Reconstituição do ms L fols 113c – 322b
CAPÍTULO CDXC
Como el rei dõ Afonso ouvyo as fallas que el rei de Tolledo e os seus privados fallavã sobre a tomada de Tolledo
Estando el rei dõ Alle Meymon em Tolledo e com elle el rei dõ Afonsso, acõteceu de hirem folgar aa orta del rey, que era fora da cidade, por tomarẽ allo prazer. E, desque allo foron e ouveron comido e sollazado, el rei dõ Afonso deitousse a dormyr ẽ hũa camara. E el rei Alle Meymõ começou de departyr cõ seus privados ẽ muitas cousas, antre as quaaes fallarõ da nobreza e fortelleza da cidade de Tolledo e como era muy forte e muy avondada e como nõ temya guerra de mouros nẽ de cristãaos. E enton preguntou el rei como se podya perder per guerra. E respondeu hũu dos privados e disse:
– Senhor, se o nõ ouvessedes por mal, eu diria como se podya perder e ẽoutra guisa nõ.
371 E el rei mandoulhe que o dissesse. E o privado disse:
– Senhor, estando esta cidade sete ãnos cercada e stragandolhe ẽ cada hũu ãno os pãaes e os fruitos, perdersse hya per mĩgua de mantiimentos.
E entom disse el rei que era verdade.
E todas estas cousas que elles disseron ouvyo el rey dõ Afonso e cayolhe muito em razon de seer assy. Os mouros nõ eram acordados delle. E, a cabo de peça, levantousse el rey a ãdar espaçando pello paaço. E, quãdo vyo el rey dom Afomso onde jazia, pesoulhe muito e disse aos privados:
– Nom fomos avisados del rey dom Afomso, que poderia seer que jaria sperto e ouviria o que dissemos.
E elles diseron:
– Senhor, pera seermos sem duvida, mandadeo matar.
E el rei disse que o nom faria, por que hyria contra a verdade que lhe prometera: e demais que «pode seer que dorme e / [204c] nõ ouvyo nada do que dissemos».
E elles disseron:
– Como podemos como podemos esto saber? Disse el rei:
– Hide a elle e paradelhe bẽ mẽtes se faz sembrante de dormyr ou se tem a barva molhada. El rey dom Afonso, quando aquello ouvyo, deytou a sayva pella boca e molhou toda a barva. E elles veherõ a elle e virõ que avya sembrante assonorado e a barva molhada. E chamarõno e elle fezesse muy maao d’espertar. E entom penssou el rei de todo que dormya.
372 CAPÍTULO CDXCI
Do synal que apareceu na cabeça a el rei dom Affomso e outrossy do segũdo juramento que jurou a el rey Alle Mey
Enna pascoa a que os mouros chamã do carneiro, sayo el rei dom Alle Meymõ da cidade a hir folgar a sua orta, como soya de hyr, e el rei dom Afomso hya a par com elle. Dom Afõsso era homẽ muy fremoso e de boas manhas e os mouros pagavansse delle muito. E, hyndo os reis ambos fallando, hyã empos elles dous cavalleiros mouros que eram grandes fidalgos. E disse hũu cõtra ho outro:
– Que muy fremoso cavalleiro este cristãao e como he de boas manhas! Merece seer senhor de grande terra.
Disse ho outro:
– Verdade he. Mas querovos dizer o que sonhava agora ha tres noytes. A mỹ parecia que este dom Afomso entrava per Tolledo cavalgado ẽ hũu grande porco, e muitos outros porcos com elle que foçavã Tolledo e todallas mizquitas.
E o outro disse logo:
– Sem falha, este ha de seer senhor de Tolledo.
E, elles em dizendo esto, alçousse a el rei dom Afomso hũa guedelha enna cabeça e estava dereita pera cima. E o rei mouro, quando lha vyo assy levantar, poselhe a mãao na cabeça por lha achaar. Mas a guedelha, logo que lhe tiravõ a mãao / [204d] de cima, logo se levantava na cabeça. E aquelles dous cavalleiros mouros ouverõ esto por muy forte synal e fallarõ em aquello hũa grande peça.
E ẽpos estes hya hũu privado del rei que ouvya todo o que elles diziã. E, despois que acabarõ a pascoa do carneiro, tornarõsse os reis pera a villa. E enton contou o privado a el rei todallas cousas que aos cavalleiros ouvira dizer. E el 373 rei, quando esto ouvyo, ẽviou por elles. E, quando veherõ ante el, preguntouhos por esta razõ. E elles disseronlhe todo per ordem como dissemos. E el rey disselhes:
– Pois que vos parece que faça em esto?
