3 Interfaces e textos
3.3 Letramento digital: a questão das interfaces
A tecnologia digital tem imprimido novos significados a diversas práticas cotidianas. Muitas dessas práticas hoje já fazem parte de nossas atividades, que são tidas como “naturais”, assim como as ações de ler e de escrever. Após trinta anos de avanços na informática e popularização dos computadores e da Internet, a presença dos computadores nas atividades do dia-a-dia é tão intensa que a “naturalidade” de certos processos acaba sendo transposta, por exemplo, das atividades de linguagem materializadas pelos impressos para aquelas possíveis no meio digital. Fica difícil
imaginar alguém datilografando uma dissertação como esta em uma máquina de escrever analógica, sem a possibilidade de apagar instantaneamente uma palavra ou trecho do texto, ou trocando parágrafos de lugar. Da mesma forma, certas ações típicas da informática já fazem parte de nosso vocabulário e já são verbetes de dicionário, como o verbo deletar.
O processo de remidiação (BOLTER;GRUSIN,2000) potencializa novas práticas de leitura e de escrita, além de gerar novos significados para práticas antigas. Nesse sentido, acreditamos que a investigação de estratégias de leitura nas interfaces gráficas do computador seja uma alternativa viável para a compreensão das possíveis particularidades desse estado ou condição que as tecnologias digitais imprimem aos leitores, ou de uma categoria de letramento que diz respeito às práticas e usos de objetos de ler típicos do ambiente digital.
O letramento, entendido aqui como “o estado ou condição de quem exerce as práticas sociais de leitura e de escrita” (SOARES, 2002, p. 145), é analisado nesta pesquisa a partir da observação de sujeitos que viveram poucas experiências de interação no computador, porque acreditamos que esses sujeitos ainda possuem um conhecimento muito granulado a respeito da dinâmica de atuação no ambiente digital. Esses sujeitos não internalizaram certas marcas ou instruções típicas desse gênero, e não desenvolveram ainda habilidades para inferir a respeito dessas marcas.
Soares acredita que o contexto atual seja
um momento privilegiado para, na ocasião mesma em que essas novas práticas de leitura e de escrita estão sendo introduzidas, captar o estado ou condição que estão instituindo: um momento privilegiado para identificar se as práticas de leitura e de escrita digitais, o letramento na cibercultura, conduzem a um estado ou condição diferente daquele a que conduzem as práticas de leitura e de escrita quirográficas e tipográficas. (2002, p. 146) A apropriação das possibilidades de uso dos computadores é tão vasta quanto as possibilidades de interação no mundo analógico. Essa apropriação tem se redesenhado ao longo do tempo e hoje fica difícil enumerar a diversidade de usos que uma pessoa pode fazer das tecnologias digitais.
Nesse sentido, a leitura das interfaces gráficas do computador pode ter significados diferentes para cada tipo de interação. Essa diversidade de usos e práticas gera um número ilimitado de perfis e de estados de letramento. A forma de lidar com a interface de uma pessoa que usa o computador para baixar arquivos de música pela Internet e interagir com artistas de outras partes do mundo a partir de fóruns e blogs é
diferente de outra que não tem e-mails, não conhece a Internet e usa o computador apenas no ambiente de trabalho, limitada às funções que aprendeu para realizar tarefas repetitivas e condicionadas a um número limitado de instruções.
Essas e outras práticas estariam condicionadas à forma como cada um dos sujeitos atua na interface e, possivelmente, a outras práticas de leitura e escrita vivenciadas fora do ambiente digital. Embora Ribeiro tenha demonstrado a existência de certa assimetria entre as habilidades de leitura e as habilidades para se lidar com os objetos de ler, a autora não descarta a importância do desenvolvimento de letramentos vários, sugerindo que “os procedimentos ajustados ao objeto de ler” (2008, p. 6) constituem habilidades importantes para a construção dos sentidos.
O acesso ao mundo da escrita, segundo Soares (2003), é viabilizado a partir do aprendizado das técnicas que envolvem as práticas de leitura e de escrita e do desenvolvimento de práticas de uso dessa técnica. Segundo a autora, os aspectos técnicos estão ligados a aspectos da alfabetização (relacionar sons com letras, fonemas com grafemas, para codificar e decodificar) e também a aspectos psicomotores, como segurar um lápis, aprender que se escreve de cima para baixo e da esquerda para a direita. O outro processo crucial para a introdução dos sujeitos ao mundo da escrita estaria relacionado ao desenvolvimento de práticas de uso dessas técnicas. Tomando os dois processos como vias de acesso ao mundo da escrita, a autora defende que eles não são processos seriados: “um não está antes do outro. São processos simultâneos e interdependentes, pois todos sabem que a melhor maneira para aprender a usar um forno de microondas é aprender a tecnologia com o próprio uso. Ao se aprender uma coisa, passa-se a aprender a outra” (SOARES, 2003, p. 1).
