais marinhos, caravelas, e outros personagens -, elementos narrativos que possibilitavam a leitura de percursos, vão paulatinamente transformado-se, a partir do nascimento e consolidação do discurso científico, entre os séculos XV e XVII, se transformando. A geometria euclidiana e a descritiva aos poucos isolam o traçado geográfico das possibilidades de percurso e itinerário, fazendo com que os mapas se constituam em um conjunto formal de lugares abstratos, segundo Certeau, numa “descrição redutora totalizante das observações.” Neste trabalho, tentamos juntar o mapa a uma das possibilidades de percurso. A escolha foi marcada por algumas questões ligadas às fontes documentais disponíveis, quase sempre proveniente da visão das elites, que priorizavam a descrição de determinados espaços da cidade em detrimento de outros, espelhando as representações que se tentavam construir em torno da cidade no período. Alguns outros espaços, mais especificamente ligados às práticas das camadas populares, serão analisados com mais detalhes em capítulo posterior.
Os quatro bairros que formam o que hoje se conhece como “centro da cidade”, eram lugares de muitas histórias. Para Mayol, o bairro seria um espaço de relação com o outro como ser social, uma noção dinâmica que precisaria de uma aprendizagem. Essa se tornaria crescente à medida que o corpo do usuário se fosse engajando no espaço público até exercer aí uma apropriação: “Diante do
conjunto da cidade, atravancado por códigos que o usuário não domina mas que deve assimilar para poder viver aí, em face de uma configuração dos lugares