E elles consselharõno que o matasse. E el rei disse que o nom faria, mas que elle faria em tal maneira que nũca lhe delle vehesse mal nem pesar, ca nõ queria hyr contra a jura que avya feita, ca Alle Meymõ amava muito el rei dõ Affomso por muito serviço que lhe avya feito. E ẽviou por dom Afomso logo e rogouho que outra vez lhe renovasse a jura que lhe avya feita e que lhe prometesse que nũca fosse contra elle nem contra seus filhos nẽ lhe vehesse delle mal nem hũu. E el rey dõ Affomso juroulho e fezlhe dello preito e menajẽ. E dally adyante foy el rei de Tolledo seguro de el rey dom Affomso e dõ Affomso delle. E dally adyante foi el rei dom Afomso mais privado do rey de Tolledo que ante era.
E elle avya por consselheiro em este tempo dom Pero Ãçores, que o consselhava muy bem e verdadeiramente.
Mas agora leixa o conto a fallar de dom Affonsso e torna a fallar del rey dom Sancho, o que fez despois.
CAPÍTULOCDXCII
Como el rey dom Sancho tomou o reyno de Leon, despois da ida de dom Affonsso; e como os de Çamora tomarõ por seu capitam dom Airas Gonçallo
[205a] Despois que el rei dom Sancho soube como el rei dom Afomso era em Tolledo, sacou sua
hoste muy grande e foy sobre Leon. E, pero que os Leoneses se quiseron defender, nõ poderon. E tomou a cidade per força. E desi tomou 374 todallas outras villas e castellos do reyno de Leon. E dessi pos coroa na cabeça e chamousse rey de tres reynos. E elle era muito aposto cavalleiro e muyto esforçado e assi cristãaos como mouros tomavõ delle spanto por o que lhe viiam fazer, ca nõ se lhe tiinha cousa que per força quisesse tomar.
A iffante dona Orraca e os de Çamora, quando souberõ que dom Sancho avia os reynos em seu poder, ouverõ medo de vĩir sobre elles e, sospeitandosse desto, fezerom seu consselho ẽ que maneira se defendessen dos Castellãaos. E pera esto tomarõ pera seu capitam dom Airas Gonçallo, amo da iffante, que per seu esforço e bondade fossen defesos, se lhes fosse mester.
Mas, despois que se dom Sancho chamou rey dos reynos de seus irmãaos, como dissemos, e sabendo elle como a iffante dona Orraca amava muito el rei dõ Afomso e como elle per seu consselho fogira do moesteiro e se fora pera Tolledo e como elle em todos seus feitos e consselhos se guyava per ella, prepos de lhe tomar Çamora. E pera esto sacou logo sua hoste e foy sobre Touro, que era da iffante dona Elvira, e tomoulha; e ẽvyou logo dizer a dona Orraca que lhe desse Çamora e darlhe hya por ella terra chãa ẽ que vivesse. E ella ẽvyoulhe dizer que lha nõ daria per nem hũa maneira, mas que lhe rogava que a leixasse viver em ella e que / [205b] nũca lhe ende mal verria.
depois que vyo que era tempo, ẽvyou suas cartas per toda sua terra ẽ primeiro dia de Março fossem ajuntados ẽ Sam Fagundo, so pena de sua mercee. E, nõ embargãdo que el rei era muyto mancebo, ca entõ lhe naciã as barvas, era muy bravo e de grande coraçõ e temyãno muyto as jentes.
375 CAPÍTULO CDXCIII
Como el rey dom Sancho foy sobre Camora
Andados sete ãnos que el rei dom Sancho reynava – que foy na era de mil e cento e sete ãnos e o ãno da encarnaçom de Nosso Senhor Jhesu Cristo ẽ mil e LXIX annos e o do emperio d’Anrrique en XVIII – depois que foron as companhas ajũtadas em Sam Fagundo, disse dõ Sancho:
– Beento seja o nome de Deus que me deu os reynos que foron de meu padre! E entõ mãdou mover sua hoste. E, em tres dias, chegou sobre Çamora. E, despois que passarõ a ribeira do ryo, mandou apregoar que nõ fezessem mal a nẽ hũu ataa que o elle nom mandasse. E entõ cavalgou com seus ricos homẽes e andou toda a villa ẽ redor. E, desque vyo como estava bẽ cercada, de hũa parte o ryo e da outra pena talhada, o muro era muyto forte e as torres bem spesas, disse contra os cavalleiros:
– Parade mentes como he tam forte! Nõ ha mouro nẽ cristãao que lhe possa dar batalha. E, se eu esta ouvesse, seeria senhor de Spanha.
