• Nenhum resultado encontrado

7 Resultados e análises

7.4 Os testes de leitura passo a passo 7.5 No Power Point

7.5.1.2 Caixas de texto

Em um editor de textos, como o Word, basta abrir o programa e acionar o teclado para que o texto apareça na tela, apresentada metaforicamente como uma folha de papel. No Power Point, é necessário que o usuário acione um ícone na tela para que possa digitar um texto.

As Propriedades de uma Caixa de texto são muito próximas às de um objeto de

WordArt. Em ambos os casos, é necessário que, no espaço da mescla, sejam projetadas

seletivamente e integradas Propriedades tanto dos textos comuns quanto de objetos mais “maleáveis”, como as figuras. A diferença é que, no caso das Caixas de texto, os contornos e preenchimentos não são atribuídos diretamente aos textos, mas sim ao espaço que eles ocupam. Nesse sentido, as Propriedades “preenchimento”, “contorno”, “arrastar para mover” e “puxar e esticar para aumentar” devem ser projetadas do espaço

input “figuras” e relacionadas a um novo elemento na mescla. Nesse espaço, as

formam uma única Categoria, a Caixa de texto, e as Propriedades de cada um, em vez de comprimidas, passam a ser mapeadas, na mescla, por uma relação Contém/está contido. A figura contém o texto e o texto está contido dentro da figura. É essa nova relação vital que compõe a Representação proposta pelo designer no ícone ( ) da ferramenta Caixa de texto, e que deve ser descomprimida pelos leitores. O esquema abaixo busca ilustrar melhor as relações que acabamos de descrever.

FIGURA 16: Rede de integração conceitual para identificar e utilizar a Caixa de texto.

7.5.1.2.1 “Problemas no amor, impotência sexual, vida embaraçada? Vamos te ajudar!”

FIGURA 17: Caixa de texto sem preenchimento, com linha dupla. Luciana

Nessa etapa, Luciana foi orientada pela pesquisadora a encontrar um lugar para colocar o texto. Com essa informação, a estudante tentou acessar a área de anotações do Power Point, onde estava escrito “Clique aqui para adicionar anotações”. Rapidamente, reconheceu a inadequação das projeções que construiu para identificar a ferramenta e começou a procurar outras alternativas na tela. Ficou 27 segundos passando o mouse

por vários ícones, tentando, com a ajuda das legendas, identificar o ícone correto. Passou inclusive pelo da Caixa de texto, mas ignorou-o. Tentou o menu Exibir, e após 11 segundos procurando novamente pelas barras de ferramentas, desistiu e pediu ajuda à pesquisadora, que, novamente, sugeriu: “é um lugar, uma ferramenta que você usa para inserir texto”. Nesse caso, assim como em todos os outros nos quais a pesquisadora precisou intervir, novos espaços iam sendo criados e articulados, e novos elementos e relações, projetados. A idéia geral sobre a função permanece, mas as propriedades particulares dessas funções se modificavam de acordo com as informações fornecidas.

Buscando contrapartes para a nova informação, Luciana acessou o menu Inserir, construindo uma relação direta entre o verbo mencionado pela pesquisadora e o nome desse menu, mas desistiu, demonstrando desconhecimento sobre o que procurar. O espaço input da função parecia não conter elementos suficientes para que ela pudesse conceptualizar a ação pretendida. Após mais 17 segundos de busca desorientada, a pesquisadora interferiu novamente, perguntando se a estudante sabia o nome do que estava procurando. Com a resposta negativa de Luciana, a pesquisadora adicionou mais uma informação ao espaço input que a estudante ativou para localizar a ferramenta: “isso aí se chama caixa de texto”. Após 10 segundos procurando pelos ícones na parte inferior da tela, Luciana encontrou o ícone correto. Claramente, a estudante não localizou o ícone da ferramenta porque não conhecia essa função. Sem elementos suficientes nos dois espaços input, e sem informações consistentes para complementar esses espaços, a integração na mescla tornou-se inviável.

O desconhecimento sobre ações básicas como essa demonstra a fragilidade do frame de que Luciana dispunha sobre a interface e a dinâmica de trabalho no programa Power Point. Para identificar as informações visuais disponíveis na tela – como é o caso do ícone da Caixa de texto –, Luciana precisaria ter, pelo menos, construído um espaço

input consistente, que elencasse propriedades mínimas sobre a ação que deveria realizar.

As operações de referência ou complementação, que recorrem ao conhecimento prévio do leitor sobre o texto e sobre o gênero textual, se mal-elaboradas, podem comprometer a identificação das informações visuais, como é o caso da situação descrita.

