PRAZERES DO DIA E DA NOITE
90 SOUZA BARROS A
década de 20 em Pernambuco, op. cit p. 220.
91 SOUZA BARROS,
op. cit p.233-234.
92 Citado por PARAÍSO,
Rostand. A Esquina do
Lafayette e outros tempos do Recife. , op. cit p. 126.
Prazeres da noite e do dia
123 política, organizavam-se passeios e
excursões pela cidade e arredores, o que Souza Barros chama de “turismo regionalista”, recitavam-se versos e poemas, contavam-se anedotas e casos. Enfim, as mesas do Lafayette eram um espaço da palavra. Joaquim Cardozo, Ascenso Ferreira, Câmara Cascudo, José Lins do Rego, Souza Barros, Evaldo Coutinho, os jornalistas Eugênio Coimbra, Altamiro Cunha e Austro Costa, Luiz Jardim, Vicente Fittipaldi, Gilberto Freyre, Gilberto Amado, Leopoldo Lins,
Tadeu Rocha, e muitos outros nomes da intelectualidade da época participaram, com maior ou menor freqüência, dos encontros nas calçadas do Café Lafayette.
Além dos intelectuais, políticos, comerciantes, estudantes da Faculdade de Direito, ou das Escolas de Medicina e Engenharia, enfim, dos senhores e rapazes da elite, a Esquina tinha também um outro público cativo. Eram engraxates, gazeteiros, agiotas, vendedores de loteria, ambulantes que comercializavam os mais diversos tipos de mercadorias e por lá ganhavam a vida, como o “Crispim das Empadas”, que oferecia seu apreciado petisco recheado de camarão ou galinha nas calçadas da
Esquina da Lafayette, fazendo sucesso entre os fregueses do café.93 Os
passadores do jogo do bicho também eram figuras constantes por lá, uma vez que os resultados da poule do dia eram sempre anunciados ali bem em frente, na Rua 1º de Março.
Além do Café da Lafayette, o Café Brasil, inaugurado em 1923 na Rua do Imperador, também atraia muitos freqüentadores. Segundo as notas da imprensa, o Café Brasil estaria “localizado em prédio
moderníssimo (...), montado com luxo e conforto, tendo a maior parte do seu rico mobiliário, entre o qual artísticas mesas de mármore, vindo do Rio e de São Paulo. Um corpo de garçons escolhidos (...) garantia o tratamento fidalgo que será dispensado aos fregueses.”94
No dia da sua abertura, cuja solenidade foi marcada por uma recepção em que foram servidos champagne, cerveja, sandwichs e bolinhos, degustados ao som das músicas executadas pela banda do 21º Batalhão, o Jornal Pequeno ressaltava o “gosto artístico” com que estava montado o café que, segundo eles, vinha “a preencher uma lacuna de que se
ressentia o nosso meio.”95
Os cafés variavam de acordo com o poder aquisitivo e as preferências da
38. A célebre “Esquina da Lafayette” constituiu, durante muitos tempo, uma espécie de termômetro da cidade. Era o lugar onde se podia saber desde o resultado do jogo do bicho até às últimas notícias internacionais. (Café Lafayette, 1920-1930).
93 WANDERLEY, Eustórgio.
Tipos populares do Recife antigo, op. cit vol.I p.141.
94 Jornal Pequeno,
31/01/1923, p. 3.
95 Jornal Pequeno,
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sua clientela principal. A freqüência aos cafés espalhados no centro, sobretudo pelas ruas do bairro de Santo Antônio e São José, era um dos prazeres preferidos dos segmentos populares da época. Nesses espaços podia-se celebrar a vida, beber para esquecer a dor, conversar com amigos, cantar, dançar e, sobretudo, arranjar companhia feminina a preços razoáveis. Na pesquisa realizada sobre os cafés do Recife nos jornais e na documentação da Repartição Central de Polícia, percebemos que as designações café-cantante e café-concerto eram mais usadas para os estabelecimentos destinados principalmente às camadas populares. Ali, podia-se beber, dançar, jogar, apreciar números artísticos e, em boa parte deles, contava-se com os favores das chamadas “mulheres perdidas.” As denominações dadas aos estabelecimentos que vendiam bebidas, promoviam bailes entre os freqüentadores, apresentavam shows de variedades, exibiam números de canto e dança com artistas, e mesmo os que lidavam mais especificamente com a prostituição, eram muito variadas. Café, café-cantante, café-concerto, cabaret, botequim, pensão, casa de cômodos e até club, eram algumas das designações para essas casas de diversão. Tentar elaborar uma classificação rígida, que procurasse ordená-los segundo suas atividades seria correr alguns riscos, uma vez que, nesse ramo de negócios, geralmente conviviam no mesmo ambiente bebida, música, prostituição e jogo.