CAPÍTULO CDXCIV
Como el rey dõ Sancho ẽviou o Cide a dona Orraca e da resposta que ela deu
Despois que el rei dõ Sancho ouve ben esguardada Çamora, tornousse a suas tendas e mã/dou
[205c] logo por o Cide e disselhe:
– Bem sabedes os boos dividos que ambos avemos, assi da criança que vos 376 meu padre fez e en a sua morte me disse que vos ouvesse por meu amigo e consselheiro. E eu sempre vos fiz muito d’algo, e vos servistesme e ajudastesme como leal vassallo mais que nũca senhor d’outro foy ajudado. E eu, por vosso merecimento, deyvos hũu condado e fizvos o mayor de minha casa. Querovos ora rogar, como amigo e bõo vassallo, que vaades a Çamora e digades a minha irmãa que ma dê por aver ou por cambo, ou por Medina de Ryo Seco con todo o inffantado ataa Vallença Tendora, que he bõo castello; e que lhe farei jura com doze de meus vassallos que nũca seja contra ella. E, se esto nõ quiser fazer, dizede que lha tomarey per força.
E o Cide lhe disse:
– Senhor, com este mandado outro messejeyro devedes ẽvyar e nõ mỹ, ca eu fui con a iffante criado em esta villa de Çamora e nõ seeria guisado que lhe eu tal mesajen levasse.
E el rey lho rogou muy aficadamente, em tanto que lho ouve de outorgar. E foisse logo pera a villa cõ XV cavalleiros. E, quando chegou aa porta, rogou aos do muro que lhe nõ tirassem, ca elle era o Cide que viinha com embaixada de el rei dom Sancho aa iffante, sua irmãa, e que lho fezessem saber, se o mandava entrar. Entom sayo a elle hũu cavalleiro, que era sobrinho d’Airas Gõçallo e era guarda mayor dhũa porta, e diselhe que entrasse e que lhe daria boa pousada ataa que o fosse dizer a dona Orraca e disselhe como era viindo o Cide a ella embaixada. E a ella prougue muyto e mandou que vehesse ante ella e mãdou a dom Airas Gonçallo e outros cavalleiros que o fossem receber.
377 E, quando o Cide entrou pello paaço, a iffante sayo / [205d] a o receber. E despois
assentarõsse ãbos a fallar em seu estrado. Enton lhe disse ella:
– Rogovos, Cide, que me digades que quer fazer meu irmãao, que assy vem assũado com toda Espanha, ou a quaaes terras coyda d’hyr, ou se vai sobre mouros ou sobre cristãaos.
E o Cide respondeu e disse:
– Senhora, mandadeiro nem carta nõ deve receber dampno. Dizervos hey o que vos ẽvya dizer vosso irmãao.
E ella disse que o ouviria, se o mandasse dõ Airas Gonçallo. E elle disse que era bem de ouvyr o que ẽvyava dizer el rei, «ca, se contra os mouros vay e quiser vossa ajuda, he dereito de lha dar; e eu e meus filhos hiremos com elle, se quer por doze ãnos».
Entõ a iffante mandou ao Cide que dissesse. E elle disse em esta guisa:
– El rey dom Sãcho, vosso irmãao, vos ẽvya dizer que lhe dedes Çamora por aver ou por caymbho e que vos dara Medyna de Ryo Seco cõ todo o infantado desde Villar Pando ataa Tulit e o castello de Tedra, e que vos jurara com doze de seus vassallos que nunca seja contra vos. E, se lha nõ derdes, que volla tomará sem seu grado.
Quando dona Orraca esto ouvyo, foi assaz em grande coyta e disse:
elle tomou a terra a meu irmãao dom Garcia e meteuho ẽ grandes ferros, como se fosse mouro. E outrossi fez a meu irmãao dom Afomso e fezeo fugir pera terra de mouros desterrado, como se fosse alleyvoso. E tomou a terra a mynha irmãa dona Elvira sen seu grado. E agora quer a mỹ tomar Çamora e leixarme eixerdada. Agora se abrisse a terra e me acolhesse em sy, ante que eu veer tantos pesares!