Vanessa

Esse foi o primeiro texto que Vanessa inseriu utilizando a caixa de texto do documento modelo. Após a digitação, a estudante começou a procurar um ícone para

preencher a caixa de texto de amarelo, confundindo a cor desse elemento com a cor do fundo. Alertada sobre essa inadequação, ela começou a procurar pela ferramenta de “borda dupla”, assim denominada pela pesquisadora. Vanessa clicou no ícone Cor da

linha, que estava com a cor preta ativada, o que fez com que a caixa de texto ficasse

com o contorno de uma única linha. Procurando pela ferramenta que pudesse alterar o tipo de borda para essa caixa de texto, Vanessa voltou ao ícone Cor da linha, tentou a opção Linhas padronizadas, mas não conseguiu realizar a tarefa. Buscando uma contraparte para o espaço input da função, a estudante recorreu a vários ícones na tela que remetiam à idéia de linha, como o do recuo ( ) e o de centralizar o texto ( ). Apesar de passar o mouse algumas vezes sobre o ícone correto, Vanessa não clicou nele de imediato, provavelmente porque estava recorrendo às legendas dos ícones para identificá-los e não encontrou correspondência para o nome da ferramenta (Estilo da

linha). Mais detalhes sobre essa ação foram descritos anteriormente, quando

relacionamos situações específicas do caso Vanessa.

7.5.1.2.2 “Fazemos e desfazemos trabalhos espirituais”

FIGURA 18: Caixa de texto com preenchimento, sem linha. Luciana

Ainda confusa com as relações de Propriedades entre textos, Caixas de texto e

WordArt, Luciana cogitou a possibilidade de usar, nesta situação, o ícone do WordArt.

Constatando que deveria buscar outra alternativa, a estudante decidiu apagar as caixas de texto disponíveis na tela, abertas pelo documento-modelo. Após deletar a primeira delas, a estudante percebeu que poderia utilizar a segunda para digitar o texto e não precisou recorrer ao ícone. Essa atitude de Luciana deixou clara a fragilidade das conexões entre os espaços mentais construídos durante a realização das tarefas. As informações ativadas nesses espaços são reconstruídas a todo momento e uma rede de integração que acaba de ser processada de maneira correta pode não ser aproveitada em novos processamentos que dela necessitem.

O ícone que altera a cor do preenchimento da caixa de texto foi facilmente localizado. É curioso como certas ações são mais facilmente assimiladas pelos usuários,

mesmo quando há confusão entre as Propriedades de cada Categoria. As funções de Cor da linha, Estilo da linha e Cor do preenchimento, ligadas aos objetos com Propriedades semelhantes, não foram confundidas pelos sujeitos, ao contrário das funções responsáveis por inserem tais objetos (Caixas de texto, AutoFormas e WordArt). Ao que parece, a dificuldade dos leitores está em descomprimir as relações de Identidade que cada um desses elementos apresenta na mescla, mas as propriedades de cada um, por serem muito parecidas, são identificadas e alteradas sem maiores problemas para os usuários.

Vanessa

Assim como Luciana, Vanessa excluiu uma das caixas de texto do modelo e teve que procurar a ferramenta para inserir uma nova caixa de texto. Sua opção foi acessar o menu Inserir, e lá encontrou, sem problemas, a opção Caixa de texto. Nesse caso, o mapeamento entre espaço input do ícone e espaço input da função foi realizado sem problemas, o que permitiu uma integração eficiente na mescla. Essa estudante, diferentemente de Luciana, já sabia como inserir textos no Power Point.

Para preencher esse espaço de vermelho, Vanessa tentou acessar a mesma ferramenta que colore o fundo (Plano de fundo), porque já havia realizado essa parte da tarefa. Em seguida, voltou à outra ferramenta já conhecida (Cor da linha). Sem sucesso, Vanessa não encontrou a ferramenta Cor do preenchimento. Só conseguiu identificá-la quando a pesquisadora deu a dica de que ela deveria procurar um ícone que alterasse a cor do preenchimento, possibilitando que a estudante reformulasse os espaços input ativados e localizasse o ícone a partir da sua legenda textual. O problema encontrado por Vanessa não contradiz a questão levantada anteriormente, no caso de Luciana. Vanessa não confundiu Propriedades e Categorias, apenas desconhecia o nome de uma Propriedade relacionada à caixa de texto, e essa lacuna não lhe permitiu identificar o ícone apenas pela imagem que representava a sua função ( ). Nesse caso, a representação proposta pelo designer para conectar os espaços input (coisa representada e aquilo que a representa) não foi descomprimida pela estudante, já que ela não dispunha de informações suficientes para compor nenhum dos dois espaços – função e ícone.

7.5.1.3 AutoForma

FIGURA 19: AutoForma.