Da mesma forma, alfabetização e letramento seriam processos interdependentes, mas um não seria pré-requisito para o outro. O uso sim, é que determinaria que tipo de técnicas o leitor iria desenvolver e quais seriam as relações e desencadeamentos que essas práticas trariam para seu letramento. Segundo Ribeiro, “o letramento está relacionado aos usos efetivos que as pessoas fazem da alfabetização que tiveram” (2008, p. 28), definição que não anula a possibilidade de uma pessoa analfabeta desenvolver práticas de uso dos objetos de ler, caso esteja inserida em uma sociedade letrada.
Nesse sentido, concordamos com Frade (2005, p. 60) quando afirma que o letramento digital também converge, assim como nos impressos, o aprendizado de certas técnicas e o desenvolvimento de práticas de uso dessas técnicas. Compreender os signos que compõem as interfaces gráficas dos computadores, de aparelhos celulares, de caixas eletrônicos, de menus interativos de DVDs, dominar o uso do mouse e do teclado e de outros dispositivos de interação seriam habilidades necessárias para interação no ambiente digital. Mas essas habilidades, acreditamos, são desenvolvidas e refinadas quando integradas a diferentes práticas e usos do computador e da Internet.
Coscarelli reconhece a importância do desenvolvimento de certas habilidades e técnicas que têm se transformado a partir das práticas letradas em ambientes digitais. Segundo a autora, “aprender a noção de link a partir dos recursos que sinalizam esse mecanismo, como a transformação do cursor em uma mãozinha ou outro ícone, o escrito azul sublinhado ou apenas uma palavra sublinhada” (2005b, p. 29) são habilidades que poderiam ser desenvolvidas na escola, assim como identificar “os ícones que marcam que a página está sendo carregada e que, portanto, o usuário deve esperar um pouco, como por exemplo, a ampulheta, barras que vão sendo preenchidas com uma cor, etc.” ou ainda a “familiarização com os ícones básicos, reconhecendo-os e sabendo usá-los em vários programas” (2005, p. 29).
Qualquer tarefa realizada pelo computador a partir das interfaces gráficas é uma atividade de linguagem e, portanto, envolve habilidades de leitura e de escrita. Usar a calculadora ou acertar o relógio do computador, escrever um texto ou criar um hipertexto digital, baixar um arquivo no computador, ler e-mails, participar de uma sala de bate-papo são exemplos de atividades que exigem o domínio dos signos e processos típicos do ambiente digital.
O desenvolvimento de habilidades que permitam aos sujeitos lançar mão de certas técnicas e práticas sociais de leitura e escrita no computador irá definir o estado ou condição do seu letramento digital. Acreditamos, como já observou Ribeiro (2008, p. 29), que esse processo se desenvolve em um continuum e que é difícil separar dicotomicamente aqueles que dominam e os que não dominam as práticas de leitura e escrita. Da mesma forma, concordamos também com a autora quando afirma que
parece que letramento digital é um conceito amplo demais e que necessitaria de mais subcategorias, como, por exemplo: o letramento de indivíduos que usam a Internet no domínio do trabalho. Recortes dentro de recortes, à maneira de um hipertexto. (...) A idéia não é traçar uma comparação em
preto-e-branco, mas avaliar as afiliações genéticas de um com relação aos outros. (RIBEIRO, 2008, p. 35)
Nesse sentido, acreditamos estar contribuindo para a investigação do letramento de sujeitos recém-ingressos no ensino superior, com pouco contato com a cultura digital, ou seja: com as práticas de leitura e de escrita materializadas a partir dos computadores e da Internet.
Do ponto de vista de quem “escreve” as interfaces, é importante a preocupação não só com o nível de letramento dos leitores ou com seu perfil cultural ou social, mas também com a facilidade com que as tarefas são arquitetadas para que o percurso de leitura possa ser facilmente identificado (NORMAN, 1998). Usuários mais letrados
provavelmente têm muitos desses percursos internalizados, assim como o conhecimento do significado dos signos e suas mutações. Mas um usuário com baixo nível de letramento digital, que não internalizou certos conhecimentos técnicos e não vivenciou, tanto quantitativa quanto qualitativamente, certas práticas provavelmente terá mais dificuldade para ler as interfaces porque terá muito mais tarefas cognitivas para realizar. O que hoje muitos de nós fazemos “sem pensar”, tomamos como ações “naturais”, como ligar e desligar o computador, copiar e colar uma imagem ou trecho de texto, representa, para esses sujeitos, a necessidade de construção de muitas associações, inferências, projeções que talvez eles não estejam habituados a realizar nem com suportes de textos impressos.
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