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Entom se levantou dom Airas e disse:
[206a] – Senhora, ẽ vos muito queixar nõ fazedes bem nem he boo recado. Mas, ao tempo da
grande coyta, ha homem mester siso e castigo, consselho e esforço e escolher o melhor. E nos assy façamos. Mandae que se ajuntem os homẽes bõos da villa a consselho e sabede delles se querẽ teer cõvosco, pois que vosso padre vollos deu por vassallos. E, se comvosco teverem, nõ lha dees por aver nẽ por cambho. E, se nõ quiserem teer cõvosco, vaamosnos logo pera Tolledo pera el rey dom Afomso seu irmãao.
E ella fez como lhe mandou dom Airas Gonçallo e mandou apregoar per toda a villa que se ajuntassem todos em Sam Salvador.
E, desque forom ajuntados, levantousse a iffante e disselhes:
– Amigos e vasallos, vos muy bem veedes como el rei dom Sancho ha eixerdados meus irmãaos cõtra a jura que fez a nosso padre. E agora quer eixerdar a mỹ e ẽvyame dizer que lhe dê Çamora por aver ou por cambho. Por que, vos rogo que me consselhedes o que em ello faça, ca quero saber de vos quaaes terredes cõmigo, como vassallos boos e leaaes. Ca el rey dom Sancho mandava dizer que a tomará sem meu grado. E, se vos quiserdes tẽer cõmigo, cuydoa eu a defender com a mercee de Deus e cõ a vossa ajuda.
Entõ levantousse hũu cavalleiro per mandado do concelho. E avya nome dõ Nuno e era homẽ bõo anciãao e de boa pallavra. E disse:
– Senhora, gradesçavos Deus quãta mesura tevestes por bem de nos mostrar en nos fazer vĩir ao vosso cõsselho, ca nos vossos vassallos somos e faremos quãto vos mandardes. Pero, pois demandades consselho, davolloemos muy de grado. Pedimosvos que nõ dees Çamora por aver nẽ por cãbho, ca o que vos cerca ẽna pena sacarvos querra do chãao. / [206b] Senhora, o concelho de Çamora seervos ha mandado e nõ vos desemparará por coita nem por perigoo ataa a morte. Se 379 nhora, ante comerâm os averes e os cavallos e as molheres e os filhos que nũca dem Çamora sem vosso mandado.
E, do que este cavalleiro disse, foron todos muy pagados; e outorgaron todo esto.
Quando esto ouvyu a iffante, foy delles muy pagada e louvouhos muito. E entom tornousse ao Cide e disselhe:
– Bem sabedes, Cide, como vos criastes cõmigo em esta villa de Çamora e vos criou dom Airas, meu amo. E, quando me foy dada per el rey dom Fernando, meu padre, por herdamento, vos fostes ẽ ello ajudador. Porẽ vos rogo que me ajudees e digaaes a meu irmãao que me nõ queira eixerdar do que me deu meu padre, ca ante morrerei com os de Çamora e elles cõmigo que nũca lha dar, por aver nẽ por cãbho.
Entom se espedio della o Cide e foisse a el rei e contoulhe todo o que vira e o que a iffante dissera, como lhe nõ daria em nem hũa guisa Çamora. E, quando el rey dom Sancho esto ouvyo, foi muy sanhudo contra o Cide e disselhe:
– Vos consselhastes esto a mynha irmãa, por que fostes criado com ella. Mas, pois que hy mais nõ posso fazer, mandovos que d’oje a dez dias vos sayades de toda minha terra.
E o Cide foy muy sanhudo e foisse logo pera sua pousada. E mandou logo por seus amigos e vassallos e mandouhos logo mover. E hyam com elle mil e trezentos cavalleiros. E foy essa noite albergar a par de Touro. E ouve em seu consselho de se hyr pera Tolledo pera el rei dom Afomso e pera os mouros.
Quando o conde e os homẽes bõos da hoste esto virõ, ẽtenderõ que era mui grande dãpno e que poderia vĩir a el rey e a terra da hida do Cide como hya, mui sanhudo. E forõ a el rey e diserõlhe:
[206c] – Senhor, por qual razõ perdedes tal vassallo como o Cide, que tanto serviço vos ha feito,
como quando vos livrou, elle soo, de quatorze cavalleiros que 380 vos levavã preso, e outros muitos serviços que vos fez por que sodes em tam grande hõrra? E nõ entendedes o grande dampno que vos verra delle, se se aos mouros passa? Ca nõ vos leixara assy teer esta cidade cercada em paz como cuydades.