O que podemos dizer sobre a denominação dessas casas é que alguns desses nomes eram mais comumente usados para uma ou outra atividade, às vezes preponderante, sem, no entanto, afastar a hipótese de que várias dessas funções fossem exercidas pelo mesmo estabelecimento. É muito comum, inclusive, encontrarmos referências a casas cujo nome juntava duas dessas designações: “Cabaret Pensão Risonha”, “Café Bar da Italiana”, “Cabaret Café-Cantante de Maria do Carmo”, “Café-Cantante Radiante Bar”, e assim por diante. Uma das razões que poderiam levar os proprietários a batizar seus estabelecimentos dessa forma seria a ação da polícia. Os nomes mistos poderiam ser uma maneira de confundir a polícia e os órgãos de fiscalização, ou pelo menos serviam para ajudar a reforçar formalmente as argumentações de defesa em caso de problemas com as autoridades policiais.
O que comumente se denominava “café”, café-concerto ou café-cantante era uma espécie de sinônimo do que conhecemos atualmente como “bar.” Apesar de Gilberto Amado em suas memórias, dizer que não se recordava, nos primeiros anos do século, do uso da palavra “bar”, nos anos 20 encontramos as designações “botequim” e “bar” sendo empregadas para referir-se a esses espaços, mais comumente
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125 conhecidos na época como “cafés.” Em 1921, O Jornal Pequeno
estampou em sua primeira página matéria sobre a vida noturna do Recife, com a seguinte manchete: “Os bars à noite.” Em portaria de 1927, a Repartição Central de Polícia autorizou o sr. Alfredo Pio da Silva “proprietário do ‘Botequim Brazil’, situado à rua Doutor Feitosa,
nº 279, licença para promover danças populares no referido botequim, devendo as mesmas terem início às 22 horas e término à 1 hora do dia seguinte.”96 Em 1929, o “Café Cantante Radiante Bar” registrava o
pagamento da taxa de recolhimento na Inspetoria de Polícia para a obtenção da autorização de funcionamento.97 Como podemos perceber,
apesar de pouco utilizadas, essas palavras foram encontradas em alguns documentos referindo-se a funções semelhantes, o que nos mostra a identificação existente na época entre café, café-concerto, café-cantante, bar e botequim.
Os estabelecimentos freqüentados pelos grupos populares que se localizavam nos bairros centrais, estavam principalmente em Santo Antônio e São José, nas adjacências da Rua das Trincheiras, Pátio do Carmo, Estreita do Rosário, e outras ruas desses bairros, como os cafés “Braço de Ouro”, “Flor da Noite”, “Democrata”, “Radiante” e “Ponto Chic.” Apesar da concentração na área central da cidade, a documentação da Repartição Central de Polícia, responsável pela concessão das licenças de funcionamento a esses estabelecimentos, demonstra que os cafés-cantantes estavam espalhados por vários bairros e localidades do Recife, como Santo Amaro, Pina, Casa Amarela e Estrada dos Remédios, dentre outros.98
Nesses estabelecimentos eram servidas bebidas variadas, indo do simples cafezinho a aguardente, cerveja e até Whisky. Petiscos diversos, empadas, bolinhos, ovos fritos e cozidos, além de comidas prontas para refeições ligeiras, como papas, coalhada, sopas, macarronada, banana cozida e outros quitutes.99
Freqüentava-se o café por motivos diversos: para encontrar-se com os amigos, fugir do trabalho, fazer uma fezinha no jogo, curtir uma “dor de cotovelo”, informar-se das novidades, encontrar companhia feminina, escapar do cotidiano doméstico, ou simplesmente para matar o tempo e fugir da solidão.
Constantemente os cafés estavam nas colunas policiais dos jornais. Embriaguez, desavenças pessoais entre os freqüentadores, disputas por questões de jogo, falta de pagamento do que havia sido consumido, vadiagem, tentativa de homicídio, porte de arma, assassinatos eram algumas das ocorrências que geravam as prisões dentro dessas casas.
A representação construída pelas elites da cidade em torno dos cafés
96 Repartição Central de
Polícia. Tomo de Portarias. Ago-out. 1927. Vol. 1148.
97 Inspetoria Geral de Polícia,
Secção de Teatros e
Diversões Públicas, Licenças
jan-jul 1929.
98 Repartição Central de
Polícia, Inspetoria da Guarda
Civil, vol. 1247, abril-julho de
1927.