Diversos programas dispõem de funcionalidades como as AutoFormas. São um pequeno conjunto de imagens “potenciais”, que, ao serem acessadas, funcionam como “moldes”. Fauconnier e Turner (2002, p. 21-22) demonstram como o processo de mescla conceptual integra não só idéias, cenários e conceitos, mas também ações motoras. Segundo os autores, parte do aprendizado de uma nova ação motora está em relacioná-la com ações já conhecidas. No exemplo dado, os autores citam o fato de um instrutor de esqui sugerir a seu aluno equilibrar-se como um garçom que não deve derrubar a bandeja. Essa comparação faz com que o aluno projete para a mescla certas noções como eixo central, equilíbrio, etc.

Para reproduzir essas imagens, o usuário precisa, além de reconhecer o ícone correto, integrar ações motoras muito diferentes da ação de desenhar fora do ambiente digital. Mesmo para desenhar a partir de um molde, utilizando lápis e papel, o movimento com a mão é contínuo e acompanha os contornos delimitados pelo molde. No computador, desenhar uma imagem predefinida significa “segurar” o ponteiro do mouse e simular o movimento “arrastá-lo” na diagonal, delimitando apenas duas extremidades, que determinam as dimensões da figura (como o diâmetro, no caso de círculos). Esse movimento é uma ação integrada, já que, na verdade, nenhum objeto está sendo arrastado. O que acontece de fato é a delimitação de coordenadas que acionam pontos na tela para que a imagem pretendida possa ser criada nos limites da tela estipulados pelo usuário.

Desenhar uma AutoForma exige, portanto, duas ações integradas: identificar o menu que representa essa ferramenta ( ) e a Analogia entre o movimento de arrastar, no mundo físico, e o mesmo movimento, no ambiente digital. No caso dos usuários leigos, quando não conhecem essa funcionalidade, os dois processos precisam ser conceptualizados antes mesmo do acesso ao ícone. Caso contrário, já que o ícone não oferece uma relação vital com a ação que representa, esses usuários buscarão referência para a ação de desenhar em outros contextos, como veremos a seguir.

Luciana

Provavelmente, a primeira tentativa de Luciana para desenhar a estrela foi acionada a partir de uma idéia muito genérica sobre a ação de desenhar, porque acionou o menu Desenhar. Percebendo a inadequação, clicou no menu AutoFormas, localizado ao lado do anterior, e encontrou a opção Estrelas e faixas. Ao que parece, a identificação dessa ferramenta foi casual, já que a informação à qual recorreu inicialmente não correspondia ao nome do menu adequado. A estudante não teve problemas para desenhar a estrela segurando o botão do mouse e arrastando-o na diagonal. Para reproduzir o desenho, a pesquisadora alertou que ela não precisava fazer outro, bastava usar aquele que já havia sido criado. Luciana afirmou que não tinha idéia de como fazer isso e então a pesquisadora deu um exemplo da ação de “copiar” e “colar” no programa Word. Essa informação ajudou a estudante a reconstruir os espaços mentais ativados e fez com que ela iniciasse a busca por essas ferramentas. Abriu inicialmente os menus Arquivo e Ferramentas. Após 34 segundos percorrendo esses menus, ela tentou o menu Editar e localizou as opções. Nesse caso, outro exemplo típico de sucesso por tentativa e erro, não fundamentado em operações cognitivas que recorressem ao conhecimento da informante para criar estratégias de identificação das ferramentas.

Vanessa

A primeira hipótese de Vanessa para localizar as estrelas foi acessar o menu

Design do slide, que ela ativou acidentalmente em uma ação anterior. Questionada

sobre o sentido que atribuía a esse menu, a estudante definiu seu conceito de design: “é como você faz para ficar com o texto mais bonito”. Vanessa demonstrou conhecer essa opção de práticas anteriores e, com essa informação ativada no espaço da tarefa, esperava encontrar ali um modelo que contivesse uma estrela. A pesquisadora ajudou a estudante a reconstruir o espaço input da função: “você deve desenhar uma estrela”. Com essa informação, Vanessa cogitou a possibilidade de usar o Paint para criar a estrela e transportá-la para o Power Point. Alertada de que deveria procurar por uma ferramenta no próprio programa, Vanessa clicou no menu Desenhar, mas não obteve sucesso. Passou o mouse por vários outros ícones e desistiu de procurar. Não conseguiu encontrar contrapartes para suas expectativas, que geraram informações inadequadas no espaço ativado para realização da tarefa. Quando a pesquisadora sugeriu que procurasse no menu AutoFormas, Vanessa se mostrou surpresa porque não conseguiu relacionar o

frame de “desenhar uma estrela” ao nome Autoformas. Como já conhecia as funções de Copiar e Colar, a estudante não teve problemas em reproduzir a estrela, assim como acessou corretamente os ícones para colori-la de vermelho e retirar a linha do contorno.