El rei entendeo que lhe diziam verdade e mandou logo chamar dõ Diego Ordonhez, filho do conde dõ Ordonho, e mandoulhe que fosse empos elle e que lhe rogasse muyto da sua parte que se tomasse e qual preitesya quisesse que tal lha faria. E pera esto lhe mandou dar suas cartas de creença. E dõ Diego foisse logo empos o Cide e alçouho antre Castro e Medyna del Campo. E o Cide, como soube da sua vĩida, tomou a elle e recebeuho muy ben. E dom Diego lhe disse todo aquello por que era vĩido, ẽ como o el rei mandava rogar que se tornasse e que lhe daria mayor terra que a que delle tiinha; e, desto e do al que lhe disse, mostroulhe as cartas del rey de crẽeça. E o Cide disse que averia consselho cõ seus amigos e vassallos e, como o consselhassem, que assy o faria. E mandouhos logo chamar e disselhes o que lhe el rei mandava dizer e mostroulhes as cartas que lhe ẽviara. E elles, visto todo, consselharõno que se tornasse pera el rey, ca melhor era de ficar com el rei enna terra e servyr a Deus ca servir aos mouros.
E o Cide ẽtendeu que o consselhavã bem. E chamou dom Diego e disselhe que queria fazer a võotade del rei. E dom Diego mandoulho logo dizer. Desi tornaronsse pera a hoste.
E, quando chegarõ, sayu el rey a o receber com muitas companhas e fezlhe muita hõrra. E o Cide beyjoulhe a mãao e diselhe / [206d] se lhe outorgava o que lhe dissera dõ Diego da sua parte. E el rei outorgoulho ante quantos hi estavã; e demais que lhe faria sempre bem e mercee. E a todos quantos eram na hoste prougue da sua vĩida; e mais aos de Çamora, ca per elle cuidavõ de seer descercados.
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CAPÍTULO CDXCV
Do muy grande dãpno que recebeu a jente del rey dõ Sancho em combater Çamora
Despois desto, ouve el rey seu consselho com seus ricos homẽes como combatessem Çamora. E mãdou apregoar per toda a hoste que todos se armassem pera combater a vylla. E cõbaterõna tres dias e tres noites tam ryjamente que as carcovas, que erã muy fortes, todas foron achaadas. E feriansse aas barvas cãas muy bravamente com as espadas os de dentro cõ os de fora. E morrerom hy muitos d’amballas partes, em guisa que a agua do rio hya tinta do sangue.
E o conde dõ Garcia de Cabra, quando esto vyo, pesoulhe muito por a grande perda da jente e foy a el rei e disselhe como recebia grande perda em sua gente e que os mandasse tirar afora nõ combatessem mais, ca melhor era de a tẽer cercada, ataa que a tomassen per fome. E el rei leixou entõ de cõbater e mandou saber per cada hũu dos arreaaes quantos hy morrerõ. E acharon per toda conta mil e trinta homẽes. E el rey, quando o soube, ouve ende grande pesar e mandou cercar toda a villa en redor.
E aquy dizẽ algũus que a teve cercada sete annos; mas esto nõ podya seer ca, segundo o que achamos scripto dos ãnos que elle reynou, nõ foron mais de sete e ẽ estes sete ãnos fez elle todo o que avemos contado. E, cõbatẽdo a vyla mui fortemẽte, durou esta cerca grande tempo.
[207a] Andando hũu dya o Cide ẽ redor da villa soo com hũu escudeiro, sairon a elle quatorze
cavalleiros; e lidou cõ elles e venceuhos e matou delles os dous.
382 E, veendo dom Airas o grande tẽpo do cerco e como os da villa sofriam cada dya muyta
lazeira por fazer lealdade, disse aa iffante:
– Senhora, mãdade chamar o concelho e gradecedelhes o que por vos hã feito e dizedelhe que ataa nove dias dem a vylla a vosso irmãao. E nos vaamosnos a Tolledo pera el rey dom Afomso, ca nõ podemos defender a villa em nem hũa guisa, ca el rei dõ Sancho he muy bravo e muy perfioso e nõ vos querra descercar. E eu nõ tenho por bẽ que vos moirades aquy.