99 O cardápio dos cafés
variava bastante conforme o local e o tipo de clientela. Os itens citados acima foram colhidos de anúncios de propaganda de alguns desses estabelecimentos, crônicas e livros de memórias.
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destinados a esse público apresentava tais lugares como “baratos e mal
afamados”, “antros sórdidos”, “paraíso dos desordeiros, gatunos, vagabundos e mulheres vadias”, território da “desordem e imoralidade.”
Uma notícia publicada pelo Jornal do Recife sobre o Café Flor da Noite é um exemplo da imagem que esses territórios de diversão popular tinham nessa fase. Localizado na Rua Estreita do Rosário, o Flor da Noite era descrito como “um verdadeiro antro! Nele se reúne uma multidão de prostitutas
que, com sujeitos desclassificados, passam noites e noites a beber na maior vadiagem.” 100 Contudo, para seus freqüentadores, os cafés eram
espaço de sociabilidade: palco de animadas conversas, ponto de encontro entre velhos companheiros, espaço da conquista de novos amores.
Muitas das confusões e agressões ocorridas nos cafés aconteciam, segundo os jornais, devido a questões de ciúmes. Perambulando pelas mesas em busca de clientes, a presença das prostitutas era um dos motivos da má fama atribuída aos cafés na época. A briga entre Francisco José e Ventura, que provocou a maior quebradeira no “Bar da Italiana”, teve como motivo uma disputa amorosa:
“No café denominado ‘Bar da Italiana’, na rua das Cruzes, achavam-se a beber, sentados em bancos diferentes, o estrangeiro de nome Francisco José e o indivíduo conhecido por Ventura. Em dado momento entre os dois, por questões de ciúme, surgiu uma discussão (...). Ventura jogou uma garrafa no estrangeiro, a qual, indo de encontro à parede partiu-se , não atingindo o alvo. Francisco, fazendo uso de uma arma de fogo o alveja por sua vez, errando também o alvo. Estabelecida a confusão os
dois se evadiram.”101
As reclamações contra os cafés e os pedidos de providências por parte das autoridades policiais eram constantes na imprensa recifense. A sociabilidade que emergia desses espaços, a conversa alta, o barulho, a circulação de idéias, as brincadeiras, as discussões e os momentos de interação e solidariedade assustavam as elites, pois marcavam comportamentos diferentes daqueles recomendados pela civilidade: silêncio, discrição, impessoalidade e retraimento quando em público. Segundo os jornais, a falta de policiamento e de uma fiscalização mais enérgica da polícia eram fatores que facilitavam a ocorrência de constantes agressões, brigas e crimes nesses locais. As dificuldades com relação ao policiamento não eram poucas, uma vez que boa parte dos clientes usuais dos cafés eram justamente guardas, soldados e agentes da polícia.
Um exemplo interessante e que vale a pena ser detalhado é o do Café
100 Jornal do Recife,
29/10/1926, p. 5.
101 Jornal do Commercio,
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Chile. Localizado na Praça da Independência, o Café Chile era um espaço
destinado a uma clientela de mais posses. Em propagandas publicadas nas revistas e almanaques da época, como o Indicador do Commercio e
Indústria em PE e AL, do final da década de 1910, o Café Chile era
anunciando como um estabelecimento de “instalações modernas e seus
serviços de qualidade refinada.”102 Funcionando até as duas horas da
manhã, suas noites eram animadas por uma orquestra que se apresentava diariamente. O estabelecimento era iluminado a luz elétrica, e tinha “copa
à vista do freguês”, podendo ser, a qualquer momento, inspecionada pela
clientela, demonstrando que essa se compunha de pessoas exigentes quanto aos padrões de higiene dos locais que freqüentavam.
O cardápio da casa também sugeria que sua freguesia era formada de indivíduos mais abastados, já que serviam “sorvetes, refrescos, chocolates,
bombons, chá, café, torradas”, além de um amplo sortimento de bebidas,
que incluíam “grogs, cervejas, champagne, whisky e bebidas de todas as
qualidades.” Para as refeições ligeiras, o Café Chile oferecia “comidas frias e macarronada à italiana, ovos quentes, fritos e frios, saladas de frutas durante o dia e a noite.” O Café também possuía em seu interior
uma tabacaria, que comercializava cigarros, charutos e fumos de diversas procedências.
No entanto, se o anúncio publicado divulgava a imagem de um ambiente refinado e chic, as colunas policiais mostravam uma outra face do Café
Chile. Em 1922, o Café foi envolvido num escândalo de grandes
proporções na cidade, o qual detalharemos a seguir, quando o subdelegado do distrito de Santo Antônio descobriu um ponto de venda de cocaína que funcionava na tabacaria do Chile. Prisões, notas de repúdio, comentários negativos e condenação nas matérias de jornais colocaram o nome do estabelecimento em destaque nas colunas policiais por alguns dias.
À clientela preocupada com a higiene da cozinha, com a música ambiente, com o conforto moderno da luz elétrica, formada provavelmente por senhores e moços de maior poder aquisitivo, misturavam-se meretrizes, como “Neném” e “Barata Doida”, protagonistas de um escândalo que exigiu a presença da polícia no Café:
“O guarda 48, de serviço, anteontem, às 24 horas, na praça da Independência, prendeu as meretrizes Esther Baptista de Lima, vulgo “Neném”, e Celina Ramos, vulgo “Barata doida”, quando lutavam no interior do “Café Chile”
naquela praça. Motivaram a luta questões antigas de ciúme.”103
102 Os dados citados sobre o
Café Chile foram colhidos no anúncio do Indicador do Commercio e Indústria em Pernambuco e Alagoas, 1916. 103 Jornal do Recife, 25/01/1922.
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Territórios que fugiam ao controle das autoridades, onde os códigos e símbolos ligados à vida das camadas populares regiam os comportamentos, o ambiente dos cafés imprimia medo e desconfiança nos grupos de elite, o que ajudava a consolidar uma imagem negativa desses estabelecimentos. A despeito da má fama, e contrariando a imagem que os periódicos construíram sobre os freqüentadores desses cafés, podemos perceber que sua clientela não era formada apenas de “desordeiros”, “malandros”, “mundanas”, enfim, do chamado “Zé Povo.” Em matéria cuja manchete era “Os ’bars’ à noite”, o Jornal Pequeno assim descrevia os tipos, às vezes elegantes, que sentavam nesses recintos para beber, jogar, ou simplesmente divertir-se e conversar com os amigos:
“Quem são aqueles cidadãos incontestavelmente respeitáveis, pela atitude educada que mantêm, que, todas as noites, (...) passam de 7 às 11 da noite a chupar manhosamente, calmamente, garrafas e mais garrafas de cervejas? E aquele outro, quase sempre de frack, pequeno anel de brilhante no dedo, pérola na gravata, que grita tanto, dá altas
gargalhadas, bate fortemente com o bozó sobre a mesa?” 104
Depoimentos como esse mostram que figuras das elites também se divertiam nos cafés e bares considerados de “segunda categoria”, tendo acesso a alguns espaços do “Zé Povo”, com seus códigos de conduta e signos distintos. A presença desses indivíduos nos cafés-concerto faz perceber o quão complexa e intrincada era a vida social da cidade. Longe da rígida hierarquização pregada pelas elites, espaços de comunicação abriam possibilidades de diálogo e trocas culturais, mostrando que apropriações e reelaborações foram possíveis de ocorrer, mesmo diante de um discurso que segmentava e excluía.
Os cafés destinados às classes populares da cidade constituíam-se em lugares onde as práticas culturais desses grupos eram exercidas cotidianamente, o que terminava por gerar certas desconfianças por parte das elites. Códigos e símbolos avaliados como censuráveis e inconvenientes eram partilhados e vivenciados pelos populares nesses espaços, transformando-os em lugar de resistência em relação aos novos modelos de convívio que se estabeleciam na cidade.
Nesse momento, quando a cidade expandia-se, congregando 39. A charge da Revista Cri-
Cri mostra que os cafés misturavam indivíduos de diferentes classes, tendo uma clientela bem mais diversificada que aquela divulgada pelas colunas policiais. (Coisas do Recife, 1908).
104 Jornal Pequeno,
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129 indivíduos das mais variadas origens e tradições culturais, começa a
acontecer um processo de “hibridação cultural” que, segundo Canclini, abrangia diversas mesclas interculturais, misturando símbolos e demolindo categorias tradicionalmente opostas como subalterno/ hegemônico, tradicional/moderno. 105
“Espaço do ócio, do negócio, da contestação política, de bebedeira e
de conflito, do estabelecimento de uma sociabilidade e de solidariedades”,106 os cafés aparecem como um dos ambientes capazes
de criar alternativas de fuga à regulamentação imposta à vida na cidade. Assim, sejam os prioritariamente dirigidos aos segmentos da elite ou aos grupos populares, os cafés possibilitavam encontros de grupos sociais diversos, abriam canais que permitiam a troca de informações entre mundos culturais diferentes, representando um dos espaços onde havia a chance de se estabelecerem redes de comunicação que escapavam à lógica do discurso técnico e racional que buscava disciplinar o espaço da cidade.